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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)


Sexta-feira, 26.06.20

O TEXTO - O DETECTIVE DAS PALAVRAS

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       Foi durante uma visita de estudo que tudo começou. Tudo, o quê? Leiam, leiam, que já descobrem.

   Saímos de manhãzinha num autocarro que andou, andou, andou, até que parou num lugar chamado sítio arqueológico. Assim nos disse a professora que nos acompanhava. Eu achei logo graça: sítio arqueológico! Ali, há milénios, tinham vivido romanos! Nem imaginam como era sossegado, perdido no meio dos campos. À nossa vista, ficava uma extensão de terreno plano onde se alinhavam fieiras de pedras. Pelos carreiros que as circundavam, lá nos íamos aproximando de ruínas que outrora tinham sido construções inteiras. Junto a duas árvores baixinhas, de tronco largo, cinzento, ressequido e aberto por uma fenda, a professora disse:

— Estas oliveiras foram contemporâneas de Cardílio e Avita, um casal de romanos que aqui viveu há quase dois mil anos.

Caramba! E eu que nunca tinha pensado que pudesse haver árvores tão antigas ainda vivas!

E o Vítor a perguntar:

— E como é que eles vieram aqui parar?

E o Manel a gozar:

— De autocarro!

E a professora a ralhar e a ensinar:

— Juízo, meninos! Então, Vítor, não te lembras de como os romanos conquistaram a Península Ibérica e nela se fixaram?!

E a professora continuou:

— Sabem uma coisa? Ver este par de oliveiras e pensar nesse casal, Cardílio e Avita que, segundo a inscrição que estivemos a ler, aqui viveram felizes, faz-me lembrar uma história que li num livro chamado Metamorfoses escrito por Ovídio.

— O que é Metamorfoses?

— Quem é Ovídio?

Dispararam as perguntas de todos os lados.

— Ovídio foi um escritor romano. Num dos seus livros conta histórias maravilhosas de transformações fantásticas. De pessoas que se transformaram em árvores, por exemplo. Metamorfose significa transformação.

— Ah! Que giro! — disse eu. — Conte lá essa história, professora, conte.

— Agora não. Agora vamos, é, continuar a admirar o que sobrou desta casa. Olhem como são interessantes, estes mosaicos:

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Fiquei bastante desiludido por a professora não querer contar a tal história. Para compensar a minha decepção, pus-me a fotografar as letras e imagens desenhadas nos mosaicos. Pois foi quando eu estava muito concentrado a visar a inscrição que fala do Cardílio e da Avita, que ouvi nitidamente atrás de mim:

— Pst! Pst!

Virei-me, olhei, mas não vi nada. Talvez fosse o vento. Talvez fosse um dos engraçadinhos dos meus colegas. Talvez fosse ilusão. Mas, de repente, outra vez:

— Pst! Pst!

Não era ilusão. Alguém me estava mesmo a chamar. Fixei melhor a atenção na direcção do chamamento e, quando olhei para o chão atrás de mim, que vejo eu? Vejo um dos arabescos da cercadura do mosaico a mexer-se! A mexer-se e, à medida que se mexia, a transformar-se… a transformar-se em quê? Numa lagartixa toda lampeira que, de cabecinha arrebitada e rabito a abanar, me piscava o olho continuando a chamar-me: — Pst! Pst!

   Juro. Uma lagartixa, saída do mosaico, estava a chamar-me. E não esperou muito. Largou numa correria desenfreada como costumam fazer as lagartixas. E eu, claro, que, como sabem, não resisto à curiosidade, lá desatei a correr atrás dela. Correu, correu, até à base de um muro que logo subiu com uma tal destreza que eu, tentando imitá-la, para não me magoar, tive de travar repentinamente. Quando me refiz, a lagartixa tinha desaparecido. Mordido pela curiosidade, preparei-me para trepar: queria ver o que havia do outro lado daquele muro. Queria ver e vi. Vi e fiquei literalmente de boca aberta como acho que vocês também vão ficar. Enquanto do lado de cá tudo eram pedras velhas, ruínas, oliveiras antiquíssimas, do lado de lá, tudo estava inteiro, recomposto como se ainda estivéssemos no tempo em que Cardílio e Avita ali viveram: as ruas empedradas, as casas de paredes pintadas, as lojas com mercadorias às portas… Fascinado, até me esqueci da lagartixa mágica. Mas ela é que não se esqueceu de mim:

— Pst! Pst!

   Era ela que, com gestos insistentes das patitas e da cabecita me incitava a entrar numa das casas. Entrei. Dei uns passos um pouco a medo e logo me achei numa sala mobilada e decorada com leitos e tapetes e lucernas e jarros e estatuetas… Tudo daquelas cores que costumam ter nos filmes passados no tempo dos Romanos. A sala era comprida e mal iluminada ao fundo. Para lá do meio, tudo eram sombras. A mim parecia-me que, junto à parede mais afastada, alguém acabava de se reclinar num leito. Parecia-me, mas não tinha a certeza. Por isso, fui andando, andando. Era verdade: um vulto fitava-me. Tinha o olhar da lagartixa, mas já não era lagartixa. Agora tinha figura humana. E disse:

     — Não tenhas medo. Aproxima-te. O meu nome é Atentus e sou socorrista de meninos curiosos. Quando um menino quer saber alguma coisa e a sua curiosidade não é satisfeita, se esse menino tiver os olhos e os ouvidos bem abertos, como foi o teu caso, basta seguir-me e encontrará não a resposta mas uma pista para a encontrar.  

   Eu, muito espantado, mas animado pelo convite, dei mais uns passos na direcção do senhor Atentus que continuava a falar:

   — Queres mesmo conhecer a história da transformação de um homem e de uma mulher em duas árvores, que Ovídio escreveu? Então, pega lá este rolo de papiro. Trata de o guardar bem. Quando estiveres sozinho, desenrola-o. Ele contar-te-á a história que queres saber.

     Ganhei coragem, estendi a mão e agarrei o rolo. Meti-o imediatamente por baixo da camisola e preparava-me para dar meia volta saindo dali a correr, quando, elevando um pouco a voz, Atentus continuou:

   — Não vás ainda. Ouve-me com atenção: para conseguires compreender o que aí vai escrito, tens de cumprir um procedimento obrigatório.

   — E qual é?

   — Como sou socorrista, tenho meios especiais para ajudar a curiosidade dos meninos. Por isso, fiz com que as palavras que aí vão escritas tenham poderes mágicos. Se as fixares com toda a tua atenção e vontade de compreender, cada palavra escrita em latim passará automaticamente para a tua língua, o português. Mas se a tua atenção fraquejar um bocadinho que seja, elas voltarão imediatamente a ser latim e nada perceberás. Agora vai.

   Corri para fora da casa do senhor Atentus, voltei a saltar o muro e cá estava eu outra vez entre pedras antigas, chão poeirento e oliveiras velhas…

   — Ah, estás aí. Já estava a ficar preocupada. Onde é que te meteste?

   — Distraí-me a ver uma lagartixa e acabei por ir atrás dela…

   — Vá, que agora vamos a um parque de merendas para lancharmos.

   Era a professora que já estava a reunir-nos a todos para voltarmos a entrar no autocarro. O resto da visita de estudo correu bem, mas sem que nada de extraordinário voltasse a acontecer. Eu é que estava mortinho por fixar os meus olhos nas palavras da história escrita no rolo que tinha por baixo da camisola. Ali, à vista de todos, não o podia fazer. A curiosidade tinha de esperar mais um bocadinho.

   Chegado a casa, fui logo guardar o rolo mágico na gaveta dos meus segredos e, só depois do jantar, é que consegui escapar-me para o meu quarto: ia deitar-me cedo para descansar da fadiga da viagem. Descansar? Qual quê! Em vez de esperar pelo dia seguinte, em que já estaria fresco e recuperado, a primeira coisa que fiz foi pegar no papiro e começar a desenrolá-lo, cravando bem os olhos em cada palavra, como me recomendara o senhor Atentus, socorrista dos curiosos. Começava assim: “Há nos montes da Frígia um carvalho junto a uma tília…»

   — Ah! Cá estão as duas árvores… um carvalho e uma tília… — pensei logo eu.

   A vontade de continuar a leitura era muita, mas na verdade, por mais que eu o não quisesse reconhecer, estava bastante cansado da viagem. Ia lendo, mas, de vez em quando, os meus olhos sonolentos deslizavam das palavras quase a fecharem-se. Ora, sempre que isto acontecia, distraindo-me, imediatamente a palavrinha, que eu estava a compreender muito bem em português, se transformava num conjunto de letras de que eu não entendia patavina: latim. Não estava a ser nada fácil. O Atentus bem me avisara. Por exemplo: eu estava a começar a ler tod…, distraía-me e, quando voltava a olhar, em vez de toda, aparecia-me tota; ou a palavra dois, que me fugia dos olhos transformada em duo. Mesmo assim, prossegui a leitura.

