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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)


Quarta-feira, 25.11.20

O LEITOR

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(Lesser Ury)

A ideia do incremento da leitura é preferencialmente associada a atividades com crianças, o que se compreende bem, já que a infância é a idade boa para o lançamento de sementes de futuro. Uma vez, porém, que essas sementes, por vezes, muitas vezes, não frutificam e dão em pouco-leitores ou não-leitores, torna-se também desejável incrementar a leitura junto dos adultos.

   Note-se que incrementar a leitura tem valor quantitativo e qualitativo e, por isso, implica mais gente a ler, a ler mais livros, mas também a fazer boas escolhas e a apurar os seus critérios, o que não se torna fácil, dados os contextos pouco favoráveis a estes desideratos.

   De facto, não são apenas as crianças que são alvo de manobras de atratividade fácil, de adesão à superficialidade e à rapidez de contacto. Os adultos leitores ou possíveis leitores são cercados — por quase todos os lados — pela oferta insistente de histórias leves, rápidas, muito ao rés do viver rotineiro e das emoções típicas, das emoções de catálogo.

   Trata-se de histórias que não têm o poder de despertar o imaginário para paisagens de espanto e de perplexidade. São histórias com as quais é previsível a identificação com um construído modelo único de leitor e em que a pluralidade dos leitores suavemente se encaixa falseando a sua autenticidade e singularidade pessoal, em prol de formatados prazeres ou passatempos pouco exigentes. Em poucas palavras, trata-se de leituras rasas, rentes às vividas rotinas quotidianas sentimentais ou outras, a que o leitor se submete alienando-se da sua própria complexidade e do seu poder de autodescoberta.

     Assim, leitores adultos alheiam-se de pôr à prova a leitura de emoções, sentimentos, sim, mas na grandeza literária de um desses sublimes romances como por exemplo Gente Feliz com Lágrimas de João de Melo. Não procuram a experiência do estranhamento, da confrontação, do alargamento do seu mundo de referências que a leitura de, por exemplo, Conversa na Catedral de Vargas Lhosa  suscitaria no seu imaginário.

   Sob o pretexto de falta de tempo, de paciência e até de gosto pelo que é de produção antiga, demorado, trabalhado, muitos leitores ou possíveis leitores respondem, à fraquíssima probabilidade de lerem um desses grandes romances, com a afirmação de um gosto e capacidade externamente formatados para eles e para todos, para quantos mais melhor. E, por um movimento que quase pode parecer de orgulho, os grandes romances, os grandes clássicos universais, obras-primas, retiram-se da possibilidade de qualquer encontro. Claro que não é orgulho, é perda, na agressiva competição de atrair os leitores para o gesto de compra e, talvez, de leitura. A viciosa massificação do gosto e do desejo e a subserviência às tendências dominantes comandadas pelo desígnio de retirar o risco do negócio dos livros fazem quase-desaparecer do alcance do leitor-adulto tudo que não seja fruto da espuma dos dias. Perda considerável!

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por Maria Almira Soares às 13:24

Sexta-feira, 20.11.20

LENDO...

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   Mesmo Camilo, que o que fazia era contar-nos histórias, mesmo Camilo digo, não perdia a oportunidade de expor pensamento, de fazer o seu chiste, de estar, enfim. Os romances de João Pinto Coelho contam-nos histórias, e com grande desenvoltura, mas, neles, o autor não está.

   João Pinto Coelho é um arquiteto de histórias, alguém que gasta toda a escrita a compor e a narrar histórias. E a despertar curiosidades e a surpreender expectativas e a construir contextos. Nos romances de João Pinto Coelho, há o gosto da peripécia do drama como diria Garrett. O gosto da disposição das partes que concorrem para um fim. Não se abrem corredores que nos descentrem dos interesses intrínsecos da intriga. João Pinto Coelho desenha os seus romances muito cuidadosamente levando as palavras pelos caminhos planeados para que ergam a história. E o desenho é, por vezes, muito fino, na solidez do volume de acontecimentos. Há uma rede de lógicas planeadamente desocultadas e sabiamente distribuídas como impulsos narrativos. Com perícia e com sucesso.

      Os romances de João Pinto Coelho fazem leitores. Leitores que não se perdem, que querem chegar, que querem saber. Não ficam parados, porque pressentem, ou desejam, o futuro da história que até pode ser o seu passado. E, de repente, por um nome, por uma presença, por uma referência, a história desaba e, assim, se constrói. E os leitores sentem-se brindados. N’Os Loucos da Rua Mazur, fiquei mais vezes parada aqui e ali do que em Perguntem a Sarah Gross. E isso foi bom para a leitora que eu sou. N’Um Tempo a Fingir, ainda não sei. Ainda o não li.

 

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por Maria Almira Soares às 17:10

Terça-feira, 17.11.20

O QUE É ESTE LIVRO?

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   A definição de um cânone literário, certamente não é. Talvez a ironização da consistência da ideia de cânone literário. Talvez a tendência neste sentido se manifeste. Tendência, no entanto, aqui e ali destratada pela incontrolada variabilidade das opiniões subjacentes em cada texto incluído. Pela repetição notória de certas autorias, cujos textos fazem bandeira da desconstrução de qualquer canónico ponto de apoio e prescindem de qualquer universo de referência, parece ser essa, a da ironia, a identidade semântica deste livro: o cânone comummente suposto não é para ser tomado a sério mesmo quando é tomado a sério. O título será, então, irónico, ou, pelo menos, polissémico. E, talvez para melhor o demonstrar, o livro não pôde, não soube ou não quis ausentar das suas páginas ensaios bem amadurecidos, que não tomam a ideia de cânone como risível, a partir do estudo sério de escritores não-apeáveis.

   Não me parece que este livro seja uma coleção de ensaios literários. Vários dos textos que o compõem, não os consigo ler como ensaios. Na minha leitura, são crónicas, coleções de historietas. Não me é possível pensar que possam representar uma tendência no campo do ensaio literário. Outros, porém, são, sim, ensaios e ensaios muito bons. Que acrescentam. Não distraem. Pelos cerca de vinte que assim considero, valeu a pena a existência do livro.

 

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por Maria Almira Soares às 17:35

Segunda-feira, 17.08.20

O TRÍPTICO DA SALVAÇÃO — NOTA DE LEITURA

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   Desde o «estabelecer-se-ia entre nós o diálogo mudo» da primeira página até ao «retomariam a peregrinação» da última, o uso do futuro do pretérito como modo de narrar induz, na lógica narrativa deste romance, uma perspetiva alucinatória. Dilui a consciência da realidade na dimensão da possibilidade.

   O uso do futuro do pretérito como tempo narrativo gera uma significação aspetual de antecipação fictiva, de troca de posição dos planos temporais arquetipicamente sucessivos, libertando-os dessa sua obrigação sequencial e fazendo-os vogar, quais manchas cronologicamente desenraizadas, no jogo de omnisciências, prerrogativa dos narradores. A ordem semântica sobrepõe-se à ordem pragmática.

   A ordenação das ocorrências e a ordenação da narração deslizam uma sobre a outra antepondo e pospondo os intervalos temporais que constroem a história, mas dando predominância significativa à referência antecipatória.

   O uso do futuro do pretérito empurra o facto a haver — que o narrador sabe que houve — para o momento da sua eventualidade, tornando-o silhueta, sombra, despojando-o da inteireza da sua realidade. A presumível geometria linear da sucessão das imagens-quadros-parágrafos quebra-se sob a constante produção de incerteza. A narração é uma sucessão de intervalos entre pontos de futuro antecipado. Não há lugar para a ânsia progressiva pela certeza de uma conclusão. O movimento narrativo inverte-se, regride, recolhe-se num tracejado de frágeis possíveis, pendentes do futuro conhecido/desconhecido, de inseguranças.

   Como em tudo o mais, no modo de narrar deste romance, pelo uso do futuro do perfeito, impera a consciência da mortalidade transcendida pela crença na ressurreição.

 

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por Maria Almira Soares às 12:02

Terça-feira, 11.08.20

A Bia está furiosa e...

E, no meio desta história, uma zanga feroz.

