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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Quarta-feira, 22.01.14

SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE DE ITALO CALVINO

 

Retrospetiva das leituras da comunidade de leitores LerDoceLer:

 

SE NUMA TARDE DE PRIMAVERA UM LEITOR...

 

 

Ler pode ser, para alguns leitores, um contínuo — E depois? Mas, para outros, é certamente um constante — E se? O romance de Italo Calvino Se numa noite de inverno um viajante alimenta-se do síndroma de privação dos leitores a quem vão sendo servidas sucessivas histórias inacabadas. Mas, para os leitores do tipo — E se?, não serão sempre inacabadas, todas as histórias? Se é talvez a palavra mais importante na invenção de histórias. A palavra-expectativa. A expectativa é uma das chaves da adesão do leitor, tanto como a atmosfera criada (numa noite de inverno) é um filtro que o agarra. Finalmente, um viajante (a personagem) é a boleia da vontade de, imaginariamente, nos deixarmos transportar.

SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE

Título arquetípico, primordial, o primeiro da série, construído para criar expectativa, agarrar, empurrar o leitor para a viagem por este livro-oficina de cujo poder metamórfico brota uma cascata de histórias sempre a fluir: Se numa tarde de inverno um viajante e Fora da povoação de Malbork e Debruçando-se da encosta íngreme e Sem temer o vento e a vertigem e Olha para baixo onde a sombra se adensa e Numa rede de linhas que se entrelaçam e... e... e... e... A leitura é um romance sem fim. Sempre começado, recomeçado, inacabado. No leitor, os livros fundem-se uns nos outros. Cada princípio de leitura é um laboratório e a experiência duradoura de ler é um catálogo genético de histórias, uma coleção de códigos geradores de procuras, de ligações, de descobertas, de enganos, de mistérios, de perigos, numa infinidade de tons de uma variação imensa. E, para alguns, os que escrevem histórias, uma fonte de imaginárias existências literárias, que verão a luz, se um leitor vier a torná-las reais. Porque, como o real, também o lido é cúmplice do imaginário fabricador de histórias.

Se numa noite de inverno um viajante faz a cartografia dos cruzamentos e desencontros e coincidências e descobertas e surpresas, agradáveis e desagradáveis, entre as histórias que vêm nos livros e os caminhos dos leitores que as procuram. E, neste grande mapa, marca com assinalável arte, aqueles momentos, de uma singularidade quase inefável, em que uma coisa começa, sem aviso, a deixar de ser o que parece e a, subtilmente, transformar-se numa outra coisa, fazendo subir no leitor a febre bendita da suspeição. Este é, em espécie, um livro de instruções das artes da LEITURA. Fruto de uma profunda e provada experiência de criar histórias e de as ler, desdobra-a em: ouvir ler, ler em tradução, os gestos de ler, as pausas do ler, ler o original, a explicação do ler... a leitura contextual, intemporal, circunstancial, anacrónica, académica, ideológica, política, escolar, ... as releituras... Para o fazer, abusa da paciência daqueles leitores que estão sempre ansiosos por saber o fim das histórias? Mas se, até entre os mais bem acabados, “Todos os livros continuam para além...”?! Se se diz, até, que os escritores estão sempre a escrever o mesmo infindável e metamórfico livro, porque não poderá dizer-se que os leitores estão sempre a ler substituições, progressões, transgressões, contrafações, pseudonímias, falsificações, do mesmo livro, do LIVRO que a sua cronologia de leitores persegue? Este romance do destino dos livros nas mãos da multidão dos que os fazem e dos que os leem abre, a cada reinício das condições de leitura, para um novo começo. Onde procuramos o mesmo, encontramos outro. Ou o outro que encontramos é o mesmo que procuramos. Porque nós, os leitores, somos a leitura. A pluralidade, o grupo, os pares, cada leitor, somos, neste livro, reflexos com que nos identificamos, às vezes com ironia e até humor, outras enternecida e comovidamente.

