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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)


Quarta-feira, 04.04.18

O LEITOR A HAVER

images.jpgEliseu Visconti

 

   Era uma vez um Menino que, sem ninguém dar por isso, começava a ser leitor. Não tinha ainda idade nem vontade de aprender a ler. Para o Menino, o melhor da vida era brincar. E brincar era simultaneamente sentir. Sentir cores, luzes, cheiros, gestos, movimentos, texturas e tudo isso misturado. Brincar sob sol aberto e chão coberto de ervas, flores, árvores... ar livre. O Menino começava a ser um leitor que ainda não lia. Sob a bênção do poeta que nos não larga, poderemos chamar-lhe um leitor a haver. Nada sabia de letras, mas, em cada momento de vida, crescia em imaginário. Adorava o faz-de-conta. E nesse seu fazer-de-conta tudo no seu mundo se transformava em situações inventadas cheias de palavras e de coisas postas e repostas sem limitações de realidade. Nesse seu fazer-de-conta as coisas e coisinhas que lhe vinham à mão transformavam-se magicamente em tudo o que ele queria, em tudo o que ele via por uns olhos de desejo de alegria: fosse um pedacinho de papel rasgado de jornal amarelecido perdido no fundo de uma gaveta, sobre o qual, sem nada entender do que lá se dizia, saboreava palavras misteriosas que ouvira sem as entender também; fosse uma bela e perfeita folha de videira que punha a boiar no rego da água e era já um barco, uma jangada, um peixe...; fosse uma pedra, arredondada pelo tropeço dos tamancos que faziam os caminhos, atirada aos ares e logo transformada num belo rasgão do céu azul. O Menino pequenino não lia, não sabia de livros, nem sabia se outras pessoas — dentre os pais, dentre os avós, dentre os irmãos — tinham livros. Mas sabia de histórias: das que inventava e das que ouvia. Todos, à sua volta, estavam sempre a contar histórias uns aos outros: infelicidades, desejos, segredos, espantos, maldades, notícias boas, notícias más, partidas e regressos, alegrias, viagens, mortes e vidas. E ele ouvia muito bem. Não as entendia, essas histórias que enchiam o mundo em volta. Não as entendia, mas, pelo modo como os corpos e seus gestos e as vozes e suas demoras as contavam, pareciam-lhe ser saborosas. Sabores doces e ácidos, picantes e brandos que, no Menino, iam plantando o leitor a haver. Saboreava a mestria das vozes dos outros e ficava a saber, ainda que imperfeitamente, de histórias e mesmo de réstias de palavras que não chegavam a formar nenhuma história, mas eram boas de sentir na boca e nos ouvidos.

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por Maria Almira Soares às 13:33

Sábado, 10.03.18

ANTES QUE O SOL SE LEVANTE

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Mote

Antes que o Sol se levante,
vai Vilante ver seu gado,
mas não vê Sol levantado
quem vê primeiro a Vilante.

Voltas

É tanta a graça que tem
com üa touca mal envolta,
manga de camisa solta,
faixa pregada ao desdém,
que se o Sol a vir diante,
quando vai mungir o gado,
ficará como enleado
ante os olhos de Vilante.


Descalça, às vezes, se atreve
ir em mangas de camisa;
se entre as ervas neve pisa,
não se julga qual é neve.
Duvida o que está diante,
quando a vê mungir o gado,
se é tudo leite amassado,
se tudo as mãos de Vilante.

Se acaso o braço levanta,
porque a beatilha encolhe,
de qualquer pastor que a olhe
leva a alma na garganta.
E inda que o Sol se levante
a dar graça e luz ao prado,
já Vilante lha tem dado,
que o Sol tomou de Vilante.

                       Francisco Rodrigues Lobo

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por Maria Almira Soares às 14:58

Quarta-feira, 14.02.18

O AMOR

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 Sandro Botticelli, O Nascimento de Vénus  (pormenor)

 

Quando Amor nasceu,

Nasceu ao Mundo vida,

Claros raios ao Sol, luz às estrelas.

O Céu resplandeceu,

E de sua luz vencida

A escuridão mostrou as coisas belas.

Aquela, que subida

Está na terceira esfera,

Do bravo mar nascida,

Amor ao Mundo dá, doce amor gera.