   Estava eu a ler uma parte que dizia «o velho trouxe um banco, que Báucis, solícita, cobrira com um pano…», quando, mesmo em cima da palavra pano, um sono quase invencível começou a fazer-me piscar os olhos: abria-os e lia pano; começava a fechá-los e lia textum; voltava a abri-los e lia pano; começavam de novo a descair-me as pálpebras e lá voltava o pano a transformar-se em textum. E isto por três vezes sucessivas, até que eu, intrigado, sacudi a cabeça com força. Contra o poder do sono, renascera em mim a alma de detective das palavras. Esfreguei os olhos e perguntei a mim mesmo:

   — Em latim, cobriam bancos com textos?! Que disparate! Mas o que é que a palavra pano tem a ver com a palavra texto?

     Mas já não tive forças para mais. Adormeci.

     No dia seguinte, porém, continuei a pensar no assunto. Estava convencido de que conhecia muito bem a palavra texto. Embora, na verdade, só tivesse tomado conhecimento da sua existência quando comecei a andar na escola. Antes disso, para mim, havia livros, histórias, poemas, cantigas… Depois, sem que ninguém me explicasse porquê, todas essas coisas passaram a ser textos: — Vamos ler um texto. — O texto que tu escreveste é muito bonito. — De que texto gostas mais? — De que é que gostaste mais neste texto? Texto para aqui, texto para ali, o dia a dia da escola estava cheio da palavra texto. E, se querem que vos fale com toda a sinceridade, eu até nunca consegui gostar muito desta palavra. Tem um som muito apagadinho, coitada. É toda feita de sons baixinhos: t-x-t. Até parece estar a mandar-nos calar e ficar quietinhos. Confesso que gosto mais de palavras sonoras, vibrantes. Estava, pois, convencido de que a palavra texto não tinha segredos para mim e acontece-me agora uma destas confusões! Que fazer? Acreditar em mim que sabia que texto era uma coisa escrita que se podia ler? Ou acreditar no papiro mágico que usava a palavra texto com o sentido de pano? Mais um mistério a descobrir. E não demorou muito.

   A seguir às visitas de estudo, era costume escrevermos um relato do que se tinha passado e a tradição manteve-se. Logo ao princípio da aula, a professora disse:

   — Agora, cada um de vós vai escrever um texto acerca da visita de estudo que fizemos ontem.

     Mal ouvi a palavra texto, imediatamente me lembrei do problema que tinha ficado por resolver no dia anterior. E, talvez porque sou um bocadinho maroto, em vez de me preocupar, decidi pôr-me a brincar. Às vezes, brincar ajuda a resolver os problemas. E, desta vez, ajudou. Não sei o que me passou pela cabeça que, à medida que ia escrevendo o meu relato da visita, ia trocando pano com texto e vice-versa. Talvez fosse uma espécie de vingança do rolo de papiro mágico que, na noite anterior, me dera tanto trabalho a ler. Não sei. O que sei é que, de cada vez que precisava de escrever pano, escrevia texto; e, de cada vez que precisava de escrever texto, escrevia pano. Assim:

«Depois, vimos um mosaico onde estava escrito um pano que dizia…»

«Quando fomos lanchar, estendi um texto sobre a mesa de pedra, antes de lá pousar a minha merenda…»

   Estava tão divertido a escrever estes disparates, que parece que nem tinha medo do que a professora iria pensar acerca de mim, quando os lesse. Normalmente é assim: quando estamos a fazer uma asneira nem nos lembramos das consequências. Mas, olhem, desta vez, as coisas nem correram mal de todo e foi, até, por causa desta minha maluqueira que ficámos todos a conhecer a origem da palavra texto.

   No dia seguinte, a professora estava a comentar os nossos relatos da visita de estudo, quando, a certa altura, começou a dizer:

   — Há aqui um menino muito brincalhão. Não lhe bastou andar a brincar com as lagartixas durante a visita. Também se pôs a brincar com as palavras ao escrever sobre ela…

   Corei tanto que todos perceberam logo que era de mim que ela falava.

   E continuou:

   — O que esse menino talvez não saiba é que às vezes, a brincar a brincar, falamos de coisas sérias. Ora vamos lá ver se me sabem responder a umas perguntinhas: Quem é que sabe como se chama a indústria que fabrica tecidos?

   Logo muitos dedos se puseram no ar e algumas vozes não se contiveram:

   — Têxtil! Têxtil! Têxtil!

   — Muito bem. E para que servem os tecidos que a indústria têxtil fabrica?

   — Para fazer roupa!

   — Para fazer almofadas!

   — Para fazer guardanapos!

   — Para fazer panos de cozinha!

   — Muito bem. E, então, vamos lá pensar um bocadinho: porque será que a indústria que fabrica os tecidos com que se faz a roupa, as almofadas, os guardanapos, os panos de cozinha, se chama têxtil?

   — …

   Ninguém sabia. Eu começava a desconfiar, mas achei melhor ficar calado. Não fosse piorar ainda mais a minha situação.

   — Não sabem? Pois eu vou explicar-vos. É muito engraçado: reparem numa palavra que vocês conhecem muito bem, a palavra texto. É nesta palavra que reside a solução deste problema.

   — …

   — Em latim, língua que, como sabem, foi a origem do português, texto era o mesmo que tecido, queria dizer tecido. As duas palavras até têm a primeira sílaba igual. Então, estão a ver, aquilo que produz um tecido (que em latim era texto) chama-se têxtil.

   — Pois é. — disse o Carlos. — Mas, então, porque é que agora chamamos texto ao que escrevemos?

   — Porque o texto escrito, em certa medida, é parecido com um tecido. Ora reparem: assim como, para fazer um tecido, as máquinas vão pondo os fios bem juntinhos, uns a seguir aos outros, também, ao escrever os textos, vamos enchendo as linhas de palavras umas a seguir às outras até a folha ficar toda coberta de letras, como se estivéssemos a fazer um «tecido» de palavras. E então resolvemos chamar texto ao resultado do nosso trabalho de escrita! Como dantes, no tempo dos romanos, se chamava ao resultado do trabalho dos teares.

   — Que giro! — voltou a dizer o Carlos que estava mesmo a achar aquilo muito engraçado. — Quando eu estiver a escrever um texto, vou pensar que estou a fazer um tecido…

   — Muito bem, Carlos. É isso mesmo. Estás a perceber muito bem. E, agora, já todos sabem qual foi o sentido original da palavra texto.

   Eu, muito calado, ia devorando toda aquela informação. E estava radiante por duas razões. A primeira era que a professora fora discreta e não se pusera a querer saber o que me tinha levado a fazer aquela brincadeira da troca entre a palavra pano e a palavra texto. Tinha preferido aproveitar para nos ensinar a origem do sentido de mais uma palavra. E, assim, não me encostara à parede, obrigando-me a confessar coisas inconfessáveis. A segunda era que, finalmente, tinha percebido porque é que no papiro dizia que Báucis tinha coberto um banco com um textum. Afinal, no tempo do Ovídio, texto era um pano. Que descoberta sensacional! Gostei mesmo muito desta aula. E ainda por mais uma razão. Sabem qual? É que, para alegria geral, a professora disse:

   — E, agora, vou contar-vos a tal história das Metamorfoses do poeta Ovídio. Nela, como já vos disse, um casal de velhinhos acaba transformado em duas árvores.

   E contou:

«Um dia, Júpiter e Mercúrio, deuses romanos, chegaram disfarçados de humanos a uma terra onde foram pedindo, de casa em casa, abrigo para repousarem. Ninguém lhes abriu a porta, excepto Báucis e Filémon, um casal de velhinhos que vivia numa casa muito pobre. Com o pouco que tinham, receberam muito bem aqueles dois viajantes que nem sonhavam que fossem deuses poderosos. Ofereceram-lhes um banco para se sentarem, cobrindo-o com um pano para que fosse mais confortável e serviram-lhes uma refeição. No fim, os deuses disfarçados revelaram quem eram e, antes de castigarem os outros habitantes pelo seu egoísmo, alagando todas aquelas terras, levaram Báucis e Filémon consigo, salvando-os. Quando Júpiter lhes perguntou que recompensa queriam, disseram que, já que tinham vivido sempre na companhia um do outro, queriam que a sua vida acabasse exactamente à mesma hora. Júpiter fez-lhes a vontade determinando que, quando a sua vida estivesse a chegar ao fim, à mesma hora, cada um deles se transformaria numa árvore.»

   Aqui, a professora pegou num livro, abriu-o, começou a ler e nós ficámos todos muito caladinhos a escutar o final do texto que Ovídio escreveu no século I da nossa era:

   «Um dia, acabados pelos anos e pela velhice, estando diante da escadaria sagrada a contar o sucedido neste local, Báucis observa Filémon cobrir-se de folhas, Filémon a cobrir-se de folhas vê Báucis. E, embora já lhes crescessem copas sobre os dois rostos, iam trocando palavras… E ainda hoje os habitantes da Tínia mostram ali dois troncos vizinhos, nascidos dos dois corpos.»[1]

[1] Ovídio, Metamorfoses, tradução de Paulo Farmhouse Alberto, Livros Cotovia, pág. 217.