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por Maria Almira Soares às 17:11

Segunda-feira, 03.08.20

TRÍPTICO DA SALVAÇÃO de Mário Cláudio

  

 

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As três Tábuas da Leitura

   Tábua primeira: A linguagem de tecido espesso é-me um contínuo reposteiro lavrado de palavras e dizeres que, em si, encenam, na minha memória, a composição de um requintado risco, único, precioso. Sigo-o desconectada da sua função efabulatória. O recorte e a cor e o sonho e o roçagar da sua presença são suficientes para o meu encanto e cegam-me para outros desenhos que me estejam a ser inculcados. Não leio senão a maravilhosa superfície do texto que me encandeia deixando na escuridão outras obrigações de leitora?

   Tábua segunda: Vou eu pelos adiantados caminhos luminosos dos encontros surpreendentes de palavras há muito perdidas, sonhadora de que a leitura para que o livro foi escrito seja só esta, muito contemplativa, muito evocativa, quando... Estupefacção: sinto o abalo da presença de uma história. Da tapeçaria, releva-se uma história que, por dentro do meu sonho de adoradora de palavras, me tem vindo a ser contada. Neste momento regenerador da minha consciência de leitora de romances, recolecto personagens com as suas intrigas, presentes que estiveram desde «O aprendiz que» inicial. Não leio senão as histórias que, em precisas palavras, e só nestas, estão lavradas e, delas, não podem ser desenvasadas?

   Tábua terceira: Sigo os trilhos dos dizeres em que as histórias carrilam, viajo as figuras, os lugares, as ruas, as casas, os objetos, quando... Distraindo-me da imposição da sua presença, o meu pensamento translato decide seguir pontos, linhas, planos projetados das faces e das arestas da história que leio, e dos seus focos de equilíbrio e desequilíbrio. Reconheço, na parede de sombras em que embate esta projeção, o meu mundo, o mundo em que leio. Gestos, movimentos, comportamentos, ambições e agruras, ideias, paixões, evasões — enfim a Humanidade — que me estão a ser contados, apresentam-se-me com significação comum a despeito do tempo. Terei completado as três tábuas da leitura: Linguagem — Fábula — Significação?

 

 

 

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por Maria Almira Soares às 11:14

Segunda-feira, 20.07.20

COMUNIDADES DE LEITORES

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LEITURA, SUBSTANTIVO COMUM

     A ideia do incremento da leitura é preferencialmente associada a atividades com crianças, o que se compreende bem, já que a infância é a idade boa para o lançamento de sementes de futuro. Uma vez, porém, que essas sementes, por vezes, muitas vezes, não frutificam e dão em pouco-leitores ou não-leitores, torna-se também desejável incrementar a leitura junto dos adultos.

   Note-se que incrementar a leitura tem valor quantitativo e qualitativo e, por isso, implica mais gente a ler, a ler mais livros, mas também a fazer boas escolhas e a apurar os seus critérios, o que não se torna fácil, dados os contextos pouco favoráveis a estes desideratos.

   De facto, não são apenas as crianças que são alvo de manobras de atratividade fácil, de adesão à superficialidade e à rapidez de contacto. Os adultos leitores ou possíveis leitores são cercados — por quase todos os lados — pela oferta insistente de histórias leves, rápidas, muito ao rés do viver rotineiro e das emoções típicas, das emoções de catálogo.

   Trata-se de histórias que não têm o poder de despertar o imaginário para paisagens de espanto e de perplexidade. São histórias com as quais é previsível a identificação com um construído modelo único de leitor e em que a pluralidade dos leitores suavemente se encaixa falseando a sua autenticidade e singularidade pessoal, em prol de formatados prazeres ou passatempos pouco exigentes. Em poucas palavras, trata-se de leituras rasas, rentes às vividas rotinas quotidianas sentimentais ou outras, a que o leitor se submete alienando-se da sua própria complexidade e do seu poder de autodescoberta.

     Assim, leitores adultos alheiam-se de pôr à prova a leitura de emoções, sentimentos, sim, mas na grandeza literária de um desses sublimes romances como por exemplo Gente Feliz com Lágrimas de João de Melo. Não procuram a experiência do estranhamento, da confrontação, do alargamento do seu mundo de referências que a leitura de, por exemplo, Conversa na Catedral de Vargas Lhosa  suscitaria no seu imaginário.

   Sob o pretexto de falta de tempo, de paciência e até de gosto pelo que é de produção antiga, demorado, trabalhado, muitos leitores ou possíveis leitores respondem, à fraquíssima probabilidade de lerem um desses grandes romances, com a afirmação de um gosto e capacidade externamente formatados para eles e para todos, para quantos mais melhor. E, por um movimento que quase pode parecer de orgulho, os grandes romances, os grandes clássicos universais, obras-primas, retiram-se da possibilidade de qualquer encontro. Claro que não é orgulho, é perda, na agressiva competição de atrair os leitores para o gesto de compra e, talvez, de leitura. A viciosa massificação do gosto e do desejo e a subserviência às tendências dominantes comandadas pelo desígnio de retirar o risco do negócio dos livros fazem quase-desaparecer do alcance do leitor-adulto tudo que não seja fruto da espuma dos dias. Perda considerável!

       É, neste contexto, que por vezes ouço advogar a ideia de que é melhor que haja muitos a ler «lixo» do que, como dantes, em que só alguns liam... Então penso que, se há tanta (toda) a gente a afirmar-se contra os atentados alimentares e se ninguém se atreve a dizer que comem porcarias, mas comem, não é como dantes em que havia tanta fome... porque não há de ser a mesma, a atitude perante a leitura? Ler não é um mero divertimento. Ler é um alimento. Ler «lixo» faz tanto mal como comer lixo.

   Neste contexto, os leitores consistentes do literário, os grandes leitores das grandes obras literárias, têm um papel a desempenhar entre pares: o papel de abrirem e partilharem as suas experiências de leitura e de alargarem, a rodas de gente, as conversas, os comentários, as citações, os pensamentos e os sonhos suscitados por essas leituras. E é assim que, no intuito de alcançarem estes desígnios, se formam comunidades de leitores.

   As comunidades de leitores são naturalmente uma coisa simples: gente que leu o mesmo livro e se reúne para debater as leituras que desse livro fez. Coisa simples, mas altamente atuante e produtiva quer para o leitor que coordena e modera quer para os leitores que a elas acorrem. Acorrem por motivos vários: o gosto de se mostrarem como leitores, de falarem dos livros e dos seus habitantes; a necessidade de romper o cerco comercial e acederem a referências e a propostas de leitura de obras que não estão visíveis nem ao alcance, na montra geral.

   As comunidades de leitores têm a virtude de porem em voz e em prática aberta, a natureza da leitura, a plural qualidade dos leitores, e de desmontarem pretextos que arredam as pessoas da leitura. Decorrem em lugares que se tornam de convívio pela leitura e criam um tempo próprio — contíguo mas não miscível nesse outro tempo manipulado pelo viver atual que parece arrasar qualquer veleidade de ler em extensão, em complexidade, em continuidade.

   As comunidades de leitores criam elos e sentimentos de pertença cujo cimento é a leitura. O ser humano é genericamente gregário e oferecer-lhe a oportunidade de se agregar por via dos livros e das leituras é inserir, no seio de um grupo de gente adulta, o desejo de ler cada vez mais e melhor. Note-se que digo agregar-se, mas não igualar-se ou alisar-se por uma qualquer rasoira mais ou menos qualitativamente elevada, já que, em leitura, a singularidade é marca de genuinidade. Nenhum leitor se confunde com outro e nenhuma comunidade de leitores deve servir como lugar de submissão discipular a leituras magistrais.

   Claro que há a possibilidade de uma comunidade de leitores ser apenas formada por gente altamente capacitada para fazer e mostrar a sua leitura de obras difíceis, complexas, exigentes, cuja beleza e significado se situam num patamar pouco acessível. E, então, temos um círculo de disseminação de inteligentes lampejos, de sensibilidades refinadas, de descobertas surpreendentes suscitados pela leitura de obras-primas.

