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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)


Quinta-feira, 22.06.17

O GENE DA LEITURA

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      Existirá? Haverá um gene da leitura? Será o gosto da leitura de ordem genética? Estará no nosso corpo o desejo de ler e a satisfação com a leitura? Há leitores analfabetos. Há gente que não sabe ler, mas tem em si o gosto de ler. O Amor de Perdição era nacionalmente conhecido e querido num país cuja taxa de analfabetismo rondava os 90%. Não possuíam a técnica, mas como tinham o gosto, pediam-no emprestado a quem o tinha e tornavam-se leitores pelos ouvidos. Hoje ainda há gente que tem todo o perfil do bom leitor, mas, como não sabe ou mal sabe ler, não pode ler. Será a leitura uma aquisição meramente social, cultural? O que é um leitor? Pode ter-se adquirido a técnica da leitura, que é oficialmente obrigatória, e não se ser leitor. Os números das estatísticas estão à vista e comprovam-no. Pode, por outro lado, não se ter essa técnica e ser-se um leitor impotente…Como é ser-se leitor? É gostar de se achegar ao aconchego de uma boa história generosamente dada pela faculdade das palavras; é gostar de gastar os olhos nas letrinhas do jornal, molhar os dedos para lhes soltar as folhas; estreitar a vista coluna acima, coluna abaixo, perder-se na busca da continuação.

   Ser leitor é: gostar de estar sossegado e só esforçar os olhos e a cabeça para ficar a saber coisas que, magicamente, sem pincéis nem tinta, têm cor e forma e, sem projector, têm movimento; é ser-se curioso, e gostar de seguir roteiros e de encontrar respostas; é ser infantil na abertura à fantasia e adulto no jogo dos sonhos escondidos; é o gosto da intriga, do enredo, da novidade e da descoberta; é o gosto dos nomes, das referências, das frases bem-dizentes; o gosto das palavras bem-soantes; o gosto da fuga, de ultrapassar o real pela fuga e lhe fazer uma espera mais à frente, já ficticiamente senhor das suas estratégias.
   Ideal é que o ensino da técnica garanta a realização do desejo. Mas o desejo, esse, não se ensina. Provoca-se. Desperta-se. Pro­voca-se a curiosidade, proporciona-se o agrado com o efeito de surpresa. Faz-se com que ler seja acontecer. A escola pode ser um lugar onde, enquanto se ensina o ler, se desperta a fantasia. O tempo e o modo de ler podem ser vividos na escola como quem aviva um desejo, um fogo que velaremos ao abrigo das coisas da vida que tendem a apagá-lo, fazendo dos livros um espaço pessoal de liberdade, aprendendo que ninguém está no espaço incolor em que as histórias que lemos se tornam reais, senão nós. Só se quisermos e quando quisermos o partilhamos.
   A escola pode ensi­nar que ler é uma porta que se abre, um acesso, uma entrada; que, quando alguém abre um livro e se põe a ler, como que fica intocável. Mas não só a escola. Desejável é que aqueles que parecem geneticamente mais dados à leitura contrariem a tendência social para ler pouco, peguem ostensivamente em livros, jun­tem dinheiro para comprar livros, a prestações, se for preciso, como fazem com outros bens; em segredo primeiro, se tiverem vergonha, e, depois, à vista de todos, causem o escândalo da leitura, numa sociedade que não lê, e, depois, talvez, o respeito.
   Se não há um gene da leitura reconhecível num exame médico, que se garanta, pelo menos, meios de transmissão social: a escola, e todos os que gostam de ler. Que ninguém diga: quem não quer ler que não leia, colocando no mesmo leque de opções coisas ontologicamente distintas. Pasmoso é o esforço insano que fazem as escolas para desenvolverem práticas, às vezes espantosas, e espantoso é que ninguém se lembre da hipótese de haver nelas coisas como, por exemplo, a Leitura ao Fim da Tarde.
   Ler já foi uma arma da adolescência. Esta perdeu-a, mas deve re­cuperá-la. A leitura já foi um espaço de mudez-surdez, tão caro aos adolescentes, habitado por sonhos e ousadias; era um espaço de imobilidade pesada, atirada contra a presteza e prontidão dos adultos; era um espaço de atraso e de demora, de desculpa, de teimosia, de ultrapassagem subterrânea dos legítimos superiores.
   Hoje, o adolescente não suspeita de quão estrategicamente útil lhe poderia ser a leitura, e foge a desgastar-se noutras andanças. Há um vazio imenso a fingir que é movimento e alta voz. Ler não é uma actividade essencialmente grupal, mas garante ao grupo a existência do indivíduo. Um grupo não é só uma coincidência de gente na mesma escola, na mesma rua, na mesma praia, na mesma discoteca. Não é apenas uma simultaneidade.
   No equilíbrio das forças que sustentam um grupo tem de haver um lugar para a distância, para a pertença a si próprio. A lei­tura é um elo que nos solda a alguma coisa de sólido que vai havendo em nós, enquanto a diversidade nos interpela, ao som de uma voz pública que nos pretende ditar, como se fôssemos só uma folha branca onde nos vão inscrevendo. Porque ler é também rejeitar, revelar, identificar, abrir, descobrir.
   É muito provável que não haja o gene da leitura, mas tem de haver a educação para a leitura como imperativo de uma cultura humanista.

