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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)


Quinta-feira, 16.09.21

JÚLIO DINIS SOB O SIGNO DA MELANCOLIA E DO PRAZER

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Foto retirada de «JULIO DINIS em OVAR», Anthero de Figueiredo in Serões — revista mensal ilustrada, n.º 8 (Fev.1906).

   

        «Às vezes os sentimentos melancólicos trazem consigo algum prazer também, um prazer suave, íntimo, consolador.»  

    Esta frase é retirada do romance Uma Família Inglesa, o primeiro que Júlio Dinis escreveu, não o primeiro que publicou. Começou a escrevê-lo (presume‑se) em 1858, quando era um jovem escritor com dezanove anos de idade, mas só iniciou a sua publicação quase dez anos depois, em 1867, em folhetins, no Jornal do Porto, com o título Uma Família de Ingleses e publicou-o em volume, em 1868, já com o título que hoje tem. Este foi o seu único romance de temática citadina. Entretanto, deu prioridade de edição a As Pupilas do Senhor Reitor, um romance de cenário rural, que iniciara e em parte escrevera em Ovar, a terra acerca da qual Júlio Dinis disse, em carta de 1863, dirigida ao seu amigo Custódio Passos, «Ovar é uma vila e é uma aldeia».

   Olhando mais de perto as palavras sobre melancolia e prazer, de que parto, situo-as numa passagem do desenvolvimento da intriga sentimental do romance: o encontro aparentemente casual entre Carlos Whitestone e Cecília. Trata-se de um momento melancólico pelo lugar em que se desenrola e pelas memórias que evoca nas personagens.  O lugar é um cemitério, onde convergem Manuel Quintino e Cecília, motivados pela evocação saudosa da mulher e da mãe, e Carlos cuja presença tem uma motivação de sinal emocional diferente, o seu amor por Cecília. Porém, partilhando Carlos com ela a situação de orfandade materna, há razões para pressentirmos que também ele seja contagiado pela melancolia ali reinante. Em fundo e já fora do romance, não deixa de se vislumbrar ainda a sombra do autor, ele próprio vítima da perda precoce da mãe.

     Alheio à intriga, o narrador procura interpretar os sentimentos das personagens e, portador de apurado sentido da ‘verdade’ das suas emoções, associa, à melancolia que sentem, alguma dose de prazer. De facto, é verosímil que, a contragosto do lugar fúnebre em que se encontram e dos tristes acontecimentos que evocam, Carlos e Cecília sintam prazer por estarem próximos um do outro, não só física, mas também emocionalmente, graças à afinidade das memórias que partilham.

     Assim começa, este meu texto, em tom menor. Em breve, porém, como fez o narrador dinisiano, associarei a esta tonalidade melancólica outras notas mais eufóricas: as do prazer de criar e de ler literatura.

     A caminho de deslocar o seu significado para um outro contexto, teclo de novo o pensamento inicial: «Às vezes os sentimentos melancólicos trazem consigo algum prazer também, um prazer suave, íntimo, consolador.»      

    Trata-se da expressão de uma “verdade” que não se esgota no sentido que o seu lugar intratextual lhe permite. Há, nela, uma reflexão genérica sobre a complexidade das emoções que me permite recolocar as suas duas palavras fortes, melancolia e prazer, em outras conjugações extratextuais.

    Penso, por exemplo, na conjugação, harmónica no seu resultado, entre o facto de ser Júlio Dinis um homem de temperamento melancólico e o facto de ter criado uma obra de carácter genericamente festivo que fez os seus leitores experimentarem o sentimento de felicidade pela leitura. Esta constatação, pela contradição que de certo modo encerra, não deixa de suscitar um certo efeito de espanto e de curiosidade, que pode ser formulado desta maneira: como é que uma obra de leitura tão consoladora pôde ser produzida por uma pessoa de feitio triste e de vida tão torturada pela doença e pela morte!  

    De facto, a melancolia era, segundo testemunhos vários e até confissões do próprio, uma característica bem visível no modo de ser de Joaquim Guilherme, a pessoa subjacente ao autor Júlio Dinis, que boas — ou antes más — razões tinha para ver a vida com olhos tristes.    

     Em 1926, numa peça publicada no Diario do Porto, uma entrevista ao Dr. Alfredo de Magalhães, ex-diretor da Faculdade de Medicina do Porto e reitor da Universidade da mesma cidade, a propósito das homenagens prestadas ao doutor Joaquim Guilherme Gomes Coelho, como forma de celebrar o centenário dessa escola, o jornalista refere-se-lhe nestes termos:

    «A obra de Julio Diniz é uma obra cheia de graça cintilante, cheia de beleza e de expressão. Julio Diniz era, todavia, um espírito melancólico e taciturno, duma expressão triste e dum caracter frio, duro e até intratável.»

   Informação semelhante pode colher-se a partir do relato que Anthero de Figueiredo nos deixou da sua visita a Ovar, mais propriamente da reprodução da conversa que manteve com a prima do escritor, durante o seu encontro na casa que, quarenta anos antes, o tinha acolhido:

   «— Tinha um ar triste, afirmei eu, quebrando o silêncio.

    — No Porto, sim, e aqui quando chegou: tudo lhe aborrecia!»[1]

    Em ambas as situações, Júlio Dinis é referido como dado à melancolia e ao aborrecimento.

    Estariam o jornalista do Diario do Porto e Anthero de Figueiredo a ser exatos?

    De facto, existem outros testemunhos a confirmá-los.

    Camilo Castelo Branco, por exemplo, escreveu acerca de Júlio Dinis, numa carta a Castilho: «É um sujeito doente e triste.»

    E o próprio Júlio Dinis não deixou de se referir repetidamente a estas características do seu temperamento, sobretudo em cartas dirigidas ao seu muito amigo Passos, irmão do poeta ultrarromântico Soares dos Passos, de que respigo umas quantas passagens:

— «... têm-se-me exacerbado os meus humores negros e estou, pelo menos moralmente, algum tanto pior.»;

— «... quando anoitece e pela madrugada, em que os diabos negros se apoderam de mim.»;

— «A solidão longe dos homens é para mim uma coisa agradável»;

— «Eu não tenho a qualidade, que admiro em certa gente, de apreciar a convivência...»;

— «... conspiraram-se variadas circunstâncias para me levarem o espírito àquele grau de melancolia já de há muito meu conhecido.»

    Júlio Dinis não era, pois, um ser dado ao bom humor. Era, pelo contrário, propenso a deixar-se dominar pela tristeza, amante da solidão, pouco dado à convivência, melancólico. E, no entanto, como escreve o jornalista do Diario do Porto, produziu romances cheios de «graça cintilante».

    Admirável talento literário, o seu, que soube criar e compor com um realismo assinalável, a partir da observação e da imaginação, figuras cheias de vivacidade como um João Semana, alegres e até um pouco entontecidas pela alegria própria como uma Clara, e tantas outras movendo-se em enredos romanescos que desencadeiam, nos seus leitores — os mais eruditos e os mais populares, no seu tempo e muito tempo depois — sentimentos de reconforto anímico, sensações de agrado, momentos de felicidade pela leitura.

    À receção da obra de Júlio Dinis que constituiu um caso singular de estrondoso êxito, esteve ligado um culto afetuoso da personalidade literária do escritor, motivado por uma espécie de gratidão, a do leitor que experimenta a leitura benfazeja. 

   Razão há, pois, para espanto perante o facto de um homem de temperamento e vida muito pouco alegres ter dado tanto prazer, através da leitura, a gerações e gerações de leitores! Quem, leitor da sua obra, mas desconhecendo a sua vida, adivinharia que por trás de romances tão solares estaria um homem tão sombrio!?

    Júlio Dinis tem consciência da vivacidade que anima os seus romances. Mais: dá-nos testemunho de como esse apelo literário ao vívido contacto com situações e personagens animadas por um realismo pleno de espontaneidade na exteriorização de sentimentos e anseios, reverte também em seu benefício, interrompendo o seu pendor para a solidão, o seu feitio avesso à convivialidade que não fosse a dos muito próximos. Assim, numa carta, datada do Funchal, dirigida a sua prima e madrinha D. Rita de Cássia Pinto Coelho, que trata afetivamente por Ritinha, escreve: «na vida desconsolada e insípida que aqui passo há verdadeiramente só duas ocasiões de satisfação para mim. A primeira é quando recebo e leio com ardor as cartas da família e dos amigos; a segunda é em alguns momentos em que me esqueço da realidade em que vivo, por muito me engolfar em um certo mundo que ando construindo e na convivência de umas criaturas que me devem a tal ou qual existência de que principiam a gozar.» Este «certo mundo» era o mundo de ficção que criava, no caso o de Os Fidalgos da Casa Mourisca que andava a escrever na altura, e as ‘criaturas que lhe deviam a existência’ eram «gente» imaginária como Dom Luís, Jorge, Maurício, Berta, Gabriela... personagens do romance.