   Sim, mas, numa comunidade de leitores que tenha a vocação de fazer crescer e estender a leitura entre gente adulta, é muitíssimo profícua a mescla de pessoas mais ou menos capacitadas para ler, com gostos de leitura mais ou menos experimentados, com critérios mais sólidos e mais frágeis. É na circulação por ambientes pessoais até desencontrados que as diferentes leituras de um livro abrem caminhos diversificados para o enriquecimento comum. Os vasos são comunicantes, não sendo todos feitos da mesma matéria, tamanho, transparência. A partilha torna a leitura uma coisa que a todos invade e entra, em cada um, segundo o que cada um pode e alcança; atinge, em cada leitor, um nível singular, sim, mas também já marcado pela influência dos seus companheiros de leitura.

   As comunidades de leitores têm programas, funcionam em ciclos, estão ligadas a lugares e integram alguém que tem a função específica de selecionar os livros a ler.

   A seleção dos livros a ler balança normalmente entre dois polos: o dos valores e critérios inscritos nos termos da criação da comunidade e que normalmente se identificam com os do seu criador/coordenador; o dos gostos e capacidades — imediatas e de partida — dos leitores que nela se inscrevem. Interceta este balanço um arco de convicções e objetivos determinantes da seleção dos livros a ler: desde os clássicos que tempos perdidos remeteram a nichos pouco acessíveis, até aos livros de massas sancionados pelo agrado geral. Há, pois, um terreno de escolha aferido pela distância/proximidade relativas entre dois limites: o limite do grau máximo de qualidade e o limite do banal. Tais limites são normalmente paralelos a outros dois: o da exigência/dificuldade e o da facilitação.

   A escolha da proximidade ao gosto mais generalizado e mais banalizado entre os leitores garante uma adesão mais rápida e fácil, uma identificação imediata, mas sonega possibilidades que, sendo menos visíveis e menos conscientes, contudo, interessa fazer brotar.

   A opção pela qualidade/exigência/dificuldade, embora corra o risco de menor adesão, garante uma via de acesso, talvez única, às grandes obras literárias universais.

   Por mim, penso que a programação de um ciclo de leituras de uma comunidade de leitores — sem prejuízo de aclarar o fio condutor que as fez agrupar — deve alargar-se por variadas paisagens literárias. O que não deve nunca é perder o desígnio de que aquela comunidade foi criada para ali se ler mais e melhor e não para nos deixarmos conquistar pelo best seller do momento.

   Na maior parte dos casos, as comunidades de leitores são criadas em ligação com outras instâncias: bibliotecas, livrarias, lugares vários de cultura e de lazer... e, não deixam, como não poderiam deixar de ser, não deixam, dizia, de serem matizadas pelos tons e os reflexos pré-existentes nessas instâncias.

   É natural que uma biblioteca, uma livraria, um café, procure visibilidade através da sua programação cultural. Visibilidade que se concretiza na quantidade dos frequentadores e na constância da sua frequência. Outros indicadores, de maior profundidade, não se alcançam à primeira vista. Ora, este desejo de conquistar presenças pode, só por si e como em qualquer outra atividade, sobrepor-se ao que deva ser a alma de uma comunidade de leitores: lugar único de encontro, de descoberta, de acesso e ganho cultural dado pela partilha da leitura de livros que ali nos é dado ler e ali procuramos.

   Uma comunidade de leitores não deve aplanar-se, alisar-se pela fasquia do que está à mão de semear; deve sentir-se, julgar-se, como lugar privilegiado de acesso a livros que se diferenciam por acrescentarem, ao plano do que ouvimos referir na voz pública generalizada, um grão de estranheza, um impulso de elevação, o entusiasmo novo de uma descoberta.

     Que, a uma comunidade de leitores, se não vá apenas para somar leituras, mas para nos transformarmos enquanto leitores!

    Muitas das comunidades de leitores existentes são de cariz mais ou menos institucional e, por isso mesmo, têm capacidade acrescentada de recrutar recursos materiais e pessoais que, por serem renomados, atraem. É um caminho.

   Há também outras que derivam mais naturalmente do ato de ler. Estas são resultado de uma vontade-iniciativa de um leitor que faz alastrar a sua leitura de um livro — de muitos livros — e a organiza de modo a partilhá-la à mesma hora, no mesmo local e no mesmo tempo, com um grupo de pessoas que, a partir do silêncio inicial, ergam as suas vozes de leitores, se irmanem ou confrontem na partilha da leitura. Sem mais enfeite. Sem mais enfeite, porque penso que a leitura só tem a ganhar se se mostrar em natureza, tal qual é.    

   As comunidades de leitores são leitura: substantiva e comum.

 

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por Maria Almira Soares às 11:47

Sexta-feira, 17.07.20

O PARVO - O DETECTIVE DAS PALAVRAS

Olá!

   Sou o Luís, mais conhecido como o Detective das Palavras.

   E sabem? Eu até gosto que me chamem assim. É que eu adoro ler histórias de detectives. E, de palavras, então, nem calculam como eu gosto delas! Aliás, sem palavras, não há histórias. Nem de detectives nem de coisa nenhuma.

   Quando ouço uma palavra que nunca antes tinha ouvido ou quando tenho uma dúvida sobre alguma das que já conheço, a minha curiosidade não me deixa parar até ficar a saber aquilo que antes não sabia. Nem imaginam as descobertas que eu já fiz.

   É verdade que, para se ser um bom detective, é preciso ser ágil a resolver problemas e eu, lá isso, costumo ser assim, mas hoje… Olhem, hoje, até parece que estou meio parvo. Só tenho feito parvoíces. Se calhar é influência de uma história que a minha avó me contou ontem: a história do João Parvo. Conhecem? Começa assim: «Era uma vez uma mulher que tinha um filho que se chamava João. Mas ele era, coitadito, meio parvo…» Começa assim, pelo menos quando é a minha avó a contá-la. Nesta história, o João faz tantas mas tantas parvoíces, que a certa altura já não sabemos se havemos de rir ou de chorar.

E eu, hoje, estou quase na mesma: enganei-me nos livros que meti na mochila, vesti a T-shirt do avesso, chamei Miguel ao Pedro, enfim… Ele até me respondeu: — Estás parvo ou quê!?

Não gosto nada de que me chamem parvo, a mim que até sou detective. Estava tão arreliado com isto tudo, que, há bocado, resolvi brincar com a situação para ver se ficava mais bem-disposto. Fui ali pôr-me em frente do espelho do meu quarto a fingir que estava, por assim dizer, dentro da história da Branca de Neve. Com as devidas diferenças, está claro! Que, a mim, não me preocupa nada a minha beleza. O que eu me pus a dizer frente ao espelho tinha a ver com as minhas parvoíces:

— Espelho meu, espelho meu, haverá algum rapaz mais parvo do que eu?

Há quem diga que faz bem brincar com as coisas que nos correm mal. Eu não tenho a certeza disso, mas do que aconteceu a seguir, sim, da coisa espantosa que me aconteceu, não duvido. Pois, à segunda vez que eu, olhando-me ao espelho com um ar entre o triste e o brincalhão, lhe perguntei: — Espelho meu, espelho meu, haverá algum rapaz mais parvo do que eu? — Sabem o que aconteceu? Julgam que o espelho falou? Pois falou mesmo. E disse:

— Parvo? Mas tu tens a certeza de que conheces bem o significado da palavra parvo, ó grande Detective das Palavras?

E eu, apesar de completamente espantado, não me amedrontei e respondi:

— Claro que sei. Um parvo é um tolo.

E o espelho:

— Até pode ser que sim, até pode ser que agora um parvo seja um tolo… Mas vou-te deixar um enigma, um desafio. Se o conseguires solucionar, descobrirás o que parvo já quis dizer noutros tempos.

E, de repente, o meu espelho começou a envelhecer, a envelhecer, a envelhecer… Como é que um espelho envelhece? Não sabem? Começa a ganhar umas pintinhas cinzentas junto às margens, a ficar menos brilhante, a apresentar alguns riscos e algumas manchas… Assim ficou o espelho do meu quarto. Parecia uma chapa acinzentada, pouco polida. Olhem, parecia que tinha sido encontrado numas escavações arqueológicas de umas ruínas romanas.  

