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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)


Segunda-feira, 16.07.18

ELES NÃO CONSEGUEM LER OS MAIAS

Os-Maias.jpg

    Não é não querem, é não conseguem, o que se ouve. Rapidamente, aludem-se as causas e ouve-se, então, falar de factores distrativos ou substitutivos, como a Internet, as redes sociais, a preguiça favorecida pela contextual facilitação, a agitação da vida atual que não se compadece com a quietude e o silêncio da leitura... Perante estas alusões, ponho-me a pensar em gente que intensamente se serve da Internet, que convive no Facebook, que venera os seus momentos de preguiça, que vive também na agitada vida atual e, no entanto, lê, lê muito, lê muitos e grandes romances. Sei-o por experiência própria e sei que há muita gente com a mesma experiência. Gente que lê e que sobretudo, quando não lê, lhe sente a falta, tem pena. Porque o problema não é não ler por esta ou por aquela causa pontual ou sazonal. O problema é não ler. O problema não é, numa curva de pensamento, que até pode ser poético, soltar um resmungo de maçada sobre a leitura. O problema é a leitura tornar-se uma maçada, o problema é afastar a leitura como uma maçada. É um erro de perspetiva colocar a leitura em antinomias como ler vs. utilizar a Internet, ler vs. estar no Facebook, ler vs. preguiçar, ler vs. estar presente nos desafios constantes do viver atual. É um erro, porque estas coisas não são comutáveis no mesmo lugar e função. Certo é ver a complementaridade e a frutuosa integração de tudo isso num conjunto cujas partes reciprocamente se provocam. Ler ou não ler não é uma mera questão de ter ou não ter tempo.

    Se eles não leem um grande romance como Os Maias, não é substancialmente por essas causas, é muito simplesmente porque não sabem.

   Eles não sabem, não aprenderam, não foram iniciados nas artes de ler um grande romance.

   Tiveram algumas, ou mesmo muitas, experiências de leitura na infância, sim, uma ou outra experiência de leitura muito fácil na adolescência, sim, mas isso era toda uma outra relação com o livro que não encontrou o caminho para o que agora se lhes pede.

   Múltiplos factores fazem com que ler não seja sempre a mesma coisa e, dentre eles, salienta-se a própria natureza daquilo que se lê. Ler, por exemplo, uma ‘coisa’ ligeira como O Código da Vinci de Dan Brown, em que logo no primeiro curtíssimo parágrafo alguém arranca um quadro da parede do Louvre e logo cai em meio do estrépito de uma pesada grade de ferro que tomba, do estremecimento do soalho e do alarme que toca... é muitíssimo diferente de ler um grande romance como, por exemplo, O Leopardo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa e, ao primeiro passo da leitura, estar sob uma mansa e velha jaculatória em latim (Nunc et in hora mortis nostrae. Amen.), no seio de uma família que, doméstica e pacatamente, acaba de rezar o terço.

   Mas eles não sabem, não aprenderam a saber, nada disso. Não sabem como suspeitar da riqueza de imaginárias vivências exaltantes, a serem reveladas mais adiante, que esse princípio em tom de reza encerra. Não sabem e desistem.

   Põem-lhes nas mãos Os Maias e dizem-lhes agora lê.

   Como se ler fosse, indeterminada e simplesmente, seguir palavras umas atrás das outras. Como se ler um livro fosse só começar na primeira palavra e ir sempre seguindo até à última. Como se não houvesse a arte de ler cujo domínio se pode sempre ir enriquecendo. Como se ler um romance, com gosto e saber e proveito, não fosse toda uma sabedoria que a experiência continuada da leitura nos dá.

   Mas eles — que, da experiência da leitura, se se lembram, é «daquelas páginas em que uma maçã ia sendo desenhada com várias cores e...» ou daquelas histórias que não saem da espiral de cenas espetaculares, de golpes de magia, de surpreendentes missões em série, apoiadas/combatidas por campos opostos que se digladiam até ao fim — eles que estão completamente imersos no choque audiovisual, ao embate no primeiro longo parágrafo descritivo do romance de Eça de Queirós, param e rejeitam.

