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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Domingo, 07.06.15

A FALTA ESSENCIAL

17031392_PpvVv.jpegTrata-se de um texto suficientemente misterioso para desafiar uma interpretação e suficientemente carregado de índices significativos para abrir, nessa interpretação, o seu mistério:

 

«Há em mim uma falta essencial, pecado original cometido na eternidade. Mas não o sei. Não é assim a maçã que Adão mordeu por mim, é qualquer coisa de mais profundo e ininteligível e absoluto. Qualquer coisa que me viciou a vida toda e se manifesta na culpa e na vergonha que me embaraça em todas as situações e me diminui absurdamente aos meus olhos (e aos dos outros que dão por isso) e me retira toda a satisfação do que é para satisfazer como se o não merecesse, e restringe tudo o que era de supor-se dar-me uma pequena glória ou triunfo. Há uma nódoa que dessa eternidade se distingue e vem a ser mancha em tudo que faça e brilhe. É fácil talvez determinar as razões dessa enfermidade sempre presente e aflitiva, mas são razões que não servem, porque não embaraçam os outros e os deixam livres para serem por inteiro.

         Assim aquilo mesmo que era de contentar-me e os outros julgam que seria, encurta-se-me logo no ser contentamento, porque o seu negrume o escurece e o que me fica é quase piedade por essa irrisão, esse motivo de prazer que logo o é menos, não porque eu ambicionasse mais, mas porque isso fica sendo menos do que é. Há um olhar fito da distância absoluta que me julga sem me julgar e é julgamento e acusação com só fixar em mim a sua dureza e gravidade e o brilho imóvel do seu fitar-me. Fui mandado para a vida com esse ferrete, como ave que anilhassem e fosse largada em liberdade mas com o controle que fica atrás e a segue até ser morta e ser-lhe lida a anilha. Fui largado para a vida mas ficou atrás o olhar que me segue e me faz sentir constantemente uma culpa que cometi e não consigo identificar e esclarecer. Sei só em todo o instante e em cada acto e em cada situação que cometi essa falta de que me resta o vexame sentido em cada situação e em cada acto. É por isso que nunca estou à vontade, contente comigo, é por isso que nenhum acto meu meritório eu o julgo com merecimento, mas sinto antes que ele pouco significa em face de não sei quê que me diminui e confrange e quase faz sorrir de pena de eu poder pensar que não é assim. Toda a minha vida deste modo se me realiza por metade e mesmo o que é em mim faltoso se diminui em face de uma falta maior e mais grave e incognoscível e o que é de contentar-me eu o julgo pequeno para compensar essa falta longínqua e incompreensível. Assim me causa espanto que os outros se estabeleçam à vontade no mundo que é seu e triunfem com o seu triunfo e exerçam a sua importância como se tivessem nascido sem um pecado cometido antes de nascerem. Assim os admiro sem saber ao certo se são inconscientes ou se de facto não nasceram anilhados na sua pata de gente. Há uma falta na minha origem mas é duro que uma vida inteira não baste para a remir. E concentradamente olho os meus pulsos e tornozelos para decifrar as anilhas que alguém aí me pôs e não vejo e de que jamais conseguirei desembaraçar-me.» 

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por Maria Almira Soares às 12:18



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