Como devem imaginar, eu assistia a tudo isto meio aparvalhado, mas ainda mais zonzo fiquei com o que aconteceu a seguir: na superfície espelhada, agora bastante baça, começou a aparecer um texto. Aquilo já nem parecia um espelho. Parecia mais um ecrã de uma televisão antiga, a preto e branco, com um texto a preto sobre o fundo cinzento. Eu não percebia patavina do que lá estava escrito. A princípio, ainda me esforcei por tentar perceber alguma coisa, mas depois, com medo de que aquilo se apagasse de repente, corri a buscar a minha máquina fotográfica. Um detective, quando encontra uma coisa extraordinária, nunca deve deixar de a registar. Clak, clak. Já está. Consegui fotografar o texto antes que ele começasse a esfumar-se, ao mesmo tempo que o espelho regressava ao seu estado normal, voltando a ficar mudo como sempre fora. Eu bem insistia: — Que foi isto? Diz lá, que foi isto? Mas ele, nada. Agora só lá havia a minha imagem a fazer figura de parvo. Terei estado a sonhar!? Bem, a resposta está aqui, dentro da máquina fotográfica. Vamos lá ver se ficou alguma coisa na fotografia. Vou já passá-la para o computador. Tá - tá - tá… Tá -tá - tá… Cá está. Ficou mesmo. Afinal, sempre foi verdade, sempre aconteceu. Cá está o texto que eu vi no espelho e de que não percebo patavina:

Parvo.png

— Que grande mistério! Que será isto? Hum! Código secreto? Mas como é que eu vou conseguir decifrar isto? Quando isto apareceu no espelho, eu estava a… Pois, a perguntar se era parvo. E o espelho responde-me com isto?! Calma. Vamos lá por partes. Vamos lá tentar resolver esta charada. E comecei, muito engasgadamente, a tentar ler o que ali estava à minha frente. Fui andando aos tropeções nas palavras (seriam mesmo palavras?) e, quando cheguei à última linha…

— Olá! Aqui há gato! Ou antes, aqui há parvum! Isto talvez comece a fazer algum sentido. Pra já vou mas é copiar isto para uma folha.

E copiei. Verdadeiramente, a única palavra que eu reconhecia era parvum. Um bocadinho diferente de parvo, mas mesmo assim… devia ser do código. Enfim, isto não iria ser fácil de resolver.

No dia seguinte, quando a minha mãe me foi buscar à escola, disse que íamos dar uma volta, antes de irmos para casa. Eu já sabia que as voltas com a minha mãe incluíam sempre passar por uma livraria. Mas não me importava nada. Eu até gosto tanto de livros! E, de qualquer modo, para ir jogar à bola no jardim, posso sempre contar com o meu avô que nunca falha. E, como tinha previsto, lá andava eu com a minha mãe de volta dos livros numa livraria. Ela tinha-me prometido que me comprava um livro e eu ia olhando as capas e os títulos para escolher um que me agradasse. Depois de várias miradas e folheadelas, encontrei um que se chamava Histórias de Animais com uns desenhos tão bonitos que quis logo levá-lo comigo para casa. Fui a correr dizer à minha mãe:

— Mãe, é este que eu quero.

— Ah, esse é de fábulas.

— Fábulas?

De momento, não me estava a lembrar bem do que era isso de fábulas.

— Sim, fábulas. Pequenas histórias em que os animais se comportam como pessoas, uns bem outros mal, outros assim-assim, e no final se tira uma conclusão.

— Como A Cigarra e a Formiga?

— Exactamente.

— Já ouvi contar algumas dessas histórias, mas acho que não tenho nenhum livro de… fábulas.

— Então, levamos esse.

Foi um dia agradável: tinha mais um livro para ler e recordara uma palavra de que já andava esquecido: fábula.

A seguir ao jantar, fui buscar o livro e, sentado no chão da sala, pus-me a espreitá-lo. O meu pai disse logo:

— Que é que estás a ler?

— São umas histórias novas. Fábulas.

— Novas?! Tu sabes há quantos séculos se escreveram as fábulas que ainda hoje se contam? Há dezenas de séculos. As primeiras fábulas foram escritas em línguas muito antigas.

— Que línguas?

— Grego e Latim, por exemplo. O Esopo escreveu em grego e o Fedro em latim.

— Esopo! Fedro! Que nomes tão esquisitos! Ó pai, tu tens algum livro escrito nessas línguas?

— Por acaso, até tenho. Ora anda ali até à estante.

E o meu pai abriu um livro em que as palavras estavam escritas com umas letras diferentes das nossas. Algumas até pareciam números.

— O que é isso?

— Isto é grego. Os gregos escrevem com letras diferentes das nossas.

E pegou noutro livro.

— E isto é latim. Devo ter para aqui… até devo ter para aqui… um livro de fábulas em latim. Cá está! Este livrinho que o Fedro escreveu está cheio dessas historinhas a que chamamos fábulas.

— Posso ver?

— Podes.

Eu pus-me a folhear, mas não percebia nada.

— É engraçado estar a olhar para as letras como as das nossas palavras e não perceber nada…

— Mas isso acontece com qualquer língua estrangeira que não conheças.

— Pois é. E a ler alto? Como é? Tu sabes ler alto o que está escrito em latim?

— Sei.

— Podias ler um bocadinho para eu ouvir?

— Pra quê?

— Se calhar é engraçado. Vá lá, lê só um bocadinho.

— ‘Tá bem.

E o meu pai, cheio de paciência, abriu o livro ao acaso, pôs os óculos e começou:

Ranae vagantes…  

Até corei. Aquelas eram as palavras que, ontem à tarde, tinham aparecido no espelho e que eu, depois de as tentar ler, de as fotografar e de as copiar, ficara a saber quase todas de cor. Então, era latim! Olha o esperto do espelho!

— Ó pai, diz lá o que quer dizer isso que estiveste a ler.

— Ora deixa lá ver se ainda me lembro.

Sentámo-nos os dois no sofá e o meu pai ia apontando cada palavra devagarinho com o dedo, pensando um pouco e, depois, dizendo em português.

Umas rãs que andavam em liberdade pelos pântanos, numa grande gritaria pediram a Júpiter que pusesse fim aos maus costumes. O pai dos deuses riu-se e deu-lhes um bocado de madeira

E, nesta altura, quando o dedo do meu pai estava mesmo a passar por baixo de parvum e eu à espera de o ouvir dizer parvo, o que ouço eu? … deu-lhes um bocado de madeira pequeno.  

Pequeno?! Então é isso. Olha o esperto do espelho! Mas descobri: parvo também já quis dizer pequeno. — concluí em pensamento.

Tinha resolvido o enigma! Com alguma sorte, é certo, mas qual é o detective que não conta com um pouco de sorte? Com sorte e com a ajuda do meu pai que, logo a seguir, me mandou para a cama. Dormi mesmo bem e, na manhã seguinte, quando ouvi o Pedro a chamar parvo ao Mário, que é o mais alto de nós todos, dei uma gargalhada.Mas o Pedro não achou graça nenhuma:

— Porque é que te estás a rir?

— Porque tu chamaste pequeno ao Mário.

— Não chamei nada.

— Chamaste, chamaste.

— Estás cada vez mais parvo.

— Por acaso até nem estou. Este mês cresci dois centímetros.

E continuava a rir-me. Parvo pra cá, pequeno pra lá, já estávamos quase a pegar-nos à pancada, quando passou a professora de Português:— Então, meninos, que briga é esta?— É ele que está a teimar que parvo quer dizer pequeno. E não quer, pois não?— Calma, calma. Vamos lá ver. Se calhar, no fundo, ambos têm razão.E a professora sentou-se ao pé de nós a explicar que a palavra parvo, em latim, já quis dizer pequeno, insignificante, com pouco valor e importância e que, como um tolo é uma pessoa com pouco bom senso, começou-se a chamar parvos, não aos que eram pequenos de altura, mas aos que eram pequenos no juízo, aos que tinham pouco juízo, os tolos.Parvo começou por se aplicar ao que era pequeno em geral e, agora, aplica-se a quem é pequeno de juízo, a quem tem pouco juízo ou faz coisas pouco ajuizadas. Em latim, os baixos eram parvos; hoje em dia, pode-se ser parvo, mesmo sendo grande em altura.E, como o que a professora nos explicou fazia sentido, acabámos por ficar os dois convencidos e a nossa zanga acabou logo ali.Mais um caso resolvido, para bem do meu prestígio de Detective das Palavras!Ainda assim, não resisti. À noite, virei-me para o espelho, pus-lhe a língua de fora e disse:— Já sei. Sou pequeno, mas não sou parvo.E até me pareceu ouvir o espelho a rir-se, mas deve ter sido o vento a abanar a janela.