Por amor se orna a terra

D’águas e de verdura,

Às árvores dá folhas, cor às flores.

Em doce paz a guerra,

A dureza em brandura,

E mil ódios converte em mil amores.

Quantas vidas a dura

Morte desfaz, renova:

A fermosa pintura

Do Mundo, Amor a tem inteira, e nova.     

 

 

Ninguém tema seus fogos,

E chamas furiosas.

Amor é tudo, amor suave, e brando,

Sujeito a brandos rogos,

As águas amorosas

Dos olhos com brandura está alimpando.

Douradas, e fermosas

Setas n’aljava soam

À vista perigosas;

Mas amor levam, dos amores voam.

Amor em doces cantos,

Em doces liras soe,

Torne seu brando nome este ar sereno.

Fujam mágoas, e prantos,

O ledo prazer voe,

E claro o rio faça, o vale ameno.

No terceiro Céu toe

D’amor a doce lira,

E de lá te coroe,

Castro, de ouro o grã Deus, que amor inspira.

 

António Ferreira, Castro

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por Maria Almira Soares às 13:03

Quinta-feira, 25.01.18

«SIM, CHOREI.» — respondeu Günter Grass.

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   «Sim, chorei.» — respondeu Günter Grass a quem lhe perguntava como foi esse processo de, aos setenta e oito anos, conseguir chegar a esse rapaz que, aos dezassete, se fez voluntário das Waffen SS de Hitler. «Não fiz perguntas, não fiz perguntas; chegar a esse rapaz foi um processo doloroso» — disse também.

   Enquanto vamos lendo Descascando a Cebola, talvez a impressão que mais vai permanecendo seja a da dor que — mais intensa, menos intensa — vai acompanhando este descascar da memória. É a dor de ir existindo e sobrevivendo ao longo de vinte anos, em função de contextos sempre difíceis e complexos. Às camadas desta cebola não faltam sofrimentos de natureza e espessura variadas.

   Se escolhemos a cebola como metáfora do globo em que se vão inscrevendo as variadas regiões da nossa vida, sabemos, desde logo, que, ao descolá-las, havemos de sentir dor. Nunca a cebola será doce para o nosso olhar, para os nossos sentidos, mas o sentir da sua agressividade não é uniforme, é pessoal. Por alguma razão têm lá os franceses aquela expressão com que enxotam os outros dos seus problemas: «C’est pas tes oignons»...

   Neste livro temos a cebola pessoal de Günter Grass.

   Mas será que esta sua cebola c’est absolument pas nos oignons? Será que lhe diz respeito a ele, e só a ele, que a vai descascando e acertando as suas contas?

   Em cada cebola pessoal não há como não estarem incorporadas camadas coletivas. E cada vez mais este mundo em que vivemos é uma coletiva cebola em que todos estamos implicados.

   Sendo assim, talvez sejamos capazes de ver, na translucidez das camadas deste livro, não só o homem que o escreve, mas os comportamentos humanos, o ser humano, o Homem, acerca do qual Sófocles escreveu: «Há muitas coisas terríveis, mas nenhuma mais terrível do que o Homem.» E já que do que é terrível falamos, falemos, então, de quão terrível é esse momento de perda da infância, o momento da adolescência, quase um segundo nascimento. Réplica do choro natal, o grito de afirmação adolescente.

   Atirado ao desconhecido instável, que esteio encontrou o rapaz Günter Grass para se afirmar? Ai dele, que viu as Waffen SS, braço armado das SS, tropa de elite, guarda de Hitler, comandada por Himmler, como seu lugar de afirmação!

     Os adolescentes são elos fracos que se deixam facilmente soldar às cadeias do mal. Soldado a uma cadeia de horror, o rapaz Günter Grass inicia um caminho terrível que, neste livro, não esconde, não sonega, não disfarça: descasca cruamente atingindo-nos o olhar de leitores.

   Interrogamo-nos, ponderando o valor relativo que o contexto de guerra, de caos, de abismo, nos leva a ponderar?

   Interrogamo-nos, conscientes do peso absoluto, supratemporal, daquilo a que chamamos Humanismo, com um olhar que absolutiza e condena indelevelmente o que é desumano?

