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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)


Quarta-feira, 29.05.19

COMUNIDADE DE LEITORES «LERDOCELER» CICLO DE LEITURAS 2019-2020

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TEMA: Viajar lendo

Pela leitura é que vamos... a... Nova Iorque, Havana, Paris, Norte de África, Cabul, Patagónia...

   Ler é sempre uma viagem com dois sentidos entre autor e leitor.

   Mas ler pode ainda conduzir-nos a acrescidas viagens por lugares que são tema/cenário de histórias e percursos.

   Desde, pelo menos, a Odisseia de Homero, que testemunhamos a consanguinidade da viagem e da literatura.

   Dentre o panorama infindo de obras literárias cuja leitura nos oferece a viagem por cidades e outros lugares, a nossa comunidade de leitores lerá:

TRILOGIA DE NOVA IORQUE de Paul Auster (Leya, Coleção Essencial, Livros RTP)

O NOSSO AGENTE EM HAVANA de Graham Greene (Dom Quixote)

O JOGO DO MUNDO (RAYUELA) de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

O CÉU QUE NOS PROTEGE de Paul Bowles (Quetzal)

O MENINO DE CABUL de Khaled Hosseini (Presença)

O VELHO EXPRESSO DA PATAGÓNIA de Paul Theroux (Quetzal)

 

 

 

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por Maria Almira Soares às 13:36

Quinta-feira, 23.05.19

UMA COMUNIDADE DE LEITORES EM PLENA SELVA

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     «quando a escuridão se apossou da floresta», «O seu companheiro de vigia, perplexo, via-o percorrer com a lupa os sinais arrumados no livro». «ergueu os olhos» e «Estava rodeado de três homens»; «entregou-se então a uma explicação, à sua maneira, dos termos desconhecidos» e assim se passou «um par de horas de troca de opiniões», enquanto «A explicação do gordo complicava as coisas».

   Estava constituída uma comunidade de leitores. De modo natural. Em plena selva.

   Neste romance, Luís Sepúlveda não nos faz sentir apenas os princípios e comportamentos de uma honesta ecologia preservadora e respeitadora da floresta amazónica; abre-nos, também, os olhos para uma honesta ecologia da leitura. E, ao lê-lo, não sei se me apetece mais seguir os trilhos naturais, se os trilhos intelectuais que definem uma vida sustentável. O romance de Sepúlveda desafia-me a redescobrir e confirmar evidências desmistificadoras de tanto lugar-comum pouco pensado e amplamente propagado sobre LEITURA.

   Sigamos os trilhos da leitura:

   O primeiro trilho é o da solidão.

   Ler começa por ser um ato solitário. Exige o gosto da solidão preenchida de imaginário. Que tipo de solidão? Não, a da rejeição e do abandono, do desespero e da incapacidade. Não, uma solidão negativa, mas aquela que é consciente do seu valor como reserva de humanidade e liberdade. O Velho sabe preservar a sua solidão, necessita dela, sabe fruí-la. Nela, planta a leitura como passo para a generosidade de companhias tranquilas. A leitura distancia-o dos gestos imediatos e violentos, dos planos de posse e de conquista, do engano, da morte.

   O segundo trilho é o do puro deleite.

   A permanência num imaginário “bosco deleitoso” fora do tempo, como no ancestral texto medieval. O extraordinário sonho de navegar por Veneza e os seus canais e as suas gôndolas em plena selva amazónica e seus rios e suas canoas. O deleite da descoberta pela diferença e não pela identificação imediata.

   O terceiro trilho não é certamente o da facilidade.

   A leitura, por mais que andem por aí a facilitá-la, nunca será uma coisa imediatamente fácil. Os livros, é preciso ir à procura deles, é preciso ir buscá-los, pedi-los, encontrá-los, dar por eles alguma coisa em troca. E, para isso, é preciso vontade. Sem vontade, sem desejo, por mais que nos entupam o cenário com livros, não há leitor, não há leitura. A natureza é analfabeta. O ser humano nasce e algum tempo cresce analfabeto e não é enxertando artificialmente livros na selva primeva dos gestos humanos naturais que esses gestos se tornam os de querer ler. Na selva não nascem livros, mas pode nascer a vontade de os ir buscar. De os encontrar. Nos sítios mais improváveis. Os livros são objetos nómadas. Como canta Caetano Veloso, “os livros são objectos transcendentes/Mas podemos amá-los do amor táctil/Que votamos aos maços de cigarro”.

   O quarto trilho é o da procura.

   O gosto da procura é essencial para que haja leitor. É este trilho que leva à descoberta e ao encontro.

   O quinto trilho é o da escolha.

   Não, o do convencimento ou da persuasão, mas o da escolha.

   Neste trilho da escolha, o Velho do romance de Sepúlveda escolhe os romances de amor. E sabe porquê. Escolhe os romances que, percorrendo o sofrimento, acabam em felicidade. E sabe lê-los. Sabe qual é a sua promessa. Por isso, a sua escolha é sábia. O Velho sabe que a leitura de um romance não se abre instantaneamente, mas é uma promessa demorada. Lê-los é saber prosseguir o trilho da demora das revelações, da espera, das hipóteses, dos indícios. Um trilho de sabedoria que não desiste, que não julga nas primeiras linhas, que não desmultiplica os primeiros folheios em paisagem monotonamente igual, mas sabe emboscar o texto até que, nas suas curvas mais enigmáticas, a paisagem da história se desvende.

   O último trilho é o da cumplicidade.

   Espontânea ou cultivada. Essencial ou circunstancial. Empática ou oportunista.

A cumplicidade que faz nascer uma comunidade de leitores em plena selva.

     Que todo o movimento para a leitura parta do leitor “a haver”!

     E como se plantam leitores a haver?

     Seguindo a arte poética de Pessoa, respondamos:

     — Do mesmo modo que o velho rei D. Dinis foi o “plantador de naus” que ainda não havia. Respeitando a “noite” da ainda-não-leitura, estimulando a acuidade para ouvir o “silêncio múrmuro”, cuidando de uma ecologia intelectual e sensitiva que leve o “arroio”, o “cantar jovem e puro” a encontrar o “oceano sempre por achar”.

 

   Perante um punhado de ideias feitas sobre a leitura, este romance é uma interrogação ou uma graça ou um espinho. Abre-nos um ambiente totalmente desprovido de factores de identificação e motivação intelectual, um quadro de ações e reações imbuídas de imediatismo, violentas, bárbaras, sem mediação intelectual senão a mínima, residual, que acompanha a satisfação de gulas e medos vários, próprios do humano e do seu instinto de sobrevivência, em que o uso da palavra escrita é apenas ardilosa e abusiva burocracia e, no entanto...