   Aos momentos felizes que lhe dava o convívio imaginário com as personagens e com as cenas que criava, soma-se ainda a felicidade sentida, embora nunca muito exteriorizada, com a extraordinária receção da sua obra. Veja-se o caso da adaptação teatral de As Pupilas do Senhor Reitor por Ernesto Biester e o episódio apoteótico da sua estreia no Teatro da Trindade, em Lisboa.

     No caso de Júlio Dinis, o momento da elaboração literária e o da receção obtida pelo produto dessa elaboração, embora distanciados no tempo, estão fortemente correlacionados. A matéria do seu trabalho literário é fruto de uma aguda e justa observação do real, da vida de gente vulgar, e, por isso, os leitores, gente real e comum, sentem-se participantes dos seus romances e, daí, confortados com o reconhecimento de situações por eles vividas ou testemunhadas. Deste modo, experimentam a felicidade pela leitura e agregam grande afetividade ao acolhimento da sua obra. E esta é a principal razão de ter sido, ele, um caso singular de intenso e extenso êxito popular, o que não poderá ter deixado de talhar com momentos de alegria o seu pendor melancólico.

     Os romances de Júlio Dinis tiveram a arte de transformar em leitores e propagadores de leitura muitos que, até aí, não o eram. E isso deveu-se, em muito, à vivência de um gratificante processo de autoprojeção e identificação, que é o cerne da leitura de massas e arrebata amplas camadas de leitores médios.

     Sampaio Bruno, ou seja, José Pereira de Sampaio, de pseudónimo Bruno (de Giordano Bruno), diz em A Geração Nova: «O sucesso de Júlio Dinis proveio, pois, desta alegria do público em se sentir passar de espectador a ator em obra literária e o Sr. Luciano Cordeiro engana-se, julgando que o êxito da obra do escritor era um desfastio, porque, mais do que isso, ela correspondia a uma íntima necessidade de se encontrar na novela a representação da sociedade viva.»

    Teixeira de Vasconcelos, no jornal A Reforma (1871), afirma: «Gomes Coelho não apresenta nos seus livros nenhum d’estes repugnantíssimos typos, cuja história o leitor se enfada de lêr [...] Júlio Dinis retrata cenas que fazem bem ao coração do leitor».        

    Facto notável este, o de os romances de Júlio Dinis, num país com mais de oitenta por cento de analfabetos, encontrarem meios de serem “lidos” até por quem não sabia ler! As suas palavras eram recebidas oralmente em rodas de leitura em voz alta.

    Irene Vallejo diz que as palavras são, antes da existência de qualquer tecnologia cultural de escrita, «meros pedaços de ar»[2]; cita, de Homero, as «palavras aladas» que, posteriormente, procuraram «a sobrevivência»2, através da escrita. É, nessa sua primeira natureza aérea, que as palavras de Júlio Dinis encontram o caminho de muitos dos seus leitores/ouvintes. De facto, muitos dos seus leitores, apaixonados conhecedores e citadores das suas histórias, das suas personagens, eram analfabetos. Viviam-se tempos que nada tinham já de homéricos, mas em que, devido ao enorme índice de analfabetismo existente, a vida decorria, em muitos meios, na mais pura transmissão oral! Viegas Guerreiro recorda: «Eu lia, em rapaz, a camponeses da minha terra, romances de Júlio Dinis e de Camilo. E era vê-los participar na ação, falucando, perguntando, comentando.»[3] É que, e subscrevendo totalmente Irene Vallejo: «Afinal de contas o que é uma história? Uma sequência de palavras. Um sopro. Uma corrente de ar que sai dos pulmões, atravessa a laringe, vibra nas cordas vocais e adquire a sua forma definitiva quando a língua acaricia o paladar, os dentes ou os lábios.»2 E dessas sequências de palavras, desses «pedaços de ar», possuímos todos a aptidão de ser leitores. Trata-se de uma condição existente no humano, essa disponibilidade de recetor de histórias quer se concretize quer não através da leitura do escrito. Assim aconteceu com as histórias de Júlio Dinis e com o fortíssimo elo afetivo que criaram com os leitores.

   A provar este tão amplo alcance da receção dos romances de Júlio Dinis existem dados factuais, quantificados de que podemos recordar:

— No ano em que foram publicadas em volume, em Outubro de 1867, As Pupilas do Senhor Reitor esgotaram-se num mês!

— Em 1900, As Pupilas do senhor Reitor têm já catorze edições correspondentes a vinte e oito mil exemplares.

Os Fidalgos da Casa Mourisca, publicados já depois da morte do autor, tiveram oito edições correspondentes a treze mil exemplares até 1900.

— Nos inícios do século XX, Uma Família Inglesa ia na nona edição (dezasseis mil exemplares) e A Morgadinha dos Canaviais, na décima (doze mil exemplares).

   Outros dados existem, também factuais, mas medidos não em números, antes na expressão do reconhecimento afetivo e do prestígio do escritor:

— As conferências e discursos vários, pronunciados durante os muitos atos de homenagem prestados ao escritor, dão uma nítida e inegável imagem da receção havida por parte da sua obra. Respigando, entre muitas outras, duas significativas referências exemplificativas do tom e do sentido das palavras dirigidas à memória do escritor em tais circunstâncias: «insigne romancista»; «romancista querido de todos os portugueses», podemos avaliar bem o prestígio e mesmo o amor, advindos do prazer da sua leitura, que alcançou a obra deste escritor.

   E, no entanto, enquanto as suas histórias, fruto de aturado trabalho de elaboração literária, iam preenchendo, com cenas cheias de alegria, o imaginário dos portugueses, Júlio Dinis sofria melancolicamente os tormentos da sua tristíssima e tão curta vida.

     Eça de Queirós precipitou-se, arrastado pelo efeito de estilo, quando, afastando-se da realidade dinisiana, que talvez não conhecesse muito bem, disse de Júlio Dinis: «viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve». Júlio Dinis não viveu de leve; ninguém morre de leve; e a sua obra não se concretizou através da espontaneidade simples de uma escrita ingénua, mas foi fruto de pesquisa e de uma elaboração assente em convicções maduramente ponderadas. Provam-no, por exemplo, as páginas publicadas nos Inéditos e Esparsos com o título de Ideias que me ocorrem, escritas no Funchal em 1869. Nessas páginas, segundo Gaspar Simões, e justamente, «está nitidamente exposta uma verdadeira estética do romance realista». As opções literárias de Júlio Dinis são fruto de ponderação, de reflexão e análise da arte do romance e uma dessas suas claras opções é a de desenhar as suas personagens a partir de um agudo sentido de observação do real quotidiano, sobretudo de tipos rurais.

    Nessas páginas publicadas em Inéditos e Esparsos, Júlio Dinis escreveu: «Há uma lei do gosto literário em que eu acredito firmemente. O excecional, o extravagante, o desregrado não é o que desperta nos leitores ou nos espectadores o mais verdadeiro, o mais duradoiro interesse; pelo contrário, é o comum, o vulgar na justa aceção do termo. Quando encontramos em um livro pensamentos que já tivemos um dia, sentimos agradável surpresa, como ao darmos em um lugar, inesperadamente, com uma pessoa conhecida; quando no carácter, no coração de uma personagem literária, há alguma coisa que é nossa, quando nos reconhecemos em parte personificados numa criação, redobra o interesse com que o acompanhamos nas peripécias do drama.»[4]

    Foi em Ovar que Júlio Dinis colheu grande parte dos dados dessa observação do real a que tanta importância atribuía no seu processo de criação literária. E foi também sobre Ovar que o romancista escreveu, em carta a sua tia D. Rosa Zagalo Gomes Coelho: «os quatro meses que passei em Ovar foi o tempo mais feliz da minha vida». Sobre a relação do escritor com Ovar, diz-nos Antero de Figueiredo, no texto já citado e lembrando outras terras por onde Júlio Dinis peregrinou em busca de saúde (Felgueiras, Famalicão, Fânzeres, Funchal...): «A algumas dessas terras creou odio e em todas deixara o rasto amargoso do seu tédio; mas lembrando-se de Ovar sorria

   Ovar foi, pois, para Júlio Dinis, um sorriso, uma aberta solar na sua melancolia. Atrevo-me a pensar que esse sorrisonão advinha de motivações meramente pessoais; tinha um valor literário, associado à importância que a vida vivida em Ovar teve na consolidação das suas convicções estético-literárias e, daí, na fortíssima receção da sua obra. Assim, sorri o autor e sorrimos nós, os seus leitores.

