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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Sábado, 23.04.16

LIVRO

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     Quando abro um livro, ele oferece aos meus olhos dois modos muito distintos de eu me interessar por ele. Propõe à função dos olhos dois usos alternativos. Pode sugerir que eles iniciem um movimento regular, que se comunica e prossegue de palavra em palavra ao longo de uma linha, renasce na linha seguinte depois de um salto que não conta, e provoca em seu desenrolar uma quantidade de reações mentais sucessivas, cujo efeito comum é destruir a cada instante a percepção visual dos signos, substituindo-a por lembranças e combinações de lembranças. Cada um desses efeitos é o primeiro termo de algum infinito desenvolvimento possível. Isso é a Leitura. Poderíamos dar-lhe por símbolo a ideia de uma chama alastrando, de um fio queimando de ponta a ponta com, a cada certo tempo, pequenas explosões e cintilações. Esse modo sucessivo e linear requer uma visão nítida e a conservação dessa visão nítida — condição essencial para a produção dos actos elementares do cérebro, que respondem às excitações da escrita com sons virtuais ou reais, com significações. A legibilidade de um texto é a qualidade que esse texto tem de se adequar à visão nítida. Mas em paralelo e à parte a leitura em si, existe e subsiste o aspecto de conjunto de toda coisa escrita. Uma página é uma imagem. Ela produz uma impressão global, apresenta um bloco ou um sistema de blocos e estratos, pretos e brancos, uma mancha com figura e intensidade mais ou menos bem resolvidas. Essa segunda maneira de ver, não mais sucessiva e linear e progressiva como a leitura, mas imediata e simultânea, permite aproximar a tipografia da arquitectura.

Paul Valéry

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por Maria Almira Soares às 20:54

Quarta-feira, 20.04.16

A VISITA DE ESTUDO E A LAGARTIXA

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(Continuação)

   Pois foi quando eu estava muito concentrado a fotografar a inscrição que fala do Cardílio e da Avita, que ouvi nitidamente atrás de mim: — Pst! Pst! Virei-me, olhei, mas não vi nada. Talvez fosse o vento. Talvez fosse um dos engraçadinhos dos meus colegas. Talvez fosse ilusão. Mas, de repente, outra vez: — Pst! Pst! Não era ilusão. Alguém me estava mesmo a chamar. Fixei melhor a atenção na direção do chamamento e, quando olhei para o chão atrás de mim, que vejo eu? Vejo um dos arabescos da cercadura do mosaico a mexer-se! A mexer-se e, à medida que se mexia, a transformar-se… a transformar-se em quê? Numa lagartixa toda lampeira que, de cabecinha arrebitada e rabito a abanar, me piscava o olho continuando a chamar-me: — Pst! Pst! Juro. Uma lagartixa, saída do mosaico, estava a chamar-me. E não esperou muito. Largou numa correria desenfreada como costumam fazer as lagartixas. E eu, claro, que, como sabem, não resisto à curiosidade, lá desatei a correr atrás dela. Correu, correu, até à base de um muro que logo subiu com uma tal destreza que eu, tentando imitá-la, para não me magoar, tive de travar repentinamente. Quando me refiz, a lagartixa tinha desaparecido. Mordido pela curiosidade, preparei-me para trepar: queria ver o que havia do outro lado daquele muro. Queria ver e vi. Vi e fiquei literalmente de boca aberta como acho que vocês também vão ficar. Enquanto do lado de cá tudo eram pedras velhas, ruínas, oliveiras antiquíssimas, do lado de lá, tudo estava inteiro, recomposto como se ainda estivéssemos no tempo em que Cardílio e Avita ali viveram: as ruas empedradas, as casas de paredes pintadas, as lojas com mercadorias às portas… Fascinado, até me esqueci da lagartixa mágica. Mas ela é que não se esqueceu de mim: — Pst! Pst! Era ela que, com gestos insistentes das patitas e da cabecita, me incitava a entrar numa das casas. Entrei. Dei uns passos um pouco a medo e logo me achei numa sala mobilada e decorada com leitos e tapetes e candeias e jarros e estatuetas… Tudo daquelas cores que costumam ter nos filmes passados no tempo dos Romanos.

(continua)

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por Maria Almira Soares às 23:01

Segunda-feira, 18.04.16

ANTERO DE QUENTAL

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9.pngAnthero de Quental: in memoriam [por Alberto Sampaio et al.]

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por Maria Almira Soares às 13:34

Sábado, 16.04.16

LETRAS E NÚMEROS

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O seu olhar sobre o mundo era sobretudo habitado por números e, por alguma razão, a certeza da infinitude dos números garantia-lhe muito mais segurança do que a capacidade de duas dúzias contadas e limitadas de letras para se combinarem numa palavra legível. Falava de quantos e de quantas e de menos e de mais e de medidas e de tarifários e de orçamentos e isso dava-lhe, sobre a vida, um entusiasmo aquisitivo que a contentava.

