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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Quarta-feira, 16.03.16

NÃO SEI SE É VERDADE...

  

livros-da-biblioteca-da-escola-do-povoado-riacho-s

     Não sei se é verdade, mas acho que os livros, quando passam assim muito tempo quietinhos nas estantes, começam a ter ideias. Até acredito que, uma noite, quando estava tudo às escuras na casa velha, um deles se pôs a pensar assim:

     – Estou eu aqui, tão perto deste aqui ao lado, e nunca falámos! Afinal, para que tenho eu dentro de mim a palavra «Olá!»? E ele? Para que tem ele a frase «Gostei de falar contigo.»? Se eu nunca lhe disse «Olá!»… E ele nunca me disse «Gostei de falar contigo.»…

       De facto, parece natural que um livro saiba que palavras tem dentro de si e fique a saber as dos outros, quando os ouve a serem lidos em voz alta, como fazia frequentemente o professor Sousa. Mas aquele ia longe demais. Além de ser um livro refilão, como vimos ao escutar os seus pensamentos, sonhava com coisas impossíveis. Toda a gente sabe que é impossível os livros falarem directamente uns com os outros. Só através dos leitores… Por isso, lá continuavam todos, capa com capa, ao lado uns dos outros, muito caladinhos, a não ser quando eram lidos.

     O João é que não podia sequer imaginar semelhante coisa, pois, por enquanto, nem sonhava que o professor Sousa, afinal, vivesse na companhia de tantos e tantos livros. Durante muito tempo, limitou-se a passar por ali, entretendo-se a olhar com curiosidade aquela casa que achava tão bonita.

     Mas, um dia em que a vida ia decorrendo como de costume, de repente, aconteceu uma coisa terrível.

     Houve um terramoto naquela cidade. Quase todos os edifícios da rua do João se mantiveram de pé com poucos ou nenhuns estragos. Tinham sido construídos para resistirem. Só a casa velha é que não. Ruiu. Desfez-se em caliça.

   Por sorte, no momento do terramoto, o professor Sousa tinha saído. Fora comprar o jornal. Mas os livros não vão comprar jornais e, por isso, ficaram esmagados. Eles, que tinham sido tão bonitos, agora destroçados, desfeitos, espreitavam por debaixo dos escombros.

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por Maria Almira Soares às 22:00



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