    Ao fornecer-lhe matéria para a escrita de romances em que mergulhava com satisfação e, deste modo, contribuir decisivamente para a ampla onda de leitores que a sua obra desencadeou, Ovar tem, pois, responsabilidade no prazer que pode ter temperado a tristeza dinisiana. Foi em Ovar que Júlio Dinis começou a escrever As Pupilas do Senhor Reitor, romance que desencadeou o movimento da notável amplidão da receção da sua obra e da intensidade do gosto com que era lido. Virginia Woolf escreveu, no seu ensaio The Patron and the Crocus: «To Know whom to write for is to know how to write.»[5] e eu, estando de acordo com esta sua afirmação, atrevo-me a escrever que foi em Ovar que Júlio Dinis, ao conhecer os tipos humanos, reais e vivos, de que haveria de fazer personagens, conheceu simultaneamente quem, desdobrando-se por muitos, haveria de constituir a grande massa dos seus leitores. Aí, encontrou aqueles para quem estava a escrever e, seguindo Virgínia Woolf, implicou, nesse encontro, a consolidação da identidade quer temática quer estética da sua obra. 

 

    Joaquim Guilherme Gomes Coelho foi um homem cuja vida decorreu sob o signo da melancolia, mas teve o talento de se imaginar como Júlio Dinis, escritor cuja obra foi criada e lida sob o signo da alegria.  

 

[1] In «JULIO DINIS em OVAR», Anthero de Figueiredo in Serões — revista mensal ilustrada, n.º 8 (Fev. 1906).

[2] In Irene Vallejo, O Infinito num Junco.

[3] Viegas Guerreiro in Para a História da Literatura Popular Portuguesa.

[4] In Inéditos e Esparsos com o título de Ideias que me ocorrem, escritas no Funchal em 1869.

[5] «Saber para quem escrever é saber como escrever.» (Tradução minha.)

 

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por Maria Almira Soares às 23:00

Terça-feira, 31.08.21

Sophia é Berta d'Os Fidalgos da Casa Mourisca

Corria o ano de 1939.
Comemorava-se o primeiro centenário do nascimento de Júlio Dinis.
Houve Récita de Gala no Teatro Rivoli, no Porto, em que foi representada a peça extraída de «Os Fidalgos da Casa Mourisca».
Do vasto elenco de atores amadores que aqui posam para a fotografia fazia parte... «D. Sofia Melo Breiner Andresen» (1) no papel de Berta. (A primeira da esquerda dentre as três figuras femininas.)

(1) In «Boletim Cultural - Suplemento Trimestral ao Boletim da Câmara Municipal do Porto - número dedicado às comemorações do Centenário de Júlio Denis - Dezembro de 1939»

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por Maria Almira Soares às 21:02

Domingo, 06.06.21

O TEXTO-SOMBRA

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E contou:

      — Um dia, naquele tempo, pá, vocês sabem, naquele tempo em que os animais falavam, pá, e eu era pequenino...

      Era uma desgraça, aquele professor! Mas nós achávamos-lhe graça. Era o professor de Português, daqueles para quem a erudição e a finura do estilo eram sagrados. Frases longas com todas as funções explícitas. Vocabulário cuidadíssimo. Nós, a leste. Sempre a leste. Entre o espanto e o destempero. Tinha a mania de mandar ler e logo, logo a seguir, perguntar «Então, menino, o que é que sentiste?» Dava bronca, quase sempre dava bronca.

    Um certo dia, o texto é de cortar as pedras da calçada, muito triste, dois irmãozinhos e, depois, morrem um a seguir ao outro. «Então, menino, o que é que sentiste?» E o Pintas «Ó setor, senti-me muito chateado.» Já o professor sua por todos os poros a maldição da interdita palavra, quando, talvez ainda sob a comoção da leitura, o Pintas a querer ser conciliador, a fazer-se solidário com o professor na sua lástima, solta condoído «Ó setor, deixe lá, não se chateie

    Lembro-me bem da paragem brusca na irritação do professor. Refletida na surpresa das nossas caras. O professor, retraído na orla da nossa irrevogável ignorância, o professor emudeceu. Salvo. O abismo chama o abismo. E o abismo éramos nós, suicidários náufragos na arte de bem marear a navegação das palavras. O mestre estava a desistir da tripulação. A aula encalhou.

 

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por Maria Almira Soares às 16:50

Domingo, 21.03.21

A ÁRVORE DA BIBLIOTECA

       Olá!

       Sou uma árvore.

       Há mais de vinte anos que vivo numa terra chamada Ovar, precisamente no jardim fronteiro à sua Biblioteca. Trouxeram-me para aqui num vaso, era eu ainda bem pequenina. Plantaram-me neste jardim e aqui fiquei a viver.

     Entretanto, fomos crescendo as duas, eu e a Biblioteca: eu com cada vez mais ramos, folhas, flores; ela com cada vez mais livros, leitores, leituras.

     Somos amigas.

     Há quem diga, talvez por não me conhecer pessoalmente, que eu sou um «Feijoeiro da Índia». Querem saber a razão de me terem posto este nome? Por acaso, foi por engano...  Eu conto-vos:

    As minhas antepassadas mais remotas viviam na América do Sul e...

       — Mas, então, porque é que não és Feijoeiro da América, em vez de seres da Índia?

      Vá, vá lá, um bocadinho de paciência, porque é isso mesmo que eu vou agora explicar-vos.

      O caso é que, quando os descobridores da América do Sul aí chegaram, julgaram que estavam a chegar à Índia e então... estão a ver, não é? Se achavam que estavam na Índia, só me podiam chamar assim.

   — E por que razão és feijoeiro, se não dás feijões?

  Foi assim, os tais descobridores que encontraram as minhas mais que tetravós, viram logo que éramos árvores leguminosas e, então, lembraram-se do feijão, um legume que conheciam bem, e, por isso, chamaram-nos feijoeiros, Feijoeiros da Índia

    Seja como for, eu não acho lá muita graça a que me chamem assim. Gosto muito mais de um outro nome que me deram aqueles que gostam muito de mim, um nome afetivo, estão a ver?

    Mas, esperem, antes de vos dizer que nome é esse, ainda vos quero explicar mais uma coisa. Claro que eu, a árvore a que, por engano, chamaram feijoeiro, também estou registada em latim como todas as espécies vegetais. É o meu registo científico, no qual me chamo «Erytrhina crista-galli» que quer dizer ‘crista de galo vermelha’.  Engraçado, não é? Nomearam-me assim, porque as minhas flores são de uma cor vermelho-vivo e têm a forma de uma crista de galo.

   Bem, cientificamente sou Erytrhina, mas gosto muitíssimo mais que me chamem pelo tal nome afetivo que ainda não vos revelei. Sabem qual é ele, esse nome de que gosto tanto?

    Árvore da Biblioteca.

    Agora, que já vos contei a história dos meus nomes, vou falar-vos mais de mim e da minha história.

    Dizem-me que sou bonita. As minhas flores são de um vermelho muito intenso. São muito alegres por sentirem a energia do sol que lhes dá vida. São umas flores muito felizes. E gostam muito das folhas muito verdes que as rodeiam.

    Não nego que sou um bocadinho vaidosa. Adoro ver a sombra dos meus ramos na parede branca da Biblioteca e o reflexo de todo o meu corpo nas grandes vidraças da sua porta de entrada.

     Acho que tenho uma forma bastante original que faz os meus conterrâneos e as pessoas que visitam a minha terra abrirem a boca de espanto, quando me veem pela primeira vez. Porquê? Porque tenho uma forte inclinação que me aproxima do chão onde vivo. Na verdade, vivo quase deitada sobre a terra. Acidentes de percurso, de que mais à frente vos darei conta, fizeram com que o meu tronco principal, dantes tão aprumado, ficasse numa posição quase paralela ao chão. Mas não me queixo. Deste modo, fiquei mais próxima das crianças e dos olhos dos que passam por mim ou param à minha beira.

