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"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)


Segunda-feira, 23.10.17

RELER UMA ENTREVISTA

 

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ENTREVISTAS - Escritores

Quinta, 11 Março 2010

 

Maria Almira Soares: Plano Nacional de Leitura está a criar condições de acesso aos livros.

 
 

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Maria Almira Soares é licenciada em Filologia Clássica e pós-graduada em Educação e Leitura. Sendo professora de Português, Literatura Portuguesa e Latim, desenvolveu actividades de promoção de leitura na Biblioteca da Escola Secundária José Gomes Ferreira. Actualmente coordena a comunidade de leitores LERDOCELER. No domínio da língua e literatura portuguesas, publicou Como Fazer um Resumo, Para uma leitura de Mensagem e Para uma leitura de Folhas Caídas e, em co-autoria, Saber Escrever Saber Falar e Saber Escrever uma Tese. Publicou ainda os ensaios: Memorial do Convento - Um Modo de Narrar; Frei Luís de Sousa - Um Drama Psicológico; Ensinar-Reflexões sobre a Prática Docente e Como Motivar para a Leitura. É autora do conto infantil A Revolta das Frases. Foi distinguida com os seguintes prémios: Prémio de Revelação da APE/2003 - Literatura para a Infância e a Juventude para: A Revolta das Frases; menção honrosa, no Prémio Vergílio Ferreira – Ensaio Literário/2004 da Câmara Municipal de Sintra para: As Heteroleituras de Fernando Pessoa; Prémio Vergílio Ferreira - Ensaio/2010 da Câmara Municipal de Gouveia para: Vergílio Ferreira - O Excesso da Arte num Professor por Defeito.

 

Livros & Leituras – Como reagiu ao facto de ganhar o Prémio Vergílio Ferreira - Ensaio/2010 da C. M. de Gouveia?

Maria Almira Soares – Foi a primeira vez que concorri ao «Prémio Vergílio Ferreira» do Município de Gouveia. Sabia da sua existência, como parte da minha atenção generalizada às coisas da cultura, nomeadamente da literatura. Este ano, porém, aconteceu que o lançamento do Prémio ocorreu numa altura em que eu estava a concluir a escrita de um ensaio, precisamente sobre Vergílio Ferreira. Assim, como que naturalmente, resolvi concorrer. O meu interesse por Vergílio Ferreira é antigo, profundo e sempre determinante da vontade de saber. Sempre li Vergílio Ferreira como detentor de uma complexidade mobilizadora da emoção e desafiadora do conhecimento. Todavia, verificava que a grande massa do interesse suscitado se polarizava em torno do Escritor, deixando na obscuridade o Professor, talvez como se fosse um tema menor. De outro modo, em mim, a leitura de Vergílio Ferreira provocava um fascínio crescente pela sua identidade docente, pela relação entre o Escritor e o Professor e sobretudo pelas relações alegadamente difíceis entre a Arte e a Escola. E, sendo assim, este meu ensaio atribui importância à Escola e à Docência, enquanto elementos significativos para o conhecimento de Vergílio Ferreira. O seu título, O Excesso da Arte num Professor por Defeito, pretende significar o cerne da minha ideia sobre a relação entre o criador literário e o professor. Vergílio Ferreira assume a Arte como transcendência e consciencializa a docência como perda, mas… — e aqui reside a resolução positiva e harmónica desta equação — a Arte transborda para a Aula e faz com que a docência se una à totalidade do homem, criador literário e professor que foi. O meu ensaio, agora premiado, resulta de um estudo profundo realizado com muito gosto. Assim, sinto uma grande satisfação por ter havido quem o avaliasse positivamente. O reconhecimento do meu trabalho dá-me alegria. Do prémio, faz parte a publicação, facto que considero importante por permitir a comunicação com os possíveis leitores e, desse modo, constituir um contributo para o conhecimento de Vergílio Ferreira. 

L&L – O ensaio é a sua eleição?

MAS – Sou uma leitora incansável mas criteriosa e crítica. Daí a minha propensão para a escrita de ensaio sobre obras literárias mas também sobre temas relacionados com a Escola e a Leitura. Escrever ensaio é pensar sobre o que nos fascina ou nos preocupa. Isto não quer dizer que não pratique e não goste de outro tipo de escrita: a ficção.

