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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)


Quarta-feira, 09.04.14

O 25 DE ABRIL DE 1974

 

Aparentemente, iria ser um dia como outro qualquer daquela era cinzenta... Levantar cedo e entrar na correria de tratar do meu filho (de um ano de idade), e de me pôr a caminho do liceu da Amadora onde dava aulas. Nem tempo havia para espreitar notícias que, aliás, eram de um modo geral desinteressantes. Iria ser um dia como outro qualquer, mas... GRANDE MAS! Mas, mal saí a porta de casa e pus o pé no patamar da escada, a D. Lurdes, a porteira, madrugadora e informada como é próprio das porteiras, com ar de maus augúrios, quase me barrou o passo:  — Ó menina, deixe-se ficar em casa, que anda a tropa na rua. Acho que é uma revolução. Não saia, que é perigoso.

Qual não saia! Aí é que eu tive vontade de sair. Claro que iria até ao liceu ver o que se passava, saber coisas... Tirando o aviso da D. Lurdes, eu não tinha mais nenhuma informação. E fui. E vi que o reitor estava tomado de um ataque de pânico, o que me fez de imediato perceber em que sentido ia o fazer da História. Aulas, nem vê-las. Tirando algumas funcionárias, que nesse tempo se chamavam contínuas, e o reitor, o liceu estava vazio. Lembro-me de quase ter dito em voz alta: — UFA! FINALMENTE! Alguma coisa estava a começar: finalmente, o início do cheiro da LIBERDADE!

Rapidamente voltei para casa a trocar informações com o Pedro, o meu marido. A ele, mandado para a guerra em Moçambique,  calhou-lhe a sorte de estar cá a passar o mês de férias a que tinha direito e viver em Lisboa o 25 de Abril! Durante o resto do dia parecíamos duas esponjas a tentar absorver informação e saber o mais possível do que se estava a passar. Eu, que me tinha desinteressado quase completamente dos meios de informação até aí algemados pela censura, nesse dia só queria ouvir rádio, ir à rua espreitar, perguntar, tentar saber e ficar segura de que os tempos negros iam acabar. E televisão? Não tínhamos. Era uma das nossas formas, talvez um tanto infantil, de ser do contra: não ter televisão. Mas, nesse dia, fomos à loja da esquina e fizemos apressadamente talvez a pior compra das nossas vidas: um televisor em que vimos e ouvimos a proclamação da «junta de salvação nacional» e o cantar constante de um slogan que dizia que «o povo unido...» O Luís, o meu filho, repetia-o, em versão muito própria, pela casa fora, interminavelmente. Passado pouco tempo, o televisor estava avariado. E o 25 de abril? Também se avariou?

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por Maria Almira Soares às 12:57


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