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por Maria Almira Soares às 14:51

Quarta-feira, 27.05.20

O INFANTE - O DETECTIVE DAS PALAVRAS

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        Hoje, cá em casa, andamos todos atarefadíssimos a preparar o dia de amanhã. E que coisa, assim tão importante, vai acontecer amanhã? Amanhã vamos partir para a terra da minha mãe, para lá passarmos as férias. Férias! Não devo ser o único a adorar esta palavra. É boa para pensarmos nela e sonharmos com ela. E é óptima para se dizerem frases como esta:

— Como estou em férias, vou viajar.

Outra palavra excelente: viajar! Férias e viajar são duas palavras que se dão mesmo bem uma com a outra. Pois é, estou mesmo feliz só de pensar que, por uns tempos, vou mudar de vida. Esta mudança para a terra da minha mãe até parece um passe de mágica, como se, ao mesmo tempo, fôssemos os mesmos e não fôssemos os mesmos. A mim, por exemplo, deixam-me muito mais à vontade. Posso fazer coisas que, na cidade, são muito mais difíceis de conseguir, como andar sozinho na rua. E as casas? As casas são, quase todas, já bastante velhas. Como a da minha avó, para onde vamos. Tão velha que, se dermos um passinho com mais força, começa logo a ranger. O pior (ou o melhor) são os fantasmas. É verdade! Dizem que há lá casas onde aparecem fantasmas. Às vezes, durante a noite, ouço uns barulhos estranhíssimos. O meu pai diz que é a casa a arrefecer, que as madeiras estão velhas e estalam à noite, quando arrefece… Não sei, mas eu, já metidinho na cama, adoro fechar muito os olhos e acreditar mesmo que andam fantasmas (Uuuuuhhhhh!) pelo corredor. Tenho um bocadinho de medo, mas gosto. Como quando vamos passear à noite para uma estrada velha que não tem nenhuma iluminação. É tão escuro, tão escuro, que quase só nos distinguimos pelos barulhos que fazemos. Mas, quando levantamos os olhos para o céu, as estrelas são tantas, tantas, que parece um tesouro a brilhar. Fantasmas! Tesouros! Segredos! É, na aldeia da minha mãe, que vivo as mais emocionantes aventuras. Às vezes, até descubro coisas interessantíssimas na minha área de especialidade que, como sabem, é a de detective das palavras. É que as pessoas da aldeia sabem coisas! Coisas antigas. E têm modos de falar misteriosos. Pelo menos para mim. O mais espantoso de todos é o professor Santiago.

   Gosto muito do professor Santiago e ele, embora se esteja sempre a meter comigo e a resmungar, também parece que gosta de mim. No fundo, damo-nos bem. Foi o primeiro professor da minha mãe e... Querem saber uma coisa de chorar a rir? Trata-a por Naninha. A minha mãe, a senhora D. Adriana, para o professor Santiago, é a Naninha! Era assim que lhe chamavam quando era pequenina. Adoro descobrir estas coisas! Para mim, o professor Santiago é uma fonte inesgotável de curiosidades. É um sábio. Sabe muito de velharias, de histórias antigas, e tem uma maneira de conversar que parece que está sempre a desafiar-nos para resolvermos alguma charada. Usa palavras estranhas. Então a mim, chama-me cada coisa: seu meliante, seu farsante, seu bargante… Olhem, ainda no ano passado, aconteceu uma coisa bem engraçada. Mas que grande barracada que eu dei! Mas fiz uma descoberta sensacional! Descobri que… Vou contar:

   Um dia, ia eu todo contente pela rua abaixo em direcção ao largo para brincar com os meus amigos, quando vi, ao longe, que o professor Santiago estava à janela. Passei, olhei e cumprimentei-o:

— Bom dia, senhor professor.

É assim que toda a gente na aldeia o trata.

— Olá, infante! Então como é que vai a vida?

Apanhado de surpresa e sem pensar, repliquei:

— Infante?! Mas eu nem me chamo Henrique!

— Ah, sim? Olha, verdade, verdadinha, conheci-te ainda infante… mas infante é que tu já não és… Nem desses nem dos outros.

— Nem desses nem dos outros!? Que grande charada! — Fiquei eu a matutar, enquanto o professor continuava a fitar-me com o olhar desafiador do costume.

Para mim, só havia um infante: aquele que se pusera a olhar o mar na ponta de Sagres, o infante D. Henrique. Quando cheguei a casa, perguntei ao meu pai se havia mais infantes para além deste. Ele interrompeu a leitura do jornal e explicou-me que antigamente se chamava infantes aos filhos dos reis, como era o caso de D. Henrique.

— Ah, então há esses infantes. E os outros?

— Quais outros?

— Foi o professor Santiago que disse.

— Deves ter percebido mal. O professor Santiago sabe bem o que diz.

— Mas porque é que os filhos dos reis se chamavam infantes?

— Então ainda não ouviste falar da infância?

— Claro.

— Então, como são mais novos e não têm o poder dos pais, os filhos dos reis, enquanto não reinam ou se nunca vierem a reinar, é como se ficassem sempre na infância, como se fossem sempre crianças: ficam sempre a ser chamados infantes. Percebeste?

Eu disse que sim, mas a minha dúvida ainda estava longe de estar totalmente esclarecida: porque é que, segundo o professor Santiago, eu, que sou uma criança, «não sou infante nem desses nem dos outros»? «Desses», tudo bem. Sei muito bem que o meu pai não é nenhum rei. Mas «dos outros»?! Quais outros? Que charada! Comecei a tentar lembrar-me de mais alguma coisa que me ajudasse a descobrir este mistério e, de repente, vieram-me à cabeça mais umas palavras que ele disse: «e logo tu, meu grande tagarela, que falas pelos cotovelos». Ora essa, que tinham os meus cotovelos a ver com os infantes? Tagarela ainda fui ver ao dicionário da minha avó e descobri que era fala-barato. Esta também é engraçada: quem fala muito é fala-barato! Mas não me resolveu o problema de eu não ser infante «nem desses nem dos outros». A minha curiosidade era tanta, que lá me resolvi a ir, com uma carinha de penitente e falinhas mansas, enfrentar de novo o Professor Santiago:

— Ó senhor professor, vá lá, diga lá quais são os «outros infantes», para além dos filhos dos reis, diga lá.

— Ah, ah, seu farsante, de reis, já sabe alguma coisita… não é? Mas nesta dos outros infantes é que está mesmo às escuras…

— Vá lá, explique lá.

— Bem, bem. Para ter, é preciso merecer. Vou dar-te uma oportunidade de te ajudares a ti próprio na descoberta do que queres saber.

Tirou uma folha de um caderninho que trazia sempre no bolso e pôs-se a escrever devagarinho, como se estivesse a pensar ao mesmo tempo que escrevia. Quando acabou, disse:

— Aqui levas as pistas necessárias para encontrares aquilo de que precisamos para que eu satisfaça a tua curiosidade.

Eu já sentia no ar o cheirinho a aventura. Começava a ficar entusiasmado:

— Até parece um mapa de tesouro.

— E é. E é. Não há melhor tesouro do que conhecermos bem a nossa língua portuguesa.

Mal saí dali, pus-me a olhar fixamente para o que estava escrito no papel que me dera o professor:

«Vai ao princípio da principal

E verás uma alta ao pé de uma baixa.

Entra na alta e vira à direita.

Abre o de duas portas.

Na 120 do vestido de amarelo, encontrarás as seguintes palavras: “pueros infantia linguae”.

Copia as três palavras que estão antes destas.

Traz-mas e dar-te-ei a solução.»

— Que charada! Até parece uma mensagem de um velho mágico! «Na 120»!? Será uma estrada? «O de duas portas»!? Será um carro? «O vestido de amarelo»!? Que charada!

Resolvi sentar-me numa pedra à beira do caminho para pensar com mais calma.

— Vamos lá ver isto. Uma coisa de cada vez: se no «vestido de amarelo» há palavras, o mais certo, o mais certo… é que… seja um livro! Mas um livro vestido!? De amarelo?! Só se for, só se for… um livro encapado com papel amarelo! Deve ser um livro antigo, que está encapado para não se estragar.

Suspirei aliviado com estas pequenas descobertas, mas logo voltei à carga:

— Mas onde? Onde estará este livro amarelo?

Recomecei a ler devagarinho a mensagem do professor:

«Vai ao…»

— «Vai»? Eu, quando vou, vou… pela rua… Rua principal! É isso. É na rua principal da aldeia! No princípio da rua principal da aldeia!