L&L – Qual foi o livro que gostou mais de escrever?

MAS – Gosto de escrever. De estar a escrever. Do processo da escrita. Seja qual for o projecto de momento.

L&L – Porquê?

MAS – O processo da escrita é um acto de descoberta difícil mas emocionante. Estar envolvida nessa procura do sentido que as palavras prometem e saber reconhecê-lo é uma coisa que gosto muito de fazer.

L&L – Qual o livro que vai merecer um próximo ensaio?

MAS – Gostaria de escrever sobre Hélder Macedo… Vamos ver…

L&L – Por que motivo resolve passar do ensaio para o conto infantil?

MAS – Não se trata de «resolver passar». Às vezes, as palavras que estou a escrever conduzem-me, com a minha conivência, para o chamado «conto infantil». Gosto de escrever histórias para crianças. São histórias movidas pela força ilimitada da fantasia e, contudo, dão voz a dimensões fundamentais da vida. São uma forma de corresponder à avidez das crianças, de lhes alimentar a curiosidade leitora, de lhes abrir horizontes. Tenho várias histórias para crianças escritas e tenho esperança de as ver publicadas. Gostaria muito que assim fosse.

L&L – Já escreve segundo as regras do Acordo Ortográfico?

MAS – Ainda não.

L&L – Que opinião tem destes jovens escritores que vendem milhares de livros em poucos dias?

MAS – A minha opinião sobre um livro decorre da leitura que faço desse livro. E, daí, da sua própria valia enquanto criação literária. Não da idade do seu autor ou da sua fortuna comercial.

L&L – Qual o livro que está a ler neste momento?

MAS – Neste momento, estou, principalmente, a reler os Sinais de Fogo de Jorge de Sena, que serão objecto de discussão na próxima tertúlia da comunidade de leitores LERDOCELER, que coordeno. Em volta, há sempre outros passos por leituras várias… 

L&L – Acha que se consegue motivar um adulto para a leitura mesmo quando isso não aconteceu em criança?

MAS – O encontro feliz com um livro pode acontecer em qualquer idade e ser o momento fundador de uma identidade leitora.

L&L – De que modo?

MAS – Eu penso que a criação de um leitor não decorre tanto do forçar, do «impingir» livros, do condicionar pelos livros, mas do desenvolver de um certo imaginário, de um certo gosto, que, depois, encontra correspondência, encontra alimento na leitura. Eu acredito que é sobretudo isso que faz os leitores, o encontro desse tal imaginário, desse tal capital simbólico que todos temos, com as palavras de um livro. São frequentes, fáceis, óbvios, tais encontros? Não. A leitura chama a nossa subjectividade, mas também traz o mundo. E, portanto, a leitura, este processo de, enquanto nos vemos, vermos também outros mundos, é uma forma extraordinária da nossa construção, da nossa constituição como seres humanos, e é, por isso, importantíssima. Há, nos discursos sobre a leitura, uma palavra que eu considero perigosa e que é a palavra prazer. O prazer é uma coisa evanescente, é uma coisa volátil, é uma coisa que não tem um horizonte de construção, pelo contrário, até pode ser uma coisa muito intensa, mas que desgasta, que dá ressaca. Completamente diferente da leitura.

L&L – Que opinião tem do Plano Nacional de Leitura?

MAS – Sobre o PNL, penso que está a concretizar, no terreno, aquilo que é tema de tantas vozes e discursos: a importância de ler. Só se é leitor depois de ter lido. E, para ler, é necessário ter acesso aos livros, ao tal encontro feliz com o livro. O PNL está a criar as condições desse acesso e dessa efectivação da leitura.

L&L – Quais são os seus projectos futuros?