   Param, porque não estão a ver para que serve aquilo das primeiras páginas. Não estão a ver para que é que aquilo serve nem em que é que aquilo vai dar. Não sabem sopesar o seu valor relativo e estratégico. Sem capacidade relacional experimentada na leitura de histórias densas e extensas, pensam aquilo em bruto, em absoluto. Não lhe veem o encaixe para novidades futuras. Aquilo imobiliza-os como se fosse uma coisa imutável, como se o livro fosse ser todo assim. E, como aquilo, só por si, não os atrai, não dizem maçada, porque não têm o hábito da palavra, dizem: — Seca, chatice. Os Maias são uma seca.

   Eles, infelizmente, não são fruto de um continuado acompanhamento das progressivas exigências das leituras, que naturalmente lhes iria pedindo a sua progressiva idade. Não souberam encontrar o caminho sozinhos — são sempre poucos os que o fazem — mas também ninguém lho mostrou, pelo menos com eficácia. Não fizeram, depois das leituras da infância, aquisições experienciais que pudessem redundar, chegada a altura, em saber ler uma história extensa com muitas personagens e lugares e com diversificadas ações e com passagem demorada do tempo e com transformação complexa das emoções. Tudo isto organizado segundo uma estratégia e uma linha articuladora que dá a cada momento, a cada sequência, um valor relativo na pluralidade de todos os outros e no global significado da obra. Olham para o romance como um amontoado de palavras que terão de ‘encaixar’. Impossível! Impossível, sim. Eles não sabem que ler um romance, é estar sempre a pôr hipóteses, a antecipar, a fazer perguntas, a desconfiar: — ... mas que é que vem agora cá esta fazer? — ...mas porque é que me levam agora para esta terra? — ... mas porque é que de repente há uma mudança assim? Ninguém lhes ensinou que a arte romanesca está cheia de ardilosos indícios; que, em cada momento, o romance não diz tudo desse momento; que o romance não se vaza sobre o leitor como um saco cheio da história; que, ao leitor, compete desconfiar do que lhe vai sendo servido, acreditando, sim, em segundas e terceiras intenções.

   Alguém que até aí só leu as simples historietas infantis e outras coisas com semelhante simplicidade e linearidade, é completamente inocente perante os ardis da grande arte romanesca.

   Dão-lhes Os Maias para as mãos e dizem agora lê.

   E daí lavam as mãos. Até ao momento de lhes terem de fazer saber que o Dâmaso é uma personagem-tipo social, que a infância de Carlos é contada em analepse, que o Jantar no Hotel Central é um quadro de crónica social, que a cor dos olhos de Pedro, as parecenças de Carlos com a mãe de Maria Eduarda e tal e tal são omina, indícios de tragédia. Mas eles não sabem verdadeiramente quem é Carlos nem Dâmaso nem Pedro nem Maria Eduarda, nem o que é o Hotel Central! Não sabem, porque não leram. Mataram a leitura com ilegítimos resumos em que a estratégia narrativa original é totalmente desmembrada para ser alinhada na mesa de morgue que esses resumos são.

   A história alisada numa sequência linear, ah, isso eles sabem ler! É só o que a sua experiência — ou inexperiência — de leitores lhes permite.

   Assim, matando a leitura do romance, eles sabem ler.