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por Maria Almira Soares às 17:01

Terça-feira, 06.06.17

O SONHO DO CELTA

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    Talvez seja mais difícil escrever um bom livro sobre um argumento pré-existente tão sólido, do que uma pura ficção em que tudo é, à partida, instável e manipulável. Neste livro de temática tão sólida, a escrita continua a ser arrebatadora, a fazer-nos ver e sentir na pele e em todos os sentidos os mundos narrados. É grande literatura. Não é apenas uma transparência lançada sobre a História, uma janela sobre um Casement historicamente documentado, mas tem a espessura de uma escrita que nos dá uma visão, que nos interpela, que nos coloca em situação. É uma leitura cheia de motivos de interesse: dá a conhecer factos que possivelmente ainda não conhecíamos; revela outros ângulos, pormenores, de figuras que eram para nós nomes conhecidos a que associávamos uma imagem; aborda a história do nacionalismo irlandês e o tema da Grande Guerra; mergulha no Humano e nas suas obsessões, fraquezas, crimes, mentiras, cobardias; retrata a enormidade de crimes contra a Humanidade; constrói a figura de um homem, Roger Casement, o celta que tinha um sonho e que morreu por causa desse sonho.

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    É perigoso ter um sonho radicalmente obsessivo que tudo ultrapassa, que se sobrepõe a tudo, um sonho nascido num momento de lucidez ou de loucura, o momento da revelação da criminosa exploração colonial da borracha e da criminosa dominação britânica da cultura celta, do apagamento da cultura do negro e do índio como do apagamento da cultura celta. SER RADICAL É MORTAL? O excesso é perigoso, porque, em última análise, imperam as leis da sobrevivência. Há uma razão, legitimada pelos denominadores comuns dos juízos maioritariamente aceites, que não aceita, condena irremediavelmente, o excesso: perante a razão patriótica, até a razão particular da amizade soçobra, pelo menos em público; perante a moral familiar publicamente aceite, um comportamento que se singulariza é sentido como prejudicial e denegado. A leitura llosiana de Casement articula o excesso, o idealismo, a obsessão com a perda. Narra uma dimensão do Poder que é a das vítimas individuais das grandes ironias da História. Afinal, Casement vinha desaconselhar a Revolta da Páscoa, mas foi apanhado nas voltas da História. Afinal, havia uma boa dose de fantasia no que Casement escrevia nos seus diários, mas Casement esqueceu-se de os esconder ou destruir, permitindo que fossem tomados como verdade. Roger Casement é uma figura trágica, cuja grandeza não resistiu aos seus pequenos erros e fraquezas. Os heróis trágicos serão obrigatoriamente ingénuos?

