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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Quarta-feira, 22.02.17

MÁRIO CLÁUDIO — ASTRONOMIA

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O VELHO, O RAPAZ E O MENINO

 Toada de um reconto. Olhos que leem astros.

Uma arte narrativa cuidada, adequada, talentosa como quem manipula delicadamente figuras finas de um teatro mágico: entre contos e rimas infantis ou pedaços de livros amorosamente lidos/escritos/guardados, o velho, o menino, o rapaz, e seus comparsas. Entre o menino e o velho, nas suas contradanças, o rapaz, solavanco de múltiplas forças gravitacionais, o amor... a arte... o estudo... a profissão... a viagem.... a escrita literária... Tão talentosa esta arte narrativa que enternece o leitor e o torna contemplativo das mágicas trocas de guarda-roupa, de papéis: velho, menino, velho, rapaz, velho, velho. Seremos sempre velhos de bibe? O talento meticuloso do desenho minucioso dos enlaces entre perceção e transfiguração dos medos, dos interditos, dos fascínios, das infrações infantis, essa maternidade estelar da arte, da arte literária.

«Astronomia», o título de uma umbilical permanência no universo do sonho, até ao apagamento da sua penumbrosa nitidez, ao mergulho no desfazer-se em palavras, fim.

«Astronomia», a arte de, em um espaço, ir habitando o vário tempo, acumulando eras, num horizonte, numa desenhada linha narrativa: o ontem, o menos ontem, o menos menos ontem, o menos menos menos ontem, o ontem-hoje, esvaziamento da luz definidora num estado de noite cósmica.

«Astronomia», a forma de organizar, de dividir/somar a «Nebulosa», a «Galáxia», o «Cosmos». Modo de acumular a longínqua formação difusa leve como a poeira e o gás onde nasceu a estrela, o sistema estelar onde gravitou na luz e na matéria escura, o cosmos onde «tudo o que já foi, tudo o que é e tudo o que será»[*] «Nebulosa», «Galáxia», «Cosmos», metáforas recapituladoras que, desde o mapa, instituem, na matéria, o carácter mítico de cenas fundadoras. Metáforas expansivas em halos, raios, reflexos.

Procuramos o autor e, então, caminhamos num tecido verbal em que, sobre a arte da perífrase, da referência oblíqua, do rodeio, surgem, desaforadas, aplicações de verdade fotográfica, se encadeiam trechos nítidos, bordados, recordados, registados. Somos/fomos o que de nós e o que do que é nosso vemos e mostramos. Somos/fomos o que lemos e escrevemos. Somos/fomos o que avistamos e evitamos e ocultamos. Fio narrativo fiado pelo imaginário, em que as emoções, os medos, as visões, as transfigurações do menino são as fantasias, as criptomnésias do velho. Mundo giratório, desdobrável, linhas antigas em formas recentes, linhas recentes em formas antigas, sob luz, fora de luz, plasma último e primeiro, multialma peregrinando as estações da sua legibilidade. A ilusão do tempo? A ilusão do olhar? Uma estrela hoje é e não é a mesma estrela ontem.

E, no entanto — o no entanto da inexistência de registo naturalista de lugares, pessoas, acontecimentos — existe, legível, um cronótopo não solúvel: o Porto. O casulo, a cápsula da cultura citadina, doméstica, familiar, pessoal.

Não a rigidez das rigorosas cronologias baratas, mas a distância/proximidade volúvel sob a variação de carga do imaginário e da subjetividade. O peso da vida incorporada, atada ao pé que a anda, levantada em voo pela mão que a escreve.

 

[*] Carl Sagan.

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por Maria Almira Soares às 16:25



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