   Ninguém lhes disse que ler um romance é ir tendo nas mãos e ir seguindo um mapa do tesouro; que toda a grande intriga tende a esconder um mistério de que é preciso ir desconfiando. Ninguém os alertou para que, se Eça de Queirós optou por abrir o romance com abundante descrição de Afonso no seu palacete, tudo pronto, tudo belo, tudo habitado de esperançosas expectativas, é dever do leitor sábio desconfiar da permanência de tão luzida cena. Ninguém lhes disse que, se forem espiar o romance lá para perto do seu fim, hão de encontrar o mesmo cenário em tom de ruina física, estética, moral. E que a sua função de leitores é a de descobrirem o caminho entre a sombra da luz e a luz da sombra. É a de descobrirem que aquele romance, Os Maias, é afinal o romance da destruição dos Maias, da destruição moral dos Maias. Ninguém lhes disse que a sua função de leitores é a de lançarem a si mesmos o alarme: — Como vai ser possível destruir este potentado de firmeza e esperança que é Afonso e a sua vida no Ramalhete? — Quem o fará? — Como? — Com que consequências? Ninguém lhes disse que, alvoroçados por estas incríveis hipóteses, a cada nova personagem, a cada novo encontro, os taxarão de suspeitos de cumplicidade na destruição do prestígio dos Maias, da família Maia, e lhes seguirão no encalço. Porque ninguém lhes disse que ou a situação inicial permanece e não há romance ou, se há romance — e ele está ali para ser lido — aquela luxuriante situação inicial, minuciosamente descrita nas primeiras páginas, tem o fim encomendado e é promessa de destruição. Que curiosidade tão embotada que não se deixe espicaçar por ir ver o desastre?! E que não goste de ficar a discutir o desastre? Quem foi o culpado quem foram as vítimas?

   Esta orientação, se a houver, será também um impulso para levar cada leitor a, naturalmente, ir estendendo a história da sua própria leitura a outros leitores, partilhando interrogações e descobertas, sentindo-se parte do cacho de leitores do mesmo livro. Lê-lo poderá ser, então, sentir a emoção de uma forma de pertença: a de, pela leitura, vir ocupar um lugar de proximidade àquele clássico já tão lido em tantos tempos e lugares e por tão diferentes leitores.

   O leitor experiente sabe que o autor não dá ponto sem nó, sabe que há uma pedra no sapato de cada momento da história que nos conta. Sabe que, sem mal, sem sofrimento, não há romance. Sabe que até a boa alma do Júlio Dinis teve de forjar alguns conflitos entre as boas almas das suas personagens para conseguir armar as suas histórias em romance. É preciso dizer-lhes que eles, leitores d’Os Maias, são os donos de perguntas como estas, desconfiadas e até movidas por alguma maldadezinha de leitor: — Vamos lá ver, Carlos da Maia, «distinto e brilhante sportman», viajado e culto, oriundo de boas famílias, como é que te aguentas nesta pasmaceira hipócrita de Lisboa...?

   É preciso dizer-lhes que, se a extensão das sequências iniciais estiver a incomodar a sua curiosidade, porque não saltar, porque não folhear umas páginas e encontrar-se de repente com um suicídio, o de Pedro, e pensar aqui há gato; descobrir a negreira Maria Monforte; rir-se de um bajulador insuportável e ridículo chamado Dâmaso...

   É preciso dizer-lhes que é sempre preferível encontrar razões para voltar atrás do que ficar nas razões para não andar para a frente.

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por Maria Almira Soares às 14:03

Terça-feira, 12.06.18

NOITE DE QUADRAS

noite de são joão - desenho yana victoria garrYana Victória Garrido

 

— Porque é que és tão formosa?

Porque é que tens tanta vida?

— De manhã, como uma rosa.

À noite, uma margarida.

 

Ao passares, paraste o vento,

Da noite abriste a fundura.

Só de sonhos foi um cento

Que  te caiu da cintura.

 

Em forma de caracol,

Um fio caiu do céu.

Era um cabelo do Sol

Que o meu olhar aqueceu.