MAS – Trabalhar sempre no âmbito da escrita e da leitura

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por Maria Almira Soares às 10:52

Domingo, 22.10.17

A PRIMEIRA METADE DO MUNDO

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     Quando a Hilda desceu do comboio, na estação da sua terra, sentiu uma redonda carícia a explodir mansamente contra a pele. Tratava-se de uma espécie de interjeição natural que, embora gramaticalmente indescritível, se projetou no pedaço de frase exclamativa «Ora, cá estou eu na minha terra!» que ela então disse, enquanto sentia uma vibração feita de cheiros, vapores, sons, fumos, suspiros, gritos, cores, luzes, ventanias e chuvadas, sóis, vozearias e segredos, noites, rezas, gargalhadas, silêncios, olhares. Nenhum corpo esquece jamais o sopro em que embate ao soltar-se da escuridão de um outro corpo. Aí, nesse momento, começa a memória. Por isso, a Hilda dizia a minha terra, quando falava daquela cidadezinha meio-adormecida perto do mar.

     Saída do comboio e dados os primeiros passos, a Hilda sabia que não iria reencontrar a casa e que todos estavam mortos. Todos estavam já mortos e a casa não aguentara a viuvez e morrera também. Ninguém. Nenhum lugar. E, no entanto, ela voltara como quem se presta a levar um encontrão que a detivesse a pensar histórias, a sair do tempo, atada pela mudez. Nenhum interlocutor. Todos os que alguma coisa souberam da primeira metade do seu mundo estavam mortos. Muito antes de sequer sonhar em vir a ser instruída nas coisas da literatura, de sequer saber as letras com que a literatura se escreve, a Hilda já sabia que, à maneira homérica, nascera in medias res. O que era novo ali não era o ela assim ter nascido, como toda a gente aliás. O que era novo era ela tê-lo sabido logo. A Hilda, pequenina, soubera e sentira que, quando nasceu, metade do mundo, metade do seu mundo, já estava pronta e tinha-se desempenhado bem sem ela. A cada canto e esquina dos caminhos da sua pequena vida, ela ia confirmando que viera para um pequeno mundo já razoavelmente solucionado, onde as pessoas à sua volta sabiam onde ir e o que fazer e dar as respostas certas.

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por Maria Almira Soares às 11:07

Quinta-feira, 19.10.17

LITERATURA ENVERGONHADA

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 ... Entretanto, timoratos do abandono à literatura, os criadores retraem-se. Náufragos em pífias ondulações, por incapazes de suportarem o menoscabo que a literatura pura e dura mereceria aos donos da visibilidade dos livros e da possibilidade da sua leitura, preferem deixar de lado a genuína invenção literária e fazem vantajosas e notórias parcerias com sólidas e emergentes matérias factuais. Descreem da esperança de leitura, ou sequer da esperança de vida, de um  fruto imaginário. É que não estão cá para criarem objetos de desdém! E a literatura fica cada vez mais implícita. A criação literária retira-se para lugares de nevoeiro. Mal se vê. Às vezes, deseja-se. Alguns, poucos, desejam-na.

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por Maria Almira Soares às 12:01

Quarta-feira, 18.10.17

SUBIR O TEMPO À PROCURA DA INFÂNCIA é o meu conto

 

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Lançamento

 

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por Maria Almira Soares às 10:19

Domingo, 08.10.17

ANTÓNIO VIEIRA

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«Arranca o estatuário uma pedra destas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem: primeiro, membro a membro e, depois, feição por feição, até à mais miúda. Ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos. Aqui desprega, ali arruga, acolá recama. E fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar.
O mesmo será cá, se a vossa indústria não faltar à graça divina. É uma pedra, como dizeis, esse índio rude? Pois trabalhai e continuai com ele (que nada se faz sem trabalho e perseverança), aplicai o cinzel um dia e outro dia, daí uma martelada e outra martelada, e vós vereis como dessa pedra tosca e informe fazeis, não só um homem, senão um cristão, e pode ser que um santo.»
 
 
 

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por Maria Almira Soares às 12:06

Terça-feira, 03.10.17

NUNO E OS SEUS IRMÃOS

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 A comunidade de leitores LERDOCELER vai conversar sobre GENTE FELIZ COM LÁGRIMAS de João de Melo no próximo dia dez de outubro.

 

A PEGADA POLÍTICA no romance GENTE FELIZ com LÁGRIMAS

     Se «a política numa obra literária é», como escreveu Stendhal, «um tiro de pistola num concerto», o estampido mais atroador em Gente Feliz com Lágrimas é a pisadela funda do vil monstro salazarista sobre uma família/sociedade ferozmente patriarcal e miseravelmente autoritária. No tabuleiro familiar e social do salazarismo, o medo e a pobreza são as principais fontes da energia que move as pedras do jogo permitido. O jogo da vida joga-se sob o medo cuja figura fundamental é, neste romance, o pai, incansável gerador de violência, de subserviência, de mentira, de conformismo, de ignorância, de sofrimento.