Desatei a correr e quando cheguei à entrada da rua principal, levantei os olhos e que vejo eu? Uma casa alta mesmo ao pé de uma muito baixa. Entrei na alta, que era a escola, virei à direita e logo encarei… Sabem com quê? Com um armário de duas portas. Imediatamente o abri e, à minha frente, distinguia-se perfeitamente um grande livro encapado de amarelo! Só faltava a 120. Voltei à mensagem: «Na 120 do vestido de amarelo, encontrarás as seguintes palavras…»

Se o vestido de amarelo era um livro, então, a 120 de um livro deveria ser… a página 120! Era isso. Abri o livro na página 120 e os meus olhos ansiosos, sem perceberem nada do que lá estava escrito, começaram a percorrê-la, linha a linha, à procura das palavras mágicas:

— Bingo! Cá estão elas: Agora é só copiar as três palavras que estão antes destas.

Tirei do bolso um lápis que trago sempre comigo e, com alguma dificuldade, pois eram tudo palavras estranhas e completamente desconhecidas para mim, completei a frase: «protrahere ad gestum pueros infantia linguae».

— Safa! Que palavras esquisitas! Devem ser da língua dos mágicos.

Missão cumprida. Arrumei o livro no armário, guardei o papel no bolso e não perdi tempo a voltar ao encontro do professor Santiago.

— Estão aqui as palavras, senhor professor.

— Já, seu bargante? Hum, hum, vamos lá ver isso.

Eu dei-lhe o papel. E ele, muito calado, parecia divertido:

— Por Hércules, fizeste o trabalho, mereces a recompensa. Ora senta-te aqui ao pé de mim e escuta com muita atenção tudo o que te vou contar.

E começou:

— O livro de onde copiaste estas palavras é muito antigo. Foi escrito em latim, por Lucrécio, um escritor romano, que viveu no século primeiro antes de Cristo, e chama-se De Rerum Natura, que significa Acerca da Natureza das Coisas. É um livro muito interessante e, até, engraçado porque tenta explicar a origem de todas as coisas, plantas, animais, pessoas, num tempo em que ainda não havia saber suficiente para o fazer cientificamente. E, então, o Lucrécio inventa teorias que, hoje, nos parecem muito curiosas.

— Ó senhor professor, mas o que é que isso tem a ver com os infantes?

— Calma, rapazinho. Já lá vamos. Uma coisa, cuja origem também é muito interessante saber, é a linguagem. Não gostavas de saber a origem da linguagem, das palavras que dizemos?

— Sim, sim. Isso interessa-me e muito.

— Pois, como eu te ia a dizer, Lucrécio também arranja uma explicação para a origem da linguagem. Queres ver?

Voltou-se para a secretária e pegou num livro que devia ser igual ao que estava guardado no armário da escola. Só que, como não estava encapado, via-se perfeitamente, gravado logo no princípio, o seguinte:

Titi Lucreti cari

De rerum natura

 

Abriu-o e leu, adaptando-o para português, o pedacinho de que fazia parte a frase mágica que me iria revelar quem eram, afinal, os «outros infantes»: «… foi a natureza que obrigou os homens a criarem os vários sons da linguagem e a dar um nome a cada coisa, do mesmo modo que os bebés por não saberem ainda falar, se vêem obrigados a apontar com o dedo as coisas que querem…» E, logo a seguir, explicou:

— Para Lucrécio, foi naturalmente que os homens, por necessidade, foram inventando as palavras e pondo um nome a cada coisa. Como, para lhes facilitar a realização das tarefas da vida, precisavam de dar nomes às coisas, naturalmente, foram dividindo os sons que faziam, separando-os em diferentes palavras, uma para cada coisa. Não está nada mal pensado. Estás a perceber?

— ‘Tou,’tou.

— Então, vamos lá, agora, aos infantes. A frase que me trouxeste: «protrahere ad gestum pueros infantia linguae» significa o seguinte: a incapacidade de falar obriga os bebés a fazer gestos. Ora, nesta frase, qual achas tu que é a palavra que significa bebés?

Infantia. — arrisquei eu rapidamente.

— Ah! Ah! Caíste que nem um patinho! Pois não é. É pueros. Pueros é que são os bebés, como na palavra puericultura, que significa o tratamento dos bebés.

— Mas, então, se infantia, que é tão parecida com infância, não significa bebés, o que é que ela significa?

— Ora aí é que está a solução de todo o problema: a palavra infância, na sua origem, em latim, significava ‘incapacidade de falar’. E o infante era aquele que ainda não sabia falar. Esta é que é a solução: os «outros infantes» são as crianças que ainda não sabem falar. Por isso, é que tu, meu grande tagarela, também não és um infante desses outros.

— Ah! Ah! Agora percebo.

— Pois percebes, meu meliante. E ainda vais perceber outra coisa: quase todas as palavras que têm a ver com a fala: falar, falante, fama, afamado, difamar… e muitas outras, que ainda não conheces mas virás a conhecer, têm todas, como a palavra infante, a sílaba fa, que é a partícula mais pequenina com o significado de falar.

— Caramba! Nós até parecemos dois cientistas! Até parece que estamos a ver as palavras ao microscópio para descobrir as partículas das substâncias de que são formadas. Agora descobrimos o fa: a partícula do falar! É mesmo engraçado!

— Pois é, seu farsante!

— E agora já sei: eu não sou infante de uns, porque o meu pai não é rei; e, dos outros, porque já falo, já sei falar e, até falo pelos cotovelos!

— Brilhante!

Que grande descoberta e que grande lição! É mesmo engraçado descobrir a origem das palavras!

Bem, isto foi no ano passado. Este ano, ainda não sei que aventuras é que me esperam na terra da minha mãe. Só sei que, amanhã, quando lá chegar e encontrar o professor Santiago, lhe vou logo contar como me diverti a chamar infante ao Rui! É que o Rui é um amigo meu que é muito, mas muito, caladinho!

 

 

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por Maria Almira Soares às 14:41

Domingo, 10.05.20

A ÁRVORE DA BIBLIOTECA

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 Para Ângela Castro, Diretora da Biblioteca Municipal de Ovar e personagem desta história, a quem agradeço todas as preciosas informações e fotos que me facultou.

 

      Olá!

      Sou uma árvore. Há vinte e um anos que vivo numa terra chamada Ovar, precisamente no jardim fronteiro à sua Biblioteca. Trouxeram-me num vaso, ainda bem pequenina. Plantaram-me neste jardim e aqui fiquei a viver. Fomos crescendo as duas, eu e a Biblioteca: eu com cada vez mais ramos, folhas, flores; ela com cada vez mais livros, leitores, leituras. Somos amigas.

   Os que não me conhecem pessoalmente dizem que sou um «Feijoeiro da Índia». E sabem porque é que me puseram este nome? Por acaso, foi por engano... As minhas antepassadas mais remotas viviam na América do Sul e...

   — Mas, então, porque é que não és da América em vez de seres da Índia? — estais vós já todos a pensar.

       Um bocadinho de paciência, sim, que eu ia mesmo agora explicar. Quando os descobridores da América do Sul lá chegaram, julgavam que estavam a chegar à Índia e então... Estão a ver, não é? Mas ainda há mais, mais um engano. Quando lá chegaram e conheceram as minhas mais que tetravós, como somos leguminosas, lembraram-se de um legume que conheciam bem, o feijão, e, assim, com estes dois enganos juntos, fizeram de nós Feijoeiros da Índia. Só de nome, está claro! Claro que não somos nós que damos os feijõezinhos com que se faz um belo arroz!

   Seja como for, eu não acho lá muita graça a que me chamem assim. Gosto muito mais de um outro nome que me deram aqueles que gostam muito de mim, um nome afetivo, estão a ver? Ah, esperem aí que, antes desse nome, ainda vos quero dizer que também estou registada em latim como todas as espécies vegetais. No meu registo científico, chamo-me «Erytrhina crista-galli» que quer dizer ‘crista de galo vermelha’. Engraçado, não é? Nomearam-me assim, porque as minhas flores são de uma cor vermelho-vivo e têm a forma de uma crista de galo. Bem, cientificamente sou Erytrhina, mas gosto muitíssimo mais que me chamem pelo tal nome afetivo. É um nome cheio de carinho e amizade, assim como quando chamam Mimi a uma Emília ou Zezinho a um José. Sabem qual ele é, esse nome de que gosto tanto? Árvore da Biblioteca.

   Bom, basta de conversa sobre nomes e vamos lá contar-vos a minha história.