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por Maria Almira Soares às 22:49

Terça-feira, 22.05.18

W. G. SEBALD, AUSTERLITZ

 

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por Maria Almira Soares às 16:34

Segunda-feira, 14.05.18

AUSTERLITZ

Austerlitz.jpg

     Várias são as formas de a política se tornar agressão. Uma das mais vis é a do roubo da identidade. A besta política, quando emerge furiosa e mortífera, como foi o caso do nazismo, ateia o sopro da desumanização, despojando as suas vítimas do que lhes é identitário: a confiança e tranquilidade dos seus lugares, das suas casas, dos seus objetos, dos seus afetos, das suas memórias, das suas vidas. O que o monstro parece, contudo, não saber é que as suas patadas lhe sobrevivem sob o signo da infâmia e são, simultaneamente, sinais reconstitutivos do rasto das memórias espezinhadas, da identidade roubada. A identidade roubada, queira ou não queira a besta política, fica semeada no mundo.

    Austerlitz, o livro de Sebald, é a reconstituição do rasto identitário de um homem que foi/é a criança judia forçosamente separada da família e depositada num comboio do Kindertransport em fuga do extermínio nazi.

   Sebald constrói a personagem de Austerlitz com um olhar/espírito atento à psicogeografia do mundo, a partir de cuja leitura, vai fazendo a reconstituição de si mesmo.

   Neste livro, a história contada equilibra-se, comovente, entre a vontade narradora de si de um homem que se busca e uns ouvidos que no-la vão remetendo enquanto a sabem ir acolhendo.

 Seguimo-la, e viajamos; seguimo-la, e aprendemos; seguimo-la, e refletimos; seguimo-la, e emocionamo-nos.

     Desde o abandono radical presente na ignorância do próprio nome até à recuperação da imagem da mãe, Austerlitz reconstrói-se, emerge, desfaz a agonia da anulação que, em si, o nazismo tinha perpetrado.

   Na reconstrução da sua memória identitária, a observação dos lugares em que houve vida e morte, alegria e sofrimento, é essencial e, por isso, a sua narração é minuciosa. Lugares e pessoas/personagens vão renascendo ao sabor de andanças e paragens, encontros, despedidas, reencontros, coincidências, regressos.

   Austerlitz é a história de um homem em movimento, um homem que se move à procura da História, da sua história, do tesouro inalienável que, em cada um, são as pedras, os ares, as luzes, as vozes, os rostos, os abraços, com que viveu e cresceu, que lhe são memória e, por isso, vida.

   Há, neste livro, uma densa simplicidade reveladora das coisas essenciais que sempre permanecem em nós, por mais que elas, essas coisas, em nós tenham sido esmagadas. Neste livro, é da essência de um homem que se trata, de um homem vítima da pata política do mal, neste caso, a pata do monstro nazi.

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por Maria Almira Soares às 13:21

Sábado, 28.04.18

HISTÓRIA BREVE DE UM NÃO-LEITOR

Estilo-europeu-Criativo-Retro-nostalgia-livros-Est

 

     Era uma vez um Não-Leitor.

     Não-Leitor vivia cego e surdo para tudo o que fosse livro e leitura, principalmente leitura de literatura. Em algum momento da sua vida, algum mecanismo parasita se instalara em alguma parte de si deixando-o em denegação da possibilidade de ler. Ou, então, tratara-se do crescimento, do avolumar de alguma longínqua má vontade que, alastrando, lhe veio a ocupar a vida toda em modo de não-leitor.

     Chegara o Não-Leitor a um ponto tal do seu estado de não-leitura, que nem sequer se sentia interpelado por nenhuma hipótese, ainda que ténue, de ler, por exemplo, um conto, um romance e ainda muito menos um poema. Passava pelos livros sem os ver, indiferente, como um vegetal. Cortava, de imediato, a sua participação em qualquer conversa em que o tema da leitura pudesse estar embrionário. Dava-se com gente que não lia. Deus o livrasse de assistir a qualquer programa de televisão (dos pouquíssimos que havia) sobre livros e leitura. Ou de estar presente em qualquer sessão com alguma componente respeitante a livros, por mínima que fosse.