     Todos trazemos connosco o rasto das nossas vidas, mais secretas, menos secretas, que, às vezes perante nós, às vezes perante os outros, vamos dessecretizando. Num artista, num escritor nobelizado, porém, a exposição das secretas camadas da sua cebola-vida é enorme, é escândalo. No caso de Günter Grass, há uma vida adolescente e jovem dolorosamente guardada dentro de si, enquanto o mundo, algum mundo, o destrói, o condena, o executa no patíbulo da sua consciência moral. Escritor maldito? Não, não chegou a alcançar esse estatuto. Mas, da sombra a toldar a luminosidade do seu génio artístico, não se livrou. O tempo ludibria as consciências trocando lugares entre o que é defensável e sensato e o que é condenável e filho da loucura. O tempo da adolescência não é igual ao da idade madura: nem o pessoal nem o histórico.

   Tem a cebola um núcleo permanente? Ou é apenas um conjunto de camadas sobrepostas? Há, na cebola-vida de Günter Grass, um núcleo essencial cuja substância as várias camadas vividas não afetam? Há, nele, uma consciência ética permanente e manifestada neste livro? Poderemos ler este livro, deixando de lado as camadas mais problemáticas, política e civicamente escandalosas, e centrar-nos, por exemplo, na sua caminhada de artista plástico e escritor? Ou na teia das suas relações pessoais, amorosas, familiares? Ou na geografia e sociologia dos lugares/tempos que vai atravessando? Ou na visão terrífica da guerra e do seu rasto de consequências, independentemente do lado e da condição de quem a narra?

     Ou este será para sempre um livro negro?

     Este livro levanta a grande questão, que permanece, das relações entre a arte e o mal. Questão que lemos, por exemplo, em Hannah Arendt e em George Steiner.

   Como cresceu a natureza de artista/escritor reconhecido e admirado em todo o mundo, num homem que combateu nas SS hitlerianas defensoras do monstro assassino? Como pôde ter sido José Saramago amigo deste homem?

   Temos, de novo, a recorrente questão da relação artista/homem, velho tema que tanta perplexidade nos causa. Aqui de algum modo remido pela idade muito juvenil? Erro de juventude, posteriormente resolvido? É este livro um expoente de coragem redentora? Livro fácil/difícil para o seu autor? Louvamos a coragem da confissão ou acusamo-la de tardia?

     Cada ser humano não é só feito de luz, sabemos. Há um lado negro na vida de Günter Grass, sabemos. Mas, apesar das manchas indeléveis, somos capazes de lhe ler os livros, de lhe admirar a sua arte literária e plástica? Ou rejeitamo-lo liminarmente, depois de lermos este desatar de nó difícil, feito das camadas da sua cebola pessoal?

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por Maria Almira Soares às 18:08

Sexta-feira, 29.12.17

SUBIR O TEMPO À PROCURA DA INFÂNCIA

O meu conto Subir o tempo à procura da infância está na página 139 da Antologia, editada pelo Centro Mário Cláudio, A Criança Eterna

 

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       e começa assim...

     José Vicente, o filósofo, andava a sentir-se velho e, para se distrair dessa perturbante sensação, decidira seguir o conselho do Mendes, o seu melhor amigo. Em vez de ficar dias inteiros encafuado em casa a escrever, passara a caldear a sombria intensidade da escrita com frívolos passeios, mais ou menos diários, pelas sossegadas ruas das redondezas do bairro lisboeta onde morava. Não o fazia com grande convicção e os resultados eram efémeros. Acabava o passeio, terminava a distração, voltava a perturbação. Em todo o caso, o filósofo persistia e lá ia deixando que as pequenas curiosidades da vida das ruas lhe desviassem a atenção da irrefutável ameaça que obsessivamente o assaltava: no tempo futuro que viesse a ter, tudo em si se encaminharia, sem paragem nem regresso, para um progressivo fim. Em suma, o filósofo estava, já não à porta de uma idade onde tanto resistira a entrar, mas dentro dela, da velhice, e ninguém estaria em condições de retirar esse peso dos seus ombros já um pouco curvados. Só mesmo o Mendes, sempre lesto em não ficar calado, para, perante o suspiro envelhecido do amigo, não hesitar em passar-lhe a receita: menos sessões de escrita-pensamento-análise de ideias; mais andanças, passeios, distrações de exterior. Conhecia tão bem as ligeirezas do Mendes, o filósofo! Mas deixou-se embarcar no pródigo conselho do amigo que talvez até nem fosse assim tão irrazoável: remexer em problemas insolúveis só os agrava. Esquecer talvez não fosse a pior aspirina para a doença incurável da velhice. Se a vencer não podes, foge dela, da morte. E, de facto, olhar o imparável filme das ruas, sem propósito nem objetivo, embalava-o, adormecia-o. Precisava de berço, de inconsciência, de, pelo menos durante os seus passeios, ser a criança que olha o mundo e se espanta.