      Não sou uma árvore que foge para o céu; sou uma árvore que quase abraça a terra e as pessoas.

      Quando eu era pequenina, ainda não sabia o nome desta grande casa, em frente da qual me plantaram, mas, com o passar do tempo, descobri-o. A princípio, quando ainda não sabia ler, todos os dias ouvia dizer — Olha, vou ali à Biblioteca. — Adeus, adeus, que tenho de ir à Biblioteca! — Hoje, vou passar a tarde aqui, na Biblioteca! E, como sou uma árvore inteligente, percebi logo que a grande casa, para onde havia sempre gente a entrar, era a BIBLIOTECA. Depois, aprendi a ler (já vos conto como foi) e, então, pude confirmar que o nome que aprendera de ouvido estava certo: era o que diziam as grandes letras bem visíveis por cima da porta de entrada. Adorava, e adoro, pedir ao vento para ondular os meus ramos ao ritmo da música destas cinco sílabas:

 B BLI O TE CA       

Que música maravilhosa!

    Querem, então, saber como é que eu aprendi a ler? Foi assim: Os meninos que todos os dias passam por mim trazem e levam livros nas mãos e, às vezes, até se sentam, durante um bocadinho, aqui debaixo da minha ramaria; conversam, abrem os livros e põem-se a ler em voz alta uns para os outros. Ora, eu tenho de vos confessar que sou um bocadinho bisbilhoteira. O viver aqui e estar sempre a ver entrar e sair gente acicata-me a curiosidade. Enfim, levada por essa curiosidade, quando há livros abertos debaixo do nariz dos meus ramos, peço ao vento que, de um modo geral, é meu amigo:

    — Vento, ventinho, baixa-me um bocadinho!

    E o vento, tão querido, empurra-me as folhas quase até mesmo às palavras dos livros e elas, as minhas folhas, que têm uns olhos redondinhos (não sabiam?) e uns ouvidos bem afinados (não suspeitavam?), põem-se a aprender como os meninos leem as palavras, as frases, as páginas inteiras dos livros. Uma Árvore da Biblioteca tem de saber ler, não acham? E tem de ser leitora, não estão de acordo? Até me estou a lembrar...

   Estou, agora, a lembrar-me de vos contar que a Diretora da Biblioteca gosta muito de mim. Como é que eu sei? Sei, porque ela, todos os dias, quando entra e quando sai, olha-me com carinho. E até já me salvou a vida!

    Um dia, ouvi-a referir-se a mim dizendo «A nossa árvore». «Nossa!» Ai, que bom! Fiquei tão contente!

    Pois a nossa Diretora (posso dizer nossa, não posso?) de vez em quando organiza umas coisas, umas sessões a que vêm muitos meninos e que até parecem festas. E, numa dessas festas, durante o verão, os meninos lembraram-se de pendurar livros em mim, como se fossem frutos. Então, ao fim da tarde, quando todos já se tinham ido embora, pedi ao vento que os fosse folheando e empurrando as minhas folhas para perto das folhas deles e li-os.

    Que giro! Acabei de descobrir que tanto eu como os livros temos folhas. Se calhar, é por isso que gosto tanto deles. E nem me importo que algumas de nós, as árvores, sejam transformadas em livros. É uma outra vida! Uma metamorfose! (Aprendi esta palavra difícil num desses livros que já li.)

    Sou uma árvore feliz!

    Sim, sou feliz, mas não pensem que a minha vida foi sempre um mar de rosas. Não foi, não senhor! Já passei alguns maus bocados. Até já vi os meus amigos temerem pela minha vida. A minha amiga Diretora chegou a andar muito preocupada.  

     Foi assim:

     Num dia do rigoroso inverno do ano de 2001, caía tanta chuva e tão forte que quase ninguém se atrevia a sair de casa. O vento soprava uuuuuuuuuh! uuuuuuuuuh!, sem freio, vindo lá de longe, do norte, e batia em mim sem dó nem piedade. Eu tremia toda. As minhas folhas choravam. — Que medo! — gemia o meu tronco aflito.

     E as coisas pioraram.

     De repente, as minhas queridas folhas, especialmente as mais tenras, começaram a rasgar-se, feridas por um granizo feroz. O barulho era ensurdecedor. Na terra empapada, as minhas raízes começavam a sentir-se inseguras. O meu tronco, com os dois ramos que sempre tivera, começou a inclinar-se cada vez mais para o chão e, quase a desequilibrar-se, quase a desenterrar-se, tremia como varas verdes e suplicava: — Não me largues, terra! Não me largues!

    Caiu a noite. Tudo escuro. Toda a gente trancada em casa. Que fazer? Que fazer se a minha casa é ao ar livre?

    A fúria da tempestade cresceu tanto, abateu-se sobre mim com um tal ímpeto, que... sem poder resistir, fui-me dobrando, dobrando e... só parei já bem próxima do chão. As minhas raízes começavam a ver-se acima do solo. Toda inclinada, lá me ia milagrosamente aguentando contra todas as leis da gravidade. Parecia impossível que, quase sem ter base de sustentação, eu me aguentasse no ar. (Serei eu acrobata? Daquelas que fazem exercícios de equilíbrio dificílimos?) Enfim, cansada de tantas feridas e emoções, exausta, adormeci.

    Foram o sol da manhã — a tempestade acabara — e os pios de uns passaritos ainda assustados que me acordaram no dia seguinte. Mal abri os olhos das minhas folhas, lembrei-me dos lances terríveis por que tinha passado. Olhei-me e... confirmei o que me tinha acontecido. Felizmente as minhas raízes, embora um pouco postas a descoberto, ainda estavam presas à terra. Sentia-me angustiada. Cheia de medo de não me conseguir aguentar por muito mais tempo. Iria morrer a Árvore da Biblioteca? Chorava, escorrendo água das minhas folhas encharcadas da chuva.

    No relógio da torre da Igreja soaram as nove horas. O andar ligeiro e inconfundível da Diretora aproximava-se. Olhou para a minha desgraça e parou consternada. Estava ela, muito pesarosa, a olhar para mim, quando chegou uma brigada que andava pela cidade a desimpedir as ruas e as praças dos troncos de outras árvores atiradas ao chão pelo vendaval. Ai! Nem me quero lembrar! Andavam de volta de mim, olhavam-me, avaliavam a minha situação e, concluindo que eu não teria hipótese de sobreviver, precipitavam-se a tratar do meu abate. Fechei os olhos assustadíssima, mas, de repente, ouvi a voz da minha amiga Diretora: — Não, ainda não. É preciso avaliar melhor a situação! Consultar um perito. E, assim foi. O tal perito salvou-me. Fiquei mais baixinha, com os dois braços do meu tronco inclinados sobre a terra, mas continuei a viver neste lugar de que tanto gosto.

   Durante seis anos vivi em paz e encantada com a minha vizinhança. Cada vez mais frondosa, cada vez mais carregada de frescas folhas e coloridas flores. A minha copa enchia de prazer os olhos dos que, de longe ou de perto, em mim os repousavam e iam dizendo — Que linda está a Árvore da Biblioteca! Ainda bem que a não abateram! Estaria linda, estaria, mas também estava a ficar muito pesada, demasiado pesada, e...

    Um dia:

    Foi por meados de maio do ano de 2017, numa noite de sexta para sábado, já pela madrugada. As forças do meu tronco, há tantos anos inclinado sobre a terra e a suportar o peso cada vez maior da minha bela copa, estavam no limite. A silhueta ramificada do meu corpo vergava, vergava... Num momento, senti uma dor aguda e vi, aterrada, que me estava a rachar e que um dos meus braços se separara irremediavelmente de mim.

    Seria dessa vez que me iriam condenar a deixar de ser árvore? — Não! Faremos tudo para evitar que a nossa árvore morra. — disse mais uma vez a Diretora. O meu coração aqueceu. Até parecia que já me sentia melhor.

   Trataram de colocar o tronco, que eu perdera, sobre a terra, ao pé de mim. Fiquei mais pequena e mais frágil, mas fiquei.

    — Talvez volte a ganhar novas forças! — diziam os otimistas.

     — Parece-me que não vai conseguir sobreviver... — agoiravam os pessimistas.

     Estavam todos preocupados e eu sentia-me mais confortada com o seu desvelo.

    Todos os dias me olhavam à procura de melhoras.

    Iria a Árvore da Biblioteca vencer mais aquela prova?