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por Maria Almira Soares às 17:05

Domingo, 03.04.16

O COMBOIO DAS SETE

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  No quintal da casa térrea, estava um homem estendido numa gasta cadeira de lona. De olhos fechados, o homem fruía o sol forte do verão que lhe banhava o rosto magro. Os pés descalços remexiam a terra, quente, solta, arenosa. Mesmo de olhos fechados, sabia que eram sete horas, porque acabara de ouvir o apito do comboio a arrancar do apeadeiro lá para trás dos pinhais. Talvez os pés no seu movimento terra adentro tivessem cortado algum caule ou raiz, porque de repente havia, solto no ar, um cheiro ácido a seiva de plantas. Da torneira esquecida aberta sobre o tanque chegava o som do correr contínuo da água que, por esta altura, já deveria ter transbordado e andaria, ligeira, a carreirar pelos canteiros como uma cobra líquida sarapintada do pó terroso que se lhe ia colando. O homem sentia-se bem. Como se a serenidade fosse uma planta enraizada no seu corpo. Num movimento destravado de qualquer intenção, levantou os pés bem alto atirando terra em todas as direções e quando, a seguir, abriu os olhos, soltou uma gargalhada que fez eco no quintal: presa entre os dedos, contorcia-se uma pequena minhoca rosada. Sacudiu-a e ficou a vê-la reenterrar-se.

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por Maria Almira Soares às 21:37

Sábado, 02.04.16

NÃO HÁ TANTOS HOMENS RICOS COMO MULHERES BONITAS QUE OS MEREÇAM (Breve nota de leitura)

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Pode a leitura ser um romance?

Pode fechar-se o arco leitura-escrita, escrevendo um romance que é uma leitura? Uma leitura que é um romance? Podem as histórias e as personagens lidas erguerem-se da lisura do papel, trocando lugares nos jogos de uma nova escrita?

Se os nomes desta recomposição forem Jane Austen e Helena Vasconcelos, está provado que sim.

Vejamos:

Estava, austenianamente, dito que «Não há tantos homens ricos como mulheres bonitas que os mereçam»; Helena Vasconcelos mantém os homens e as mulheres e rediz a dicotomia riqueza/boniteza, refundida, agora, no caldeirão de valores e de interesses híbridos, ambíguos, voláteis, que habitam “gente” com nome de Ana Teresa, Tiago, Rebeca, Mark, José, Paula, Marianne, Eduardo...

É, a ousadia desta ideia-criativa, a mola que me dispara para a leitura e me mantém na tensão adequada à manutenção da leitura.

Por estes dias, extensos dias, o tema que mais me interessa e mais me ocupa é o do tempo. Ocupada pelo tempo, servirá este facto de desculpa para que tenha lido o romance de Helena Vasconcelos como um romance sobre o tempo, sobre a vertigem do tempo, a vertigem tremenda de atravessar um rio enquanto se vai construindo a ponte. Cada passo, cada pé colocado, é uma pedra da ponte que não há, que não havia. O velho, o velhíssimo, o novo, rio do tempo, já se vê. A sabedoria de que o tempo não é uma coleção de sepulturas, literárias ou não; não é uma coleção de livros mortos.

O romance de Helena Vasconcelos ergue-se sobre uma suave, risonha-e-triste, pedra de ironia que, desde logo, o título desenterra: trazer Jane Austen para os palcos literários do século XXI. O tempo, a suprema ironia.

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por Maria Almira Soares às 16:39

Sábado, 02.04.16

NO DIA DO LIVRO INFANTIL, UM PEDAÇO DE ROMANCE COM CRIANÇA E LIVROS DENTRO

 

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   José de Sousa Vicente via o neto muito pouco. E, de cada vez, primeiro vinha um sentimento estranho de pudor ou retração e, depois, vencida a barreira, o encontro com aquela belíssima e vivíssima criança deixava-lhe um rasto de como que responsabilidade pela existência do tempo que mata. Que cria, que faz renascer, enquanto mata. Absurdamente, sentia que se tivesse ficado parado num ponto recuado da sua vida, aquela criança não existiria. Nos gestos, nos modos, o Nuno não era nada parecido com ele, mas, transpondo todas essas diferenças, ao observá-lo, reconhecia-se na alma irrequieta que o habitava.

