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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Quinta-feira, 23.04.15

NO DIA DO LIVRO

Quando abro um livro, ele oferece aos meus olhos dois modos muito distintos de eu me interessar por ele. Propõe à função dos olhos dois usos alternativos. Pode sugerir que eles iniciem um movimento regular, que se comunica e prossegue de palavra em palavra ao longo de uma linha, renasce na linha seguinte depois de um salto que não conta, e provoca em seu desenrolar uma quantidade de reações mentais sucessivas, cujo efeito comum é destruir a cada instante a percepção visual dos signos, substituindo-a por lembranças e combinações de lembranças. Cada um desses efeitos é o primeiro termo de algum infinito desenvolvimento possível. Isso é a Leitura. Poderíamos dar-lhe por símbolo a ideia de uma chama se alastrando, de um fio queimando de ponta a ponta com, a cada certo tempo, pequenas explosões e cintilações. Esse modo sucessivo e linear requer uma visão nítida, e a conservação dessa visão nítida — condição essencial para a produção dos atos elementares do cérebro, que respondem às excitações da escrita com sons virtuais ou reais, com significações. A legibilidade de um texto é a qualidade que esse texto tem de se adequar à visão nítida. Em referência ao que precede, podemos dizer que legibilidade é a qualidade que um texto tem de prever e facilitar o próprio consumo, destruição pelo espírito, transubstanciação em acontecimentos do espírito. Mas em paralelo e à parte a leitura em si, existe e subsiste o aspecto de conjunto de toda coisa escrita. Uma página é uma imagem. Ela produz uma impressão global, apresenta um bloco ou um sistema de blocos e estratos, pretos e brancos, uma mancha com figura e intensidade mais ou menos bem resolvidas. Essa segunda maneira de ver, não mais sucessiva e linear e progressiva como a leitura, mas imediata e simultânea, permite aproximar a tipografia da arquitetura, assim como, há pouco, a leitura poderia ter lembrado a música melódica e todas as artes que esposam o tempo. Assim, o Livro, por um lado, comporta o necessário para excitar e conduzir o movimento do ponto da visão nítida — movimento que gera efeitos intelectuais e descontínuos, e paulatinamente se integra em ideias ao longo da linha; é, por outro lado, um objeto, um conjunto de impressões estacionárias, dotado de propriedades imediatas, não-convencionais, que pode agradar ou desagradar aos nossos sentidos. Esses dois modos de olhar são independentes um do outro. O texto visto e o texto lido são coisas muito distintas, pois a atenção dada a um exclui a atenção dada ao outro. Existem livros belos que não convidam à leitura, belas massas de puro preto sobre um campo muito puro, mas a plenitude e força de contraste, obtidas à custa das entrelinhas e que parecem muito rebuscadas na Inglaterra e Alemanha, onde procuram alcançar certos modelos do século XV e XVI, não deixam de pesar para o leitor e parecer um tanto arcaicos. A literatura moderna não se adapta a essas formas compactas, como que repletas de caracteres. Existem, em contrapartida, livros bem legíveis, bem arejados, mas feitos sem nenhuma graça, insípidos para a vista, ou até francamente feios. Essa independência nas qualidades que um livro é capaz de ter permite que a tipografia se torne uma arte. Quando ela quer apenas responder à necessidade simples de ler, dispensa os artistas, pois as exigências da legibilidade podem ser precisamente definidas, e satisfeitas por meios igualmente definidos e uniformes. A experiência e a análise serão suficientes para determinar o que é preciso ao gravador da letra, ao compositor e ao impressor para obter um texto claro e nítido. Basta, porém, o tipógrafo tomar consciência da complexidade de seu trabalho, para se sentir na obrigação de ser um artista, pois o próprio do artista é escolher, e o escolher é comandado pelo número de possíveis. Tudo aquilo que deixa espaço para o incerto clama pelo artista, embora nem sempre o obtenha. O tipógrafo artista encontra-se, diante de sua tarefa, na complexa situação do arquiteto preocupado em conciliar a conveniência e a aparência de sua construção. O próprio poeta tem por destino debater-se entre as formas e o conteúdo, entre suas intenções e a linguagem. Em todas as artes, e por isso mesmo são artes, a necessidade que uma obra bem realizada deve sugerir só pode ser gerada pelo arbitrário. O arranjo e a harmonia final das propriedades independentes que é preciso compor nunca se obtêm através de receita ou automatismo, mas de milagre, ou de esforço; através de milagres e esforços, conscientemente combinados. Um livro é materialmente perfeito quando é agradável de se ler, delicioso de se mirar; quando, enfim, a passagem da leitura à contemplação e, reciprocamente, da contemplação à leitura é muito fácil e corresponde a mudanças imperceptíveis da acomodação visual. Os pretos e brancos constituem então repouso um do outro, o olho circula sem esforço em seu domínio bem disposto, aprecia o conjunto e os detalhes, e sente-se em condições ideais de funcionamento. [...]

 

Paul Valéry, As Duas Virtudes de um Livro (Tradução de Dorothée de Bruchard)

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por Maria Almira Soares às 12:03



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