    Estive entre a vida e a morte, sim, mas, como já bem concluíram, miraculosamente sobrevivi. Senão, não estaria aqui a contar-vos a minha história. Cá estou, vivinha da silva! E com uma forma ainda mais escultórica, mais invulgar numa árvore. Tenho aqui, pousado ao pé de mim, o tronco que perdi. Gosto muito de que as crianças se encavalitem nele a brincar. A sua presença faz-me lembrar, a mim e também aos que me conheceram inteira, de como eu era dantes.

    Toda a gente se espantou com o meu renascimento e, quando passam por mim, até dizem «esta árvore tem sete vidas». E eu penso que, se a tanto resisti, é porque sei que fico muito bem aqui e porque sei que todos iriam ficar muito tristes se os seus olhos não me encontrassem à entrada e à saída da Biblioteca.

   Ainda ontem, surpreendi dois avôs com os netos pela mão a olharem para mim  e a dizerem:

    — Viva, senhor José! Já viu? Esta árvore tornou-se um emblema!

    (Glup! Eu, um emblema?! A seguir, percebi tudo.)

    — Bem lembrado, senhor António! Olhe, era desenharem-na em tudo quanto é papel e objeto de trabalho da Biblioteca...

    — Pois... Pois... É que não só é bonita como também é original e representa bem a vitória da vida sobre a destruição.

    — Isso! Seria o emblema da vitória da leitura sobre a ignorância.

    — E da beleza da Arte e da Natureza.

    (Boa! Que grande ideia! Assim, mesmo que eu morresse, ficaria sempre lembrada!)

    Depois de ouvir isto, estava tão sonhadora, que os meus ramos mais frágeis pararam de abanar e ficaram muito bem desenhados contra o azul do céu. Estava eu assim tão pensativa, quando uma rabanada de vento repentino arrancou, das mãos de um jovem que se aproximava, uma folha do jornal que ele vinha a ler. A folha do jornal soltou-se, revoluteou no ar e veio pousar no meu tronco mais grosso. Pus-me logo a ler e... Que vejo eu?

    — A minha fotografia está no jornal? Sou eu! Sou eu! E diz aqui que... diz aqui que posso vir a ser uma Árvore de Interesse Público!

    Porque será? Hum, hum,  deixa-me cá pensar... deixa-me cá pensar... Eu já ouvi esta palavra público. Ah, sim, às vezes, dizem a Biblioteca Pública de Ovar. Ora, se eu sou da Biblioteca e se a Biblioteca é Pública, eu... também sou pública! É isto. Que bom! E ser de interesse público é ser do interesse de todos.

    Assim, quando estiver para vir a tempestade, todos me virão proteger e a minha vida será tão longa e tão feliz como a da BI-BLI-O-TE-CA!

    Viva a Biblioteca que tem uma Árvore, eu! E olhem que eu existo mesmo e a minha história é verdadeira. Se quiserem, podem cá vir visitar-me. Terei muito gosto em vos receber.

 

Nota: A Árvore da Biblioteca foi, recentemente, declarada Árvore de Interesse Público.

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por Maria Almira Soares às 18:33

Domingo, 28.02.21

A NECESSIDADE DE LER

Da graduação do que nos é necessário.

 

A necessidade de ler.

 

    A genuína necessidade de ler não é da ordem da rotina. É de outra ordem. Mais profunda do que a do hábito. A necessidade de ler é da ordem do gosto. A produtividade de programas e de asserções atinentes à defesa do desenvolvimento da leitura, conceptualizados e verbalizados dentro da ordem dos bons hábitos, mesmo quando positiva, é sempre precária e sujeita a mutações regressivas. A sua solidez, pouca, é afetada pelo mover dos tempos e dos espaços, das influências. O desenvolvimento da genuína necessidade de ler faz parte de um outro jogo de ideias. O da educação do gosto. O gosto educa-se: cria-se, alimenta-se, abre-se, descobre-se... Da educação do gosto, onde nasce e se desenvolve a necessidade de ler, nasce e desenvolve-se também a necessidade de fruir outras artes para além da literária, criações várias do imaginário. A fruição das diferentes artes tem efeitos transversais e relacionais no gosto por todas elas, e sobremaneira na leitura, ou seja, no gosto pela arte literária pois que a linguagem em que esta se constrói é referencial último e primeiro de todas as artes. Pobres são os programas de desenvolvimento da necessidade de ler — pessoais, familiares, institucionais — que se apliquem tão-só na multiplicação de discursos, ações, objetos, tecnicamente limitados à leitura. A necessidade de ler germina e floresce, frutifica, fertilmente, na confluente educação do gosto pelas artes, ou seja, pela fruição das obras do imaginário. A educação pela arte. Da educação pela arte, pelo seu gosto e fruição, faz necessariamente parte a educação pela arte literária e pelo seu gosto e fruição que é a leitura. Educação pela leitura e não educação para a leitura. Educação da sensibilidade e do gosto que se autoalimentam necessariamente fruindo o seu objeto: as obras da criação literária. Encontrar, descobrir, desenvolver a necessidade de ler pode acontecer-nos sem mestre, sem orientação alheia, sem inculcação. Pode ser uma descoberta íntima, ingénua, que tem, no seu adn, energia suficiente para se desenvolver e acrescentar tornando-se gosto. A educação do gosto faz-se pela experiência, pelo conhecimento, pela partilha crítica. Faz-se na estranheza, na descoberta, na confrontação, na afinidade, na eleição/rejeição. Sejam eles autónomos ou tutelados, é nos processos de formação-construção-aprendizagem, que se educa o gosto motor da necessidade, desta necessidade de grau superior que é a necessidade de ler.

 

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por Maria Almira Soares às 17:13

Domingo, 28.02.21

A VISITA DE ESTUDO E A LAGARTIXA

CONTO DA SÉRIE O DETETIVE DAS PALAVRAS

Foi durante uma visita de estudo que tudo começou.

Tudo, o quê?

Leiam, leiam, que já descobrem.

Saímos de manhãzinha num autocarro que andou, andou, andou, até que parou num lugar chamado sítio arqueológico. Assim nos disse a professora que nos acompanhava. Eu achei logo graça: sítio arqueológico! Ali, há milénios, tinham vivido romanos! Nem imaginam como era sossegado, perdido no meio dos campos. À nossa vista, ficava uma extensão de terreno plano onde se alinhavam fieiras de pedras. Pelos carreiros que as circundavam, lá nos íamos aproximando de ruínas que outrora tinham sido construções inteiras.

Junto a duas árvores baixinhas, de tronco largo, cinzento, ressequido e aberto por uma fenda, a professora disse:

— Estas oliveiras foram contemporâneas de Cardílio e Avita, um casal de romanos que aqui viveu há quase dois mil anos.

Caramba! E eu que nunca tinha pensado que pudesse haver árvores tão antigas ainda vivas!

E o Vítor a perguntar:

— E como é que eles vieram aqui parar?

E o Manel a gozar:

— De autocarro!

E a professora a ralhar e a ensinar:

— Juízo, meninos! Então, Vítor, não te lembras de como os romanos conquistaram a Península Ibérica e nela se fixaram?!

E a professora continuou:

— Sabem uma coisa? Ver este par de oliveiras e pensar nesse casal, Cardílio e Avita que, segundo a inscrição que estivemos a ler, aqui viveram felizes, faz-me lembrar uma história que li num livro chamado Metamorfoses escrito por Ovídio.

— O que é Metamorfoses?

— Quem é Ovídio?

Dispararam as perguntas de todos os lados.

— Ovídio foi um escritor romano. Num dos seus livros conta histórias maravilhosas de transformações fantásticas. De pessoas que se transformaram em árvores, por exemplo. Metamorfose significa transformação.

— Ah! Que giro! — disse eu. — Conte lá essa história, professora, conte.

— Agora não. Agora vamos, é, continuar a admirar o que sobrou desta casa. Olhem como são interessantes, estes mosaicos:

Fiquei bastante desiludido por a professora  não querer contar a tal história.

Para compensar a minha decepção, pus-me a fotografar as letras e imagens desenhadas nos mosaicos.

Imagem1.jpgImagem2.png

Pois foi quando eu estava muito concentrado a visar a inscrição que fala do Cardílio e da Avita, que ouvi nitidamente atrás de mim:

— Pst! Pst!

Virei-me, olhei, mas não vi nada. Talvez fosse o vento. Talvez fosse um dos engraçadinhos dos meus colegas. Talvez fosse ilusão. Mas, de repente, outra vez:

— Pst! Pst!