   Não sou muito alta nem muito gorda e tenho uma forte inclinação por aquilo que me rodeia. Vivo quase deitada sobre a terra. Acidentes de percurso, de que mais à frente vos darei conta, fizeram com que o meu tronco principal, antes tão aprumado, ficasse numa posição quase paralela ao chão. Mas não me queixo. Deste modo, fiquei mais próxima das crianças e dos olhos dos que passam por mim ou param à minha beira. Não sou uma árvore que foge para o céu; sou uma árvore que quase abraça a terra e as pessoas. As minhas flores são tão vermelhas que até parece que a minha seiva, corada da alegria de fruir o sol, ficou da cor do sangue vivo! São umas flores muito felizes. E as minhas folhas, muito verdes, também. Sou um bocadinho vaidosa e, por isso, adoro ver a sombra dos meus ramos projetada na parede branca da Biblioteca ou o seu reflexo nas grandes vidraças da sua porta de entrada.

     Como a minha forma não é assim muito vulgar, os meus conterrâneos e aqueles que visitam a minha terra, quando me veem pela primeira vez, abrem a boca de espanto.

     Quando eu era pequenina, ainda não sabia o nome desta grande casa, em frente da qual me plantaram, mas, com o passar do tempo, descobri-o. A princípio, quando ainda não sabia ler, todos os dias ouvia dizer — Olha, vou ali à Biblioteca. — Adeus, adeus, que tenho de ir à Biblioteca! — Hoje, vou passar a tarde aqui, na Biblioteca! E, como sou uma árvore inteligente, percebi logo que a grande casa, para onde havia sempre gente a entrar, era a BIBLIOTECA. Depois, aprendi a ler (já vos conto como foi) e, então, pude confirmar que o nome que aprendera de ouvido estava certo: era o que diziam as grandes letras bem visíveis por cima da porta de entrada. Adorava, e adoro, ondular os meus ramos para cantar estas cinco sílabas

B BLI O TE CA       Que música maravilhosa!

   Querem, então, saber como é que eu aprendi a ler? Foi assim: Os meninos que todos os dias passam por mim trazem e levam livros nas mãos e, às vezes, até se sentam, durante um bocadinho, aqui debaixo da minha ramaria; conversam, abrem os livros e põem-se a ler em voz alta uns para os outros. Ora, eu tenho de vos confessar que sou um bocadinho bisbilhoteira. O viver aqui e estar sempre a ver entrar e sair gente acicata-me a curiosidade. Enfim, levada por essa curiosidade, quando há livros abertos debaixo do nariz dos meus ramos, peço ao vento que, de um modo geral, é meu amigo:

   — Vento, ventinho, baixa-me um bocadinho!

   E o vento, tão querido, empurra-me as folhas quase até mesmo às palavras dos livros e elas, as minhas folhas, que têm uns olhos redondinhos (não sabiam?) e uns ouvidos bem afinados (não suspeitavam?), põem-se a aprender como os meninos leem as palavras, as frases, as páginas inteiras dos livros. Uma árvore de biblioteca tem de saber ler, não acham? E tem de ser leitora, não estão de acordo? Até me estou a lembrar...

   Estou-me a lembrar de vos contar que a Diretora da Biblioteca gosta muito de mim. Como é que eu sei? Sei, porque ela, todos os dias, quando entra e quando sai, olha-me com carinho. E até já me salvou a vida! Um dia, ouvi-a referir-se a mim dizendo «A nossa árvore». Nossa! Ai que bom! Fiquei tão contente! Pois a nossa Diretora (posso dizer nossa, não posso?) de vez em quando organiza umas coisas, umas sessões a que vêm muitos meninos e que até parecem festas. E, numa dessas festas, durante o verão, lembrou-se de pendurar livros em mim, como se fossem frutos. Então, ao fim da tarde, quando todos já se tinham ido embora, pedi ao vento que os fosse folheando e empurrando as minhas folhas para perto das folhas deles e li-os.

   Que giro! Acabei de descobrir que tanto eu como os livros temos folhas. Se calhar, é por isso que gosto tanto deles. E nem me importo que algumas de nós sejam transformadas em livros. É uma outra vida! Uma metamorfose! (Aprendi esta palavra difícil num desses livros que já li.)

   Sou uma árvore feliz!

   Sim, sou feliz, mas não pensem que a minha vida foi sempre um mar de rosas. Não foi, não senhor! Já passei alguns maus bocados. Até já vi os meus amigos temerem pela minha vida. A minha amiga Diretora chegou a andar muito preocupada. Foi assim:

     Num dia do rigoroso inverno do ano de 2001, caía tanta chuva e tão forte que quase ninguém se atrevia a sair de casa. O vento soprava uuuuuuuuuh! uuuuuuuuuh!, sem freio, vindo lá de longe, do norte, e batia em mim sem dó nem piedade. Eu tremia toda. As minhas folhas choravam. — Que medo! — gemia o meu tronco aflito.

     E as coisas pioraram.

     De repente, as minhas queridas folhas, especialmente as mais tenras, começaram a rasgar-se, feridas por um granizo feroz. O barulho era ensurdecedor. Na terra empapada, as minhas raízes começavam a sentir-se inseguras. O meu tronco, com os dois ramos que sempre tivera, começou a inclinar-se cada vez mais para o chão e, quase a desequilibrar-se, quase a desenterrar-se, tremia como varas verdes e suplicava: — Não me largues, terra! Não me largues!

   Caiu a noite. Tudo escuro. Toda a gente trancada em casa. Que fazer? Que fazer se a minha casa é ao ar livre?

   A fúria da tempestade cresceu tanto, abateu-se sobre mim com um tal ímpeto, que... sem poder resistir, fui-me dobrando, dobrando e... só parei já bem próxima do chão. As minhas raízes começavam a ver-se acima do solo. Toda inclinada, lá me ia milagrosamente aguentando contra todas as leis da gravidade. Parecia impossível que, quase sem ter base de sustentação, eu me aguentasse no ar. (Serei eu acrobata? Daquelas que fazem exercícios de equilíbrio dificílimos?) Enfim, cansada de tantas feridas e emoções, exausta, adormeci.

   Foram o sol da manhã — a tempestade acabara — e os pios de uns passaritos ainda assustados que me acordaram no dia seguinte. Mal abri os olhos das minhas folhas, lembrei-me dos lances terríveis por que tinha passado. Olhei-me e... confirmei o que me tinha acontecido. Felizmente as minhas raízes, embora um pouco postas a descoberto, ainda estavam presas à terra. Sentia-me angustiada. Cheia de medo de não me conseguir aguentar por muito mais tempo. Iria morrer a Árvore da Biblioteca? Chorava, escorrendo água das minhas folhas encharcadas da chuva.

   No relógio da torre da Igreja soaram as nove horas. O andar ligeiro e inconfundível da Diretora aproximava-se. Olhou para a minha desgraça e parou consternada. Estava ela, muito pesarosa, a olhar para mim, quando chegou uma brigada que andava pela cidade a desimpedir as ruas e as praças dos troncos de outras árvores atiradas ao chão pelo vendaval. Ai! Nem me quero lembrar! Andavam de volta de mim, olhavam-me, avaliavam a minha situação e, concluindo que eu não teria hipótese de sobreviver, precipitavam-se a tratar do meu abate. Fechei os olhos assustadíssima, mas, de repente, ouvi a voz da minha amiga Diretora: Não, ainda não. É preciso avaliar melhor a situação! Consultar um perito. E, assim, me salvou. Fiquei mais baixinha, com os dois braços do meu tronco inclinados sobre a terra, mas continuei a viver neste lugar de que tanto gosto.

   Durante seis anos vivi em paz e encantada com a minha vizinhança. Cada vez mais frondosa, cada vez mais carregada de frescas folhas e coloridas flores. A minha copa enchia de prazer os olhos dos que, de longe ou de perto, em mim os repousavam e iam dizendo Que linda está a Árvore da Biblioteca! Ainda bem que a não abateram! Estaria linda, estaria, mas também estava a ficar muito pesada, demasiado pesada, e... um dia...

   Foi por meados de maio do ano de 2017, numa noite de sexta para sábado, já pela madrugada. As forças do meu tronco, há tantos anos inclinado sobre a terra e a suportar o peso cada vez maior da minha bela copa, estavam no limite. A silhueta ramificada do meu corpo vergava, vergava... Num momento, senti uma dor aguda e vi, aterrada, que me estava a rachar e que um dos meus braços se separara irremediavelmente de mim.

   Seria dessa vez que me iriam condenar a deixar de ser árvore? Não! Faremos tudo para evitar que a nossa árvore morra. — disse mais uma vez a Diretora. Nossa! O meu coração aqueceu. Até parecia que já me sentia melhor.

   Trataram de colocar o tronco, que eu perdera, sobre a terra, ao pé de mim. Fiquei mais pequena e mais frágil, mas fiquei.

   — Talvez volte a ganhar novas forças! — diziam os otimistas.

     — Parece-me que não vai conseguir sobreviver... — agoiravam os pessimistas.

   Estavam todos preocupados e eu sentia-me mais confortada com o seu desvelo.

   Todos os dias me olhavam à procura de melhoras.

   Iria a Árvore da Biblioteca vencer mais aquela prova?