   A sua mulher, que também não lia, tinha, por razões de ordem decorativa, posto uma meia-dúzia de livros num vão de um móvel livre de bibelots. Deixou-os estar. Para ele, eram só exterior — bibelots também.

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por Maria Almira Soares às 14:37

Sexta-feira, 27.04.18

O PALÁCIO DAS QUEIJETAS

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     Em Cântico Final de Vergílio Ferreira, lemos este relato de uma cena de leitura. A cena é referida em ambiente de conversa entre professores.

     «Bom. Este moço que agora saiu é analfabeto. Peguei no soneto e li-o. Perguntei-lhe: entendeste? «Entendi, sim, senhor». «Então explica lá». «Bem, — disse ele. Isso é assim como se eu visse uma casa rica e dissesse comigo: vai lá, João, vai lá que ali há de haver pão, chouriço, vinho e queijetas. E depois eu vou lá — e nicles: não há lá nada.» E aí tem o meu amigo como este pobre analfabeto...»

 

     Os protagonistas humanos desta cena de leitura são alguém que ensina e alguém que aprende, nos extremos de um eixo cuja inclinação os diferencia pela idade, pela cultura, pelo estatuto. O outro protagonista é o texto: o soneto «O Palácio da Ventura» de Antero de Quental. A leitura dá-se. O leitor lê com o seu imaginário: onde está «palácio da ventura», lê «uma casa rica»; onde está «pompa e aérea formosura» e «ouro» lê «pão, chouriço, vinho e queijetas».

   Observando esta cena, detetamos no imaginário do leitor a presença de coisas concretas, comestíveis, apontadas pelo desejo de alcançar aquilo que a realidade lhe nega. Para ler a busca, o encontro e o desengano, presentes no soneto, o imaginário deste leitor transforma os motivos idealizados (o amor; o sonho; o encantamento) em ‘coisa’ desejada por si, sim, mas concretizada no real apetite de comer.

   Contudo, a leitura imediata do aprendiz-leitor poderia ser alargada, se...

   Vejamos:

   O aprendiz-leitor abre o seu imaginário, mas o autoinstituído mestre da leitura não.

O mestre limita-se a rejeitar a leitura do aprendiz: «pobre analfabeto».

   Se esta fosse uma cena de oficina de leitura e não de puro magistério, haveria, por exemplo, de continuar assim:

— Ah, sim? É nisso que pensas? Em «pão, chouriço, vinho e queijetas»? Pois eu, ao ler este poema, ponho-me a imaginar que o «cavaleiro andante» julgava encontrar naquele «palácio encantado» a bela rapariga, pela qual se apaixonara e, deste modo, a felicidade...

— Sim, mas... porque é que ele não podia sonhar com uma mesa posta de coisas boas?

— Poder, podia.. ou podes tu, mas, já viste, experimenta lá a olhar para aqui, «paladino do AMOR» e, para ali, «a VENTURA» ou seja a felicidade... O que é que vês? Eu, quando li isto, imaginei logo a felicidade de amar e ser amado!

— Mas isso é porque é um «palácio» e eu pensei, foi, numa «casa rica». Eu nunca vi um palácio...

— Sim, é verdade... Mas podes imaginar. E podes imaginar o amor do cavaleiro dentro do palácio, julga ele... Ora, experimenta lá pensar em «portas de ouro», «fulgurante», «pompa», «formosura». O que é que vês?

— É ainda mais maravilhoso do que uma casa rica...

— É um palácio! Hás de ‘ver’ palácios noutros textos que leias... Sabes porque é que eu gosto de ler este poema?

— ...

— Deixo-me levar pelo ritmo de galope do cavaleiro... deixo-me inebriar pela pompa e pelo ouro exteriores... e, de repente, aprendo que...