   E, no entanto, aí, a leitura move-se.

   Talvez, como diz Steiner, a frequentação das Humanidades não nos salve da Barbárie, mas garante-nos uma suprema e necessária inteligência do mundo e dos homens.

   Eis a ecologia intelectual do romance de Sepúlveda: ali, na selva, o amor não estava senão pelo livro.

   Ecologicamente, Luís Sepúlveda instala o amor mediado pela leitura nos trilhos violentos e analfabetos da selva.

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por Maria Almira Soares às 14:33

Quinta-feira, 09.05.19

MEU QUERIDO LIVRINHO!

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por Maria Almira Soares às 18:49

Segunda-feira, 15.04.19

OS SESSENTA E CINCO LIVROS QUE A COMUNIDADE DE LEITORES LERDOCELER JÁ LEU

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A Balada da Praia dos Cães de José Cardoso Pires

A Cidade de Ulisses de Teolinda Gersão

A Hora da Estrela, Clarice Lispector

A Língua Posta a Salvo de Elias Canetti

As Intermitências da Morte de José Saramago

As Velas Ardem até ao Fim de Sandor Marai

As Vinhas da Ira de John Steinbeck

Astronomia de Mário Cláudio

Austerlitz, W.G. sebald

Conversa na Catedral de Mario Vargas Llosa

Danúbio de Claudio Magris

Deixem passar o homem invisível de Rui Cardoso Martins

Descascando a Cebola, Günter Grass

Errata de George Steiner

Gente Feliz com Lágrimas, João de Melo

Levantado do Chão de José Saramago

Lolita de Vladimir Nabokov

Luz Antiga, John Banville

Meio Sol Amarelo, Chimamanda Ngozi Adichie

Mrs. Dalloway, Virginia Woolf

Myra de Maria Velho da Costa

Natália de Helder Macedo

Némesis de Philip Roth

Neve, Orhan Pamuk

No Castelo do Barba Azul de George Steiner

Num País Livre de V. S. Naipaul

O Caçador de Tesouros de Le Clezio

O Cemitério de Pianos de José luís Peixoto

O Cemitério de Praga de Umberto Eco

O Coração das Trevas de Joseph Conrad

O Delfim, José Cardoso Pires

O Esplendor de Portugal de António Lobo Antunes

O Falcão de Malta de Dashiell Hammett

O Fim do Homem Soviético de Svetlana Alexsevitch

O Grande Gatsby, Scott Fitzgerald

O Homem em Queda de Don DeLillo

O Jovem Törless, Robert Musil

O Leopardo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa

O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad

O Livro do Desassossego de Fernando Pessoa-Bernardo Soares

O Mundo de Ontem de Stefan Zweig

O Retorno de Dulce Maria Cardoso

O Sentido do Fim de Julian Barnes

O Sonho do Celta de Mario Vargas Llosa

O Sonho Mais Doce de Doris Lessing

O Talentoso Mr. Ripley de Patricia Highsmith

O Túnel dos Pombos de John le Carré

O Velho que lia Romances de Amor, Luís Sepúlveda

O Vendedor de Passados de José Eduardo Agualusa

Os Teclados de Teolinda Gersão

Outrora Agora de Augusto Abelaira

Partes de África de Helder Macedo

Poemas de Luís Quintais

Por Ti de Ian McEwan

Portugal Amordaçado de Mário Soares

Portugal, Hoje – O medo de Existir de José Gil

Se Isto é um Homem de Primo Levi

Se Numa Tarde de Inverno um Viajante de Italo Calvino

Sinais de Fogo de Jorge de Sena

Sôbolos rios que vão de António Lobo Antunes

Um traidor dos nossos de John Le Carré

Uma História de Amor e Trevas de Amos Oz 

Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares

Viagem a Portugal de José Saramago

Viagem ao Fim da Noite de Louis-Ferdinand Cél

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por Maria Almira Soares às 16:03

Sábado, 30.03.19

O JOVEM TÖRLESS de ROBERT MUSIL

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   Robert Musil, austríaco, nascido em 1880, é filho de uma família da alta burguesia que lhe perspectivava a vida como carreira militar. Atraído pela questionação científica, começa por se tornar engenheiro e, mais tarde, atraído por questionações mais profundas do que as científicas, estuda Filosofia e Psicologia. Vive a experiência da guerra — é oficial na primeira guerra mundial. Tenta integrar-se no meio literário de Viena e Berlim. Escreve em jornais e revistas e torna-se funcionário da administração estatal. Em 1938, com a anexação da Áustria pela Alemanha, exila-se em Genebra onde morre a 15 de abril de 1942.

   Em 1906, escreve o seu primeiro romance, O Jovem Törless, ou melhor Die Verwirrungen des Zöglings Törless (As Confusões do Aluno Törless). Tinha vinte e seis anos. A sua grande obra, O Homem sem Qualidades, só postumamente, e incompleta, é publicada. E daí que, só nos anos cinquenta do século XX, Musil se tenha tornado conhecido universalmente.

   Na sua obra, Musil denuncia os sistemas totalitários e desmonta as estruturas autoritárias que são a sua raiz. Fá-lo, não apenas e não sobretudo, através da sua representação naturalista, mas através da análise e exposição das estratégias psicológicas, sociológicas e mentais, antagonistas do humanismo libertador. Em O Jovem Törless, denuncia particularmente as estruturas autoritárias constitutivas das mentes e atitudes bem-pensantes, acerca da educação-formação, no império Austro-Húngaro, no início do século XX. Fá-lo através da criação da personagem do adolescente Törless e das suas reações, quando confinado ao universo relacional de um internato militar. Musil experimentou sistemas autoritários quer na instituição militar quer no funcionalismo público da época: os malefícios do cumprimento cegamente zeloso do dever que destitui o homem, aparentemente virtuoso, das suas qualidades profundamente humanas como a criatividade, a liberdade, a iniciativa interventora.

     O Jovem Törless é um desses romances de formação — como O Retrato do Artista enquanto Jovem de James Joyce ou A Idade da Razão de Jean-Paul Sartre, — cujo protagonista está em viagem para a maturidade, em crescimento espiritual, moral e intelectual, sexual, desenvolvendo o entendimento de si mesmo, dos outros, do mundo. Esta personagem central é um adolescente que vive as contradições e o sofrimento de um percurso de procura da maturidade-independência, enquanto vai pisando o território de todas as inseguranças. Neste quadro, emergem anseios, urgências sexuais, sensualidade nascente, pensamento próprio, estranhamentos, perplexidades, que o situam na fronteira — ou para lá da fronteira — da submissão, do ódio, do sadismo, do masoquismo, frutos também, ou sobretudo, desse universo autoritário a que está confinado. Törless é um campo de profundas, insuportáveis tensões, no meio das quais, por outro lado, emerge a necessidade de questionação de factos, de pessoas, de linguagens.