 

Pelo meio, é assim...

 

   Iam a pé a casa do Mendes que não morava muito longe. Iam andando e conversando. De momento, José Vicente não estava descontente com o teor da conversa. Falavam de livros. O Nuno, quando chegara, trazia um livro, um desses álbuns de divulgação histórica para crianças sobre a biblioteca de Alexandria.

— Aquele livro que tu trazias…

— O da biblioteca de Alexandria?

— Sim, tu…

— Outro dia, vi na Net coisas fantásticas sobre a biblioteca de Alexandria.

— Ah, na Net…

— Tu não gostas da Internet?

— Sim, gosto, mas… Então, tu não sabes o que é um filósofo?

— Pois não.

— Um filósofo é alguém que gosta muito de saber.

— Ó avô, há mais filósofos como tu?

— Há, claro que há, e já há muito, muito tempo. Olha, no tempo da biblioteca de Alexandria, já havia filósofos. E muito antes, até.

— Não sei o nome de nenhum filósofo, sem ser o teu.

— Sabes nomes de quê?

— De jogadores de futebol, de cientistas, de músicos… Vá lá, diz lá o nome de um filósofo.

 

E acaba assim...

 

... O filósofo meteu de novo a mão à primeira gaveta de onde tirou um saquitel de cetim grosso e coçado, de um cor-de-rosa carregado mas já descolorido nas velhas dobras. Desenlaçou a fita de seda que o fechava e virou-lhe o conteúdo sobre o tampo da cómoda: o grosso cordão de ouro escuro, as arrecadas e uma chave de feitio arcaico. Pegou na chave, meteu-a no bolso das calças e voltou a repor aqueles tesouros na gaveta. Depois, entrou no quarto, distraidamente encheu com alguma roupa o seu habitual saco de viagem, apanhou umas coisas na casa de banho e um ou dois livros pousados por ali, vestiu o casaco e, sem olhar para trás nem dar atenção ao telemóvel que estava a tocar, saiu acenando a uma ideia. Adeus, Nuno, podes ir, podes ser.

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por Maria Almira Soares às 17:15

Sexta-feira, 08.12.17

IMPREGNAÇÃO E METAMORFOSE

         Numa era em que, nos discursos, o tema da escola é favorecido pela tecnocratização, funcionalização, a ideia do agigantamento cultural/literário do professor corre o risco de ser considerada uma entrada não pertinente. As entradas pertinentes para o tema do professor de Português tendem a ser designadas como competências: a competência de vencer a iliteracia enquanto dificuldade de conseguir servir-se de escritos da vida corrente; a competência para vencer a incapacidade de utilizar bases de dados ou ler/apreender tabelas ou esquemas; a competência para ensinar a redigir notas breves para relatórios... Incongruentes com o desígnio de educar leitores.

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     Educar o leitor é abrir uma brecha neste discurso e falar, a propósito da leitura escolar, de preponderância do professor como modelo, pensando a educação como uma metamorfose iniciada pelo desencadear de uma impregnação. Educar o leitor é desclassificar o desejo de alguém se deixar impregnar por um escrito da vida corrente, por uma base de dados; de alguém sentir o poder transformador de umas notas breves para um relatório.

     Integrar a educação do leitor num processo de mudança identitária da escola é desclassificar uma atitude educacional «sempre pronta a sacrificar o inútil à utilidade imediata.»[1]   e dar razão à asserção de Patrick Wormald: «Who wants to be useful when one can sit there looking pretty?»[2]

 

[1] LOPES, Silvina Rodrigues, Literatura, Defesa do Atrito s/l., Edições Vendaval, 2003, pág. 16.

