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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Sexta-feira, 16.01.15

O INFANTE

O DETECTIVE DAS PALAVRAS

O INFANTE

Hoje, cá em casa, andamos todos atarefadíssimos a preparar o dia de amanhã. E que coisa, assim tão importante, vai acontecer amanhã? Amanhã vamos partir para a terra da minha mãe, para lá passarmos as férias. Férias! Não devo ser o único a adorar esta palavra. É boa para pensarmos nela e sonharmos com ela. E é óptima para se dizerem frases como esta: — Como estou em férias, vou viajar. Outra palavra excelente: viajar! Férias e viajar são duas palavras que se dão mesmo bem uma com a outra. Pois é, estou mesmo feliz só de pensar que, por uns tempos, vou mudar de vida. Esta mudança para a terra da minha mãe até parece um passe de mágica, como se, ao mesmo tempo, fôssemos os mesmos e não fôssemos os mesmos. A mim, por exemplo, deixam-me muito mais à vontade. Posso fazer coisas que, na cidade, são muito mais difíceis de conseguir, como andar sozinho na rua. E as casas? As casas são, quase todas, já bastante velhas. Como a da minha avó, para onde vamos. Tão velha que, se dermos um passinho com mais força, começa logo a ranger. O pior (ou o melhor) são os fantasmas. É verdade! Dizem que há lá casas onde aparecem fantasmas. Às vezes, durante a noite, ouço uns barulhos estranhíssimos. O meu pai diz que é a casa a arrefecer, que as madeiras estão velhas e estalam à noite, quando arrefece… Não sei, mas eu, já metidinho na cama, adoro fechar muito os olhos e acreditar mesmo que andam fantasmas (Uuuuuhhhhh!) pelo corredor. Tenho um bocadinho de medo, mas gosto. Como quando vamos passear à noite para uma estrada velha que não tem nenhuma iluminação. É tão escuro, tão escuro, que quase só nos distinguimos pelos barulhos que fazemos. Mas, quando levantamos os olhos para o céu, as estrelas são tantas, tantas, que parece um tesouro a brilhar. Fantasmas! Tesouros! Segredos! É, na aldeia da minha mãe, que vivo as mais emocionantes aventuras. Às vezes, até descubro coisas interessantíssimas na minha área de especialidade que, como sabem, é a de detective das palavras. É que as pessoas da aldeia sabem coisas! Coisas antigas. E têm modos de falar misteriosos. Pelo menos para mim. O mais espantoso de todos é o professor Santiago. Gosto muito do professor Santiago e ele, embora se esteja sempre a meter comigo e a resmungar, também parece que gosta de mim. No fundo, damo-nos bem. Foi o primeiro professor da minha mãe e querem saber uma coisa de chorar a rir? Trata-a por Naninha. A minha mãe, a senhora D. Adriana, para o professor Santiago, é a Naninha! Era assim que lhe chamavam quando era pequenina. Adoro descobrir estas coisas! Para mim, o professor Santiago é uma fonte inesgotável de curiosidades. É um sábio. Sabe muito de velharias, de histórias antigas, e tem uma maneira de conversar que parece que está sempre a desafiar-nos para resolvermos alguma charada. Usa palavras estranhas. Então a mim, chama-me cada coisa: seu meliante, seu farsante, seu bargante… Olhem, ainda no ano passado, aconteceu uma coisa bem engraçada. Mas que grande barracada que eu dei! Mas fiz uma descoberta sensacional! Descobri que… Vou contar:

Um dia, ia eu todo contente pela rua abaixo em direcção ao largo para brincar com os meus amigos, quando vi, ao longe, que o professor Santiago estava à janela. Passei, olhei e cumprimentei-o: — Bom dia, senhor professor.

É assim que toda a gente na aldeia o trata.

— Olá, infante! Então como é que vai a vida?

Apanhado de surpresa e sem pensar, repliquei: — Infante?! Mas eu nem me chamo Henrique!

— Ah, sim? Olha, verdade, verdadinha, conheci-te ainda infante… mas infante é que tu já não és… Nem desses nem dos outros.

— Nem desses nem dos outros!? Que grande charada! — Fiquei eu a matutar, enquanto o professor continuava a fitar-me com o olhar desafiador do costume. Para mim, só havia um infante: aquele que se pusera a olhar o mar na ponta de Sagres, o infante D. Henrique. Quando cheguei a casa, perguntei ao meu pai se havia mais infantes para além deste. Ele interrompeu a leitura do jornal e explicou-me que antigamente se chamava infantes aos filhos dos reis, como era o caso de D. Henrique.

— Ah, então há esses infantes. E os outros?

— Quais outros?

— Foi o professor Santiago que disse.

— Deves ter percebido mal. O professor Santiago sabe bem o que diz.

— Mas porque é que os filhos dos reis se chamavam infantes?

— Então ainda não ouviste falar da infância?

— Claro.