   Törless procura o valor e o sentido da convivência da verdade/mentira, da dor/prazer, do erro/retidão e equaciona a questão fundamental: que relação necessária é essa entre o mal e o bem? Acaba, no final do romance, por ser alguém entrincheirado numa fria indiferença acomodada na desvalorização do acontecido, na formalidade e estetização da vida, no distanciamento, na demissão de juízos morais graves — consequência nefasta do que foram os anos da sua formação, essa vivência das relações humanas dominadas por estruturas autoritárias, causa do fortalecimento e da aceitação da violência sobre o outro, quanto mais não seja por omissão.

   Musil dá relevo à análise psicológica e filosófica, mas não deixa, inevitável e desejavelmente, de fazer a representação naturalista da tortura física, do abuso psicológico, do bullying, da violência sexual perpetrados sobre o mais fraco, o «nada», o ‘coisa’, Basini: por Beinberg que veste a figura do asceta moral implacável e hipócrita; por Reiting, o fascista, verdadeira personalidade autoritária que impõe a obediência, levando os colegas ao ataque, à tortura, à punição violenta do mais fraco. A significação mais profunda do romance, porém, não está nesta representação, mas na evidenciação dos factores psicossexuais presentes na mentalidade autoritária. As consequências de tais factores revelar-se-ão, posteriormente, de forma visível e total no fascismo europeu. Trata-se do ovo da serpente, da emergência do mal. Anos mais tarde, por volta de 1930 — já se adivinhava a emergência do nazismo — Robert Musil estabelece uma relação entre a essência deste seu primeiro romance e a raiz do fascismo: cidadãos comuns, pouco interventivos, com um comportamento moralmente aceite, que odeiam o seu vizinho mas nunca se esquecem de cumprimentar e agradecer, são capazes dos atos nefandos que vieram a verificar-se.

   O Jovem Törless cava ainda mais fundo no interior dos comportamentos humanos.

   Há, neste romance, um aprofundamento de ordem filosófica do papel do desconhecido e do incognoscível no mistério do ser humano, dos seus mundos e desejos inconscientes e subconscientes, através da original e eficaz metáfora dos «números imaginários», entes matemáticos inexistentes mas intervenientes no resultado que procuramos. O incognoscível do ser humano mistura mal e prazer. Subjaz ao romance e nele se manifesta a reflexão sobre a impossibilidade de conhecermos toda a banda e fundura do que somos e de, mesmo assim, avançarmos, termos de avançar, de viver, de, em todo o caso, darmos passos sobre o vazio, deixando que esses buracos negros incognoscíveis estejam lá e garantam, também, a prossecução dos nossos atos.

     O Jovem Törless trata do que acontece quando a insegurança conduz ao preenchimento, desses lugares desconhecidos de nós, por um medo extremo que conduz à violência, à aceitação do que simultaneamente nos repugna.

   Três rapazes levam a cabo ações de tortura sobre um outro, porque estão presos numa ordem psicológica de domínio/submissão que — num plano além do dos preconceitos morais — os faz afirmarem-se por comportamentos de identificação/rejeição marcam os ‘fracos’ como seres a serem oprimidos. No fim desta história, nem a religião nem a ciência nem a filosofia ajudam Törless a compreender o que viveu. Não compreende, mas avança. Reprimindo os seus próprios desejos sombrios de domínio dos outros, assume uma atitude não interventiva, moralmente distanciada, não-resistente como forma de autodefesa.

   Neste primeiro romance, estão já linhas de força fundamentais em Musil: a análise das estruturas psicológicas e políticas subjacentes à modernidade do século XX; o reconhecimento da crise da linguagem (não esquecer que Musil foi vizinho de Wittgenstein); a denúncia do mundo estereotipado. A sua leitura ajuda-nos a compreender a nossa contemporaneidade, um tempo de invasiva estandardização dos pensamentos, dos objetos, das pessoas, em que a linguagem se deteriora num punhado de abreviaturas utilitárias; a idade da globalização, da homogeneidade e da redução de quase tudo ao menor denominador comum; a idade do dinheiro, do virtual, do ‘mesmismo’. No complexo de ideias subjacentes à obra de Musil, em que ele evoca os segredos e os escândalos das cosmopolitas Viena e Berlim dos anos 20 e 30, inscreve-se a defesa do individual, do idiossincrático, do pensamento, da palavra, do ato livres.

 

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por Maria Almira Soares às 13:57

Quarta-feira, 09.01.19

O ANO DA MORTE DA LEITURA?

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      A verdade é que, mesmo quando julgamos estar muito certos do teor de uma dada situação — como por exemplo esta da rejeição da leitura por parte dos alunos — nunca será contraproducente a sua questionação, e muito mais ainda quando se trata de questões didáticas, tendo elas, como sempre têm, um flanco sempre por construir, aberto a cada maré de alunos que vem ter connosco e que tantas vezes desmente as ideias de que vínhamos enformados.

   Só num tempo-espaço de preparação e orientação da leitura em que tomaremos o pulso às suas vivências e experiências de leitores, saberemos até onde vai a razão dos nossos receios. Lembro-me, por exemplo, de uma surpresa monumental que tive quando um rapaz com ar de ser muito pouco sentimental, declarou na aula que a leitura de Amor de Perdição o fazia chorar. Insondáveis são os caminhos da leitura que não passa só pelos olhos mas sobretudo pelo coração. E, sendo a vida hoje em dia e sobremaneira entre os jovens, muito mais conduzida pelo despertar de emoções do que pelo analisar de racionalidades, talvez consigamos encontrar, em Saramago e nomeadamente neste seu romance, focos de maravilhamento que atraiam os jovens para a leitura, não obstante as suas dificuldades.

   Estou convencida de que ler é uma coisa muito mais de imaginário do que de literacia. Já uma vez ousei até escrever que existem leitores analfabetos. A identificação-reconhecimento de imaginários que nos façam vibrar emocionalmente pode frustrar a iliteracia ou a literacia muito pobre de romances do nível de O Ano da Morte de Ricardo Reis.

   Tenho para mim que há dois tipos de abordagem que, conjugados, poderão facilitar o acesso a este romance, por parte dos jovens leitores: — o da aproximação através do reconhecimento de sinais e situações frequentes e significativos nas suas vidas; e o da ênfase a dar à vertente emocional da leitura.