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por Maria Almira Soares às 17:12

Terça-feira, 21.01.14

TROCA DE PALAVRAS

 

A POPA E A POUPA

 

   Lá iam os dois a caminho da escola: o Mário e o Jorge. Andando e conversando. Era um hábito seu, este de se fazerem companhia durante o trajeto entre a casa e a escola. Quem não os conhecesse bem ficaria certamente curioso sobre as razões da sua amizade, pois a sua aparência não fazia supor nenhuma proximidade: o Jorge, alto e magro, andava sempre vestido e penteado de um modo atrevido e inovador; o Mário, baixo e gordinho, era um modelo de menino alinhadinho, desde o cabelo até às botas. Enfim, o Jorge parecia um rapaz todo prafrentex  e o Mário um autêntico betinho. Mas, de facto, davam-se bastante bem, apesar de tão diferentes exteriormente. E, juntos, divertiam-se bastante. Ah, mas havia ainda outra diferença: o Jorge era muito bom em Português, sua disciplina preferida; já o Mário era um especialista em Ciências Naturais e andava sempre a farejar a presença de algo novo na Natureza, para pesquisar, analisar e organizar mais uma das suas já famosas fichas.

Ei-los em plena expedição comandada pelo Mário: vai mostrar ao amigo e fotografar um pássaro bem esquisito (dizia ele). Descobriu-o no campo, empoleirado num arbusto. E têm sorte: lá está o pássaro. O Jorge, depois de o mirar e remirar, concorda:

— É bem esquisito! Parece ter uma moita de penas no alto da cabeça! Sabes como se chama?

— Não. Mas isso resolve-se facilmente.

E o Mário saca da máquina fotográfica e, zás, fotografa o pássaro.

— Quando chegarmos a minha casa, passamos esta imagem para o computador e, depois, é só pô-la na pesquisa do Google.

Ficam ainda algum tempo por ali a fazer as suas observações e, às tantas, os olhos do Mário começam a balançar: da cabeça do Jorge para a cabeça do pássaro; da cabeça do pássaro para a cabeça do Jorge e:

— Pensando bem, se calhar, chama-se Jorge...

— ‘Tás parvo?

— Que queres? Tu, com essa poupa no cabelo, pareces mesmo...

E desata a rir. Mas o Jorge, que não acha graça nenhuma, resolve dar por terminada a expedição:

—Vamos para tua casa.

Já em casa, ligado o computador, num abrir e fechar de olhos ficam a saber que o espécime descoberto se chama poupa e o Mário não resiste:

— Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!  Eu não te disse?

— Não me disseste o quê?

— Não se chama Jorge, mas quase. É poupa! Como a poupa que tu tens no cabelo! Ah! Ah! Ah!

— Eh, pá! Não gozes. Para lá com isso.

Mas o Mário está imparável e, sorrateiramente, resolve acrescentar na sua ficha sobre a poupa uma observação muito especial.

Observação: para além de pousar nos arbustos, também pode ser visto no cabelo de um rapaz chamado Jorge.

Depois, vira-se para o Jorge e, com um ar malandreco:

— Lê lá isto para veres se o português está correto.

Muito inocentemente, o Jorge põe-se a ler a ficha, emenda um ou outro errito, mas... quando chega àquela observação...

— Apaga já isto, pá!

— Calma. Não te chateies. Estava só a brincar. Claro que isso é para apagar.

E, sem perder a malandrice risonha do olhar, o Mário finge estar a tratar do assunto, mas...

— Pronto, já está. Podes confirmar.

Correção: a poupa do cabelo do Jorge é demasiado grande para ser um pássaro; o Jorge tem na cabeça a poupa de um navio.

— Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!

— Afinal, sempre achas graça.

— Graça? Desta vez quem se vai chatear és tu.

— Chatear-me?! Porquê?

— Porque quiseste armar-te em piadético, mas quem está a achar graça ao teu erro sou eu.

— Qual erro? Não estou a ver erro nenhum.

— Oh, Mário, poupa-me! Os navios não têm poupa, têm popa.

— ‘Tás a gozar! Ainda noutro dia li na internet que o couraçado Bismarck foi atingido na poupa por um torpedo...

— E despenteou-o? Ah, ah, ah! Na internet!... Há cada calinada na internet! Tu de pássaros podes saber muito, mas, em português, ninguém me bate. Se eu digo que a parte de trás do navio é a popa é porque é a popa. Os navios não têm poupas! Nem de cabelo nem de pássaro.

E eis que o Mário se rende à sabedoria linguística do amigo. No fundo, está-lhe agradecido. É que não tem mesmo graça nenhuma fazer descobertas, mas depois registá-las em mau português. Mesmo que seja a brincar...