[2] Patrick Wormald in TLS nº 5259, 16/1/2004.

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por Maria Almira Soares às 15:06

Domingo, 26.11.17

SARAMAGO

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    Os grandes romances de Saramago, como o Memorial do Convento ou O Ano da Morte de Ricardo Reis, não são rios, são maremotos provocados pelo brusco desajuste das placas em que assenta o pensamento comummente aceite. Subjacente, no seu magma profundo, é acionada uma ideia que não busca simplesmente uma solução. Autoalimentando-se, crescendo, inventa uma nova geografia. Uma resposta direta, bombástica, definitiva, transformá-la-ia num debate, não num romance. Que dispositivo é, então, esse que transforma uma grande ideia num grande romance? Que dinâmica é essa que transforma energia mental em energia literária? Que corrente capta essa ideia e a distende, conduz, temporiza, disjunta? Que processo a vai fazendo avançar até que se esgote e pare?

A mais profunda dinâmica coesiva do romance saramaguiano não pertence à linearidade da lógica temporal. O E se...?, profundo e primeiro, circula numa rede nervural complexa, boa condutora de processos de atração/repulsão, contacto, que se desmultiplicam numa sucessão de novos E se...? geradores de novos impulsos. O seu híbrido genoma, oratório e narrativo, configura uma textualização de tipo vieiriano, adoçada por um certo lirismo desviante da pura racionalidade e estimulante da defetível e cúmplice condição humana. O texto dos romances de Saramago é nervurado por trilhos onde vai correndo a seiva da sua ideia original que os mantém vivos e coerentes, literários. A arte romanesca de Saramago é a de saber vigiar, manter, adequar, a pulsação dessa seiva literária como se fosse coisa natural.

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por Maria Almira Soares às 20:24

Sábado, 25.11.17

HÁBITOS VOCABULARES ANTIGOS

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   Quando eu era criança, na minha terra, que também era ainda mais pequena do que é hoje tal qual como eu, muitas das coisas que havia a dizer, sobretudo quando se falava de doenças, mas também de outras coisas da vida, diziam-se com palavras que se foram. Não se dizia um cancro, dizia-se uma «enfermidade», fazendo vénia à doença: ... fulano tem uma enfermidade; não se dizia um AVC, dizia-se um «benzinho», trocando as voltas à tristeza: ... fulana teve um benzinho; não se dizia fulana está acamada, mas «fulana está entrevada», convocando as trevas para situação tão penosa. Nunca cheguei a saber se, quando diziam que era preciso marear/mariar a vida, o diziam com i e, então, seria fazer como as marias que seriam umas grandes fura-vidas, ou se com e e, então, seria como governar bem o barco da vida. Dizia-se canté para o espanto distanciado e estou pra minha vida para o espanto puro. A criação eram os animais de capoeira e a lavagem o comer dos porcos. O pequeno-almoço chamava-se almoço, o almoço, jantar e o jantar, ceia. O folhetim da rádio era o romance. Dizia-se: — Cala-te que está a dar o romance. Havia as donas, as senhoras e as ti’: a dona Raquelinha, a senhora Grácia, a ti’ Maria. À professora primária, chamávamos Minha senhora e, à casa de banho da escola, casinha: Minha senhora, posso ir à casinha? Quando o dia escurecia, o primeiro que acendia a luz em casa dizia sempre: — Boa noite!

 

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por Maria Almira Soares às 17:26

Quarta-feira, 22.11.17

EU FUI A ÁFRICA DE LIVRO

No próximo dia 28, na comunidade de leitores LERDOCELER, o livro bem presente vai ser este:

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   Há quem vá de avião. Eu fui de livro. E foi Chimamanda Ngozi Adichie quem me ofereceu a passagem. Fui de livro e ir de livro não é só viajar, é estar. Durante mais de setecentas páginas estive em África. Estive em África, mas não apenas no lugar, nesse lugar do mundo a que chamam África. Não estive apenas nos lugares, estive em pessoas, em desejos, em emoções, em pensamentos, em gestos, em momentos e circunstâncias. Meio Sol Amarelo levou-me à Nigéria e, de lá, a ver o mundo. Um país é sempre também quem o olha de fora, quem o ignora de fora, quem o confunde de fora. E quem dele sai para o mundo. Levou-me a ver o mundo, porque as pessoas que são um país, neste caso a Nigéria, são um mundo. Andei e sofri e rejubilei com Kainene, com Olanna, com Ugwu, com Odenigbo, com Richard... Mas, tenho de confessar, andei sobretudo com Ugwu. E sinto-me grata pela sua companhia. E sinto-me grata a Chimamanda por ter criado este meu companheiro de viagem-leitura. Andar com ele foi andar com a ternura, com a inocência, com o sonho, com o amor, com a fraqueza, com toda a gama dos sentimentos mais humanos. Ugwu é, entre os habitantes da metade de sol que ilumina este livro, uma espécie de força mansa que os mantém. Na alegria e na tragédia. Do seu lugar, no seu lugar, aparentemente subalterno, Ugwu é, para todos, direta ou indiretamente, uma referência de bravia pureza e de ânsia de bem. Agradeço a Chimamanda ter escrito este livro e, sobretudo, ter criado este rapazinho impertinente e macio.

   Eu nunca fui a África. Mas... Depois deste livro, fico na dúvida. Há uma maneira, a da leitura, de chegar aos povos, aos problemas, à História, à morte e à vida dos diferentes lugares do mundo, quando o livro e o que nele vai escrito, se abre para nos deixar passar, para nos deixar entrar. De uma maneira simples que é, afinal, aquela que melhor nos conta a complexidade.

   Um livro profundamente humanista.

   Quando Olanna chega a Kano, a casa da tia Ifeka, eu chego com ela. Na distância de todas as áfricas — humanas, geográficas, históricas, antropológicas, sociológicas, linguísticas, que sei eu — e na proximidade de todos os lugares do mundo onde há a ternura que acolhe e festeja, eu chego também. Eu sinto-me simultaneamente nas palavras de uma Chimamanda, de um António Nobre, de um Júlio Dinis... porque comigo, ao ler, chega também o Henriquinho a casa da tia Doroteia. Quando ouço a tia Ifeka a dizer «— A nossa Olanna!» ouço também a avó do poema de Nobre: «— Qu’é dos teus olhos, dos teus braços,/Valha-me Deus! Como ele vem!» Numa realidade muito diferente, a emoção é a mesma, a qualidade do Humano é a mesma. E saber escrevê-la uma vitória.

Eu nunca fui a África. Eu já fui a África. Nomeadamente à Nigéria.

 

Maria Almira Soares

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por Maria Almira Soares às 13:35

Segunda-feira, 20.11.17

A LEITURA FICOU GUARDADA NA ARCA NOSTÁLGICA ONDE GUARDARAM OS BRINQUEDOS

 

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      Entristece-me verificar, durante encontros que tenho tido com jovens, em escolas, a complacência, a aceitação de braços caídos de inevitabilidade, perante a realidade de muitos e muitos, quase todos, desses que foram crianças leitoras muito animadas senão entusiasmadas com a leitura, se revelarem quase-fisiologicamente incapazes de ler... Os Maias. E tento articular entre si estas duas realidades exemplificativas: gostar de ler em criança e ser, em jovem, incapaz de ler Os Maias. E saltam-me algumas perguntas a que procuro responder: — Que gostar era esse? — Que incapacidade é esta?

Sou, então, tentada a encontrar respostas como estas: Ler foi para eles apenas uma coisa da infância. Naturalmente, crescer foi, neles, deixar para trás as coisas da infância, entre as quais, esses livros, lindos, em que quase tudo era desenho, objetos nostálgicos de que se lembram com um sorriso, como doutros brinquedos que tiveram, e que, para eles, nada têm a ver com a vontade, a curiosidade, que poderiam ter, de ler um livro como... Os Maias. E que leitores triunfantes muitos deles foram na infância! Os triunfos imediatos esgotam-se em si mesmos e tornam-se, talvez, mais coisa de registos estatísticos do que de ganhos humanísticos.