 

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por Maria Almira Soares às 20:23

Sábado, 27.05.17

— ANDA TUDO À RODA DAS PALAVRAS...

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[…]    A frase, que era mesmo bem-educada e por isso pontual, não se fez esperar e, à hora marcada, lá estava, prazenteira, pronta a conversar com o Sr. Director.

           E é agora que vamos assistir a algo totalmente inédito (suponho) nas nossas vidas: uma conversa entre uma frase e um director de escola.

         — Como vê (!), estou completamente atarantado. Nunca falei com uma frase.

           — Não há qualquer problema. Não esteja preocupado. Vai ver que, depois de eu começar a falar, todos ficarão tão interessados no que eu tenho para lhes dizer, que até se esquecerão de que sou uma frase que está a falar.

         — Não sei, não sei.

           A frase, se tivesse braços e mãos, estaria quase com vontade de dar umas pancadinhas nas costas do Director para o acalmar.

           — Não sei e, de qualquer modo, preciso de ter uma ideia prévia do conteúdo do seu discurso, — quase se descaía a dizer: — Dona Frase!

           — Compreendo, mas, sabe, eu não sou dada a fazer planos, a levar os discursos escritos. Sou mais dada ao improviso. Só lhe posso adiantar o tema.

         — Venha ele!

         — Anda tudo à roda das palavras...

         — Das palavras? Mas a Dona Frase é linguista? Ou poeta? […]

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por Maria Almira Soares às 16:13

Quarta-feira, 10.05.17

A LEITURA: isto e muito mais.

    À escola, por definição, compete a leitura. Na escola: a atenção ao percurso individual, ao conhecimento de cada aluno — a leitura é uma coisa pessoal. O ritmo e o poder de leitura de cada um. O papel da imitação/emulação, dos modelos. Paciência, atenção, persistência. O suscitar da curiosidade. A consistência e a naturalidade. A leitura não é lúdica, não é essencialmente lúdica. Ler não é um jogo. Não devemos desfazer um livro para o tornar lúdico. O que podemos é encontrar modos lúdicos de chegar a um livro, de abrir a mente e o corpo para um livro. O formato concurso. O formato clubes/comunidades de leitores.

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A leitura não é uma festa nem uma brincadeira. Podemos comover-nos e até chorar durante uma leitura de que estamos a gostar muito. A leitura é, na criança que começa a ler, a conseguir ler, ajudada ou já sozinha, a oportunidade de começar a ver-se e a ver o mundo de um modo novo, já mais pensável e não só alcançável, manipulável. Conseguir ler para gostar de ler e não gostar para conseguir. Não se pode gostar sem experimentar e não se pode experimentar sem conseguir: ler para…; ler em voz alta, a memória física; ler em relação com outras fontes de alimento para o imaginário: a música… a dança…a pintura…o desenho… a conversa… a memória de experiências estimulantes… a expectativa, o «E depois?» … a estranheza… o reconhecimento… Formas simples, mas marcantes de não esquecer a leitura. A leitura deve aparecer de modo natural na relação interpessoal. Não como uma requisição, mas como uma necessidade. Subtilmente conotar a leitura com atitudes naturais nas crianças e nos jovens, imediatamente atractivas: competição, curiosidade, mistério, enigma, intriga, pergunta…

 

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por Maria Almira Soares às 13:08

Sexta-feira, 05.05.17

LERDOCELER

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    É já na próxima terça-feira, dia 9 de maio, pelas 17 horas, que a comunidade de leitores LERDOCELER vai, mais uma vez, trocar leituras.

    Continuando pelas paisagens verbais dos escritos memorialísticos, é agora a vez de

O TÚNEL DE POMBOS

Histórias da minha vida

de John le Carré.

