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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Domingo, 03.04.16

O COMBOIO DAS SETE

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  No quintal da casa térrea, estava um homem estendido numa gasta cadeira de lona. De olhos fechados, o homem fruía o sol forte do verão que lhe banhava o rosto magro. Os pés descalços remexiam a terra, quente, solta, arenosa. Mesmo de olhos fechados, sabia que eram sete horas, porque acabara de ouvir o apito do comboio a arrancar do apeadeiro lá para trás dos pinhais. Talvez os pés no seu movimento terra adentro tivessem cortado algum caule ou raiz, porque de repente havia, solto no ar, um cheiro ácido a seiva de plantas. Da torneira esquecida aberta sobre o tanque chegava o som do correr contínuo da água que, por esta altura, já deveria ter transbordado e andaria, ligeira, a carreirar pelos canteiros como uma cobra líquida sarapintada do pó terroso que se lhe ia colando. O homem sentia-se bem. Como se a serenidade fosse uma planta enraizada no seu corpo. Num movimento destravado de qualquer intenção, levantou os pés bem alto atirando terra em todas as direções e quando, a seguir, abriu os olhos, soltou uma gargalhada que fez eco no quintal: presa entre os dedos, contorcia-se uma pequena minhoca rosada. Sacudiu-a e ficou a vê-la reenterrar-se.

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por Maria Almira Soares às 21:37



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