— Então, como são mais novos e não têm o poder dos pais, os filhos dos reis, enquanto não reinam ou se nunca vierem a reinar, é como se ficassem sempre na infância, como se fossem sempre crianças: ficam sempre a ser chamados infantes. Percebeste?

Eu disse que sim, mas a minha dúvida ainda estava longe de estar totalmente esclarecida: porque é que, segundo o professor Santiago, eu, que sou uma criança, «não sou infante nem desses nem dos outros»? «Desses», tudo bem. Sei muito bem que o meu pai não é nenhum rei. Mas «dos outros»?! Quais outros? Que charada! Comecei a tentar lembrar-me de mais alguma coisa que me ajudasse a descobrir este mistério e, de repente, vieram-me à cabeça mais umas palavras que ele disse: «e logo tu, meu grande tagarela, que falas pelos cotovelos». Ora essa, que tinham os meus cotovelos a ver com os infantes? Tagarela ainda fui ver ao dicionário da minha avó e descobri que era fala-barato. Esta também é engraçada: quem fala muito é fala-barato! Mas não me resolveu o problema de eu não ser infante «nem desses nem dos outros». A minha curiosidade era tanta, que lá me resolvi a ir, com uma carinha de penitente e falinhas mansas, enfrentar de novo o Professor Santiago: — Ó senhor professor, vá lá, diga lá quais são os «outros infantes», para além dos filhos dos reis, diga lá.

— Ah, ah, seu farsante, de reis, já sabe alguma coisita… não é? Mas nesta dos outros infantes é que está mesmo às escuras…

— Vá lá, explique lá.

— Bem, bem. Para ter, é preciso merecer. Vou dar-te uma oportunidade de te ajudares a ti próprio na descoberta do que queres saber.

Tirou uma folha de um caderninho que trazia sempre no bolso e pôs-se a escrever devagarinho, como se estivesse a pensar ao mesmo tempo que escrevia. Quando acabou, disse:

— Aqui levas as pistas necessárias para encontrares aquilo de que precisamos para que eu satisfaça a tua curiosidade.

Eu já sentia no ar o cheirinho a aventura. Começava a ficar entusiasmado: — Até parece um mapa de tesouro.

— E é. E é. Não há melhor tesouro do que conhecermos bem a nossa língua portuguesa.

Mal saí dali, pus-me a olhar fixamente para o que estava escrito no papel que me dera o professor:

«Vai ao princípio da principal

E verás uma alta ao pé de uma baixa.

Entra na alta e vira à direita.

Abre o de duas portas.

Na 120 do vestido de amarelo, encontrarás as seguintes palavras: “pueros infantia linguae”.

Copia as três palavras que estão antes destas.

Traz-mas e dar-te-ei a solução.»

— Que charada! Até parece uma mensagem de um velho mágico! «Na 120»!? Será uma estrada? «O de duas portas»!? Será um carro? «O vestido de amarelo»!? Que charada!

Resolvi sentar-me numa pedra à beira do caminho para pensar com mais calma.

— Vamos lá ver isto. Uma coisa de cada vez: se no «vestido de amarelo» há palavras, o mais certo, o mais certo… é que… seja um livro! Mas um livro vestido!? De amarelo?! Só se for, só se for… um livro encapado com papel amarelo! Deve ser um livro antigo, que está encapado para não se estragar. Suspirei aliviado com estas pequenas descobertas, mas logo voltei à carga: — Mas onde? Onde estará este livro amarelo?

Recomecei a ler devagarinho a mensagem do professor:

«Vai ao…»

— «Vai»? Eu, quando vou, vou… pela rua… Rua principal! É isso. É na rua principal da aldeia! No princípio da rua principal da aldeia! Desatei a correr e quando cheguei à entrada da rua principal, levantei os olhos e que vejo eu? Uma casa alta mesmo ao pé de uma muito baixa. Entrei na alta, que era a escola, virei à direita e logo encarei… Sabem com quê? Com um armário de duas portas. Imediatamente o abri e, à minha frente, distinguia-se perfeitamente um grande livro encapado de amarelo! Só faltava a 120. Voltei à mensagem: «Na 120 do vestido de amarelo, encontrarás as seguintes palavras…» Se o vestido de amarelo era um livro, então, a 120 de um livro deveria ser… a página 120! Era isso. Abri o livro na página 120 e os meus olhos ansiosos, sem perceberem nada do que lá estava escrito, começaram a percorrê-la, linha a linha, à procura das palavras mágicas: — Bingo! Cá estão elas: Agora é só copiar as três palavras que estão antes destas.

Tirei do bolso um lápis que trago sempre comigo e, com alguma dificuldade, pois eram tudo palavras estranhas e completamente desconhecidas para mim, completei a frase: «protrahere ad gestum pueros infantia linguae».

— Safa! Que palavras esquisitas! Devem ser da língua dos mágicos.

Missão cumprida. Arrumei o livro no armário, guardei o papel no bolso e não perdi tempo a voltar ao encontro do professor Santiago.