   Ora, para bem orientarmos os nossos alunos no encontro-descoberta do imaginário projetado neste livro e na relação emocional que esse imaginário lhes possa despertar, é precaução fundamental procurarmos aclarar a consciência — a nossa e a deles — dos contextos, epocal, grupal, pessoal em que a sua leitura se faz.

   Tratemos, pois, de apurar este conhecimento, não em abstrato, mas por via do contacto direto e continuado. Façamo-lo prevenidos de que, em cada momento, a realidade e a vida estão sempre acima dos quadros doutrinários que sobre elas se constroem.

     Dentro desta ordem de ideias, é fundamental que iniciemos o caminho para este romance com uma conversa ambientadora, que tentemos criar um ambiente de verdade e autenticidade em torno das condições da sua leitura.

   Assim, neste século XXI em que damos como certo que a apetência de ler é minguada, comecemos por dialogar com os alunos pondo claramente em cima da mesa das aprendizagens o julgamento que de si próprios fazem enquanto leitores; a rede de interesses de que fará/não fará parte, para eles, a leitura; o como vivem as leituras que conseguem/não conseguem fazer e as conclusões que daí tiram; quais são, para eles, os obstáculos e os incentivos da leitura, subjetivos e objetivos, íntimos e alheios; o lugar que ocupa a leitura na sua vida e os sentimentos que têm em relação a isso.

       Esta conversa aberta à sua revelação como leitores, criará momentos de afirmação/ negação, de expressão de si mesmos, antes que eles, sem mais discussão, pendurem o livro na frase «Vamos ter de ler aquela seca d’O Ano da Morte de Ricardo Reis».

   Como primeira entrada para a tal saída feliz que — todos sabemos — não irá ser fácil, uma boa conversa ambientadora servir-nos-á para descobrirmos/ confirmarmos o que sabemos daqueles alunos no seu contexto de leitores e para, provavelmente, durante essa conversa, a certa altura, lançarmos a frase «E que tal isto?» passando de imediato a ler em voz alta um texto (bem escolhido) de O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago mesmo sem referir a obra. E esperar por reações espontâneas. E colher essas reações.

     Em minha opinião, esta conversa ambientadora será muito preferível àquele tipo de apresentação que consiste no mero anúncio de que têm de ler o livro tal e de que ele tem de estar lido no dia x como obrigação escolar, deixando-os, depois, sozinhos com essa tarefa, para se amanharem (e desculpem-me esta palavra) como puderem.

   Tratar-se-á também de uma preparação da leitura deste romance específico, que, em função da sua condição de leitores, capte e releve perspetivas de pontes entre eles, jovens leitores do século XXI, e o livro de Saramago.

     Ora, para que esta preparação inicial seja verdadeiramente produtiva, será bom que comecemos por clarificar, em nós, a consciência que temos acerca do contexto epocal que cria entraves ao gosto e à capacidade de ler. Assim, compreenderemos melhor os nossos jovens enquanto leitores. Eles são as vítimas absolutas e desarmadas desse contexto, porque nele já nasceram. Evitemos, no entanto, dar-lhes oportunidade de o transformar em álibi para não lerem e consequente desresponsabilização do ato da leitura.

   É, pois, muito importante que o professor tenha consciência clara das linhas com que se tece o ambiente epocal, no qual vai pedir aos alunos que leiam, muito por causa até de lhe descobrir antídotos que lhe ludibriem os malefícios.

   Entre outras, essas linhas de reflexão poderão ser:

— a vivência de um tempo pouco consentâneo com o ritmo da leitura: um tempo veloz e volátil, impulsionado por induzidas necessidades de substituição rápida dos objetos de desejo ou de interesse; um tempo vivido na ansiedade da posse da coisa nova e do descarte daquilo que, muito rapidamente, se faz antigo; um tempo de insistência no que é imediatamente óbvio, acionável nem sequer já rapidamente mas momentaneamente; um tempo de ser impaciente com as demoras, pelo medo de perder as novidades nunca antes vistas ou experimentadas; um tempo em que a metáfora estar a la page (literalmente ‘estar na página’), radicada no campo semântico do livro, enraizada na experiência da leitura e com a qual significávamos ‘estar atualizado em termos de conhecimento e informação’ morreu para a expressão estar on line;

— a tendência reinante para o apagamento do antigo (e antigo começa a ser o que aconteceu ontem), para a experiência do tempo como uma sucessão de cortes e recortes, para a depreciação do que perdeu velocidade, do que está parado, adormecido, como é o caso dos livros clássicos, para a verificação da incapacidade de, perante a avalancha de novidades, manter viva a herança literária;

— a invisibilidade/pouca visibilidade social, pública, da leitura e dos livros, no espaço aqui e no tempo agora;

— a euforia da eficácia, da utilidade, do imediato conforto, que desemboca na pergunta «Para que serve?», inimiga da leitura de um clássico, porque se limita à procura de respostas no nível da exterioridade e do imediato, na ordem prática da vida;

— o delírio consumista que precisa do apagamento da consciência íntima e da desistência de quem somos ou queremos ser para agirmos sobre o mundo, fazendo de nós um conjunto de imediatos atos-reflexo, de seguidores de padrões, perdida a capacidade de distanciação reflexiva e, daí, a tendência, no que toca à leitura, para a superficial procura do livro mais fácil, mais rápido, mais direto, produtor de retorno-resposta linear;

— a verificação de que a leitura do romance de Saramago não se encaixa harmonicamente nesta vertigem de novidades constantes, devoradora do poder de atenção e de concentração;

— a consciência de que, embora implantada num mundo em que os limites do centro comercial tendem a alargar-se à ocupação de todo o perímetro da polis e da vida, não deixando ao humano senão a hipótese de ser consumidor, a escola não pode tornar-se uma loja de gadgets atrativos;

— a consciência de que a vida no século XXI requinta na reinvenção e alastramento do consumismo, tendendo a fazer do humano um mero reflexo do que está na montra, invertendo a direção do desejo.

 

   A partir destas reflexões sobre o contexto em que se lê/não se lê, no século XXI, consideremos, agora, alguns contrapoderes que, nele, apesar de tudo, poderão ser exercidos:

— o papel fundamental da Biblioteca Escolar e da Biblioteca Pública no contrariar desta tendência/estado de coisas, pela exposição e experimentação pública da leitura e dos livros;

— o papel da montra e do escaparate da livraria como factor de visibilidade e como polo atrativo, no quotidiano da paisagem urbana em que o aluno habita, pela qual, quiçá, passa a caminho da escola;

— a colaboração reciprocamente frutífera entre o espaço-biblioteca, o espaço-livraria e o espaço-escola;

— o interesse-esforço por tornar o livro visível na paisagem, fotografá-lo, partilhar a sua imagem, quiçá nas redes sociais, contribuindo, assim, para que o olhar social se habitue à sua presença;

— a assunção do professor como lugar de uma espécie de magistratura de influência sobre a saliência do livro na vida social, relacional, no quotidiano;

— a procura, por parte do professor, e dada a sua posição privilegiada como fulcro de relações intergeracionais, do alargamento de vias contra o fechamento de círculos etários, no que ao interesse pelo livro diz respeito;

— o favorecimento do reencontro do livro de leitura escolar noutros espaços físicos e conversacionais que não somente a escola;

— a facilitação da intercomunicação de grupos de interesse fechados, desfazendo a sensação de que sou só eu, ou de que isso nada tem a ver comigo, ou de que isso são lá coisas de ou de que isso não é a minha praia...