 

 

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por Maria Almira Soares às 13:06

Domingo, 23.04.17

LIVRO

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     Quando abro um livro, ele oferece aos meus olhos dois modos muito distintos de eu me interessar por ele. Propõe à função dos olhos dois usos alternativos. Pode sugerir que eles iniciem um movimento regular, que se comunica e prossegue de palavra em palavra ao longo de uma linha, renasce na linha seguinte depois de um salto que não conta, e provoca em seu desenrolar uma quantidade de reações mentais sucessivas, cujo efeito comum é destruir a cada instante a percepção visual dos signos, substituindo-a por lembranças e combinações de lembranças. Cada um desses efeitos é o primeiro termo de algum infinito desenvolvimento possível. Isso é a Leitura. Poderíamos dar-lhe por símbolo a ideia de uma chama alastrando, de um fio queimando de ponta a ponta com, a cada certo tempo, pequenas explosões e cintilações. Esse modo sucessivo e linear requer uma visão nítida e a conservação dessa visão nítida — condição essencial para a produção dos actos elementares do cérebro, que respondem às excitações da escrita com sons virtuais ou reais, com significações. A legibilidade de um texto é a qualidade que esse texto tem de se adequar à visão nítida. Mas em paralelo e à parte a leitura em si, existe e subsiste o aspecto de conjunto de toda coisa escrita. Uma página é uma imagem. Ela produz uma impressão global, apresenta um bloco ou um sistema de blocos e estratos, pretos e brancos, uma mancha com figura e intensidade mais ou menos bem resolvidas. Essa segunda maneira de ver, não mais sucessiva e linear e progressiva como a leitura, mas imediata e simultânea, permite aproximar a tipografia da arquitectura, assim como, há pouco, a leitura poderia ter lembrado a música melódica e todas as artes que esposam o tempo. Existem livros belos que não convidam à leitura, belas massas de puro preto sobre um campo muito puro, mas a plenitude e força de contraste, obtidas à custa das entrelinhas e que parecem muito rebuscadas na Inglaterra e Alemanha, onde procuram alcançar certos modelos do século XV e XVI, não deixam de pesar para o leitor e parecer um tanto arcaicos. A literatura moderna não se adapta a essas formas compactas, como que repletas de caracteres. Existem, em contrapartida, livros bem legíveis, bem arejados, mas feitos sem nenhuma graça, insípidos para a vista, ou até francamente feios. Essa independência nas qualidades que um livro é capaz de ter permite que a tipografia se torne uma arte. Quando ela quer apenas responder à necessidade simples de ler, dispensa os artistas, pois as exigências da legibilidade podem ser precisamente definidas e satisfeitas por meios igualmente definidos e uniformes. A experiência e a análise serão suficientes para determinar o que é preciso ao gravador da letra, ao compositor e ao impressor para obter um texto claro e nítido. Basta, porém, o tipógrafo tomar consciência da complexidade de seu trabalho, para se sentir na obrigação de ser um artista, pois o próprio do artista é escolher e o escolher é comandado pelo número de possíveis. Tudo aquilo que deixa espaço para o incerto clama pelo artista, embora nem sempre o obtenha. Um livro é materialmente perfeito quando é agradável de se ler, delicioso de se mirar; quando, enfim, a passagem da leitura à contemplação e, reciprocamente, da contemplação à leitura é muito fácil e corresponde a mudanças imperceptíveis da acomodação visual. Os pretos e brancos constituem então repouso um do outro, o olho circula sem esforço em seu domínio bem disposto, aprecia o conjunto e os detalhes e sente-se em condições ideais de funcionamento. Tal ideal só pode ser alcançado por meio da colaboração entre o gravador de caracteres e o tipógrafo. Em última análise, a forma toda deve decorrer do carácter. Esse último não pode ser puro fruto da imaginação. Sua figura, seus traços grossos e finos devem depender de sua espessura. Permito-me achar que é um erro reproduzir as mesmas figuras em diferentes escalas. Em suma, um belo livro é, acima de tudo, uma perfeita máquina de ler, cujas condições se definem com certa precisão pelas leis e métodos da óptica fisiológica; e é, ao mesmo tempo, um objecto de arte, uma coisa que, no entanto, possui personalidade própria, traz marcas de um pensamento específico, sugere o nobre desígnio de uma organização consciente e bem realizada. Observe-se que a obra tipográfica exclui a improvisação; é fruto de experimentos que desaparecem, objecto de uma arte que só guarda obras acabadas, rejeita esboços e esquemas, desconhece estágios intermediários entre o ser e o não-ser. Nesse sentido nos dá uma grande e temível lição. O espírito do escritor mira-se no espelho que a prensa lhe oferece. Se o papel e a tinta se adequarem mutuamente, se a letra possuir um belo olho, se a composição for cuidada, a justificação deliciosamente proporcionada, a folha, bem impressa, o autor experimenta de um modo novo a sua linguagem e o seu estilo. Encontra em si mesmo acanhamento e orgulho. Vê-se a si mesmo revestido de honrarias que talvez não lhe pertençam. Julga ouvir uma voz muito mais nítida e firme do que a sua, uma voz implacavelmente pura, articulando as suas palavras, destacando perigosamente todos os vocábulos. Tudo o que ele escreveu de fraco, mole, arbitrário, deselegante, agora fala claro e alto demais. É um julgamento muito preciso e temível, esse de ser magnificamente impresso.