     A figura do pai violentamente autoritário — cujo comportamento é bruto, alucinado, eticamente cego — embora seja tão absurda como um ser humano sem consciência, naquele tempo-lugar é aceite como uma criptoméria na paisagem. Ergue-se e enraíza-se como se fosse parte da flora local e é moralmente muda como os animais que engordam nas pastagens. No quadro familiar patriarcal, é-lhe permitida uma força, sobre a vida e sobre a morte, próxima da selvajaria natural. O salazarismo também é isto. Ali, na Achadinha crismada Rosário, pelas primeiras décadas da segunda metade do século XX, estamos num dos territórios mais densamente cegos da cegueira do negrume salazarista. Ali, o desequilíbrio entre autoritarismo e resistência pende, de modo quase-absoluto, para o lado da submissão ao dictat sem escapatória da pobreza, da ignorância, da violência, do silêncio, da servidão, da quase-animalidade.

   Sobra o sonho, os sonhos.

   O sonho próprio da condição humana e a condição humana sempre cercada pela conjuntura política. A Achadinha/Rosário, Nordeste, São Miguel, Açores, sofre um duplo cerco: o dos longos tentáculos da ideologia e do regime político e o do mar. O sonho tem barcos, vê barcos, fantasia barcos, mas as miseráveis ideias que estruturam o poder, os vários patamares, círculos, espirais, do poder, não lhos permitem. Em vez de barcos, de viagem, de liberdade, de afirmação, de realização, a vida, os dias e as noites, os anos, as horas, o quotidiano, estão cheios de terra, de floresta, de animais, campo, trabalho, gente, lágrimas, gritos, sustos, mortes, nascimentos, doenças, imundície.

   Só através da perversão que embrulha a ânsia do saber livre na capa do seminário e do convento e a necessidade de afirmação própria na violência da guerra, serão possíveis os sonhos, será possível chegar aos barcos, entrar nos barcos, fugir do medo e da violenta miséria. Só dentro da nuvem das trágicas e insolúveis contradições da emigração, a ânsia de acumulação de bens materiais, o desejo de aceder ao progresso material se concretiza em vida.

   Nunca a felicidade sem lágrimas.

   A perversão e a tragédia matriciais nunca mais se afastam das trajetórias das personagens. Da infância, elas são projetadas para os quatro cantos da narrativa: o da problemática literária, o da guerra colonial, o da vida emigrada, o das relações amorosas e familiares. Em nenhum desses cantos tristes, existe a alegria de uma tranquilidade feliz. O escritor amargo, o jovem soldado desenganado, os irmãos pesados do luto da terra-longe e os pais vencidos pela doença-morte, o par destruído pelos duelos do amor, são uma espécie de feixe de destinos gizados lá na Achadinha do Rosário, onde a criança se levantava de noite para mergulhar no estrume das vacas, onde a jovem se deixava empurrar, brutamente tocada como um bicho, de tarefa em tarefa doméstica, onde a mãe era um sítio donde iam nascendo os irmãos. Radical ausência da ternura. Radical presença do sofrimento que, mesmo depois da tormentosa e duvidosa realização dos sonhos, faz da felicidade um remorso. Muito mais difícil que depor as figuras e as estruturas do poder autoritário nos confins perdidos de um país martirizado, é reerguer a liberdade, matar o medo e a cegueira, soltar a felicidade sem lágrimas, lá no íntimo fundo de gente cuja infância se encolheu sob a batida da dor.

De um país triste, avassalado de impotências e sofrimentos vários, Nuno e os seus irmãos guardam para sempre o conhecimento profundo das lágrimas.