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por Maria Almira Soares às 18:11

Sexta-feira, 26.06.20

O TEXTO - O DETECTIVE DAS PALAVRAS

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       Foi durante uma visita de estudo que tudo começou. Tudo, o quê? Leiam, leiam, que já descobrem.

   Saímos de manhãzinha num autocarro que andou, andou, andou, até que parou num lugar chamado sítio arqueológico. Assim nos disse a professora que nos acompanhava. Eu achei logo graça: sítio arqueológico! Ali, há milénios, tinham vivido romanos! Nem imaginam como era sossegado, perdido no meio dos campos. À nossa vista, ficava uma extensão de terreno plano onde se alinhavam fieiras de pedras. Pelos carreiros que as circundavam, lá nos íamos aproximando de ruínas que outrora tinham sido construções inteiras. Junto a duas árvores baixinhas, de tronco largo, cinzento, ressequido e aberto por uma fenda, a professora disse:

— Estas oliveiras foram contemporâneas de Cardílio e Avita, um casal de romanos que aqui viveu há quase dois mil anos.

Caramba! E eu que nunca tinha pensado que pudesse haver árvores tão antigas ainda vivas!

E o Vítor a perguntar:

— E como é que eles vieram aqui parar?

E o Manel a gozar:

— De autocarro!

E a professora a ralhar e a ensinar:

— Juízo, meninos! Então, Vítor, não te lembras de como os romanos conquistaram a Península Ibérica e nela se fixaram?!

E a professora continuou:

— Sabem uma coisa? Ver este par de oliveiras e pensar nesse casal, Cardílio e Avita que, segundo a inscrição que estivemos a ler, aqui viveram felizes, faz-me lembrar uma história que li num livro chamado Metamorfoses escrito por Ovídio.

— O que é Metamorfoses?

— Quem é Ovídio?

Dispararam as perguntas de todos os lados.

— Ovídio foi um escritor romano. Num dos seus livros conta histórias maravilhosas de transformações fantásticas. De pessoas que se transformaram em árvores, por exemplo. Metamorfose significa transformação.

— Ah! Que giro! — disse eu. — Conte lá essa história, professora, conte.

— Agora não. Agora vamos, é, continuar a admirar o que sobrou desta casa. Olhem como são interessantes, estes mosaicos:

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Fiquei bastante desiludido por a professora não querer contar a tal história. Para compensar a minha decepção, pus-me a fotografar as letras e imagens desenhadas nos mosaicos. Pois foi quando eu estava muito concentrado a visar a inscrição que fala do Cardílio e da Avita, que ouvi nitidamente atrás de mim:

— Pst! Pst!

Virei-me, olhei, mas não vi nada. Talvez fosse o vento. Talvez fosse um dos engraçadinhos dos meus colegas. Talvez fosse ilusão. Mas, de repente, outra vez:

— Pst! Pst!

Não era ilusão. Alguém me estava mesmo a chamar. Fixei melhor a atenção na direcção do chamamento e, quando olhei para o chão atrás de mim, que vejo eu? Vejo um dos arabescos da cercadura do mosaico a mexer-se! A mexer-se e, à medida que se mexia, a transformar-se… a transformar-se em quê? Numa lagartixa toda lampeira que, de cabecinha arrebitada e rabito a abanar, me piscava o olho continuando a chamar-me: — Pst! Pst!

   Juro. Uma lagartixa, saída do mosaico, estava a chamar-me. E não esperou muito. Largou numa correria desenfreada como costumam fazer as lagartixas. E eu, claro, que, como sabem, não resisto à curiosidade, lá desatei a correr atrás dela. Correu, correu, até à base de um muro que logo subiu com uma tal destreza que eu, tentando imitá-la, para não me magoar, tive de travar repentinamente. Quando me refiz, a lagartixa tinha desaparecido. Mordido pela curiosidade, preparei-me para trepar: queria ver o que havia do outro lado daquele muro. Queria ver e vi. Vi e fiquei literalmente de boca aberta como acho que vocês também vão ficar. Enquanto do lado de cá tudo eram pedras velhas, ruínas, oliveiras antiquíssimas, do lado de lá, tudo estava inteiro, recomposto como se ainda estivéssemos no tempo em que Cardílio e Avita ali viveram: as ruas empedradas, as casas de paredes pintadas, as lojas com mercadorias às portas… Fascinado, até me esqueci da lagartixa mágica. Mas ela é que não se esqueceu de mim:

— Pst! Pst!

   Era ela que, com gestos insistentes das patitas e da cabecita me incitava a entrar numa das casas. Entrei. Dei uns passos um pouco a medo e logo me achei numa sala mobilada e decorada com leitos e tapetes e lucernas e jarros e estatuetas… Tudo daquelas cores que costumam ter nos filmes passados no tempo dos Romanos. A sala era comprida e mal iluminada ao fundo. Para lá do meio, tudo eram sombras. A mim parecia-me que, junto à parede mais afastada, alguém acabava de se reclinar num leito. Parecia-me, mas não tinha a certeza. Por isso, fui andando, andando. Era verdade: um vulto fitava-me. Tinha o olhar da lagartixa, mas já não era lagartixa. Agora tinha figura humana. E disse:

     — Não tenhas medo. Aproxima-te. O meu nome é Atentus e sou socorrista de meninos curiosos. Quando um menino quer saber alguma coisa e a sua curiosidade não é satisfeita, se esse menino tiver os olhos e os ouvidos bem abertos, como foi o teu caso, basta seguir-me e encontrará não a resposta mas uma pista para a encontrar.  

   Eu, muito espantado, mas animado pelo convite, dei mais uns passos na direcção do senhor Atentus que continuava a falar:

   — Queres mesmo conhecer a história da transformação de um homem e de uma mulher em duas árvores, que Ovídio escreveu? Então, pega lá este rolo de papiro. Trata de o guardar bem. Quando estiveres sozinho, desenrola-o. Ele contar-te-á a história que queres saber.

     Ganhei coragem, estendi a mão e agarrei o rolo. Meti-o imediatamente por baixo da camisola e preparava-me para dar meia volta saindo dali a correr, quando, elevando um pouco a voz, Atentus continuou:

   — Não vás ainda. Ouve-me com atenção: para conseguires compreender o que aí vai escrito, tens de cumprir um procedimento obrigatório.

   — E qual é?

   — Como sou socorrista, tenho meios especiais para ajudar a curiosidade dos meninos. Por isso, fiz com que as palavras que aí vão escritas tenham poderes mágicos. Se as fixares com toda a tua atenção e vontade de compreender, cada palavra escrita em latim passará automaticamente para a tua língua, o português. Mas se a tua atenção fraquejar um bocadinho que seja, elas voltarão imediatamente a ser latim e nada perceberás. Agora vai.

   Corri para fora da casa do senhor Atentus, voltei a saltar o muro e cá estava eu outra vez entre pedras antigas, chão poeirento e oliveiras velhas…

   — Ah, estás aí. Já estava a ficar preocupada. Onde é que te meteste?

   — Distraí-me a ver uma lagartixa e acabei por ir atrás dela…

   — Vá, que agora vamos a um parque de merendas para lancharmos.

   Era a professora que já estava a reunir-nos a todos para voltarmos a entrar no autocarro. O resto da visita de estudo correu bem, mas sem que nada de extraordinário voltasse a acontecer. Eu é que estava mortinho por fixar os meus olhos nas palavras da história escrita no rolo que tinha por baixo da camisola. Ali, à vista de todos, não o podia fazer. A curiosidade tinha de esperar mais um bocadinho.

   Chegado a casa, fui logo guardar o rolo mágico na gaveta dos meus segredos e, só depois do jantar, é que consegui escapar-me para o meu quarto: ia deitar-me cedo para descansar da fadiga da viagem. Descansar? Qual quê! Em vez de esperar pelo dia seguinte, em que já estaria fresco e recuperado, a primeira coisa que fiz foi pegar no papiro e começar a desenrolá-lo, cravando bem os olhos em cada palavra, como me recomendara o senhor Atentus, socorrista dos curiosos. Começava assim: “Há nos montes da Frígia um carvalho junto a uma tília…»

   — Ah! Cá estão as duas árvores… um carvalho e uma tília… — pensei logo eu.