Paul Valéry, As Duas Virtudes de um Livro (Tradução de Dorothée de Bruchard)

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por Maria Almira Soares às 11:54

Terça-feira, 18.04.17

A TORRE

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     A sala de jantar da Torre, que abria por três portas envidraçadas para uma funda varanda alpendrada, conservava, do tempo do avô Damião (o tradutor de Valerius Flaccus), dois formosos panos de Arrás representando a «Expedição dos Argonauras». Louças da Índia e do Japão, desirmanadas e preciosas, recheavam um imenso armário de mogno. E sobre o mármore dos aparadores rebrilhavam os restos, ainda ricos, das pratas famosas dos Ramires que o Bento constantemente areava e polia com amor. Mas Gonçalo, sobretudo de Verão, sempre almoçava e jantava na varanda luminosa e fresca, bem esteirada, revestida até meio muro por finos azulejos do século XVIII, e oferecendo a um canto, para as preguiças do charuto, um profundo canapé de palhinha com almofadas de damasco.

     Quando lá entrou, com os jornais da manhã que não abrira, o Pereira esperava, encostado a um grosso guarda-sol de paninho escarlate, considerando pensativamente a quinta que, dali, se abrangia até aos álamos da ribeira do Coice e aos outeiros suaves de Valverde. Era um velho esgalgado e rijo, todo ossos, com um carão moreno, de olhos miudinhos e azulados, e uma barbicha rala, já branca, entre dois enormes colarinhos presos por botões de ouro. Homem de propriedade, acostumado à cidade e ao trato das autoridades, estendeu largamente a mão ao Fidalgo da Torre, e aceitou, sem embaraço, a cadeira que ele lhe empurrara para a mesa — onde dominavam, com os seus ricos lavores, duas altas infusas de cristal antigo, uma cheia de açucenas e a outra de vinho verde.

     — Então, que bom vento o traz pela Torre, Pereira amigo?

Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires, Lisboa, Livros do Brasil, s.d., págs. 60 e 61.

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por Maria Almira Soares às 13:02

Quarta-feira, 22.02.17

MÁRIO CLÁUDIO — ASTRONOMIA

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O VELHO, O RAPAZ E O MENINO

 Toada de um reconto. Olhos que leem astros.

Uma arte narrativa cuidada, adequada, talentosa como quem manipula delicadamente figuras finas de um teatro mágico: entre contos e rimas infantis ou pedaços de livros amorosamente lidos/escritos/guardados, o velho, o menino, o rapaz, e seus comparsas. Entre o menino e o velho, nas suas contradanças, o rapaz, solavanco de múltiplas forças gravitacionais, o amor... a arte... o estudo... a profissão... a viagem.... a escrita literária... Tão talentosa esta arte narrativa que enternece o leitor e o torna contemplativo das mágicas trocas de guarda-roupa, de papéis: velho, menino, velho, rapaz, velho, velho. Seremos sempre velhos de bibe? O talento meticuloso do desenho minucioso dos enlaces entre perceção e transfiguração dos medos, dos interditos, dos fascínios, das infrações infantis, essa maternidade estelar da arte, da arte literária.

