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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Sábado, 24.10.15

ORA, A LITERATURA...

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A ciência facultou à tecnologia uma aceleração do tempo tal, que o encontro imediato, a ansiedade do encontro imediato, o desgosto da distância e da demora, se implantaram na vida. Ora, a literatura, embora já o tenhamos esquecido e por isso a estejamos a substituir, é uma coisa demorada e distante que exige caminhada, etapas, paragens, saber ver, ouvir, cheirar, bem ao longe. Tão longe que diríamos até, invisível, só captável no momento de ler. Ler o literário é simultaneamente reconhecimento, descoberta, invenção. De outro modo, de outro diferentíssimo modo, o real tout court cada vez se mete mais pelos olhos dentro. Fácil é anotá-lo e anotá-lo pode ser, é, cada vez mais, fazer um livro. E ler esse livro, ler esses livros, em que as palavras nada mais fazem do que substituir a imagem, do que pincelar o real, é, cada vez mais, empurrar a literatura para o tal nicho, onde se põem os ícones sobretudo do que já não é vivo.

Um livro é uma coisa complacente, venal mesmo, que nada, mas mesmo nada, se importa com o que leva dentro. Livros são mesmo, mesmo só, «papéis pintados com tinta em que está indistinta a diferença entre nada e coisa nenhuma». Anotar a realidade, ou mesmo martirizar a realidade teclando-a num livro, é nada ou coisa nenhuma de literário.

Posso sonhar com Diógenes saindo com a sua lanterna à procura de um livro literário. A vetusta lanterna de Diógenes, saindo do seu pudico barril à procura de um livro literário, confusa e de luz extinta pelo farfalhar de memórias, biografias, recombinações de episódios históricos, torcicolos de ângulos episódicos do mundo relatado nos media, patologias sociais... A vetusta lanterna de Diógenes tropeçando e quebrando-se no festivo entulho das emocionais histórias vividas, requentadas segundo brilhantes receitas-gourmet enlistadas em palmarés premiados. Ora, a literatura...

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por Maria Almira Soares às 15:54



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