   Estive entre a vida e a morte, sim, mas, como já bem concluíram, miraculosamente sobrevivi. Senão, não estaria aqui a contar-vos a minha história. Cá estou, vivinha da silva! E com uma forma ainda mais escultórica, mais invulgar numa árvore. Tenho aqui, pousado ao pé de mim, o tronco que perdi. Gosto muito de que as crianças se encavalitem nele a brincar. A sua presença faz-me lembrar, a mim e também aos que me conheceram inteira, de como eu era dantes.

   Toda a gente se espantou com o meu renascimento e, quando passam por mim, até dizem «esta árvore tem sete vidas». E eu penso que, se a tanto resisti, é porque sei que fico muito bem aqui e porque sei que todos iriam ficar muito tristes se os seus olhos não me encontrassem à entrada e à saída da Biblioteca.

   Ainda ontem, surpreendi dois avôs com os netos pela mão a olharem para mim e a dizerem:

   — Viva, senhor José! Já viu? Esta árvore tornou-se um emblema!

   (Glup! Eu, um emblema?! A seguir, percebi tudo.)

   — Bem lembrado, senhor António! Olhe, era desenharem-na em tudo quanto é papel e objeto de trabalho da Biblioteca...

   — Pois... Pois... É que não só é bonita como também é original e representa bem a vitória da vida sobre a destruição.

   — Isso! Seria o emblema da vitória da leitura sobre a ignorância.

   — E da beleza da Arte e da Natureza.

   (Boa! Que grande ideia! Assim, mesmo que eu morresse, ficaria sempre lembrada!)

   Depois de ouvir isto, estava tão sonhadora, que os meus ramos mais frágeis pararam de abanar e ficaram muito bem desenhados contra o azul do céu. Estava eu assim tão pensativa, quando uma rabanada de vento repentino arrancou, das mãos de um jovem que se aproximava, uma folha do jornal que ele vinha a ler. A folha do jornal soltou-se, revoluteou no ar e veio pousar no meu tronco mais grosso. Pus-me logo a ler e... Que vejo eu?

   — A minha fotografia está no jornal? Sou eu! Sou eu! E diz aqui que... diz aqui que posso vir a ser uma Árvore de Interesse Público!

   Porque será? Hum, hum, deixa-me cá pensar... deixa-me cá pensar... Eu já ouvi esta palavra público. Ah, sim, às vezes, dizem a Biblioteca Pública de Ovar. Ora, se eu sou da Biblioteca e se a Biblioteca é Pública, eu... também sou pública! É isto. Que bom! E ser de interesse público é ser do interesse de todos.

   Assim, quando estiver para vir a tempestade, todos me virão proteger e a minha vida será tão longa e tão feliz como a da BI-BLI-O-TE-CA!

   Viva a Biblioteca que tem uma Árvore, eu! E olhem que eu existo mesmo e a minha história é verdadeira. Se quiserem, podem cá vir visitar-me. Terei muito gosto em vos receber.

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por Maria Almira Soares às 14:29

Sexta-feira, 01.05.20

JÁ SEI! o B

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No dia seguinte, mais ou menos à mesma hora, o Já Sei, que era pontual, apareceu no mesmo sítio do jardim, onde o Luís e a Susana se costumavam sentar depois de ficarem cansados com tanta brincadeira. Vinha a dançar e a cantar:

B   B  B B   B B   B B   B!

— Olá! Vens todo contente. Que é isso que vens a cantar?

— Olá! É a cantiga do B.

— Qual ? Não conheço nenhum .

— O B é a segunda letra. Vem logo a seguir ao A.

— Ah! As letras também servem para cantar! Julguei que era só para brincar… — Disse a Susana.

— As letras servem para escrever. Depois de escritas, podemos lê-las, dizê-las, cantá-las…

— Já vi o meu pai a escrever.

— E eu já vi a minha mãe a ler.

— Mas nós ainda não sabemos.

— Pois não. Ainda sois pequeninos. Mas, agora, já sabeis como é o A.

— E o como é? — Perguntou o Luís.

— Assim: B

O Já Sei soprou com força e um grande B ficou desenhado na areia.

— É muito diferente do A. Tem duas barrigas!

— E hoje a que é que vamos brincar? — Perguntou o Luís.

— Ao B. Olhem muito bem para este B que aqui está. Eu vou contar até 10. Quando chegar ao 10, este B desaparece daqui e vai esconder-se nos arbustos do jardim. E vocês vão procurá-lo. Se souberem muito bem como ele é, pode ser que o encontrem.... Mas, se não se conseguirem lembrar de como ele é, mesmo que esteja à vossa frente, não o conseguirão ver. Preparados? Vou começar: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10. Pst!

— Desapareceu! — Disseram os dois.

— Agora, podem começar a procurar. Eu fico aqui à espera.

E estendeu-se na areia todo repimpado. Parecia uma lagarta gorducha.

   O Luís e a Susana lá andavam por um lado e por outro, afastando os ramos dos arbustos, espreitando para trás dos vasos de flores, à procura do B, mas, por enquanto, nada! Ou estava muito bem escondido ou eles tinham-se esquecido de como ele era e, por isso, não o conseguiam ver. Era bem divertido este jogo do B, parecido com a caça ao tesouro ou com o jogo das escondidas. De repente, ouviu-se um gritinho. Era a Susana:

— Está aqui!

E lá vinha ela com um grande B na mão, a cantar toda contente: bê-bê-bê-bê!

— Onde é que o encontraste? — Perguntou o Luís.

— Estava atrás da roseira. Ia-me picando toda. Mas vi-o logo. Lembrava-me tão bem das suas duas barriguinhas!

— Eu também me lembrava. Mas tu chegaste lá primeiro.

— Tive sorte.

— Muito bem, muito bem. — Disse o Já Sei. — Este jogo das letras está a correr muito bem.

— Pois está. Já sabemos o A e o B.

— Agora, são horas de me ir embora. Até amanhã! — Disse o Já Sei e lá foi, pulando, até ao fundo do jardim.

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por Maria Almira Soares às 10:54

Sexta-feira, 01.05.20

JÁ SEI! o A

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Era verão. Estava calor e os dias eram grandes.

A Susana e o Luís, cansados de tanto brincar, sentaram-se num murinho do jardim. Os dois amigos já tinham brincado a tudo: a correr, a saltar, a jogar à bola. Agora, estavam a descansar, calados, a olhar para o chão, sem fazerem nada. Ao fim de algum tempo, começaram a ouvir um barulho, baixinho e repetido, como se alguém viesse a aproximar-se. Levantaram um pouco a cabeça e viram, a mover-se na areia grossa da álea do jardim, uma figura que ainda não conseguiam perceber quem era. Deslocava-se aos pulos, com a cabeça bem levantada e dirigia-se ao lugar onde eles estavam. O seu corpo tinha a forma de um harmónio e era muito colorido — vermelho, amarelo, verde, cor de rosa, azul, cor de laranja — como os balões do São João ou os bonecos das festas chinesas. Pelas marcas deixadas na areia, parecia ter vindo assim a pular, lá desde o fundo do jardim, uma parte onde havia muitas árvores. À medida que se ia aproximando, a Susana e o Luís iam vendo melhor a sua cabeça, redonda e bem erguida. Até já conseguiam ver que tinha uns olhos risonhos, uma boca muito bem desenhada, um nariz e duas orelhas. Os meninos estavam de boca aberta de espanto a olhar para o que não sabiam o que era. Mas sabiam— agora já não tinham dúvidas — que vinha ter com eles. Quando já estava muito próximo, parou. Esticou o corpo, levantou ainda mais a cabeça, olhou para eles e disse:

— Olá!

A Susana e o Luís estavam tão espantados, que nem foram capazes de lhe responder. E, então, ele repetiu:

— Olá!

E, desta vez, ao ouvirem um «olá» tão alegre, quase sem quererem, responderam:

— Olá!

— Sabem quem eu sou?

— Não!!

— Pois eu sei quem vocês são. Conheço-vos, porque vivo neste jardim. Tu és a Susana. E tu és o Luís, amigo da Susana, e costumas vir brincar com ela, todas as tardes.

— E tu? Como é que te chamas? — Perguntou a Susana, já mais calma.

— Eu? Eu sou o Já Sei.

Já Sei?! — Espantaram-se os dois.

— Sim. Chamo-me Já Sei.

Os dois meninos olharam um para o outro muito admirados: não conheciam ninguém chamado Já Sei. Mas também não conheciam ninguém com um corpo igual àquele.

— E quem é que te pôs esse nome tão esquisito?

— Foram os meus irmãos mais velhos.

— Ah! Tens irmãos!

— Pois tenho. Tenho dois: o Já Faço e o Já Vou.

— Ah, ah, ah, que engraçado! Vocês devem ser da família . São todos ! — Disseram, a rirem-se, os dois amigos.

— Como é que adivinharam? É verdade. A minha mãe é a D. Já Está e o meu pai é o Senhor Já Cheguei. Querem saber por que razão vim ter convosco?