Não era ilusão. Alguém me estava mesmo a chamar. Fixei melhor a atenção na direcção do chamamento e, quando olhei para o chão atrás de mim, que vejo eu?

Vejo um dos arabescos da cercadura do mosaico a mexer-se! A mexer-se e, à medida que se mexia, a transformar-se… a transformar-se em quê? Numa lagartixa toda lampeira que, de cabecinha arrebitada e rabito a abanar, me piscava o olho continuando a chamar-me: — Pst! Pst!

Juro. Uma lagartixa, saída do mosaico, estava a chamar-me. E não esperou muito. Largou numa correria desenfreada como costumam fazer as lagartixas. E eu, claro, que, como sabem, não resisto à curiosidade, lá desatei a correr atrás dela. Correu, correu, até à base de um muro que logo subiu com uma tal destreza que eu, tentando imitá-la, para não me magoar, tive de travar repentinamente. Quando me refiz, a lagartixa tinha desaparecido. Mordido pela curiosidade, preparei-me para trepar: queria ver o que havia do outro lado daquele muro. Queria ver e vi. Vi e fiquei literalmente de boca aberta como acho que vocês também vão ficar. Enquanto do lado de cá tudo eram pedras velhas, ruínas, oliveiras antiquíssimas, do lado de lá, tudo estava inteiro, recomposto como se ainda estivéssemos no tempo em que Cardílio e Avita ali viveram: as ruas empedradas, as casas de paredes pintadas, as lojas com mercadorias às portas… Fascinado, até me esqueci da lagartixa mágica. Mas ela é que não se esqueceu de mim:

— Pst! Pst!

Era ela que, com gestos insistentes das patitas e da cabecita me incitava a entrar numa das casas.

Entrei. Dei uns passos um pouco a medo e logo me achei numa sala mobilada e decorada com leitos e tapetes e candeias e jarros e estatuetas… Tudo daquelas cores que costumam ter nos filmes passados no tempo dos Romanos.

A sala era comprida e mal iluminada ao fundo. Para lá do meio, tudo eram sombras. A mim parecia-me que, junto à parede mais afastada, alguém acabava de se reclinar num leito. Parecia-me, mas não tinha a certeza. Por isso, fui andando, andando. Era verdade: um vulto fitava-me. Tinha o olhar da lagartixa, mas já não era lagartixa. Agora tinha figura humana. E disse:

— Não tenhas medo. Aproxima-te. O meu nome é Atentus e sou socorrista de meninos curiosos. Quando um menino quer saber alguma coisa e a sua curiosidade não é satisfeita, se esse menino tiver os olhos e os ouvidos bem abertos, como foi o teu caso, basta seguir-me e encontrará não a resposta mas uma pista para a encontrar.

Eu, muito espantado mas animado pelo convite, dei mais uns passos na direcção do senhor Atentus que continuava a falar:

— Queres mesmo conhecer a história da transformação de um homem e de uma mulher em duas árvores, que Ovídio escreveu? Então, pega lá este rolo de papiro. Trata de o guardar bem. Quando estiveres sozinho, desenrola-o. Ele contar-te-á a história que queres saber.

Ganhei coragem, estendi a mão e agarrei o rolo. Meti-o imediatamente por baixo da camisola e preparava-me para dar meia volta saindo dali a correr, quando, elevando um pouco a voz, Atentus continuou:

 — Não vás ainda. Ouve-me com atenção: para conseguires compreender o que aí vai escrito, tens de cumprir um procedimento obrigatório.

— E qual é?

— Como sou socorrista, tenho meios especiais para ajudar a curiosidade dos meninos. Por isso, fiz com que as palavras que aí vão escritas tenham poderes mágicos. Se as fixares com toda a tua atenção e vontade de compreender, cada palavra escrita em latim passará automaticamente para a tua língua, o português. Mas se a tua atenção fraquejar um bocadinho que seja, elas voltarão imediatamente a ser latim e nada perceberás. Agora vai.

Corri para fora da casa do senhor Atentus, voltei a saltar o muro e cá estava eu outra vez entre pedras antigas, chão poeirento e oliveiras velhas…

— Ah, estás aí. Já estava a ficar preocupada. Onde é que te meteste?

— Distraí-me a ver uma lagartixa e acabei por ir atrás dela…

— Vá, que agora vamos a um parque de merendas para lancharmos.

Era a professora que já estava a reunir-nos a todos para voltarmos a entrar no autocarro. O resto da visita de estudo correu bem, mas sem que nada de extraordinário voltasse a acontecer.

Eu é que estava mortinho por fixar os meus olhos nas palavras da história escrita no rolo que tinha por baixo da camisola. Ali, à vista de todos, não o podia fazer. A curiosidade tinha de esperar mais um bocadinho.

Chegado a casa, fui logo guardar o rolo mágico na gaveta dos meus segredos e, só depois do jantar, é que consegui escapar-me para o meu quarto: ia deitar-me cedo para descansar da fadiga da viagem.

Descansar? Qual quê! Em vez de esperar pelo dia seguinte, em que já estaria fresco e recuperado, a primeira coisa que fiz foi pegar no papiro e começar a desenrolá-lo, cravando bem os olhos em cada palavra, como me recomendara o senhor Atentus, socorrista dos curiosos. Começava assim: “Há nos montes da Frígia um carvalho junto a uma tília…»

— Ah! Cá estão as duas árvores… um carvalho e uma tília… — pensei logo eu.

A vontade de continuar a leitura era muita, mas na verdade, por mais que eu o não quisesse reconhecer, estava bastante cansado da viagem. Ia lendo, mas, de vez em quando, os meus olhos sonolentos deslizavam das palavras quase a fecharem-se. Ora, sempre que isto acontecia, distraindo-me, imediatamente a palavrinha, que eu estava a compreender muito bem em português, se transformava num conjunto de letras de que eu não entendia patavina: latim. Não estava a ser nada fácil. O Atentus bem me avisara.

Por exemplo: eu estava a começar a ler tod…, distraía-me e, quando voltava a olhar, em vez de toda, aparecia-me tota; ou a palavra dois, que me fugia dos olhos transformada em duo. Mesmo assim, prossegui a leitura.

Estava eu a ler uma parte que dizia «o velho trouxe um banco, que Báucis, solícita, cobrira com um pano…», quando, mesmo em cima da palavra pano, um sono quase invencível começou a fazer-me piscar os olhos: abria-os e lia pano; começava a fechá-los e lia textum; voltava a abri-los e lia pano; começavam de novo a descair-me as pálpebras e lá voltava o pano a transformar-se em textum. E isto por três vezes sucessivas, até que eu, intrigado, sacudi a cabeça com força. Contra o poder do sono, renascera em mim a alma de detective das palavras. Esfreguei os olhos e perguntei a mim mesmo:

— Em latim, cobriam bancos com textos?! Que disparate! Mas o que é que a palavra pano tem a ver com a palavra texto?

Mas já não tive forças para mais. Adormeci.

No dia seguinte, porém, continuei a pensar no assunto. Estava convencido de que conhecia muito bem a palavra texto. Embora, na verdade, só tivesse tomado conhecimento da sua existência quando comecei a andar na escola. Antes disso, para mim, havia livros, histórias, poemas, cantigas… Depois, sem que ninguém me explicasse porquê, todas essas coisas passaram a ser textos:

— Vamos ler um texto.

— O texto que tu escreveste é muito bonito.

— De que texto gostas mais?

— De que é que gostaste mais neste texto?

Texto para aqui, texto para ali, o dia a dia da escola estava cheio da palavra texto. E, se querem que vos fale com toda a sinceridade, eu até nunca consegui gostar muito desta palavra. Tem um som muito apagadinho, coitada. É toda feita de sons baixinhos: t-x-t. Até parece estar a mandar-nos calar e ficar quietinhos. Confesso que gosto mais de palavras sonoras, vibrantes.

Estava, pois, convencido de que a palavra texto não tinha segredos para mim e acontece-me agora uma destas confusões!

— Que fazer? Acreditar em mim que sabia que texto era uma coisa escrita que se podia ler? Ou acreditar no papiro mágico que usava a palavra texto com o sentido de pano?

Mais um mistério a descobrir.

E não demorou muito.

A seguir às visitas de estudo, era costume escrevermos um relato do que se tinha passado e a tradição manteve-se. Logo ao princípio da aula, a professora disse:

— Agora, cada um de vocês vai escrever um texto acerca da visita de estudo que fizemos ontem.