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por Maria Almira Soares às 11:21

Sábado, 30.09.17

«a ansiedade que precede a vitória»

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Àquela hora devia estar a proceder-se na assembleia ao apuramento dos votos. Esta ideia lançava o conselheiro num daqueles estados febris, que só pode conceber quem já alguma vez soube o que é ter a sorte dependente de uma votação, e aguardar a cada momento a notícia do resultado dela. Devora-nos uma impaciência insuportável; tudo o que ouvimos nos aflige; as conversas sobre assuntos indiferentes irritam-nos; se nos tentam alentar com esperanças, revoltamo-nos contra elas; se procuram preparar-nos para um desengano, prevenindo-o, repelimos com energia a ideia dele. O silêncio não nos é mais agradável; as apreensões ganham corpo no meio dele; falam os pressentimentos do mal. Tentamos sorrir, gela-se-nos o sorriso nos lábios. A quietação é-nos tão intolerável como o movimento. Ansiamos sair da incerteza, e de cada indivíduo que chega, trememos de saber a nova fatal. Vai mais longe o efeito moral deste estado de espírito; chegamos quase a querer mal a todos quantos estão assistindo naquele momento à decisão lenta da sorte. O nosso egoísmo, exacerbado em tais momentos, irrita-se com a ideia de que os nossos amigos tenham coração para assistir àquilo; e contudo não lhes perdoaríamos se se retirassem. Sensações daquelas esgotam mais vitalidade, em cada instante, do que anos de vida isenta delas. O conselheiro lutava consigo mesmo para dominar-se; procurava preparar-se para receber o golpe, que bem podia dizer infalível. Que esperava ele? Não lhe era quase possível contar, um por um, os votos de que dispunha? Não ficava, por mais alto que elevasse o cálculo, uma grande maioria a esmagá-lo? Tudo isto era assim, mas o convencimento prévio recusava estabelecer-se-lhe no espírito, para lhe dar a tranquilidade da certeza. É um vivedouro sentimento o da esperança! Não sucumbe senão perante um desengano inevitável. Porque lhe chamam verde, senão talvez por, como as plantas exuberantes de seiva, resistir às mutilações e renovar os ramos cortados? O conselheiro, dominado por todos estes tumultuosos afetos, passeava agitado na sala, olhando às vezes para a janela, à espera de ver assomar ao portão do pátio um dos seus partidários, cabisbaixo e melancólico, e armando-se de coragem para lhe dar o desengano. Apesar de todas as prevenções, o que é certo é que a nova, quando viesse, feri-lo-ia como imprevista. Sempre assim sucede. No meio de um destes passeios agitados que dava em todas as direções por o meio da sala, ouviu-se a detonação de algumas dúzias de foguetes. O conselheiro parou e fez-se excessivamente pálido. Os corações de Madalena, de Cristina, de D. Vitória e de Ângelo bateram também precipitados. A causa estava, enfim, decidida. A girândola apregoava uma vitória, mas não proclamava o nome do vencedor; porém, que dúvida podia haver a respeito dele? O conselheiro sentiu fraquejarem-lhe as pernas; sentou-se, e, com um sorriso amargo, disse para a família:

— Estou desautorado pelos meus antigos mandatários!

— Quem sabe, mano? Às vezes.

Isto começava a dizer D. Vitória, para dizer alguma coisa, quando Ângelo, que ficava mais próximo da janela, exclamou:

— Aí vem um homem a correr a toda a pressa!

— A correr?! — disse o conselheiro, em quem esta simples notícia infundira novo alento a todas as esperanças e dissipara a sombra das pesadas apreensões; e caminhou pressuroso para a janela. As senhoras seguiram-no ali. O homem, que Ângelo vira de longe, divisava-se ainda por entre os silvados de um atalho, que vinha dar à avenida da entrada do Mosteiro.

— Parece o Domingos, o criado do Tapadas. — disse o conselheiro, afirmando-se.

— Mas que pressa ele traz! — notou D. Vitória.

— Já nos viu — disse Ângelo.

— Lá acenou com o chapéu — exclamaram todos.

— Que quer ele dizer com aqueles sinais? — disse o conselheiro, nervoso.

— Querem ver que é o que eu digo?! Olhe que venceu, mano.

— Qual! É impossível. Pois eu não sei como a votação correu? É boa! — disse o conselheiro com certo tom irritado, como de quem não quer que lhe descubram uma esperança.

Passou-se um pouco de tempo, em que o homem se perdeu de vista. Subia

naquele momento a ladeira dos sobreiros. Os olhos fitavam-se todos no portão do pátio à espera de o ver surgir ali. Mal se respirava.