— Que lá dentro é ao contrário. Este poema é muito triste!

— É, é. Tanto esforço... e...

— Uma grande desilusão.

— Pode ser que o cavaleiro recomece noutro caminho, noutro sentido...

— Sem riquezas por fora... mas com coisas boas lá dentro. Assim, não havia desilusão.

— Pois, não sabemos. Aqui, ficamos num profundo desengano...

Etc., etc., etc.

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por Maria Almira Soares às 20:52

Quarta-feira, 04.04.18

O LEITOR A HAVER

images.jpgEliseu Visconti

 

   Era uma vez um Menino que, sem ninguém dar por isso, começava a ser leitor. Não tinha ainda idade nem vontade de aprender a ler. Para o Menino, o melhor da vida era brincar. E brincar era simultaneamente sentir. Sentir cores, luzes, cheiros, gestos, movimentos, texturas e tudo isso misturado. Brincar sob sol aberto e chão coberto de ervas, flores, árvores... ar livre. O Menino começava a ser um leitor que ainda não lia. Sob a bênção do poeta que nos não larga, poderemos chamar-lhe um leitor a haver. Nada sabia de letras, mas, em cada momento de vida, crescia em imaginário. Adorava o faz-de-conta. E nesse seu fazer-de-conta tudo no seu mundo se transformava em situações inventadas cheias de palavras e de coisas postas e repostas sem limitações de realidade. Nesse seu fazer-de-conta as coisas e coisinhas que lhe vinham à mão transformavam-se magicamente em tudo o que ele queria, em tudo o que ele via por uns olhos de desejo de alegria: fosse um pedacinho de papel rasgado de jornal amarelecido perdido no fundo de uma gaveta, sobre o qual, sem nada entender do que lá se dizia, saboreava palavras misteriosas que ouvira sem as entender também; fosse uma bela e perfeita folha de videira que punha a boiar no rego da água e era já um barco, uma jangada, um peixe...; fosse uma pedra, arredondada pelo tropeço dos tamancos que faziam os caminhos, atirada aos ares e logo transformada num belo rasgão do céu azul. O Menino pequenino não lia, não sabia de livros, nem sabia se outras pessoas — dentre os pais, dentre os avós, dentre os irmãos — tinham livros. Mas sabia de histórias: das que inventava e das que ouvia. Todos, à sua volta, estavam sempre a contar histórias uns aos outros: infelicidades, desejos, segredos, espantos, maldades, notícias boas, notícias más, partidas e regressos, alegrias, viagens, mortes e vidas. E ele ouvia muito bem. Não as entendia, essas histórias que enchiam o mundo em volta. Não as entendia, mas, pelo modo como os corpos e seus gestos e as vozes e suas demoras as contavam, pareciam-lhe ser saborosas. Sabores doces e ácidos, picantes e brandos que, no Menino, iam plantando o leitor a haver. Saboreava a mestria das vozes dos outros e ficava a saber, ainda que imperfeitamente, de histórias e mesmo de réstias de palavras que não chegavam a formar nenhuma história, mas eram boas de sentir na boca e nos ouvidos.

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por Maria Almira Soares às 13:33

Sábado, 10.03.18

ANTES QUE O SOL SE LEVANTE

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Mote

Antes que o Sol se levante,
vai Vilante ver seu gado,
mas não vê Sol levantado
quem vê primeiro a Vilante.

Voltas

É tanta a graça que tem
com üa touca mal envolta,
manga de camisa solta,
faixa pregada ao desdém,
que se o Sol a vir diante,
quando vai mungir o gado,
ficará como enleado
ante os olhos de Vilante.


Descalça, às vezes, se atreve
ir em mangas de camisa;
se entre as ervas neve pisa,
não se julga qual é neve.
Duvida o que está diante,
quando a vê mungir o gado,
se é tudo leite amassado,
se tudo as mãos de Vilante.