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por Maria Almira Soares às 21:55

Terça-feira, 21.01.14

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS

 

Se Pessoa deixou Reis no Brasil, é possível o seu regresso. Inventa-se o regresso, fecundo motivo literário. Se Pessoa escreveu, nas odes de Reis, um nome de mulher, Lídia, é possível a mulher. Inventa-se a mulher, fecundo motivo literário. Tão fecundo que é multiplicável: as mulheres. Fernando Pessoa também escreveu, nas odes de Reis, o nome de Marcenda. Se Pessoa deu a Reis um sentido doutrinário, é possível um olhar sobre a realidade. Desenvolve-se o olhar de Reis sobre o mundo. E inventa-se o lugar de transitividade desse olhar: Portugal, Lisboa, 1936. E inventa-se ainda, para melhor execução desse exercício de relação com o “espetáculo do mundo”, um Reis transitivo. Inventam-se caminhos, coisa profundamente literária. E fantasticamente fecunda: caminham os pés, caminham os olhos, caminham as mãos, caminham os pensamentos e as emoções, numa certa geografia física, numa certa geografia humana, na geografia interior do desejo. Regresso, mulher(es), olhar, caminhos, pensamentos, emoções: tudo a construir-se num plano de elaboração narrativa cuja primeira pedra, o primeiro se, o do regresso, se vai desdobrando a partir de uma rede de múltiplas encruzilhadas, umas de maior angular, outras mais reticulares, numa rede microssemântica, por vezes quase invisível a olho nu, que alimenta o corpo do animal literário. Há ses bem visíveis, literais, grafados, legíveis, mas há, por trás, um poderoso silêncio criador, habitado por outras audácias, ses implícitos que se avolumam como o nácar à volta do grão de areia na escuridão da ostra, suspeitas intromissões da matriz autoral: clandestino, Saramago também passeia pela sua Lisboa de Reis. Só perante o real se pode lançar um se ameaçador, porque só o real pode ser destruído; só a morte permite a ressurreição; só a verdade permite a mentira; só os acontecimentos permitem a ficção. Por isso, a rede de invenções se alicerça numa base factual feita do real, da morte, da verdade, dos acontecimentos históricos. E onde vivem ainda o real, a morte, a verdade, os acontecimentos do ano de 1936? Na leitura incessante dos jornais da época. Explícita ou implícita fonte documental, a leitura é uma outra transitividade que vai permitindo à ficção respirar e, por vezes até, enlouquecer: a leitura do jornal, da carta, do romance, dos poemas, vai dando fôlego à corrente ficcional, porque gera encruzilhadas que tecem o espanto, a concordância, a discordância, a tristeza, a alegria, a dor, a perplexidade, o medo, a indiferença, a prosápia… coisas com as quais se faz literatura. Neste romance, só Lisboa e Pessoa não são de papel, mas Pessoa está morto e Lisboa está moribunda. Reanima-se Pessoa pela metáfora e, pela metáfora, mantém-se Lisboa na translucidez da sua agonia, romanesca transfusão de sentidos, densamente habitada pela ironia. E, já que a metáfora e a ironia são coisas literárias, aí temos um Pessoa e uma Lisboa fantasmáticos. Fantasmas que, ainda assim, vivem. Onde e como, entre quem, vivem estes fantasmas? Sobre Lisboa, está sentado um sapo, horrendo e engravatado, que a respirar não deixa, que a não deixa pulsar livremente. Sobre Pessoa, hipotecado à morte, pende a aprazada sentença do fim. Para o resto, vai-se à gaveta dos recortes: os seres de papel, habitantes de jornais antigos, de poemas antigos, Reis, Lídia, Marcenda… E, da leitura, se faz literatura. Da melhor. Não há melhor Lisboa moribunda do que a que aqui se faz. Não há Pessoa mais fugidio e impróprio (ou seja autêntico) do que o que aqui se lê. E como se faz tal transferência? Faz-se, sobretudo, com aquela coisa que era costume dizer-se da episódica falta de obediência gramatical de Camões: — Liberdades poéticas! Que magnífica liberdade poética é O ano da morte de Ricardo Reis!

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por Maria Almira Soares às 14:27

Segunda-feira, 20.01.14

AH, A LEITURA...

 

A leitura chama, de forma muito íntima, a nossa subjetividade, mas também nos traz o mundo. E, portanto, a leitura, este processo de, enquanto nos vemos, vermos também outros mundos, é uma forma extraordinária da nossa construção, da nossa constituição como seres humanos.