   A vontade de continuar a leitura era muita, mas na verdade, por mais que eu o não quisesse reconhecer, estava bastante cansado da viagem. Ia lendo, mas, de vez em quando, os meus olhos sonolentos deslizavam das palavras quase a fecharem-se. Ora, sempre que isto acontecia, distraindo-me, imediatamente a palavrinha, que eu estava a compreender muito bem em português, se transformava num conjunto de letras de que eu não entendia patavina: latim. Não estava a ser nada fácil. O Atentus bem me avisara. Por exemplo: eu estava a começar a ler tod…, distraía-me e, quando voltava a olhar, em vez de toda, aparecia-me tota; ou a palavra dois, que me fugia dos olhos transformada em duo. Mesmo assim, prossegui a leitura.

   Estava eu a ler uma parte que dizia «o velho trouxe um banco, que Báucis, solícita, cobrira com um pano…», quando, mesmo em cima da palavra pano, um sono quase invencível começou a fazer-me piscar os olhos: abria-os e lia pano; começava a fechá-los e lia textum; voltava a abri-los e lia pano; começavam de novo a descair-me as pálpebras e lá voltava o pano a transformar-se em textum. E isto por três vezes sucessivas, até que eu, intrigado, sacudi a cabeça com força. Contra o poder do sono, renascera em mim a alma de detective das palavras. Esfreguei os olhos e perguntei a mim mesmo:

   — Em latim, cobriam bancos com textos?! Que disparate! Mas o que é que a palavra pano tem a ver com a palavra texto?

     Mas já não tive forças para mais. Adormeci.

     No dia seguinte, porém, continuei a pensar no assunto. Estava convencido de que conhecia muito bem a palavra texto. Embora, na verdade, só tivesse tomado conhecimento da sua existência quando comecei a andar na escola. Antes disso, para mim, havia livros, histórias, poemas, cantigas… Depois, sem que ninguém me explicasse porquê, todas essas coisas passaram a ser textos: — Vamos ler um texto. — O texto que tu escreveste é muito bonito. — De que texto gostas mais? — De que é que gostaste mais neste texto? Texto para aqui, texto para ali, o dia a dia da escola estava cheio da palavra texto. E, se querem que vos fale com toda a sinceridade, eu até nunca consegui gostar muito desta palavra. Tem um som muito apagadinho, coitada. É toda feita de sons baixinhos: t-x-t. Até parece estar a mandar-nos calar e ficar quietinhos. Confesso que gosto mais de palavras sonoras, vibrantes. Estava, pois, convencido de que a palavra texto não tinha segredos para mim e acontece-me agora uma destas confusões! Que fazer? Acreditar em mim que sabia que texto era uma coisa escrita que se podia ler? Ou acreditar no papiro mágico que usava a palavra texto com o sentido de pano? Mais um mistério a descobrir. E não demorou muito.

   A seguir às visitas de estudo, era costume escrevermos um relato do que se tinha passado e a tradição manteve-se. Logo ao princípio da aula, a professora disse:

   — Agora, cada um de vós vai escrever um texto acerca da visita de estudo que fizemos ontem.

     Mal ouvi a palavra texto, imediatamente me lembrei do problema que tinha ficado por resolver no dia anterior. E, talvez porque sou um bocadinho maroto, em vez de me preocupar, decidi pôr-me a brincar. Às vezes, brincar ajuda a resolver os problemas. E, desta vez, ajudou. Não sei o que me passou pela cabeça que, à medida que ia escrevendo o meu relato da visita, ia trocando pano com texto e vice-versa. Talvez fosse uma espécie de vingança do rolo de papiro mágico que, na noite anterior, me dera tanto trabalho a ler. Não sei. O que sei é que, de cada vez que precisava de escrever pano, escrevia texto; e, de cada vez que precisava de escrever texto, escrevia pano. Assim:

«Depois, vimos um mosaico onde estava escrito um pano que dizia…»

«Quando fomos lanchar, estendi um texto sobre a mesa de pedra, antes de lá pousar a minha merenda…»

   Estava tão divertido a escrever estes disparates, que parece que nem tinha medo do que a professora iria pensar acerca de mim, quando os lesse. Normalmente é assim: quando estamos a fazer uma asneira nem nos lembramos das consequências. Mas, olhem, desta vez, as coisas nem correram mal de todo e foi, até, por causa desta minha maluqueira que ficámos todos a conhecer a origem da palavra texto.

   No dia seguinte, a professora estava a comentar os nossos relatos da visita de estudo, quando, a certa altura, começou a dizer:

   — Há aqui um menino muito brincalhão. Não lhe bastou andar a brincar com as lagartixas durante a visita. Também se pôs a brincar com as palavras ao escrever sobre ela…

   Corei tanto que todos perceberam logo que era de mim que ela falava.

   E continuou:

   — O que esse menino talvez não saiba é que às vezes, a brincar a brincar, falamos de coisas sérias. Ora vamos lá ver se me sabem responder a umas perguntinhas: Quem é que sabe como se chama a indústria que fabrica tecidos?

   Logo muitos dedos se puseram no ar e algumas vozes não se contiveram:

   — Têxtil! Têxtil! Têxtil!

   — Muito bem. E para que servem os tecidos que a indústria têxtil fabrica?

   — Para fazer roupa!

   — Para fazer almofadas!

   — Para fazer guardanapos!

   — Para fazer panos de cozinha!

   — Muito bem. E, então, vamos lá pensar um bocadinho: porque será que a indústria que fabrica os tecidos com que se faz a roupa, as almofadas, os guardanapos, os panos de cozinha, se chama têxtil?

   — …

   Ninguém sabia. Eu começava a desconfiar, mas achei melhor ficar calado. Não fosse piorar ainda mais a minha situação.

   — Não sabem? Pois eu vou explicar-vos. É muito engraçado: reparem numa palavra que vocês conhecem muito bem, a palavra texto. É nesta palavra que reside a solução deste problema.

   — …

   — Em latim, língua que, como sabem, foi a origem do português, texto era o mesmo que tecido, queria dizer tecido. As duas palavras até têm a primeira sílaba igual. Então, estão a ver, aquilo que produz um tecido (que em latim era texto) chama-se têxtil.

   — Pois é. — disse o Carlos. — Mas, então, porque é que agora chamamos texto ao que escrevemos?

   — Porque o texto escrito, em certa medida, é parecido com um tecido. Ora reparem: assim como, para fazer um tecido, as máquinas vão pondo os fios bem juntinhos, uns a seguir aos outros, também, ao escrever os textos, vamos enchendo as linhas de palavras umas a seguir às outras até a folha ficar toda coberta de letras, como se estivéssemos a fazer um «tecido» de palavras. E então resolvemos chamar texto ao resultado do nosso trabalho de escrita! Como dantes, no tempo dos romanos, se chamava ao resultado do trabalho dos teares.

   — Que giro! — voltou a dizer o Carlos que estava mesmo a achar aquilo muito engraçado. — Quando eu estiver a escrever um texto, vou pensar que estou a fazer um tecido…

   — Muito bem, Carlos. É isso mesmo. Estás a perceber muito bem. E, agora, já todos sabem qual foi o sentido original da palavra texto.

   Eu, muito calado, ia devorando toda aquela informação. E estava radiante por duas razões. A primeira era que a professora fora discreta e não se pusera a querer saber o que me tinha levado a fazer aquela brincadeira da troca entre a palavra pano e a palavra texto. Tinha preferido aproveitar para nos ensinar a origem do sentido de mais uma palavra. E, assim, não me encostara à parede, obrigando-me a confessar coisas inconfessáveis. A segunda era que, finalmente, tinha percebido porque é que no papiro dizia que Báucis tinha coberto um banco com um textum. Afinal, no tempo do Ovídio, texto era um pano. Que descoberta sensacional! Gostei mesmo muito desta aula. E ainda por mais uma razão. Sabem qual? É que, para alegria geral, a professora disse:

   — E, agora, vou contar-vos a tal história das Metamorfoses do poeta Ovídio. Nela, como já vos disse, um casal de velhinhos acaba transformado em duas árvores.