Se acaso o braço levanta,
porque a beatilha encolhe,
de qualquer pastor que a olhe
leva a alma na garganta.
E inda que o Sol se levante
a dar graça e luz ao prado,
já Vilante lha tem dado,
que o Sol tomou de Vilante.

                       Francisco Rodrigues Lobo

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por Maria Almira Soares às 14:58

Quarta-feira, 14.02.18

O AMOR

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 Sandro Botticelli, O Nascimento de Vénus  (pormenor)

 

Quando Amor nasceu,

Nasceu ao Mundo vida,

Claros raios ao Sol, luz às estrelas.

O Céu resplandeceu,

E de sua luz vencida

A escuridão mostrou as coisas belas.

Aquela, que subida

Está na terceira esfera,

Do bravo mar nascida,

Amor ao Mundo dá, doce amor gera.

Por amor se orna a terra

D’águas e de verdura,

Às árvores dá folhas, cor às flores.

Em doce paz a guerra,

A dureza em brandura,

E mil ódios converte em mil amores.

Quantas vidas a dura

Morte desfaz, renova:

A fermosa pintura

Do Mundo, Amor a tem inteira, e nova.     

 

 

Ninguém tema seus fogos,

E chamas furiosas.

Amor é tudo, amor suave, e brando,

Sujeito a brandos rogos,

As águas amorosas

Dos olhos com brandura está alimpando.

Douradas, e fermosas

Setas n’aljava soam

À vista perigosas;

Mas amor levam, dos amores voam.

Amor em doces cantos,

Em doces liras soe,

Torne seu brando nome este ar sereno.

Fujam mágoas, e prantos,

O ledo prazer voe,

E claro o rio faça, o vale ameno.

No terceiro Céu toe

D’amor a doce lira,

E de lá te coroe,

Castro, de ouro o grã Deus, que amor inspira.

 

António Ferreira, Castro

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por Maria Almira Soares às 13:03

Quinta-feira, 25.01.18

«SIM, CHOREI.» — respondeu Günter Grass.

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   «Sim, chorei.» — respondeu Günter Grass a quem lhe perguntava como foi esse processo de, aos setenta e oito anos, conseguir chegar a esse rapaz que, aos dezassete, se fez voluntário das Waffen SS de Hitler. «Não fiz perguntas, não fiz perguntas; chegar a esse rapaz foi um processo doloroso» — disse também.

   Enquanto vamos lendo Descascando a Cebola, talvez a impressão que mais vai permanecendo seja a da dor que — mais intensa, menos intensa — vai acompanhando este descascar da memória. É a dor de ir existindo e sobrevivendo ao longo de vinte anos, em função de contextos sempre difíceis e complexos. Às camadas desta cebola não faltam sofrimentos de natureza e espessura variadas.

   Se escolhemos a cebola como metáfora do globo em que se vão inscrevendo as variadas regiões da nossa vida, sabemos, desde logo, que, ao descolá-las, havemos de sentir dor. Nunca a cebola será doce para o nosso olhar, para os nossos sentidos, mas o sentir da sua agressividade não é uniforme, é pessoal. Por alguma razão têm lá os franceses aquela expressão com que enxotam os outros dos seus problemas: «C’est pas tes oignons»...

   Neste livro temos a cebola pessoal de Günter Grass.

   Mas será que esta sua cebola c’est absolument pas nos oignons? Será que lhe diz respeito a ele, e só a ele, que a vai descascando e acertando as suas contas?

   Em cada cebola pessoal não há como não estarem incorporadas camadas coletivas. E cada vez mais este mundo em que vivemos é uma coletiva cebola em que todos estamos implicados.

   Sendo assim, talvez sejamos capazes de ver, na translucidez das camadas deste livro, não só o homem que o escreve, mas os comportamentos humanos, o ser humano, o Homem, acerca do qual Sófocles escreveu: «Há muitas coisas terríveis, mas nenhuma mais terrível do que o Homem.» E já que do que é terrível falamos, falemos, então, de quão terrível é esse momento de perda da infância, o momento da adolescência, quase um segundo nascimento. Réplica do choro natal, o grito de afirmação adolescente.