Há, nos discursos valorativos da leitura, uma palavra invasora que eu considero perigosa: prazer. O prazer é uma coisa evanescente, é uma coisa volátil, é uma coisa que não tem um horizonte de construção.

A criação de um leitor não decorre tanto de criar condições atrativas para a aceitação do livro, mas de desenvolver oportunidades de  correspondência entre a necessidade de alimentar o nosso imaginário e a leitura; de suscitar o encontro entre o apelo do  capital simbólico que todos possuímos com as palavras de um livro. São frequentes, fáceis, óbvios, tais encontros? Não. A leitura de uma obra-prima, de um clássico indispensável, pode começar por embater na impaciência, na distração, na falta de instruções de uso, na inexperiência de uma criança ou de um jovem, mas, ao fazê-lo, cria ressonância, memória, influência e, sob certas condições – as da presença de um modelo emocionalmente contagiante, o do professor detentor de um imaginário rico de leitor, por exemplo – pode fazer essa leitura atingir o patamar da surpresa, pode fazer, da leitura, um difícil tesouro que se deseja.

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por Maria Almira Soares às 21:45

Domingo, 19.01.14

O SENTIDO DO FIM DE JULIAN BARNES

 

Retrospetiva das leituras da comunidade de leitores LerDoceLer:

 

DESDOBRAMENTOS INCOINCIDENTES QUE TENTAMOS AJUSTAR

 

Os grandes romances desvendam o sentido que circula por entre as várias camadas das vidas das suas personagens. Por isso, surpreendem. Neles, tudo está em tudo: o antes no depois, a essência no pormenor, as verdades nos enganos e desenganos. Assim é, quando se expressam “na terminologia narrativa tradicional”, como Os Maias:

“À irmã... A que irmã?

[...]

- A que irmã!? À irmã, à única que tem, à Maria!”

ou, quando se constroem de forma original, como em O sentido do fim de Julian Barnes:

“Não percebo?

“Mary não é mãe dele. Mary é irmã dele.”

 

“E é assim a vida, não é?”, perguntara, lá atrás, Anthony Webster a quem imagina que somos. Como se estivesse a dar-nos já uma solução. Mas solução é só interrupção, intervalo; ainda não é o sentido de um fim. Fim será quando uma resposta fizer assentar a inquietação e provocar a “improbabilidade da mudança”.  Fim é a paragem que identifica os acontecidos antecedentes com as suas insuspeitadas consequências. Contar o antecedente aparenta ser fácil, pacifico: já aconteceu. Porém, o que começa depois da chegada da carta desmente essa aparente facilidade. Tem a gravidade de um segundo ato. Exige a abertura de uma página branca dizendo 2. E é então que a necessidade de ajustar o porvir ao acontecido, ou seja, o por saber ao conhecido, desperta a responsabilidade e cria instabilidade, medo, porque o arquivamento, a memória, abre a sua fragilidade como um campo de imperfeições e insuficiências e as vidas, “as histórias que contamos a nós mesmos”, são tempo que vai encolhendo até se aproximar da inexistência. Descobre-se que vidas são interpretações, desdobramentos incoincidentes difíceis de ajustar e entra-se no movimento de sobreposição das várias lâminas da memória, do acertar do foco, da procura de coincidências entre várias formas de nitidez: a dos sentidos, a dos afetos, a dos pensamentos, a dos factos. Na ânsia de perceber qual é “o sentido de um fim”. Até que se obtém uma resposta:

“Nunca percebeste, pois não?”

“Não percebo?

“Mary não é mãe dele. Mary é irmã dele.”

E tudo se torna claro. Ou não.

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por Maria Almira Soares às 22:06

Sábado, 18.01.14

DANÚBIO DE CLAUDIO MAGRIS

 

Um livro para ler como quem desce um rio: navegar na corrente verbal, sentir as mudanças do seu fluxo, olhar a variedade das suas margens, estremecer com o abalo das suas várias profundidades, rolar na força do seu caudal: surpreendida, reconhecida, comovida. Reportagem, história, memória, atualidade, arquitetura, urbanismo, ciência, filosofia, literatura, ironia, poesia, geografia, humor, crónica, política, petite histoire, anedota, quotidiano, mito, transcendência, vida, trágico, morte, pensamento, pensamento novo, original: tudo numa corrente associativa cujo eixo é um rio. As águas moventes do rio sacodem fronteiras e conotam esta maravilhosa mistura. Entre nascente e foz, que sentido o da corrente, que sentido o da leitura? O paradoxo de, ao viajarmos para o fim, nos aproximarmos do princípio. O jogo de cada paragem ser uma viagem: parados no espaço, avançamos por diferentes sedimentos da História, numa nova versão do movimento ilusório das margens. Cada ponto da perene corrente do rio é a nascente de vários tempos, trilhos de outras perenes correntes: mentais, memoriais, históricas.