   E contou:

«Um dia, Júpiter e Mercúrio, deuses romanos, chegaram disfarçados de humanos a uma terra onde foram pedindo, de casa em casa, abrigo para repousarem. Ninguém lhes abriu a porta, excepto Báucis e Filémon, um casal de velhinhos que vivia numa casa muito pobre. Com o pouco que tinham, receberam muito bem aqueles dois viajantes que nem sonhavam que fossem deuses poderosos. Ofereceram-lhes um banco para se sentarem, cobrindo-o com um pano para que fosse mais confortável e serviram-lhes uma refeição. No fim, os deuses disfarçados revelaram quem eram e, antes de castigarem os outros habitantes pelo seu egoísmo, alagando todas aquelas terras, levaram Báucis e Filémon consigo, salvando-os. Quando Júpiter lhes perguntou que recompensa queriam, disseram que, já que tinham vivido sempre na companhia um do outro, queriam que a sua vida acabasse exactamente à mesma hora. Júpiter fez-lhes a vontade determinando que, quando a sua vida estivesse a chegar ao fim, à mesma hora, cada um deles se transformaria numa árvore.»

   Aqui, a professora pegou num livro, abriu-o, começou a ler e nós ficámos todos muito caladinhos a escutar o final do texto que Ovídio escreveu no século I da nossa era:

   «Um dia, acabados pelos anos e pela velhice, estando diante da escadaria sagrada a contar o sucedido neste local, Báucis observa Filémon cobrir-se de folhas, Filémon a cobrir-se de folhas vê Báucis. E, embora já lhes crescessem copas sobre os dois rostos, iam trocando palavras… E ainda hoje os habitantes da Tínia mostram ali dois troncos vizinhos, nascidos dos dois corpos.»[1]

[1] Ovídio, Metamorfoses, tradução de Paulo Farmhouse Alberto, Livros Cotovia, pág. 217.

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por Maria Almira Soares às 14:51

Quarta-feira, 27.05.20

O INFANTE - O DETECTIVE DAS PALAVRAS

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        Hoje, cá em casa, andamos todos atarefadíssimos a preparar o dia de amanhã. E que coisa, assim tão importante, vai acontecer amanhã? Amanhã vamos partir para a terra da minha mãe, para lá passarmos as férias. Férias! Não devo ser o único a adorar esta palavra. É boa para pensarmos nela e sonharmos com ela. E é óptima para se dizerem frases como esta:

— Como estou em férias, vou viajar.

Outra palavra excelente: viajar! Férias e viajar são duas palavras que se dão mesmo bem uma com a outra. Pois é, estou mesmo feliz só de pensar que, por uns tempos, vou mudar de vida. Esta mudança para a terra da minha mãe até parece um passe de mágica, como se, ao mesmo tempo, fôssemos os mesmos e não fôssemos os mesmos. A mim, por exemplo, deixam-me muito mais à vontade. Posso fazer coisas que, na cidade, são muito mais difíceis de conseguir, como andar sozinho na rua. E as casas? As casas são, quase todas, já bastante velhas. Como a da minha avó, para onde vamos. Tão velha que, se dermos um passinho com mais força, começa logo a ranger. O pior (ou o melhor) são os fantasmas. É verdade! Dizem que há lá casas onde aparecem fantasmas. Às vezes, durante a noite, ouço uns barulhos estranhíssimos. O meu pai diz que é a casa a arrefecer, que as madeiras estão velhas e estalam à noite, quando arrefece… Não sei, mas eu, já metidinho na cama, adoro fechar muito os olhos e acreditar mesmo que andam fantasmas (Uuuuuhhhhh!) pelo corredor. Tenho um bocadinho de medo, mas gosto. Como quando vamos passear à noite para uma estrada velha que não tem nenhuma iluminação. É tão escuro, tão escuro, que quase só nos distinguimos pelos barulhos que fazemos. Mas, quando levantamos os olhos para o céu, as estrelas são tantas, tantas, que parece um tesouro a brilhar. Fantasmas! Tesouros! Segredos! É, na aldeia da minha mãe, que vivo as mais emocionantes aventuras. Às vezes, até descubro coisas interessantíssimas na minha área de especialidade que, como sabem, é a de detective das palavras. É que as pessoas da aldeia sabem coisas! Coisas antigas. E têm modos de falar misteriosos. Pelo menos para mim. O mais espantoso de todos é o professor Santiago.

   Gosto muito do professor Santiago e ele, embora se esteja sempre a meter comigo e a resmungar, também parece que gosta de mim. No fundo, damo-nos bem. Foi o primeiro professor da minha mãe e... Querem saber uma coisa de chorar a rir? Trata-a por Naninha. A minha mãe, a senhora D. Adriana, para o professor Santiago, é a Naninha! Era assim que lhe chamavam quando era pequenina. Adoro descobrir estas coisas! Para mim, o professor Santiago é uma fonte inesgotável de curiosidades. É um sábio. Sabe muito de velharias, de histórias antigas, e tem uma maneira de conversar que parece que está sempre a desafiar-nos para resolvermos alguma charada. Usa palavras estranhas. Então a mim, chama-me cada coisa: seu meliante, seu farsante, seu bargante… Olhem, ainda no ano passado, aconteceu uma coisa bem engraçada. Mas que grande barracada que eu dei! Mas fiz uma descoberta sensacional! Descobri que… Vou contar:

   Um dia, ia eu todo contente pela rua abaixo em direcção ao largo para brincar com os meus amigos, quando vi, ao longe, que o professor Santiago estava à janela. Passei, olhei e cumprimentei-o:

— Bom dia, senhor professor.

É assim que toda a gente na aldeia o trata.

— Olá, infante! Então como é que vai a vida?

Apanhado de surpresa e sem pensar, repliquei:

— Infante?! Mas eu nem me chamo Henrique!

— Ah, sim? Olha, verdade, verdadinha, conheci-te ainda infante… mas infante é que tu já não és… Nem desses nem dos outros.

— Nem desses nem dos outros!? Que grande charada! — Fiquei eu a matutar, enquanto o professor continuava a fitar-me com o olhar desafiador do costume.

Para mim, só havia um infante: aquele que se pusera a olhar o mar na ponta de Sagres, o infante D. Henrique. Quando cheguei a casa, perguntei ao meu pai se havia mais infantes para além deste. Ele interrompeu a leitura do jornal e explicou-me que antigamente se chamava infantes aos filhos dos reis, como era o caso de D. Henrique.

— Ah, então há esses infantes. E os outros?

— Quais outros?

— Foi o professor Santiago que disse.

— Deves ter percebido mal. O professor Santiago sabe bem o que diz.

— Mas porque é que os filhos dos reis se chamavam infantes?

— Então ainda não ouviste falar da infância?

— Claro.

— Então, como são mais novos e não têm o poder dos pais, os filhos dos reis, enquanto não reinam ou se nunca vierem a reinar, é como se ficassem sempre na infância, como se fossem sempre crianças: ficam sempre a ser chamados infantes. Percebeste?

Eu disse que sim, mas a minha dúvida ainda estava longe de estar totalmente esclarecida: porque é que, segundo o professor Santiago, eu, que sou uma criança, «não sou infante nem desses nem dos outros»? «Desses», tudo bem. Sei muito bem que o meu pai não é nenhum rei. Mas «dos outros»?! Quais outros? Que charada! Comecei a tentar lembrar-me de mais alguma coisa que me ajudasse a descobrir este mistério e, de repente, vieram-me à cabeça mais umas palavras que ele disse: «e logo tu, meu grande tagarela, que falas pelos cotovelos». Ora essa, que tinham os meus cotovelos a ver com os infantes? Tagarela ainda fui ver ao dicionário da minha avó e descobri que era fala-barato. Esta também é engraçada: quem fala muito é fala-barato! Mas não me resolveu o problema de eu não ser infante «nem desses nem dos outros». A minha curiosidade era tanta, que lá me resolvi a ir, com uma carinha de penitente e falinhas mansas, enfrentar de novo o Professor Santiago:

— Ó senhor professor, vá lá, diga lá quais são os «outros infantes», para além dos filhos dos reis, diga lá.