— Queremos!

— Pois, então, eu vim, porque vocês já não sabiam ao que haviam de brincar.

— E tu? Sabes?

— Claro! Eu sou o Já Sei.

— Então, diz lá.

— Bem, eu sei uma brincadeira a que acho que vocês nunca brincaram.

— Qual é?

— Às letras.

— Às quê?

— Às letras.

— Letras?! O que é isso?

— Isso é o que vocês vão ficar a saber, se quiserem brincar comigo.

— ‘Tá bem! E há muitas letras?

— Vinte e seis!

— Tantas! E são todas iguais?

— Não. Nada disso. As letras são todas diferentes umas das outras.

— Diferentes, como?

— Cada uma tem um desenho diferente. Umas são mais gordinhas, outras mais magrinhas; umas mais redondas, outras mais bicudas; e assim…

— Ah!

— E também são diferentes no som. Cada letra tem um som diferente.

— Que engraçado!

— E como é que se brinca às letras?

— Se vocês quiserem, eu venho aqui ter convosco todos os dias e, em cada dia, brincamos a uma letra.

— Até já podíamos começar hoje. — Pediu a Susana.

— Pois, estávamos tão aborrecidos sem saber ao que brincar… — Apoiou o Luís.

— Muito bem. — Disse o Já Sei e soprou a areia do jardim.

Imediatamente apareceu um grande A desenhado no chão.

— Que giro! Parece um escadote aberto.

— A mim, parece-me uma cabana.

— Nem escadote nem cabana. Este é o A, a primeira letra. Mas este é um A mágico. Vamos brincar ao A. É assim:

1º — Vocês olham muito bem para o A.

2º — Fecham os olhos com muita força e ficam a pensar no A.

3º — Com os olhos ainda fechados, dizem: A!, virados para o chão.

4º — Abrem os olhos.

Se aparecer um A desenhado na areia à vossa frente, ganharam.

— Ganhámos?! Porquê?

— Porque o A só aparece, se vocês, mesmo com os olhos fechados, se lembrarem de como ele é.

— Vamos jogar?

— Vamos.

Então, o Luís e a Susana olharam muito bem para o A e, depois, fecharam os olhos, enquanto o Já Sei o apagava do chão e, depois, gritava:

— Agora!

E os dois, ainda com os olhos bem fechados, disseram:

A!

A!

— Ganharam os dois. Já podem abrir os olhos.

E, na verdade, como que por magia, à frente de cada um, lá estava a letra A desenhada na areia do jardim.

Riram-se e bateram palmas, todos contentes:

— Já sei o A!

— Já sei o A!

— Agora, tenho de me ir embora. — Disse o Já Sei — Até amanhã!

E lá foi, pulando até ao fundo do jardim, enquanto o Luís e a Susana também pulavam, mas de contentes por já saberem o A, a primeira letra.

 

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por Maria Almira Soares às 10:48

Terça-feira, 21.04.20

A REVOLTA DAS FRASES

Para ouvir um dos momentos dramáticos desta história, em que as frases, lideradas por D. Frase -Deixem-me em Paz! , se revoltam. O antes e o depois deste momento estão lá, no livro, onde podem ser lidos.

 

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por Maria Almira Soares às 18:38

Sexta-feira, 06.03.20

NA POSSÍVEL TRANSPARÊNCIA DA FICÇÃO

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NA POSSÍVEL TRANSPARÊNCIA DA FICÇÃO

O céu que nos protege de Paul Bowles

   Talvez este romance seja sobre o Sahara, a vida nas cidades do deserto.   Talvez este romance seja sobre a viagem. Não a turística, mas a genuína. Talvez este romance seja sobre um homem e uma mulher. Talvez este romance seja sobre tudo isto. Este romance é sobre um homem e uma mulher viajando pelas cidades do deserto do Sahara.

     Este romance conta-nos a experiência da viagem no deserto norte-africano, vivida profundamente até ao abismo. A entrega ao deserto, sem cortinas, sem resistência. Até com uma certa gula. A gula de experimentar, de se testar no maravilhamento e no risco, na procura do desvendamento de um sentido outro para o ser-se humano, um modo diferente do ser-se americano, do ser-se europeu. Ser-se o quê? O encontro com o que sentem e o modo como vivem homens e mulheres que se vestem de outra maneira, que constroem as casas e as cidades segundo outras ideias. E o pensamento ocidental, vário, sobre o sentido da relação com estes homens e mulheres diferentes: Mudá-los? Preservá-los? Deixá-los entregues a si mesmos? Enfrentá-los? Desprezá-los? Aproveitar-se deles? Deixar que sejam eles a aproveitar-se? Saber cruzar amigavelmente os seus caminhos será possível? Trazendo o «ocidente» na mala de mão? De mãos vazias e peito aberto, sem reservas? Debaixo da abóbada sentida fisicamente, material, do céu do deserto, estas questões adensam-se sob a forma do espanto, do horror, do desconforto, da repugnância, da atração abismal, do maravilhamento, da desistência, do abandono, da subalternização da morte, da entrega, do sofrimento, do engano, da afirmação de poder, da inocência, da duplicidade, da maldade, da estupidez. Paul Bowles é senhor de uma gama de tonalidades do Humano que, neste pródigo terreno, vicejam, crescem, se entrechocam, tecem atmosferas cruéis, venenosas.

   Eixo deste tremendo mapa de emoções, é a viagem. Uma estirpe de viagem que não se confunde com a superficialidade, a precariedade, a autoproteção, a complacência, a desumanidade, até e por vezes, da viagem turística. Bowles conhece profundamente esta estirpe de viagem e as suas várias camadas: real, material, cultural, psicológica, existencial, imaginária, religiosa, simbólica. Bowles, o experiente viajante, sabe quanto a viagem pode ser perturbadora, um corpo-a-corpo com o diferente do qual pode até não se sair vivo. Pela sua experiência de vida, está apto a criar o viajante puro (Port), a viajante sempre em dúvida (Kit), o viajante frustrado (Tunner), a repelente fabricante de spots turísticos a partir da vida de gente que não compreende nem quer compreender, com uma superficialidade cruel mas rentável, ignorante mas poderosa, sabida, autoconfiante (Mrs. Lyle e seu apêndice). A experiência da viagem e os seus contextos desdobram-se num crescendo dramático de situações geradoras de emoções várias de maravilhamento, de nojo, de fuga, de medo, de conflito, de coragem, de rendição, de doença, de morte, de loucura, de corte absoluto. Exotismo? Só mesmo muito, muito, marginal. E mais do leitor do que do romance. Mensagem? Difícil equacioná-la, isolá-la. Viagem sem regresso? Sem paragem? Aviso? Estamos no plano do único, do irrepetível e o único não é exemplar. A chave desta viagem não está no lugar, mas nos viajantes, aqueles e não outros, um Port e uma Kit irrepetíveis na possível transparência ficcional da vida, mas também na alucinatória criação do imaginário literário, da arte.

   Um homem e uma mulher bebem chá no deserto sob um céu que finalmente sairá inocente da sua tragédia. Um homem, uma mulher, um par trágico. Tragédia de ubris e de culpa. De destino? Sem a ubris, sem a culpa, sem o destino, a doença teria sido resolúvel e não teriam fatalmente acabado na morte e na perpétua errância. Port, o jovem apaixonado pela viagem e pelo impulso interior de provar a si próprio e a Kit que haveria ali, para eles, lugares de conhecimento de vidas em estado puro, inocente, e, por isso, impossivelmente felizes. Port, o homem apaixonado por uma narrativa genesíaca sobre o deserto como um éden intocável. Kit a mulher, seguidora, discípula, a viajante do deserto pouco convicta, a intermitente, a cheia de presságios, a suspirante pela amenidade de Itália. Um par. Uma vida de doze anos em comum. O conflito latente. A tentação da tentativa constante. A suspeita da traição e da mentira. O medo. A culpa. A fragilidade e imponderabilidade do amor. A sujeição a Tanner, um manso fermento do mal. Desequilibrador. Menor e, no entanto, poderosa ruína do elo entre Port e Kit. No insuportável calor do deserto, a desconfiança e a culpa transformadas em obsessão e arrastamento até à morte e à loucura. A acumulação das reprovações mudas, das resoluções ocultas, a cavar, nas consciências mútuas, o caminho para o ponto de não regresso.

   Este romance é sobre tudo isto. Este romance é sobre um homem e uma mulher viajando pelas cidades do deserto do Sahara. Segundo Paul Bowles.

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por Maria Almira Soares às 15:57

Terça-feira, 03.03.20

OS LIVROS NÃO MORREM DE MORTE NATURAL

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     E é por ser a leitura coisa pessoal que o ser humano não-leitor é um ser intelectual e sensitivamente em perda significativa: perda, não só de conhecimento e de alargamento cultural, mas, sobretudo, perda de possibilidades de aproximação entre os riscos da vida e as estrias da sua própria natureza. Ou seja, perda de possibilidades de construção e realização pessoal. O não-leitor é, geralmente, assinalado por incumprimento comportamental ou ineficácia cultural e não pela perda de possibilidades de conhecimento de si, que a ausência da leitura implica. A leitura é um formidável catalisador de realização íntima e, daí, de descoberta auto e hetero, com comprazimento ou não.