— Estão aqui as palavras, senhor professor.

— Já, seu bargante? Hum, hum, vamos lá ver isso.

Eu dei-lhe o papel. E ele, muito calado, parecia divertido:

— Por Hércules, fizeste o trabalho, mereces a recompensa. Ora senta-te aqui ao pé de mim e escuta com muita atenção tudo o que te vou contar.

E começou: — O livro de onde copiaste estas palavras é muito antigo. Foi escrito em latim, por Lucrécio, um escritor romano, que viveu no século primeiro antes de Cristo, e chama-se De Rerum Natura, que significa Acerca da Natureza das Coisas. É um livro muito interessante e, até, engraçado porque tenta explicar a origem de todas as coisas, plantas, animais, pessoas, num tempo em que ainda não havia saber suficiente para o fazer cientificamente. E, então, o Lucrécio inventa teorias que, hoje, nos parecem muito curiosas.

— Ó senhor professor, mas o que é que isso tem a ver com os infantes?

— Calma, rapazinho. Já lá vamos. Uma coisa, cuja origem também é muito interessante saber, é a linguagem. Não gostavas de saber a origem da linguagem, das palavras que dizemos?

— Sim, sim. Isso interessa-me e muito.

— Pois, como eu te ia a dizer, Lucrécio também arranja uma explicação para a origem da linguagem. Queres ver?

Voltou-se para a secretária e pegou num livro que devia ser igual ao que estava guardado no armário da escola. Só que, como não estava encapado, via-se perfeitamente, gravado logo no princípio, o seguinte:

2011_Ant_80_0012_normal.jpg

Abriu-o e leu, adaptando-o para português, o pedacinho de que fazia parte a frase mágica que me iria revelar quem eram, afinal, os «outros infantes»: «… foi a natureza que obrigou os homens a criarem os vários sons da linguagem e a dar um nome a cada coisa, do mesmo modo que os bebés por não saberem ainda falar, se vêem obrigados a apontar com o dedo as coisas que querem…» E, logo a seguir, explicou: — Para Lucrécio, foi naturalmente que os homens, por necessidade, foram inventando as palavras e pondo um nome a cada coisa. Como, para lhes facilitar a realização das tarefas da vida, precisavam de dar nomes às coisas, naturalmente, foram dividindo os sons que faziam, separando-os em diferentes palavras, uma para cada coisa. Não está nada mal pensado. Estás a perceber?

— ‘Tou,’tou.

— Então, vamos lá, agora, aos infantes. A frase que me trouxeste: «protrahere ad gestum pueros infantia linguae» significa o seguinte: a incapacidade de falar obriga os bebés a fazer gestos. Ora, nesta frase, qual achas tu que é a palavra que significa bebés?

Infantia. — arrisquei eu rapidamente.

— Ah! Ah! Caíste que nem um patinho! Pois não é. É pueros. Pueros é que são os bebés, como na palavra puericultura, que significa o tratamento dos bebés.

— Mas, então, se infantia, que é tão parecida com infância, não significa bebés, o que é que ela significa?

— Ora aí é que está a solução de todo o problema: a palavra infância, na sua origem, em latim, significava incapacidade de falar. E o infante era aquele que ainda não sabia falar. Esta é que é a solução: os «outros infantes» são as crianças que ainda não sabiam falar. Por isso, é que tu, meu grande tagarela, também não és um infante desses outros.

— Ah! Ah! Agora percebo.

— Pois percebes, meu meliante. E ainda vais perceber outra coisa: quase todas as palavras que têm a ver com a fala: falar, falante, fama, afamado, difamar… e muitas outras, que ainda não conheces mas virás a conhecer, têm todas, como a palavra infante, a sílaba fa, que é a partícula mais pequenina com o significado de falar.

— Caramba! Nós até parecemos dois cientistas! Até parece que estamos a ver as palavras ao microscópio para descobrir as partículas das substâncias de que são formadas. Agora descobrimos o fa: a partícula do falar! É mesmo engraçado!

— Pois é, seu farsante!

— E agora já sei: eu não sou infante de uns, porque o meu pai não é rei; e, dos outros, porque já falo, já sei falar e, até falo pelos cotovelos!

— Brilhante!

Que grande descoberta e que grande lição! Antigamente, em latim, infante era a criança que ainda não sabia falar e eu, outro dia, ouvi a minha mãe dizer que a minha tia parecia uma criança, que era muito infantil, porque nunca se calava, estava sempre a falar! É mesmo engraçado descobrir como o sentido das palavras muda tanto.

Bem, isto foi no ano passado. Este ano, ainda não sei que aventuras é que me esperam na terra da minha mãe. Só sei que, amanhã, quando lá chegar e encontrar o professor Santiago, lhe vou logo contar como me diverti a chamar infante ao Rui! É que o Rui é um amigo meu que é muito, mas muito, caladinho!

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por Maria Almira Soares às 13:15



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