— a desmistificação de afirmações falsas ou enviesadas (uma espécie de fake news no domínio do livro e do ler) sobre o tempo disponível, os estímulos enganosos, as imitações, os simulacros, os efeitos nefastos da repetição de lugares-comuns a este propósito;

— a procura, pela imaginação e pelo pensamento crítico, e respetiva evidenciação, de sinais menos massivos, que sejam contrariadores do estado de coisas dominante e profícuos nesta época em que tudo ou quase tudo se alimenta da visibilidade, da publicidade. Por exemplo: a papeleta pendurada na porta a dizer «Silêncio, estou a ler Saramago.»; o edital na Biblioteca da escola, na porta da sala de aula, no corredor escolar: «Aqui lê-se Saramago», «Por aqui passam alunos que leem Saramago»; o autocolante na lapela: «Eu ando a ler Saramago.»; a constituição e denominação de grupos como por exemplo «Clube dos leitores vivos» ou «Nós, os que lemos Saramago, saudamos-te!», ou slogans como «Saramagar é o que está a dar»...

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por Maria Almira Soares às 11:34

Sábado, 05.01.19

THE GREAT GATSBY

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      A consciência, a sensibilidade e a inocência de Nick Carraway atravessam a sociedade americana da Jazz Age, traçando um percurso trágico: desde o grande sonho de James Gatz do Dacota do Norte até ao abandono e solidão na morte de Jay Gatsby em West Egg, Long Island. Uma metamorfose reveladora da significação profunda deste romance.

   Nesta viagem pela sociedade americana dos Anos Vinte, Nick Carraway cruza-se com Tom e Daisy Buchanan e Jordan Baker (os do ‘old money’), com Myrtle e George Wilson (os do ‘no money’), com Meyer Wolfshiem (o do ‘ilegal money’), com Jay Gatsby (o do ‘new money’) e, a partir dessa reveladora experiência, conclui, dirigindo-se a Gatsby:

   «São uma escumalha. Você vale mais do que eles todos juntos.»

   Esta é a sentença final sobre a «grandeza» de Jay Gatsby. Desde o título, mais oblíqua ou mais retamente, ela é enunciada e, ao longo da história, vai sempre repercutindo, em eco, nesse «great» que lhe acompanha o nome.

   Sobre que intensidade semântica se equilibra o significado da grandeza do ‘great’ Gatsby?

   — A da ironia do esplendor de vida, que o carácter clandestino e sombrio da origem do seu poder económico desqualifica?

   — A do enraizamento na profunda obsessão passional, no sonho de que nunca desiste?

   — A da incomensurável generosidade destituída pela ingratidão de um amoral abandono?

   — A da terrível enormidade do desmoronamento no vazio da deceção, da dor da traição?

   A grandeza de Gatsby tem a complexidade do chiaroscuro própria da humanidade profunda de um grande retrato que, neste caso, não é apenas individual, mas capta uma fatia temporal da História americana, de um tempo que foi também o de Scott Fitzgerald.

     Durante os quarenta e quatros anos da sua vida, entre 1896 e 1940, a inscrição de Scott Fitzgerald na agitação da Jazz Age, dos Anos 20, da Geração Perdida, é perfeita e, neste seu romance, tal época está tão bem representada, que conhecê-la será uma chave essencial para aprofundar a leitura.

   Foi um tempo em que a luta pelo crescimento da prosperidade andou de mãos dadas com a corrupção. A Primeira Grande Guerra terminara. O desejo de refazer a vida como lugar de negócios lucrativos reativava-se aceleradamente, mas embatia em administrações corruptas, na porosidade viciosa entre sindicatos e crime organizado, na afetação por greves e disputas laborais, na miséria do trabalho infantil, em opções fiscais beneficiadoras dos mais ricos. Crises na agricultura e indústrias locais impulsionavam a fuga das populações para as grandes cidades em crescimento acelerado. As grandes cidades eram símbolo de um ideal de vida melhor, mas tornavam-se armadilha dos sonhos dos desprovidos que as procuravam. Elas eram, sim, o reino dos grandes ganhos financeiros das elites económicas. Os dividendos da Bolsa cresciam exponencialmente. O desenvolvimento tecnológico baixava os custos da produção e fazia crescer a produtividade. Os ricos enriqueciam, viviam em excesso e não sabiam conter os seus apetites. Num progressivo materialismo, cresciam os gastos em bens de consumo: automóveis, rádios, telefones, frigoríficos... em quantidades até aí nunca vistas. Tempo e dinheiro eram gastos em lazer e divertimentos. Crescia a popularidade dos desportos profissionais, do cinema, dos jornais tabloides. As elites económicas e financeiras desprezavam os outsiders, os imigrantes. A emigração para os Estados Unidos da América atingiu, entre junho de 1920 e junho de 1921, o número de 800.000. Começavam a surgir leis restritivas da imigração. Era o tempo da aprovação da 18ª Emenda, a do proibicionismo do fabrico, venda e transporte de bebidas alcoólicas. O negócio ilegal do álcool florescia e tornava-se enormemente lucrativo, ajudando a fazer as grandes fortunas dos novos ricos, o chamado ‘new money’. Os jovens mudavam os seus sonhos e o seu estilo de vida. Os homens regressavam da guerra mudados e encontravam uma América mudada. As mulheres que, durante a guerra, passaram a fazer parte da força de trabalho, queriam manter a liberdade pessoal e social que essa independência económica lhes conferira. A 19ª Emenda dava à mulher o direito de voto. Marca simbólica da emancipação feminina foi o corte do cabelo, esse que tradicionalmente fora indicador de feminilidade. As mulheres reinventavam o seu estilo de vestuário, fumavam e bebiam abertamente, relaxavam a formalidade das suas atitudes para com o sexo, quebravam os moldes em que tradicionalmente os códigos sociais as colocaram.