   Afirmações genéricas a respeito da leitura, desatentas do seu carácter pessoal, produzem-me a sensação residual de alguma hipocrisia. Afirmações tais como: Tal ou tal livro já não é lido, porque nada tem a ver com os tempos em que vivemos...

ou

Deixaram de ler estes livros, porque não entendem os seus mundos de referência, porque essas histórias do passado nada lhes dizem...

ou

A proposta de livros a serem lidos não deve incluir senão os que tenham uma linguagem próxima da sua e situações semelhantes às do seu quotidiano...

obrigam, para contrariar a referida sensação de hipocrisia, a que lhe acoplemos adversativas tais como

...e, no entanto, os livros da Condessa de Ségur estão a ser reeditados e veem-se com frequência no top das livrarias.

ou

...e, no entanto, abundam declarações lamentando não encontrar acessíveis para compra os aquilinos, os ferreiras de castro, os nunos braganças, coisa que impede a satisfação do desejo e da curiosidade de os lerem.

ou

...e, no entanto, que saudades e que roubo às jovens gerações, o apagamento, por exemplo, de Júlio Dinis.

   E é assim que alguns livros e alguns autores arredados pelos ares dos tempos, surgem, no discurso comum sobre a leitura, apenas na qualidade de adversativas: não para serem lidos, mas como objetos de saudade e homenagem como a que se faz a mortos ilustres. São tratados como livros mortos que o apego ao tempo como critério de arrumação cultural silencia e sonega ao desejo íntimo de quem poderia amá-los. A coberto da ideia de mortos queridos, que alguns de nós conheceram, são induzidos como merecedores, tão-só, de uma reza de ressurreição pojetada para um inefável juízo final, a partir do seu acondicionamento na memória de quem os ama. Os livros não morrem de morte natural. Se os não enterrarem vivos, a sua vida está sempre em aberto, em desobediência às prescrições temporais e temporárias, em correspondência com o desejo íntimo de um leitor.

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por Maria Almira Soares às 17:45

Terça-feira, 25.02.20

OS LIVROS

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   Arrumados em taxonomias epocais, por séculos, por modas, pelo dito gosto coletivo, por tendências, o mais que os livros fazem é arredarem-se um bocadinho para irem deixando emergir, sonâmbula e seletivamente, os clássicos, os grandes clássicos. Olhamos as paisagens literárias e vemos largas searas acamadas em talhões de silêncio mosqueados aqui e ali pela cor distinta deste ou daquele clássico. E nós, os que as olhamos, vemos, na paisagem literária de hoje, os iludidos morituri de um consumo desgastante.

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por Maria Almira Soares às 13:35

Segunda-feira, 17.02.20

ALICE FAZ UM PAÍS

Alice Faz um País

         Maria Almira Soares  

       VI

[Continuação.]

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    A Alice, toda entretida com o seu país, não ligou. A mãe ou o pai ou o irmãozinho que fossem abrir. Eles que interrompessem os seus afazeres tão preciosos. E assim foi. O pai da Alice lá largou o jornal. Ouvindo ao longe os ruídos do pai a perguntar Quem é? , a abrir a porta e a falar com a Dona Adília, a porteira, que vinha avisar de que tinham cortado a água, a Alice, em vez de ceder à curiosidade, preferiu dar asas à sua imaginação e é ela, essa menina que continuou a ser sempre muito imaginativa, que nos vai contar o final desta história:

«— Quem é?

— Én o Fanzi.

— Quem?!

— O Fanzi, o amingo da Alince.

— O quê?!

O meu pai completamente assarapantado foi até à sala e disse:

— Diz que é o Fanzi. Vocês conhecem algum Fanzi?

   Nesta altura já os meus ouvidos, alertados pelas vozes que vinham da sala, se tinham posto à escuta e, mesmo através da porta, tinha-me parecido ouvir uma palavra familiar. Teria sido Fanzi? Saltei da cama, abri a porta do quarto e zarpei sala fora em direcção ao intercomunicador.

   — És tu, Fanzi?

   — Soun. Olán, Alince!

   Já eu estava a carregar no botão que fazia abrir a porta, enquanto todos — até o meu irmão conseguira descolar-se do computador — me olhavam atónitos, com os olhos arregalados. A minha mãe, a gaguejar de espanto, começou a dizer:

   — Don-donde é que tu conhe-nhe-ces esse Fanzi?

   Mas já eu abria a porta a um rapazinho risonho e desembaraçado que, depois de sacudir os sapatos no tapete, entrou e começou logo a tirar o casaco com capucho para a chuva que trazia vestido. Tinha uns caracóis escuros que não paravam de se mexer para um lado e para o outro.

   — Ah, apanhaste chuva. E em Fazendaran, estava a chover?

   — Um boncandinho, mans nanda quen se panrença com insto anqui...

   Ali, tirando eu e o Fanzi, ninguém estava a perceber nada daquele chinês, ou antes fazendarês. Nós os dois, porém, alheios à estupefacção dos outros, continuávamos muito sorridentes e contentes por nos termos encontrado.

   — Que bom que me vieste visitar! Estava mesmo a sentir-me sozinha.

   — Olhan, apetenceu-me danr uman voltan e cán estoun.

   Bem, aquilo era demais! Que espécie de trapalhada era aquela?! Onde tinha, eu, arranjado aquele amigo que falava de um modo tão esquisito? — pensava a minha mãe. E, puxando pela manga da minha camisola, abanou-me dizendo-me ao ouvido:

   — Diz-me já imediatamente o que é que se está aqui a passar.

   Então eu caí em mim e voltando-me para os outros disse:

   — Ah, desculpem. Quero vos apresentar o meu amigo de Fazendaran, o Fanzi. Fanzi, estes são o meu pai, a minha mãe e o Luís, o meu irmão.

   — Fazendaran!!! Que é isso? Onde ... fica Fazendaran?

     O Fanzi riu-se mas não se admirou:

   — Én um paíns muinto rencente, não men adminro que não o conhençam.

   — O que é que ele disse?

     — Ah, pois, vocês não sabem falar fazendarês. Não faz mal, eu traduzo. Ele disse que Fazendaran era um país muito recente e que, por isso, não se admirava que não o conhecessem.

     A minha mãe já não podia mais, já não aguentava mais aquela charada e:

     — Alice, Alice, se é para te vingares de não termos querido brincar contigo, já chega. Deixa-te lá de palhaçadas com esse teu amigo.

     — Não, mãe, mas é verdade, o Fanzi vem de um país que eu...

     — Ván lán, não se zanguem com a Alince. Senão eun voun-men ján embonra.

     — Ainda por cima constipado! — disse finalmente o Luís, o irmão da Alice.

     — Constipado!? Ah, ah, ah, o Fanzi não está constipado. No país dele, fala-se assim.

   Bem, a trapalhada tinha chegado a um ponto que os punha todos a olhar uns para os outros sem saberem o que fazer: eu, porque nunca esperara que a minha coisa que desse tão bons resultados; o meu irmão a pensar que um dia destes eu ainda dava em maluca; o meu pai quase a perder a paciência para tentar perceber o que ali se passava; a minha mãe quase, quase, a ter a ideia de fazer de conta, entrar no jogo, fingir que não percebia que aquilo era tudo engendrado por mim e por um colega de escola, para me vingar, e quase a convidar o pequeno para jantar... quando, realmente, se ouviu a voz da minha mãe:

     — Meninos, todos para a mesa!

   Às vezes, a minha mãe incluía-nos a todos, também ao meu pai, quando chamava «Meninos!».

   E repetiu:

   — Todos prà mesa! Hoje o jantar é petiscos.

     Ainda bem. Fazer um país era giro, mas dava muito trabalho. E a verdade é que eu já estava a ficar com fome. Ainda para mais o jantar era petiscos: quando a minha mãe passava a tarde a corrigir trabalhos, depois, cansada e sem tempo para cozinhar, era certo e sabido que «o jantar era petiscos». Era assim que a minha mãe dizia, quando enchia a mesa com coisas saborosas que sempre havia na cozinha. Parecia um piquenique!

   Levantei-me de um pulo e saí do quarto a correr. Mas, quando cheguei à casa de banho para lavar as mãos, vi que estavam todos a barafustar por não haver água. Que maçada! Que maçada! Estavam todos arreliados.

   Todos, não. Eu desatei a rir enquanto, toda arrepiada, me imaginava a meter os meus pés, felizes, nas ondas pequeninas e frescas do mar azul de Fazendaran!»

FIM

 

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por Maria Almira Soares às 16:25


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