   Atirado ao desconhecido instável, que esteio encontrou o rapaz Günter Grass para se afirmar? Ai dele, que viu as Waffen SS, braço armado das SS, tropa de elite, guarda de Hitler, comandada por Himmler, como seu lugar de afirmação!

     Os adolescentes são elos fracos que se deixam facilmente soldar às cadeias do mal. Soldado a uma cadeia de horror, o rapaz Günter Grass inicia um caminho terrível que, neste livro, não esconde, não sonega, não disfarça: descasca cruamente atingindo-nos o olhar de leitores.

   Interrogamo-nos, ponderando o valor relativo que o contexto de guerra, de caos, de abismo, nos leva a ponderar?

   Interrogamo-nos, conscientes do peso absoluto, supratemporal, daquilo a que chamamos Humanismo, com um olhar que absolutiza e condena indelevelmente o que é desumano?

     Todos trazemos connosco o rasto das nossas vidas, mais secretas, menos secretas, que, às vezes perante nós, às vezes perante os outros, vamos dessecretizando. Num artista, num escritor nobelizado, porém, a exposição das secretas camadas da sua cebola-vida é enorme, é escândalo. No caso de Günter Grass, há uma vida adolescente e jovem dolorosamente guardada dentro de si, enquanto o mundo, algum mundo, o destrói, o condena, o executa no patíbulo da sua consciência moral. Escritor maldito? Não, não chegou a alcançar esse estatuto. Mas, da sombra a toldar a luminosidade do seu génio artístico, não se livrou. O tempo ludibria as consciências trocando lugares entre o que é defensável e sensato e o que é condenável e filho da loucura. O tempo da adolescência não é igual ao da idade madura: nem o pessoal nem o histórico.

   Tem a cebola um núcleo permanente? Ou é apenas um conjunto de camadas sobrepostas? Há, na cebola-vida de Günter Grass, um núcleo essencial cuja substância as várias camadas vividas não afetam? Há, nele, uma consciência ética permanente e manifestada neste livro? Poderemos ler este livro, deixando de lado as camadas mais problemáticas, política e civicamente escandalosas, e centrar-nos, por exemplo, na sua caminhada de artista plástico e escritor? Ou na teia das suas relações pessoais, amorosas, familiares? Ou na geografia e sociologia dos lugares/tempos que vai atravessando? Ou na visão terrífica da guerra e do seu rasto de consequências, independentemente do lado e da condição de quem a narra?

     Ou este será para sempre um livro negro?

     Este livro levanta a grande questão, que permanece, das relações entre a arte e o mal. Questão que lemos, por exemplo, em Hannah Arendt e em George Steiner.

   Como cresceu a natureza de artista/escritor reconhecido e admirado em todo o mundo, num homem que combateu nas SS hitlerianas defensoras do monstro assassino? Como pôde ter sido José Saramago amigo deste homem?

   Temos, de novo, a recorrente questão da relação artista/homem, velho tema que tanta perplexidade nos causa. Aqui de algum modo remido pela idade muito juvenil? Erro de juventude, posteriormente resolvido? É este livro um expoente de coragem redentora? Livro fácil/difícil para o seu autor? Louvamos a coragem da confissão ou acusamo-la de tardia?

     Cada ser humano não é só feito de luz, sabemos. Há um lado negro na vida de Günter Grass, sabemos. Mas, apesar das manchas indeléveis, somos capazes de lhe ler os livros, de lhe admirar a sua arte literária e plástica? Ou rejeitamo-lo liminarmente, depois de lermos este desatar de nó difícil, feito das camadas da sua cebola pessoal?

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por Maria Almira Soares às 18:08


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