— Ei-lo — disseram instintivamente todas as vozes, quando ele apareceu.

— Viva! Sr. Conselheiro, viva! — bradou ele de lá, apesar de esfalfado.

O conselheiro teve quase uma vertigem.

— Ele que diz? Como pode?

Não o deixaram continuar as senhoras, que já o beijavam e abraçavam com frenético entusiasmo. Madalena, a própria Madalena, cujos mais ardentes votos eram ver o pai desistir da vida política, deixava-se tomar pela febre do triunfo e celebrava-o como se nele fundasse a sua felicidade. É que, na ocasião da luta, não há ânimo tão indiferente a estímulos, que não abrace um partido; ao princípio frouxamente talvez, mas a incerteza aumenta o ardor com que se esposa a causa; os gelos da indiferença fundem-se nos momentos decisivos, e a ansiedade que precede a vitória aumenta a comoção que esta produz, se se realiza.

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por Maria Almira Soares às 13:43

Sexta-feira, 29.09.17

LER, UMA COISA DA INFÂNCIA

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     A educação — que se faz por momentos sucessivos de aprendizagem — para ser efetiva, vai sendo sempre uma coisa de resultado em parte diferido, de resultado não cabalmente imediato; em cada momento, deixa sempre em aberto algo de ainda não-aprendido que aponta para o futuro e é isto que a torna perdurável. Em todas as áreas e na área da leitura também. Não será perdurável, se, em cada etapa da sua prossecução, a fecharmos numa satisfação cabal; será uma coisa acabada em si mesma sem fermento de futuro. Para ser perdurável, há de deixar em aberto uma margem de insatisfação. Em educação, a sensação/ experimentação/memória de que sobrou alguma coisa de que ainda não sou capaz é preciosa para o desenvolvimento futuro. Esta sensação de dificuldade não significa rejeição, mas promessa e desafio. Assim, também, no que diz respeito à educação do leitor.

Ou seja, em palavras mais simples, se, cheios de boas intenções de obtermos sucesso imediato, fizermos com que a leitura seja, perante as crianças, apenas aquilo de que elas imediatamente gostam, aquilo que se integra, sem diferença nem atrito, no seu natural mundo sensitivo de criança, teremos o sucesso imediato garantido. Elas vão gostar. Elas vão querer. Mas... Serão esse gosto, essa vontade, perduráveis? Eu sei que, com estas implicativas dúvidas, em tudo pareço ir contra a corrente. Mas não, eu vou é contra os equívocos. Espero não aparentar que estou contra a ideia de que a leitura começa na infância e que, aí, se deve apostar. Não, de modo nenhum. Como disse atrás, é, em criança, que tudo começa e a leitura também. Aí tudo começa e eu preocupo-me com que comece bem para que continue bem.

Preocupa-me verificar a existência de casos, talvez muitos casos, em que infâncias conquistadas para a leitura dão em adolescências de abandono brusco ou progressivo e em juventudes que desembocam na aridez de vidas adultas que não leem nem um livro por ano. Entristece-me verificar, durante encontros que tenho tido com jovens, em escolas, a complacência, a aceitação de braços caídos de inevitabilidade, perante a realidade de muitos e muitos, quase todos, desses que foram crianças leitoras muito animadas senão entusiasmadas com a leitura, se revelarem quase fisiologicamente incapazes de ler Os Maias. Ler foi para eles apenas uma coisa da infância. Crescer foi, neles, deixar as coisas da infância, esses livros, lindos, em que quase tudo era desenho, coisas que ficaram na infância como objetos nostálgicos e de que se lembram com um sorriso, como doutros brinquedos que tiveram, e que, para eles, nada têm a ver com a vontade, a curiosidade, de ler um livro como... Os Maias. E que leitores triunfantes eles foram na infância! Os triunfos imediatos esgotam-se em si mesmos.