Mal ouvi a palavra texto, imediatamente me lembrei do problema que tinha ficado por resolver no dia anterior. E, talvez porque sou um bocadinho maroto, em vez de me preocupar, decidi pôr-me a brincar. Às vezes, brincar ajuda a resolver os problemas. E, desta vez, ajudou.

Não sei o que me passou pela cabeça que, à medida que ia escrevendo o meu relato da visita, ia trocando pano com texto e vice-versa.

Talvez fosse uma espécie de vingança do rolo de papiro mágico que, na noite anterior, me dera tanto trabalho a ler.

Não sei. O que sei é que, de cada vez que precisava de escrever pano, escrevia texto; e, de cada vez que precisava de escrever texto, escrevia pano. Assim:

«Depois, vimos um mosaico onde estava escrito um pano que dizia…»

«Quando fomos lanchar, estendi um texto sobre a mesa de pedra, antes de lá pousar a minha merenda…»

Estava tão divertido a escrever estes disparates, que parece que nem tinha medo do que a professora iria pensar acerca de mim, quando os lesse. Normalmente é assim: quando estamos a fazer uma asneira nem nos lembramos das consequências. Mas, olhem, desta vez, as coisas nem correram mal de todo e foi, até, por causa desta minha maluqueira que ficámos todos a conhecer a origem da palavra texto.

No dia seguinte, a professora estava a comentar os nossos relatos da visita de estudo, quando, a certa altura, começou a dizer:

— Há aqui um menino muito brincalhão. Não lhe bastou andar a brincar com as lagartixas durante a visita. Também se pôs a brincar com as palavras ao escrever sobre ela…

Corei tanto que todos perceberam logo que era de mim que ela falava.

E continuou:

— O que esse menino talvez não saiba é que às vezes, a brincar a brincar, falamos de coisas sérias. Ora vamos lá ver se me sabem responder a umas perguntinhas: — Quem é que sabe como se chama a indústria que fabrica tecidos?

E logo muitos dedos se puseram no ar e algumas vozes não se contiveram:

— Têxtil! Têxtil! Têxtil!

— Muito bem. E para que servem os tecidos que a indústria têxtil fabrica?

— Para fazer roupa!

— Para fazer almofadas!

— Para fazer guardanapos!

— Para fazer panos de cozinha!

— Muito bem. E, então, vamos lá pensar um bocadinho: porque será que a indústria que fabrica os tecidos com que se faz a roupa, as almofadas, os guardanapos, os panos de cozinha, se chama têxtil?

— …

Ninguém sabia.

Eu começava a desconfiar, mas achei melhor ficar calado. Não fosse piorar ainda mais a minha situação.

— Não sabem? Pois eu vou explicar-vos. É muito engraçado: reparem numa palavra que vocês conhecem muito bem, a palavra texto. É nesta palavra que reside a solução deste problema.

— …

— Em latim, língua que, como sabem, foi a origem do português, texto era o mesmo que tecido, queria dizer tecido. As duas palavras até têm a primeira sílaba igual. Então, estão a ver, aquilo que produz um tecido (que em latim era texto) chama-se têxtil. 

— Pois é. — disse o Carlos. — Mas, então, porque é que agora chamamos texto ao que escrevemos?

— Porque o texto escrito, em certa medida, é parecido com um tecido. Ora reparem: assim como, para fazer um tecido, as máquinas vão pondo os fios bem juntinhos, uns a seguir aos outros, também, ao escrever os textos, vamos enchendo as linhas de palavras umas a seguir às outras até a folha ficar toda coberta de letras, como se estivéssemos a fazer um «tecido» de palavras. E então resolvemos chamar texto ao resultado do nosso trabalho de escrita! Como dantes, no tempo dos romanos, se chamava ao resultado do trabalho dos teares.

— Que giro! — voltou a dizer o Carlos que estava mesmo a achar aquilo muito engraçado. — Quando eu estiver a escrever um texto, vou pensar que estou a fazer um tecido…

— Muito bem, Carlos. É isso mesmo. Estás a perceber muito bem. E, agora, já todos sabem qual foi o sentido original da palavra texto.

Eu, muito calado, ia devorando toda aquela informação.

E estava radiante por duas razões.

A primeira era que a professora fora discreta e não se pusera a querer saber o que me tinha levado a fazer aquela brincadeira da troca entre a palavra pano e a palavra texto. Tinha preferido aproveitar para nos ensinar a origem do sentido de mais uma palavra. E, assim, não me encostara à parede, obrigando-me a confessar coisas inconfessáveis.

A segunda era que, finalmente, tinha percebido porque é que no papiro dizia que Báucis tinha coberto um banco com um textum. Afinal, no tempo do Ovídio, texto era um pano. Que descoberta sensacional!

Gostei mesmo muito desta aula. E ainda por mais uma razão. Sabem qual?

É que, para alegria geral, a professora disse:

— E, agora, vou contar-vos a tal história das Metamorfoses do poeta Ovídio. Nela, como já vos disse, um casal de velhinhos acaba transformado em duas árvores.

E contou:

«Um dia, Júpiter e Mercúrio, deuses romanos, chegaram disfarçados de humanos a uma terra onde foram pedindo, de casa em casa, abrigo para repousarem. Ninguém lhes abriu a porta, excepto Báucis e Filémon, um casal de velhinhos que vivia numa casa muito pobre. Com o pouco que tinham, receberam muito bem aqueles dois viajantes que nem sonhavam que fossem deuses poderosos. Ofereceram-lhes um banco para se sentarem, cobrindo-o com um pano para que fosse mais confortável e serviram-lhes uma refeição. No fim, os deuses disfarçados revelaram quem eram e, antes de castigarem os outros habitantes pelo seu egoísmo, alagando todas aquelas terras, levaram Báucis e Filémon consigo, salvando-os. Quando Júpiter lhes perguntou que recompensa queriam, disseram que, já que tinham vivido sempre na companhia um do outro, queriam que a sua vida acabasse exactamente à mesma hora. Júpiter fez-lhes a vontade determinando que, quando a sua vida estivesse a chegar ao fim, à mesma hora, cada um deles se transformaria numa árvore.»

Aqui, a professora pegou num livro, abriu-o, começou a ler e nós ficámos todos muito caladinhos a escutar o final do texto que Ovídio escreveu no século I da nossa era:

«Um dia, acabados pelos anos e pela velhice, estando diante da escadaria sagrada a contar o sucedido neste local, Báucis observa Filémon cobrir-se de folhas, Filémon a cobrir-se de folhas vê Báucis. E, embora já lhes crescessem copas sobre os dois rostos, iam trocando palavras… E ainda hoje os habitantes da Tínia mostram ali dois troncos vizinhos, nascidos dos dois corpos.»[1]

[1] Ovídio, Metamorfoses, tradução de Paulo Farmhouse Alberto, Livros Cotovia, pág. 217.

 

 

 

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por Maria Almira Soares às 13:07

Sexta-feira, 12.02.21

OS LIVROS NÃO MORREM DE MORTE NATURAL

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    E é assim que muitos livros e muitos autores arredados pelos ares dos tempos, surgem — no discurso comum e avalizado sobre a leitura — na pobre qualidade de adversativas: não para serem lidos, mas como objetos de saudade e homenagem como a que se faz a mortos ilustres. São tratados como livros mortos que o apego ao tempo como critério de arrumação cultural silencia e sonega ao desejo íntimo de quem poderia amá-los. A coberto da ideia de mortos queridos, que alguns de nós conheceram, são induzidos como merecedores, tão-só, de uma reza de ressurreição projetada para um inefável juízo final, a partir do seu acondicionamento na memória de quem os ama.

     Os livros não morrem de morte natural. Se os não enterrarem vivos, a sua vida está sempre em aberto, em desobediência às prescrições temporais e temporárias e em correspondência com o desejo íntimo de um leitor.

   Há lá coisa mais bela e mais séria do que uma árvore a envelhecer?!

   Os livros envelhecem como as árvores, mas, desligados que estão da sua raiz, muitas vezes já morta, e, sujeitos como estão à produção múltipla de atmosferas cujo multiplicador é a respiração de cada leitor, os livros não são finitos. Podem apenas — e isso é grave — ser subtraídos à respiração de um, de dois, de três, de muitos leitores provavelmente desejosos de os encontrar. Mesmo sem o saberem. Ainda.

    «O encontro feliz com um livro foi combinado fora de nós.», afirmou Vergílio Ferreira. E o desencontro também, digo eu. Não sabemos se feliz se infeliz. Não o encontrámos.