«Astronomia», o título de uma umbilical permanência no universo do sonho, até ao apagamento da sua penumbrosa nitidez, ao mergulho no desfazer-se em palavras, fim.

«Astronomia», a arte de, em um espaço, ir habitando o vário tempo, acumulando eras, num horizonte, numa desenhada linha narrativa: o ontem, o menos ontem, o menos menos ontem, o menos menos menos ontem, o ontem-hoje, esvaziamento da luz definidora num estado de noite cósmica.

«Astronomia», a forma de organizar, de dividir/somar a «Nebulosa», a «Galáxia», o «Cosmos». Modo de acumular a longínqua formação difusa leve como a poeira e o gás onde nasceu a estrela, o sistema estelar onde gravitou na luz e na matéria escura, o cosmos onde «tudo o que já foi, tudo o que é e tudo o que será»[*] «Nebulosa», «Galáxia», «Cosmos», metáforas recapituladoras que, desde o mapa, instituem, na matéria, o carácter mítico de cenas fundadoras. Metáforas expansivas em halos, raios, reflexos.

Procuramos o autor e, então, caminhamos num tecido verbal em que, sobre a arte da perífrase, da referência oblíqua, do rodeio, surgem, desaforadas, aplicações de verdade fotográfica, se encadeiam trechos nítidos, bordados, recordados, registados. Somos/fomos o que de nós e o que do que é nosso vemos e mostramos. Somos/fomos o que lemos e escrevemos. Somos/fomos o que avistamos e evitamos e ocultamos. Fio narrativo fiado pelo imaginário, em que as emoções, os medos, as visões, as transfigurações do menino são as fantasias, as criptomnésias do velho. Mundo giratório, desdobrável, linhas antigas em formas recentes, linhas recentes em formas antigas, sob luz, fora de luz, plasma último e primeiro, multialma peregrinando as estações da sua legibilidade. A ilusão do tempo? A ilusão do olhar? Uma estrela hoje é e não é a mesma estrela ontem.

E, no entanto — o no entanto da inexistência de registo naturalista de lugares, pessoas, acontecimentos — existe, legível, um cronótopo não solúvel: o Porto. O casulo, a cápsula da cultura citadina, doméstica, familiar, pessoal.

Não a rigidez das rigorosas cronologias baratas, mas a distância/proximidade volúvel sob a variação de carga do imaginário e da subjetividade. O peso da vida incorporada, atada ao pé que a anda, levantada em voo pela mão que a escreve.

 

[*] Carl Sagan.

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por Maria Almira Soares às 16:25

Domingo, 12.02.17

LER SARAMAGO

the-castle-of-the-pyrenees-1959(1).jpgThe Castle of the Pyrenees, 1959 - Rene Magritte

 

    A leitura dos romances de Saramago pressupõe que nos aventuremos a ficcionar a crença em coisas de que descremos para lá da dúvida razoável.

De facto, para os lermos e enquanto os lemos, ficcionamos respostas afirmativas a perguntas descrentes como, por exemplo, estas: E se a passarola não tivesse sido incapaz de voar desmentindo o que nos conta a História? E se a Península Ibérica fosse uma ilha à deriva, ao invés do que nos diz a Geografia? E se, contra a Lei das probabilidades biológicas, todos ficássemos cegos? E se, Impossível dos impossíveis, a morte parasse? E se, contra toda a Evidência, cada homem não fosse exemplar único? E se, contrariamente ao que rezam os Escritos pessoanos, Ricardo Reis tivesse tido existência real e, após a morte de Pessoa, não tivesse ficado no Brasil?