 

 

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por Maria Almira Soares às 11:31

Segunda-feira, 25.09.17

A MÁGICA FLORESTA VERBAL

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       Há coisas difíceis de avaliar no sentido mercantil da palavra: a leitura, por exemplo. O que vale ler? Muito. Ler os grandes autores de uma literatura? Muitíssimo. Fazer os nossos jovens lerem na escola os autores máximos da literatura portuguesa? Sem preço. Haverá, desta questão, outra consciência e razões para a razão dela. Poderão, no entanto, consciência e razões serem falsas e a falsidade é uma coisa precária. Todos os que aduzem razões têm razões para isso. Mas ter a sua razão não é ainda ter razão. Melhor do que ter a sua razão é ter a verificação da experiência de que o melhor lugar onde está a língua portuguesa são os grandes textos literários. Ter a longa experiência de que se ensina/aprende com grande clareza e eficácia a língua portuguesa lendo os grandes textos literários portugueses. O resto mora noutra morada. Se não se ensina língua com os grandes textos literários, a causa não está nos textos, mas alhures. Se não se sabe ensinar língua com os textos literários deve aprender-se a fazê-lo. Saber--se-á fazê-lo com outros textos? Que uso da língua dar-se a saber? E que inibição no conhecimento da língua não plantar? O olhar que desenraiza a língua das grandes realizações humanas que com ela se fazem; que a vê, formal e abstractamente, numa pulsão de a explorar de modo entrópico; que a estuda na solidão da frase e da palavra cortada dos mundos que inevitavelmente elas constroem e do desdobramento de versões que de si mesmas fazem na comunicação literária, está apenas a assegurar-se uma coerência auto-protectora, uma defesa contra o tormento da verdade. A clareza da gramática ou se entende na riqueza da língua ou torna-se uma técnica, uma linguagem, no pior sentido.

       A escola tem obrigação de ensinar a Língua Portuguesa no e com o que Gil Vicente, Camões, Vieira, Cesário, Pessoa... fizeram com ela. Aprendida nestes lugares, não se tornará pólo de nenhuma antinomia, abrir-se-á à leitura e ao uso com uma grande bonomia. Orientar a leitura não é sinónimo de estreitar; é uma coisa laboriosa e difícil que se faz enquanto se lê. A escola deve alimentar, deve aumentar, deve engrandecer, e não fornecer doses de fast language, de repulsão do maravilhamento da polissemia, do desencanto de jamais encontrar, lá no meio da mágica floresta verbal da literatura, a pedra dura da gramática bem explícita. Deve levar a aprender na diferença e na estranheza e não na massificação verbal, na bata estilística do texto que serve para. Esta literacia é pouco, é muito pouco: aos iletrados sem escola, ou resultantes das inabilidades e leviandades da escola, não são devidas apenas meia dúzia de técnicas textuais ou discursivas em que a língua significa em fórmulas fechadas, prontas a funcionar.

         Este não é um debate ocioso sobre a presença ou ausência deste ou daquele autor ou ainda de um restinho daqueloutro; trata-se do modo de aprender: imediatista, tecnicista. Aprender a fazer um relatório é só aprender a fazer um relatório e imitar uma notícia de jornal nem sequer ensina a ler a notícia do jornal, porque o jornal só é bom de ler quando se lê com os nossos olhos e, sobretudo, se os nossos olhos vierem cheios de Gil Vicente e Vieira e Camões... Sem grandeza não há educação.

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por Maria Almira Soares às 20:31

Segunda-feira, 25.09.17

O PROFESSOR LEITOR

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       Para que um professor forme leitores tem de ser um grande leitor. Não basta querer, não basta desejar, tem de ser. Ser leitor é ter lido. Se para ensinar gramática é necessário saber profundamente a gramática da língua, para formar leitores é imprescindível ser um grande leitor, o que implica quantidade, qualidade, critério, sentido crítico, abrangência e diversificação de leituras, sensibilidade. Implica dados, informação, mas também emoções. Implica experiência e reflexão. Motivar para a leitura não se reduz a «mandar ler», «aconselhar a ler», a pregar a «bondade da leitura».

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É necessário mostrar-se leitor em pessoa, em espécie, contar pequenas histórias de quando se estava a ler um certo livro, pequenas ou grandes descobertas, surpresas, curiosidades, episódios, como se ler fosse uma das linhas interessantes do decorrer da vida. Presença, projecção, modelo, em vez de espectacularidade e tecnicismo.

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por Maria Almira Soares às 14:54


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