   Nestes Anos Vinte, a condição humana deixava-se infiltrar pela necessidade da corrida rumo ao prazer, à satisfação de sonhos e desejos. Corrida cega, fechada à consciência do outro, imersa na competição egoísta, menosprezadora de quem lhe não fosse afim pelo dinheiro e pela condição social.

     Nada difícil é reconhecer que é este o ovo — político, económico, social, existencial — em que se concebem as personagens e a história deste romance de Scott Fitzgerald. É este o ninho em que tudo germina: a brutalidade, a mentira e o egoísmo de Tom Buchanan; a fria desonestidade de Jordan Baker; a fraqueza materialista de Daisy; o viscoso empreendedorismo de Meyer Wolfshiem; a tosca ambição de Myrtle; a frouxa inocência de George Wilson; o sonho excessivo e trágico de Gatsby. Ovo em que, aliás, germinou também a vida do próprio autor.

     Scott Fitzgerald, com a sua mulher Zelda, viveu uma vida tão romanescamente excessiva como a das suas personagens. Zelda é uma típica flapper, independente, rebelde, esteta, boémia, glamorosa, assertiva, decadente: um emblema da mulher livre dos Anos Vinte. Ela e Scott Fitzgerald viveram um estilo de vida extravagante, estonteantemente acima das suas possibilidades financeiras, em viagens, festas, excessos. A vida de Zelda e Fitzgerald em França, no seio de uma comunidade de artistas expatriados (Hemingway, Picasso, Léger, Stravinsky, Cole Porter, etc.) inspira numerosas biografias, romances, filmes, séries de TV (cf. Meia Noite em Paris de Woody Allen).

   O Grande Gatsby capta o espírito desta época, especialmente a vacuidade moral da sociedade americana do pós-guerra, obcecada pelo dinheiro como via de ascensão social. As suas personagens têm uma verdade historicamente honesta, projetada pelo olhar de Nick Carraway, um jovem, em alguma medida pertencente ao ‘old money’, que procura sustentação financeira como vendedor de obrigações em Manhatan e fixa a sua curiosidade nas manifestações de incomensurável e misteriosa riqueza de um selfmade man e na chusma de convivas que loucamente invadem a desproporção das suas festas, sem qualquer vínculo pessoal com o anfitrião.

   Numa prosa imagética e poética, traça-se o espelho de uma sociedade, estilhaçado por linhas de fractura sentimental que nunca deixam de ter uma clara significação social e moral: entre Daisy/Tom/Gatsby; Tom/Myrtle/George Wilson; Nick/Jordan; Nick/Gatsby.

   Temas como a justiça, o poder, a ganância, a traição, o sonho americano, a estratificação social, são polarizados pelo ponto de vista crítico do narrador, enformado por um vincado sentido de honra, denunciador da superficialidade, do materialismo, da ausência de compaixão.

   Para os ingénuos, os sentimentais, os ambiciosos de inexperiente e baixo quilate, enredados numa teia social desprovida de sentimentos altruístas, sobra apenas a morte: a de Myrtle, a de George... a de Gatsby, o tal que era ‘Great’ no título, e termina GREAT apenas na consciência de Nick e no amor do pai.

E na consciência dos leitores?

    

 

 

 

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por Maria Almira Soares às 18:06

Sábado, 15.12.18

NOS VINTE ANOS DO NOBEL, LER SARAMAGO NA ESCOLA DO SÉCULO XXI

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[Excerto da minha palestra durante a ação de formação que dinamizei no dia 7 de dezembro na Biblioteca Municipal de Ovar]

   A escola portuguesa do século XXI não é substancialmente diferente da dos últimos anos do século XX. Mas o mundo à sua volta é. Mas os jovens alunos são. Os professores serão? Não sei.

   O que sei é que, sendo nós, os professores, quem pede a leitura de O Ano da Morte de Ricardo Reis aos jovens alunos da escola do século XXI, sendo nós quem lha vai apresentar, deveremos começar por refletir sobre as circunstâncias em que provavelmente esta apresentação será feita e sobre o modo como pensamos e sentimos esta situação.

     É muito provável que, à partida, muitos de nós estejam convencidos de que não irá ser empresa fácil, de que, para a generalidade dos alunos, não irá ser fácil fazer esta leitura. A nossa experiência vivida e a nossa reflexão não nos deixam grande margem para uma expectativa otimista. Assim, enfrentamos a necessidade de que os nossos jovens alunos do século XXI leiam Saramago temendo o fracasso. O fracasso da leitura inconseguida, rejeitada, sentida como impossível, substituída por paliativos, gerida atabalhoadamente, rendida a mero instrumento de recoleção de saberes-resposta determinados por provas de avaliação escolar.

     Sabemos certamente da existência de alguns grandes leitores entre os alunos, mas estaremos sobretudo preocupados com as dificuldades da grande maioria.

   Sem prejuízo da sua justeza e fundamentação, a verdade é que este prévio temor do fracasso pode colocar-nos na orla de um perigo. O perigo do preconceito negativo que afetará as nossas opções didáticas. Se dermos como certa ou quase-certa a rejeição desta leitura aceitando-a como um facto inelutável, poderemos ser levados a enveredar por estratégias de resignação que menorizam o mal de não ler, de não conseguir ler Saramago. Deste modo, provavelmente não investiremos na procura de meios cuja aplicação possa desmontar essa resistência e até tornar a leitura, senão totalmente, pelo menos aproximadamente conseguida. Poderemos cair no que nos pareça a única conclusão a tirar: uma vez que não leem, nada a fazer senão arranjar formas substitutivas de aquisição dos conhecimentos programáticos. O romance, esse, ficará intocável ou quase, soterrado pelo fornecimento de uma série de dados que se memorizam. E, assim, se perderá uma importante oportunidade para o desenvolvimento da sua educação de leitores, porque o ler se desenvolve à custa de todas as experiências e de todas as tentativas de leitura, mais ou menos conseguidas, mais ou menos conflituosas, mas nunca com desistências. A desistência marca como uma prova de que sou incapaz de ler ou, até, de que não gosto de ler.

       Não nos resignemos, pois, perante as declarações de rejeição da leitura de Saramago por grande parte dos nossos alunos; não recuemos, logo de início, perante as suas mostras de desgosto e aborrecimento.

       Ao recuo inicial de aceitação da não-leitura, penso ser preferível — e mais frutífero — o recurso à preparação e à orientação dos leitores. Ainda que esta opção possa retirar autenticidade ao caráter autónomo da leitura, é preferível optarmos por esta intervenção orientadora, certos de que, sem ela, nem autónoma nem acompanhada a leitura se faria.