Conheço muitos casos destes. Fui e vou conhecendo. Pessoas que, na infância leram os seus livrinhos, mas, agora, não têm tempo, não têm dinheiro, não têm oportunidade. O que têm é muitas desculpas. Desculpas para não ler, para ler muito pouco, quase nada, para estarem desatentas dos livros, para só lerem livros breves, leves, muito iguais a si e à sua vida, muito escritos a correr, e, o pior de tudo, para não terem vontade de ler, não sentirem necessidade de ler, não sentirem a falta da leitura quando não leem, para enfim, não poderem falar, como Pessoa, dessa fantástica «maçada» que é estar e simultaneamente não estar quieto com um livro entre mãos e sob o olhar. Muitas delas, são pessoas para quem a leitura ficou cristalizada na bela prateleira dos livros de infância. Ficou aí fechada. Como a arca nostálgica onde guardaram os brinquedos.

Mas, de facto, a leitura, não sendo maçada, também não é um brinquedo.

Ser leitor em criança é muito bom, ter livros por perto em criança é muito bom, mas tem de ser uma coisa que se enraíze e produza sementes de futuro.

Penso nisto, procuro razões e atrevo-me a perguntar: — Será que isto acontece porque, um dia, quando eram crianças, no intuito bem intencionado de se corresponder à cabal satisfação do seu desejo infantil, a leitura lhes foi apresentada demasiado como um brinquedo, como um jogo? E, por isso, não chegaram a experimentar a razão daquela poética coerência de Pessoa, ao atirar a leitura como metáfora contra uma certa ideia radical, e até um pouco caótica, de liberdade? Não chegaram a experimentar suficientemente isso a que a metaforização pessoana chamou maçada? Que maçada era, essa, que não experimentaram e que talvez fosse, afinal, o verdadeiro domínio do truque necessário, a face sonegada da magia? Não foi suficiente que tivessem assistido aos passes da magia da leitura que outros tão bem para eles prepararam; teria sido necessário que tivessem tido a repetida maçada de, uma e outra vez, tentarem eles próprios fazer o truque, mesmo que — ainda atrapalhados, ainda pouco destros — a coisa não corresse na perfeição...

Penso que a montagem de um cenário excessivamente lúdico, intencionalmente facilitador da adesão à leitura, pode correr o risco de encobrir a descoberta desse outro prazer nem sempre fácil, o do contacto pessoal com a autenticidade de um livro.

Outras formas de facilitação da leitura na infância poderão ser também causa do problema que estou a considerar: a escolha da excessiva simplificação do próprio livro... a restrição do seu vocabulário àquele que é garantidamente já conhecido das crianças... a retirada total da frase longa cujos meandros exigiriam percursos de atenção mais complicados... a negação de lugar, na intriga, a mais uma ou outra personagem que viria complicar o acompanhamento da história... a invenção de um caminho excessivamente curto para o desenlace... ou até de desenlace nenhum, em prol da opção por um contínuo enfileiramento de situações engraçadas e coloridas... Em suma, a opção por um esforço de simplificação excessiva na composição de histórias infantis.

   Todos sabemos que, com as crianças, esta coisa da leitura, pura e dura, pode não ser fácil, pode nem sempre correr bem. Todos estamos conscientes de que não há, no contexto nem no histórico da vida portuguesa, grandes factores propiciatórios da leitura. A consciência destas realidades pode levar-nos a desistir de, improdutivamente, tentar ainda forçar esse contexto e esses factores, passando, pelo contrário, a adaptar-nos a eles, passando a fazer algumas cedências. Somos sensíveis à agressividade da competição com tantos outros objetos de desejo por parte das crianças; somos tentados a entrar em competição com tantos focos de entretenimento que por aí andam e, até, a inseri-los no seio de atividades de leitura.

   Mas a verdade é que ler é uma coisa muito diferente de assistir à projeção de um vídeo, de jogar um jogo de computador, de manipular outros objetos de entretenimento semelhantes, reais ou virtuais. E, sobretudo, a leitura não é puro entretenimento. A leitura precisa mais de nós, pede-nos mais. Tem, a mais, esse tal quid da «maçada» pessoana de precisar profundamente de nós.

 

Maria Almira Soares

(Extratos da palestra proferida na Biblioteca Municipal de Ovar, no âmbito de «LEIA — Livros, Encontros, Ideias, Autores» — Jornadas da Rede de Bibliotecas de Ovar, em 30 de junho de 2017.)

 

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por Maria Almira Soares às 20:27


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