— Ah, ah, seu farsante, de reis, já sabe alguma coisita… não é? Mas nesta dos outros infantes é que está mesmo às escuras…

— Vá lá, explique lá.

— Bem, bem. Para ter, é preciso merecer. Vou dar-te uma oportunidade de te ajudares a ti próprio na descoberta do que queres saber.

Tirou uma folha de um caderninho que trazia sempre no bolso e pôs-se a escrever devagarinho, como se estivesse a pensar ao mesmo tempo que escrevia. Quando acabou, disse:

— Aqui levas as pistas necessárias para encontrares aquilo de que precisamos para que eu satisfaça a tua curiosidade.

Eu já sentia no ar o cheirinho a aventura. Começava a ficar entusiasmado:

— Até parece um mapa de tesouro.

— E é. E é. Não há melhor tesouro do que conhecermos bem a nossa língua portuguesa.

Mal saí dali, pus-me a olhar fixamente para o que estava escrito no papel que me dera o professor:

«Vai ao princípio da principal

E verás uma alta ao pé de uma baixa.

Entra na alta e vira à direita.

Abre o de duas portas.

Na 120 do vestido de amarelo, encontrarás as seguintes palavras: “pueros infantia linguae”.

Copia as três palavras que estão antes destas.

Traz-mas e dar-te-ei a solução.»

— Que charada! Até parece uma mensagem de um velho mágico! «Na 120»!? Será uma estrada? «O de duas portas»!? Será um carro? «O vestido de amarelo»!? Que charada!

Resolvi sentar-me numa pedra à beira do caminho para pensar com mais calma.

— Vamos lá ver isto. Uma coisa de cada vez: se no «vestido de amarelo» há palavras, o mais certo, o mais certo… é que… seja um livro! Mas um livro vestido!? De amarelo?! Só se for, só se for… um livro encapado com papel amarelo! Deve ser um livro antigo, que está encapado para não se estragar.

Suspirei aliviado com estas pequenas descobertas, mas logo voltei à carga:

— Mas onde? Onde estará este livro amarelo?

Recomecei a ler devagarinho a mensagem do professor:

«Vai ao…»

— «Vai»? Eu, quando vou, vou… pela rua… Rua principal! É isso. É na rua principal da aldeia! No princípio da rua principal da aldeia!

Desatei a correr e quando cheguei à entrada da rua principal, levantei os olhos e que vejo eu? Uma casa alta mesmo ao pé de uma muito baixa. Entrei na alta, que era a escola, virei à direita e logo encarei… Sabem com quê? Com um armário de duas portas. Imediatamente o abri e, à minha frente, distinguia-se perfeitamente um grande livro encapado de amarelo! Só faltava a 120. Voltei à mensagem: «Na 120 do vestido de amarelo, encontrarás as seguintes palavras…»

Se o vestido de amarelo era um livro, então, a 120 de um livro deveria ser… a página 120! Era isso. Abri o livro na página 120 e os meus olhos ansiosos, sem perceberem nada do que lá estava escrito, começaram a percorrê-la, linha a linha, à procura das palavras mágicas:

— Bingo! Cá estão elas: Agora é só copiar as três palavras que estão antes destas.

Tirei do bolso um lápis que trago sempre comigo e, com alguma dificuldade, pois eram tudo palavras estranhas e completamente desconhecidas para mim, completei a frase: «protrahere ad gestum pueros infantia linguae».

— Safa! Que palavras esquisitas! Devem ser da língua dos mágicos.

Missão cumprida. Arrumei o livro no armário, guardei o papel no bolso e não perdi tempo a voltar ao encontro do professor Santiago.

— Estão aqui as palavras, senhor professor.

— Já, seu bargante? Hum, hum, vamos lá ver isso.

Eu dei-lhe o papel. E ele, muito calado, parecia divertido:

— Por Hércules, fizeste o trabalho, mereces a recompensa. Ora senta-te aqui ao pé de mim e escuta com muita atenção tudo o que te vou contar.

E começou:

— O livro de onde copiaste estas palavras é muito antigo. Foi escrito em latim, por Lucrécio, um escritor romano, que viveu no século primeiro antes de Cristo, e chama-se De Rerum Natura, que significa Acerca da Natureza das Coisas. É um livro muito interessante e, até, engraçado porque tenta explicar a origem de todas as coisas, plantas, animais, pessoas, num tempo em que ainda não havia saber suficiente para o fazer cientificamente. E, então, o Lucrécio inventa teorias que, hoje, nos parecem muito curiosas.

— Ó senhor professor, mas o que é que isso tem a ver com os infantes?

— Calma, rapazinho. Já lá vamos. Uma coisa, cuja origem também é muito interessante saber, é a linguagem. Não gostavas de saber a origem da linguagem, das palavras que dizemos?

— Sim, sim. Isso interessa-me e muito.

— Pois, como eu te ia a dizer, Lucrécio também arranja uma explicação para a origem da linguagem. Queres ver?

Voltou-se para a secretária e pegou num livro que devia ser igual ao que estava guardado no armário da escola. Só que, como não estava encapado, via-se perfeitamente, gravado logo no princípio, o seguinte:

Titi Lucreti cari

De rerum natura

 

Abriu-o e leu, adaptando-o para português, o pedacinho de que fazia parte a frase mágica que me iria revelar quem eram, afinal, os «outros infantes»: «… foi a natureza que obrigou os homens a criarem os vários sons da linguagem e a dar um nome a cada coisa, do mesmo modo que os bebés por não saberem ainda falar, se vêem obrigados a apontar com o dedo as coisas que querem…» E, logo a seguir, explicou:

— Para Lucrécio, foi naturalmente que os homens, por necessidade, foram inventando as palavras e pondo um nome a cada coisa. Como, para lhes facilitar a realização das tarefas da vida, precisavam de dar nomes às coisas, naturalmente, foram dividindo os sons que faziam, separando-os em diferentes palavras, uma para cada coisa. Não está nada mal pensado. Estás a perceber?

— ‘Tou,’tou.

— Então, vamos lá, agora, aos infantes. A frase que me trouxeste: «protrahere ad gestum pueros infantia linguae» significa o seguinte: a incapacidade de falar obriga os bebés a fazer gestos. Ora, nesta frase, qual achas tu que é a palavra que significa bebés?

Infantia. — arrisquei eu rapidamente.

— Ah! Ah! Caíste que nem um patinho! Pois não é. É pueros. Pueros é que são os bebés, como na palavra puericultura, que significa o tratamento dos bebés.

— Mas, então, se infantia, que é tão parecida com infância, não significa bebés, o que é que ela significa?

— Ora aí é que está a solução de todo o problema: a palavra infância, na sua origem, em latim, significava ‘incapacidade de falar’. E o infante era aquele que ainda não sabia falar. Esta é que é a solução: os «outros infantes» são as crianças que ainda não sabem falar. Por isso, é que tu, meu grande tagarela, também não és um infante desses outros.

— Ah! Ah! Agora percebo.

— Pois percebes, meu meliante. E ainda vais perceber outra coisa: quase todas as palavras que têm a ver com a fala: falar, falante, fama, afamado, difamar… e muitas outras, que ainda não conheces mas virás a conhecer, têm todas, como a palavra infante, a sílaba fa, que é a partícula mais pequenina com o significado de falar.

— Caramba! Nós até parecemos dois cientistas! Até parece que estamos a ver as palavras ao microscópio para descobrir as partículas das substâncias de que são formadas. Agora descobrimos o fa: a partícula do falar! É mesmo engraçado!

— Pois é, seu farsante!

— E agora já sei: eu não sou infante de uns, porque o meu pai não é rei; e, dos outros, porque já falo, já sei falar e, até falo pelos cotovelos!

— Brilhante!

Que grande descoberta e que grande lição! É mesmo engraçado descobrir a origem das palavras!

Bem, isto foi no ano passado. Este ano, ainda não sei que aventuras é que me esperam na terra da minha mãe. Só sei que, amanhã, quando lá chegar e encontrar o professor Santiago, lhe vou logo contar como me diverti a chamar infante ao Rui! É que o Rui é um amigo meu que é muito, mas muito, caladinho!

 

 

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por Maria Almira Soares às 14:41


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