   Tal estratégia inicial não nos dispensará, no entanto, de ficarmos na expectativa de prováveis pequenos recuos perante dificuldades de percurso que se lhes deparem, da necessidade de irmos acorrendo a persistentes dificuldades, de colmatarmos falhas, atentos aos sinais de alarme da desistência. Deste modo, entre os recuos e os avanços do seu próprio processo de leitura, que procuraremos acompanhar, os alunos não deixarão de ir fazendo progressos quanto à sua proficiência de leitores. A leitura desenvolve-se lendo.

     Tentaremos, assim, evitar que o romance se transforme em mero álibi da apreensão, por via alheia e alienante, de respostas a devolver em sede de avaliação. Evitaremos que se caia no absurdo de saber debitar ‘coisas’ sobre O Ano da Morte de Ricardo Reis, sem o ter lido! Saramago não o merece! Nem Saramago, nem nós nem os nossos jovens alunos do século XXI! Transformar os romances de Saramago em espécimes organizados em cláusulas compendiáveis ad usum escolar é trair a belíssima utopia do o ler na escola do século XXI. Sem utopia não há futuro. E ser professor, como dizia Vergílio Ferreira, é «colaborar mais eficazmente com o futuro.»

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por Maria Almira Soares às 11:41

Sábado, 10.11.18

MRS. DALLOWAY

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MRS. DALLOWAY

 

      A escrita literária de Virginia Woolf marca um ponto de viragem fundamental na criação ficcional do século XX.

       Mrs. Dalloway é o primeiro romance em que Virginia Woolf investe muitíssimo no levar à prática das suas inovadoras ideias sobre o encadeamento da narrativa, o tratamento do tempo, a modelação das personagens, a construção da intriga. Enquanto escreve este romance, vai fazendo muitas anotações, nos seus Diários, sobre o processo de escrita em curso, com os seus sobressaltos e os seus momentos de reescrita, até atingir a clarificação total do projeto literário que defende e o ponto de realização que a satisfaz. Woolf vai sempre, também e paralelamente à escrita do romance, fazendo recensões e compondo ensaios em que expõe os princípios das suas inovadoras teorias narrativas. Recusa, porém, que este romance tenha a sua génese na necessidade de demonstrar uma teoria. Nenhum romance nascido de tal intenção é um grande romance. E este, para além de ser um marco na arte de escrever romances, é, só por si, um grande romance.

     Virgínia Woolf recusa a fixidez dos modelos e métodos tradicionais de desenvolver uma história, de apresentar personagens, de estabelecer a marcação do tempo, muito consciente de que a normatividade e a fixidez, nos vários domínios do humano, foram estilhaçadas pela GUERRA e de que, depois dela, a respiração e as aspirações são outras, a vida é outra, mais momentânea, com um ritmo mais acelerado, com outra profundidade e instabilidade. Woolf quer fazer uma ficção liberta da chapa-comum e da ficha caída automaticamente. Quer ser capaz de construir um pulsar mais desorganizado porque mais humano, menos convencional, mas, ainda assim, perfeitamente legível e consequente, o que não é fácil. Interessa-lhe explorar as impressões sempre a fazerem-se e a desfazerem-se, as viagens da memória e a corrente do pensamento não sujeita ao encaixe num contorno previamente definido. Da personagem, ela não fará, à cabeça, um retrato tipo bilhete de identidade, preenchido por elementos obrigatórios e exteriores; a personagem vai-se fazendo a si mesma, fruto dos seus pensamentos, reações, lembranças, emoções, e no confronto com os outros. Constrói-se vivendo a vida que a constrói. É isto que Virginia Woolf faz neste romance.

   Clarissa Dalloway é construída de um modo que pode parecer desmanchado, mas que é ordenado por alguns índices que a contêm: o tempo, a cidade, os laços familiares, as relações sociais, a mentalidade coletiva...

   Desde a abertura do romance, somos imediatamente confrontados com a personagem em ação. Sem qualquer preparação. Age e questiona-se. E questiona. Terá feito as escolhas corretas? Será certa a sua interpretação do que vê? Percebemos que Clarissa não é uma personagem lisa, não está contida nos limites de uma fórmula de «senhora da sociedade londrina» que, desde o título, a define, não em seu próprio nome, mas pelo do casamento, mas mascarada pelo nome do marido. A personagem está em movimento, caminha pelas ruas de Londres. Volta para casa. Prepara a sua festa. Será uma snob que gosta de dar festas, de receber a sociedade londrina? Uma mulher um tanto oca, vazia? Será uma lésbica reprimida? Uma sombra que vive resguardada? Terá a graça regeneradora do mundo no pós-guerra?

   Virginia Woolf andava a ler o Ulisses quando iniciou a escrita deste livro cuja ação, como a do de Joyce, também se passa durante um dia — quarta-feira, 13 de junho de 1923 — a decorrer ao ritmo das horas marcadas pela ressonância das pancadas do Big Ben. O livro de Woolf, porém, tem um título deliberadamente realista e não mítico como o Ulisses. Clarissa não é uma Penélope nem uma Atena, é uma mulher vulgar, num dia vulgar, envergando a sua ‘máscara’ social, para lá da qual, Woolf nos faz ver a sua comovedora humanidade a questionar-se sobre ter ou não ter falhado os seus primeiros sonhos, as suas ambições, sobre ter falhado a vida vivida com paixão.

     No mesmo cenário, move-se Septimus Smith por caminhos que divergem dos de Clarissa até à máxima amplitude do desvio entre a vida e a morte. No mesmo cenário, vários percursos que se cruzam. Cada vida é um caminho mais largo, mais difuso, menos previsível do que simples afirmações rotulares permitiriam. Sobre cada um, não há asserção unívoca que resista.

     Clarissa é uma mulher que ultrapassou os 52 anos de idade, mas a sua memória recondu-la a um outro junho de 1889 em que teve 18 anos e amou Peter Walsh e Saly Seton; mas projeta-se na filha Elizabeth que tem, agora, 18 anos e vive o momento de fazer opções, esse que Clarissa viveu e sobre o qual ainda se questiona. Ela teme a sensação de declínio, a ameaça da mortalidade, hesita na aceitação da perda dos «triunfos da juventude».

     Este romance é veículo de uma consciência social, mas não através de Clarissa. Clarissa pertence à classe dirigente, mas não se questiona neste nível da sua existência nem sustenta a presença de outros temas caros a Virgínia Woolf como a psicose, o suicídio, o fanatismo. São outras personagens, com as quais de um modo aleatório ou causal e consequente Clarissa se cruza, que os sustentam. Sabemos, a partir das notas de conceção do romance, que Woolf quis criticar o sistema social e a classe dirigente, num momento de viragem entre políticos conservadores e trabalhistas. Quis mostrá-lo a funcionar sob um olhar examinador e crítico. As formas literárias convencionais de narrar não conseguiriam captar muita da complexidade deste momento de mudanças várias. Woolf procura e encontra uma nova forma de apanhar a personagem difusa, indecisa, instável, composta de fragmentos, intervalos, evanescências: «Os factos acima do chão são magros; a consciência é tudo.»