Tacitamente respondemos-lhes que sim: sim, a passarola voou, e vamos lendo o Memorial do Convento; sim, a Península soltou-se e é ilha à deriva, e vamos lendo a Jangada de Pedra; sim, todos os humanos estão cegos, e vamos lendo o Ensaio sobre a Cegueira; sim, a morte para de matar de vez em quando, e vamos lendo As Intermitências da Morte; sim, cada homem tem uma cópia, e vamos lendo O Homem Duplicado; sim, Ricardo Reis regressou do Brasil depois da morte de Pessoa, e lemos O Ano da Morte de Ricardo Reis. Por que razão respondemos deste modo? Porque só assim a leitura funciona plenamente. Porque ler Saramago exige não apenas a intervalar suspensão da incredulidade, mas o compromisso com um edifício romanesco equilibrado sobre uma interpelação descrente: E se…?.

E se...? é, pois, a palavra-passe para entrarmos nos mundos ficcionais de Saramago que nos pedem que acreditemos na descrença. A sua escrita é a arte de desacreditar a realidade e respetivas versões aprovadas, infamando-as pela suspeita de que faltaram à verdade, prometendo-nos que vamos finalmente descobrir como seriam se tal não fossem e corrigindo-as pela ascensão à beleza de uma recriação descrente.

Se, pelo contrário, nos mantivéssemos fixados nas nossas adquiridas ciência e experiência quanto a realidades e ficções ou num qualquer bom senso positivista desorientado com a ousada ironia que se atreve a desfazer a solidez do acontecido, permaneceríamos antes de Saramago, incapazes de aceder à leitura dos seus romances. É que, lendo-os, as coisas não são bem o que são. Lendo-os, factos não são factos e, contra eles, Saramago aduz belíssimos argumentos. Intenta fantásticos processos à realidade. Em nome de quê? De uma ideia.

Coisa apenas lúdica, jogo, fantasia, interessantíssima mas fechada sobre si mesma? Ornamental? Não. Esta arte, com que Saramago romanceia uma ideia subversiva da condição factual, histórica, documental, é fascínio contemplativo de uma fantasmagoria, sim; mas é, também, revelação de rompimentos radicais com atos tão irrevogáveis como a morte. É a arte, por vezes irritante mas sempre fascinante, de controverter o incontroverso, de reabrir um processo, reestudando as provas, olhando com outro olhar para os indícios, transfigurando os protagonistas, mudando a sentença.

 

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por Maria Almira Soares às 14:08

Sábado, 11.02.17

FERNANDO PESSOA - O SONHADOR DE LEITURAS

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Como se sonha uma leitura? Como quem inventa o gosto de ter certos pensamentos que precisam de ser suscitados por palavras escritas. Como quem inventa uma emoção, um reconhecimento, um confronto, uma surpresa, uma descoberta produzida por palavras escritas. Como quem anseia por gostar, emocionar-se, confrontar-se, surpreender-se, descobrir, reconhecer, em linguagem, aquilo que, em linguagem, ainda se lhe não oferece, ultrapassando, assim, o desgosto, cansaço, tédio, rotina, inutilidade, sono, indiferença, cegueira que lê nas palavras que os outros escrevem. Como quem inventa estímulos para o seu desejo antecipado. Transformam-se os desejos em factos, não por virtude de os tirar de si, mas como quem a si os dá; satisfaz-se o gosto de ler, inventando escritas onde esse gosto possa ser procurado e encontrado, construído. Se Pessoa não tivesse querido dar a estas suas criações, a que chamou heterónimos, o estatuto de objecto de legibilidades várias e sobretudo da sua própria legibilidade, porque iria Pessoa dividir-se em vários autores? Ele não é Reis, não gostaria de ser como Reis, mas gostaria de ler algo como Reis. Ele não é Caeiro, não gostaria de ser como Caeiro, mas gostaria de estranhar, pela leitura, algo como Caeiro. Ele não é Campos, talvez gostasse de ser capaz de ser um pouco mais como Campos, mas gostaria sobretudo de se estimular, lendo algo como Campos. E mais: gostaria de que os seus contemporâneos pudessem lê-los aos três, ao mesmo tempo que ele, de que a literatura portuguesa do seu tempo os comportasse.

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por Maria Almira Soares às 23:34


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