       Como previra, encontrou o Mendes no café e combinaram que, à tarde, apareceria lá por casa com o Nuno. Entretanto, iria afadigar-se com pequenos e variados afazeres que tinha atrasados, porque era esse um modo eficaz de bloquear a ansiedade, um conhecido e praticado modo de artificioso esquecimento que lhe permitiria surpreender-se com a chegada do neto, como de facto aconteceu.

 

— Já?

— Já!? Tínhamos combinado a esta hora, avô.

— Pois foi. Eu é que me tinha distraído. Estás grande!

— …

E, depois de um tempo de perguntas talvez supérfluas e respostas a condizer:

— Vou mostrar-te o Mendes, vais gostar do Mendes.

O Nuno estranhava sempre Portugal e aquele: «mostrar o Mendes»: Seria cão? Seria gato?

O filósofo riu-se:

— Vamos a casa do Mendes, um amigo meu…

— Ah!

— … e, depois, se calhar, vamos até ao café, conversar. Gostas de conversar?

— Gosto. E gosto de ouvir conversar.

— Ótimo.

   Segundo rezava a filha, o Nuno era inteligentíssimo e, às vezes, saía ao avô.

— Ó avô, tu és fi-ló-so-fo?

Articulava muito bem e vagarosamente as palavras difíceis. As outras, dizia-as a correr.

— Sou.

— E o Mendes?

— O Mendes é linguista.

— Lin-gu-is-ta!?

— Sim, gosta de estudar as palavras.

— E tu gostas de estudar o quê?

José Vicente não estava mesmo nada descontente com este diálogo. Iam a pé a casa do Mendes que não morava muito longe e o avô do Nuno agarrava-se à ideia de que ele haveria de ser bom a entretê-lo. Parece que as crianças gostam de se rir… A verdade é que lhe estava a parecer que aquela criança se tornara um menino muito sério. Iam andando e conversando. Falavam de livros. O Nuno, quando chegara, trazia um livro, um desses álbuns de divulgação histórica para crianças sobre a biblioteca de Alexandria.

— Aquele livro que tu trazias…

— O da biblioteca de Alexandria?

— Sim, tu…

— Outro dia, vi na net coisas fantásticas sobre a biblioteca de Alexandria.

— Ah, na net…

— Tu não gostas da internet?

— Sim, gosto, mas…

   Gostaria de lhe contar, com pormenores saborosos que conhecia, a história daquela famosa biblioteca… mas ele já sabia tudo. Tudo talvez não soubesse, não sabia com certeza, mas aquelas coisas mais apetecíveis: nomes, números, factos empolgantes, sabia-os e parecia ter gosto em conhecê-los.

— … Então, tu não sabes o que é um filósofo?

— Pois não.

— É alguém que gosta muito de saber. E está-me a parecer que tu…

— Que eu também sou filósofo? Ó avô, há mais filósofos como tu?

— Há, claro que há, e já há muito, muito tempo. Olha, no tempo da biblioteca de Alexandria, já havia filósofos. E muito antes, até.

— Não sei o nome de nenhum filósofo, sem ser o teu.

— Sabes nomes de quê?

— De pintores, de atores, de jogadores de futebol, de cientistas, de músicos… Vá lá, diz lá o nome de um filósofo.

— Olha, por exemplo, Platão.

— Platão! Que nome tão esquisito!

— Era grego.

— Grego?!

— Sim e, na verdade, este nem era bem o nome dele.

— Então?

— Era uma alcunha.

— Alcunha!?

— Tu sabes uma coisa, Nuno, quando eu era novo, um pouco mais velho do que tu, puseram-me a alcunha de Platão.

— Ah, nickname.

— Isso. Esse filósofo grego chamava-se Arístocles, mas como tinha os ombros largos, puseram-lhe a alcunha de Platão. E, a mim, quando eu andava no liceu, os meus amigos achavam que eu sabia muito de Filosofia e puseram-me a alcunha de Platão.

— O que é liceu?

— Liceu é escola, mas já não se usa.

— Mas, ó avô, tu não tens os ombros largos…

— Pois não. A palavra era a mesma, mas já não queria dizer a mesma coisa.

— Então, não era a mesma.

   Tinham chegado a casa do Mendes. Entraram. O Nuno olhava o Mendes com toda a curiosidade do mundo. Os adultos lá foram dizendo um ao outro o que tinham a dizer, enquanto os olhos da criança faziam o reconhecimento do lugar.

— Ó Mendes, tu não tens computador?

— Tenho, até tenho dois.

— Tantos livros! Parece a biblioteca de Alexandria. — e riu-se.

Lá deixaram andar o Nuno por ali a circular no mistério de uma casa nova, desconhecida. Na casa do Mendes, a paisagem era aparentemente muito monótona: livros, livros, livros.

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por Maria Almira Soares às 14:43


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