       Mrs. Dalloway não é uma entidade fixada e monolítica, mas um instável complexo de impressões e emoções cujo eu se revela a diversos níveis como vinha dizendo a Psicanálise. É feita de sonhos, de memórias, de fantasias, que são tão importantes como as ações. É feita de infância, de experiências primordiais. Na época da escrita deste romance, filósofos e artistas compunham novas e experimentais versões de perceção do real. Henri Bergson teorizava a diferença entre o tempo histórico e o tempo psicológico. Surgia o Cubismo a dilacerar a perspetiva fixa e única. O cinema ensinava os mecanismos de montagem, o close-up, o flashback, o travelling, os cortes súbitos que permitem fazer da personagem uma soma de múltiplas perspetivas acumuladas e de modos como a diversidade dos outros a percebe. Assim, é dada ao leitor a oportunidade de ser compassivo e não decisor judicativo: até a dominadora e obtusa Lady Bruton se torna mais humana, quando entramos nos seus sonhos de ser eternamente a pequena maria-rapaz da sua infância.

   Virginia Woolf constrói uma Clarissa para a qual os acontecimentos exteriores são significativos principalmente pelo modo como, a partir de si, libertam cenários íntimos; são importantes pelo seu impacto na consciência individual que os amplia em duração e sentido. São as memórias semi-enterradas e as interpretações do real, vogando num fluxo de associações aleatórias, que vão criando os estados de espírito. Através de uma única imagem — como é o caso do carro em Bond Street ou do avião escrevendo nos céus de Londres — é possível captar, sem delongas narrativas e descritivas, o caos que vai habitando as mentes singulares.

   E tudo tende para uma exata contradição final onde se cruzam a festa e a morte.

   Mrs. Dalloway termina como começa: um tributo à resistência, à vida, à alegria.

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por Maria Almira Soares às 17:45

Domingo, 07.10.18

O DELFIM

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   E chega-nos à memória uma frase batida: «O Delfim, machismo, pax ruris, Cartilha do Marialva»[1]. Mas esta é apenas a primeira frase do resto da vida do romance. A frase que diz o mais notório, mas deixa de lado outras visões mais insatisfeitas.

   Tomás Manuel da Palma Bravo (e a lagoa consubstanciada na sua linhagem) tem muito de segredo, de enigma em decifração, encoberto pelos fumos de pistas fátuas como a do marialvismo, da posse, da exclusividade. Um segredo em que, nos desvãos de uma cartografia mais imediata, se insinuam luzes cegas: a da dúvida da infecundidade; a do fantasma da homossexualidade; a da caricatura do incesto; a da deserção do corpo da mulher; a da pulsão para oferecer a sua violência a uma ternura infantil; a da disponibilidade para se tornar presa do escritor-furão — o intelectual de que se ri e de que não prescinde — numa ambiguidade que é quase uma fraternidade; a da capacidade de ludibriar interpretações e, num gesto de lide sombria, sem triunfo, permanecer enigma, mistério. O seu comportamento/pensamento marialva, machista, de senhor rural e feudal, de herdeiro dos «oito fidalgos de bom coração», de delfim para cujo uso está feito o mundo, é apenas a casca bulbosa da «informulável terra queimada»[2], ou antes, do cemitério de peixes-santos que lhe habita o imaginário-fundo da mente-lagoa. Terra queimada, fundo lodoso, que não se visita, não se ilumina, não se povoa a não ser pela morte, esse segredo inviolável.

   Homem plantado num contexto, num ponto de um decurso histórico, Tomás Manuel da Palma Bravo é feito de gestos de poder e de intocabilidade que alastram na goyesca de um tempo e de um modo de Portugal feito de excesso, de vinho, de insana violência, de insana e animal inocência, de impotência. Este desenho, que dimana do Infante e reflui na sua insensível crueldade é composto dos fumos, dos cheiros, dos sons, das luzes, das vozes, das tristezas, dos prazeres, das feridas, dos enganos, dos disfarces, de que é feita a miséria de uma terra com nome de doença, impossibilitada de respirar fundo, de gritar alto, de ser livre, de agarrar a sua construção, de tomar como seus os objetos do seu desejo.

   A Gafeira como o seu Delfim estão maduros — ele de crueldade e excesso, ela de humilhação e miséria — para rebentarem, abrirem como a romã da romãzeira coberta de formigas do pátio da pensão de caçadores. Ela, a Gafeira, madura para se assumir na pluralidade do múltiplo brilho de rubros bagos irmãos, que não é rebanho, mas «cooperativa dos 98»; ele, o dono da Lagoa, para ser despossuído dos objetos do seu domínio: a mulher, o criado, a água produtiva, as figuras do medo e da subserviência plantadas nas mentes dos seus ‘súbditos’. O fruto racha-se. Apenas. Abre-se. Apenas. E neste ponto ficamos. Com dois segredos incólumes: o do que se tornou passado, o do Infante feito de seiva velha que julgou ser sangue e da qual anda em fuga, ilegível, sempre ilegível; o do que será o futuro, o do que virão a ser, daí em diante, depois do tempo das perguntas e das insinuações, o Velho de um só dente, o Regedor, a Dona da Pensão, as Viúvas de vivos, o Dono do café, o Batedor, os comedores de enguias, os lançadores de foguetes, os tocadores de campainha de bicicleta, os padres, as aninhas com seus maridos paralíticos...

   Uma coisa é certa: a caça continua. Democratizada, mas continua. Pulsão para além de todas as clivagens? Símile de um mundo desigual, da prepotência sobre o outro (ainda que animal)? Por muito que nela se insinuem visões de honra, de ética, de cavalheirismo, de luta leal, de morte em glória, numa inversão do sentido da força e do mérito? Espelho do que sempre permanece e se reabilita na mudança, em qualquer mudança?

   O autor desiste da caça. O autor-furão está cansado. Andou todo o dia e toda a noite noutras caçadas. Foi à caça e acabou caçado. Caçado por uma história predadora que o tomou no seu ventre, que o engoliu, porque, se o não tivesse como habitante, não seria essa história.

 

 

[1] José Cardoso Pires, «Memória Descritiva» in E agora, José?

[2] Eduardo Prado Coelho, «Cardoso Pires: o círculo dos círculos» in A Noite do Mundo.

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por Maria Almira Soares às 18:22


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