     Se, antes de mais nada e mais importante do que tudo mais, os livros vivem na relação íntima com os seus leitores, eles não são suscetíveis de juízos de adequação/desadequação a um tempo/lugar/desejo, à revelia da consciência íntima de felicidade pela leitura de um leitor. Quanto menos combinarem, fora de nós, os nossos encontros com os livros, menos os nossos desencontros combinarão e mais real e intimamente felizes pela leitura seremos. E nenhum livro estará morto e, de nenhum livro, se poderá afirmar aprioristicamente ser mais viável num dado ambiente epocal. Na mais recôndita biblioteca, sobre a mesa menos publicitável, à mão do menos conspícuo leitor, ele estará vivo. Nos taxonómicos discursos sobre a leitura, porém — e que enorme porém! — foi descarregado. Prepotência e engano. Trata-se de discursos que estão sujeitos a imperativos alheios à natureza pessoal e íntima da leitura. Aí, os livros estão sujeitos a motivações regidas por interesses, expectativas, finalidades de uma ordem diferente da felicidade de ler. São caminhos e lugares de «combinação» de encontros entre livros e leitores regidos pela fluidez do dinheiro. Mas há outros lugares cuja natureza pode (poderia) não-sujeitar-se ao imperativo económico gerador artificial de ambientes favoráveis/desfavoráveis a estes ou àqueles livros: as bibliotecas, as escolas.

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por Maria Almira Soares às 15:21

Segunda-feira, 08.02.21

- PLATÃO! QUE NOME TÃO ESQUISITO!

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  Neste livro, há um conto meu e, nesse conto, pode ler-se:

[...]

    Entretanto, iria afadigar-se com pequenos e variados afazeres domésticos que tinha atrasados, porque era esse um modo eficaz de bloquear a ansiedade, um conhecido e praticado modo de artificioso esquecimento que lhe permitiria surpreender-se com a chegada do neto, como de facto aconteceu:

— Já?

— Já!? Tínhamos combinado a esta hora, avô.

— Pois foi. Eu é que me tinha distraído. Estás grande!

— …

E, depois de um tempo de perguntas talvez supérfluas e respostas a condizer:

— Vou mostrar-te o Mendes, vais gostar do Mendes.

O Nuno estranhava sempre Portugal e aquele «mostrar-te o Mendes»... Seria cão?  Seria gato?

O filósofo riu-se.

— Vamos a casa do Mendes, um amigo meu…

— Ah!

— … e, depois, se calhar, vamos até ao café, conversar. Gostas de conversar?

— Gosto. E gosto de ouvir conversar.

— Ótimo.

— Ó avô, tu és fi-ló-so-fo?

O Nuno articulava muito bem e vagarosamente as palavras difíceis. As outras, dizia-as a correr.

— Sou.

— E o Mendes?

— O Mendes é linguista.

— Lin-gu-is-ta!?

— Sim, gosta de estudar as palavras.

— E tu gostas de estudar o quê?

 Iam a pé a casa do Mendes que não morava muito longe. Iam andando e conversando. De momento, José Vicente não estava descontente com o teor da conversa. Falavam de livros. O Nuno, quando chegara, trazia um livro, um desses álbuns de divulgação histórica para crianças sobre a biblioteca de Alexandria.

— Aquele livro que tu trazias…

— O da biblioteca de Alexandria?

— Sim, tu…

— Outro dia, vi na Net coisas fantásticas sobre a biblioteca de Alexandria.

— Ah, na Net…

— Tu não gostas da Internet?

— Sim, gosto, mas… Então, tu não sabes o que é um filósofo?

— Pois não.

— Um filósofo é alguém que gosta muito de saber.

— Ó avô, há mais filósofos como tu?

— Há, claro que há, e já há muito, muito tempo. Olha, no tempo da biblioteca de Alexandria, já havia filósofos. E muito antes, até.

— Não sei o nome de nenhum filósofo, sem ser o teu.

— Sabes nomes de quê?

— De jogadores de futebol, de cientistas, de músicos… Vá lá, diz lá o nome de um filósofo.

— Olha, por exemplo, Platão.

— Platão! Que nome tão esquisito!

[...]

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por Maria Almira Soares às 13:56

Sábado, 06.02.21

QUEM DATA OS LIVROS SÃO OS LEITORES

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     Os escritores românticos atreviam-se a pressupor os seus leitores e, até, se dirigiam a eles; os realistas, a diagnosticarem as motivações, as perversidades, as consequências da leitura deste ou daquele tipo de livros. Mas isso era literatura, tão incerta e tão pessoal quanto a leitura. E, como esta, tão ambiguamente inútil. Duma inutilidade maravilhosa. Porque — lembremos — o senso comum que, agora, grita os mil e um benefícios da leitura ou disfarça a má consciência de não ler, o senso comum, dizia eu, já teve, sobre a leitura, opinião pouco abonatória. Quando uma coisa, a leitura, sobrevive aos juízos em sentido vário, oposto mesmo, que, no tempo, o senso comum sobre ela vai fazendo suceder, isso é certamente prova de que esses juízos a tomaram por aquilo que ela não é. Tomaram e continuam a tomar. A leitura não tem de ser útil ou inútil. Será? Não será? O que a leitura é, é necessária, que é uma função diferente da de ser útil.
   O leitor é, por essência, um desalinhado, mesmo depois dos esforços programados para o fazer perder-se dessa sua essência e tornar-se um discípulo a quem, objetiva ou subjetivamente, se prescrevem horizontes; mesmo depois de o terem tornado objeto de um discurso cultural que se serve de conceitos como, por exemplo, camada (como em camadas jovens), como datado (como em livros datados), como acessível (como em livros mais acessíveis), como procurado (como em livros mais procurados), e que andam por aí a compor frases como: «Os livros mais acessíveis são os mais procurados pelas camadas jovens.» Ou: «Os livros muito presos ao que foi a sua época, datados, são inacessíveis às camadas jovens e não são por elas procurados.» É, este, um discurso que distribui, que qualifica, a partir de razões quantitativas, a partir de uma visão externa. O que é uma leitura genericamente acessível, fora da relação de um dado leitor com um dado livro? O que é uma camada de gente leitora? Sobretudo de gente jovem? Trata-se de uma visão superficial. A relação leitor-livro faz-se em níveis profundos, diferenciada porque criada no ato da própria e singular experimentação de ler. Os livros não são datados pela sua criação. Os livros são datados pela leitura. Quem data os livros são os leitores. Um livro é atual no momento em que eu o leio. Esses livros que se dizem mais procurados em verdade não são procurados, são postos conspicuamente em busca de leitores, à revelia do seu íntimo desejo.

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por Maria Almira Soares às 15:40

Sexta-feira, 05.02.21

OS NÃO-LEITORES ANÓNIMOS

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     [...] Pensando nisto e lembrando outras situações, tomamos a iniciativa de fundar imaginariamente uns imaginários NÃO-LEITORES ANÓNIMOS.

     [...]

     Eis um não-leitor anónimo em sessão:

    — Eu chamo-me Vanessa e sou uma não-leitora. Não leio, porque, à minha volta, ninguém lê; não leio, porque me sinto desconfortável com um livro na mão; não leio, porque me assalta a timidez de entrar numa livraria; não leio, porque gasto o dinheiro em roupa; não leio, porque a minha cabeça fica parada a pensar na cor do cabelo da minha amiga Carla; não leio, porque, por não ler, esqueci-me do sentido de muitas palavras que vêm nos livros, o que torna a leitura muito difícil; não leio, porque, à minha volta, não é preciso ler para se ser reconhecido socialmente; não leio, porque o meu namorado acha betinho ler; não leio, porque acho que, se começar a ler, vou ser diferente e eu acho que, assim, é que sou gira; não leio, porque, quando tento, fico triste, pois começo a perceber a distância que há entre o que sou e o que poderia ser; não leio, porque está sempre a dar televisão e porque vamos ao cinema em grupo comer pipocas, fazer barulho e dar risadas. Eu sou uma não-leitora e estou aqui, porque quero ser ajudada a ser uma leitora.

   Não esta previsto que esta história ficcionada vá ter um desfecho. Esta história não vai acabar nem bem nem mal, mas, mesmo assim, acha-se por bem informar que ainda não é, neste ponto, que esta não-leitoravai ser acolhida com uma ovação; ela ainda não disse não leio, porque não sinto necessidade de ler...

[...]

  In Como Motivar para a Leitura (2003)

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por Maria Almira Soares às 16:09


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