Leitura-viagem em que cada viajante terá o seu ritmo, o seu andamento, fará as suas pausas…

Eu paro aqui: «Talvez toda a viagem se oriente para a origem, em busca do seu próprio rosto e do fiat que o trouxe do nada.» E, habitante de vários rios, deixo-me ficar a olhar, a pensar…

 

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por Maria Almira Soares às 21:29

Sábado, 18.01.14

A CIDADE DE ULISSES DE TEOLINDA GERSÃO

 

Retrospetiva de leituras da comunidade de leitores LerDoceLer:

 

Não sei se por influência de Homero, a esta «história inverosímil do regresso a casa», o leitor chega in medias res e é levado numa reconstituição do «acontecido», através de uma narração em jeito de memorando, que desfia a história como no canto de um aedo.

No entretanto e em dispersão da intriga relatada, micro-organismos estranhos à ficção, vão segregando o registo do real, do atual; produzindo a inserção meticulosa do romance nos dias de hoje, numa ligação insidiosa que, ao fechar do livro, feita a leitura, induz a pergunta, quiçá o telefonema para a Gulbenkian, a perguntar:  — Então, essa exposição, quando é que abre?

A literatura a sugerir à vida (de onde afinal ele veio) que continue o livro.

Em modo de conversa-relatada, chegam-nos informações, conhecimentos, História, roteiros, ideias, abatendo o pluricromatismo próprio da encenação viva de uma intriga. E chega, ainda, a aridez dos dados económicos, financeiros, políticos, quase em jeito de manual, de relatório, de registo documental.

A escrita é limpa, clara, direta, corredia como tinta, fazendo o livro parecer um desenho. Em coerência com o explícito e sublinhado lugar dado ao diálogo com as artes plásticas. Uma escrita muito visual e, daí, um livro muito espacial, ambiental, onde se vê Lisboa. Não a Lisboa social, mas a Lisboa arquitetónica, cultural, imaginária, passada, a da herança, a das raízes.

E, em Lisboa, na cidade: a Mulher. O Homem. A Casa. A Arte. O exercício da imaginação sobre o conhecimento: a Arte. Mas também, o casamento, a mãe, o pai, a família, os filhos. E as suas submissões, em contraponto com a liberdade do artista, da criação artística. E a doença, os dramas, os conflitos. As coisas fundamentais, sem pitoresco nem anedótico. Comovente, por vezes. Uma rede de relações familiares, amorosas, divididas pela linha de fronteira homem/mulher.

E um gato.

E o amor: entusiasmado pela ação e pensamento, a criação a dois, as referências literárias, artísticas, culturais.

E a morte. E a obra póstuma. A posteridade. A herança. O espólio.

E um suave feminismo ao contrário de Penélope.

E a homenagem, preito, elegia, a uma cidade: Lisboa.

Uma glosa de Ulisses, o grande arquétipo do regresso como lugar do reencontro, ou não, entre o homem e a mulher.

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por Maria Almira Soares às 16:28

Sexta-feira, 17.01.14

TROCA DE PALAVRAS

 

        TER E MANTER

Sentados à mesa do café, o Gomes e o Ferreira, dois velhos amigos, aproveitam para pôr a conversa em dia.

 

 

Muito gosta o Ferreira de se pôr a contar isto e aquilo, coisas que se passam e de que ele vai sabendo. Já o Gomes, perante os entusiasmos narrativos do amigo, diverte-se a fazer os seus comentários, mais ácidos ou mais risonhos, brincando, troçando das calinadas do Ferreira, dando-lhe lições de gramática, moendo-lhe a paciência. Enfim, um chato!

 Não deve faltar muito para que a conversa degenere em discussão. Mas não nos preocupemos, porque, como sempre, há de acabar bem.

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— Ó Gomes, você nem imagina o que me disse o Figueiredo, um destes dias! Que se a situação se mantesse, acabaria por ter de fechar a loja!

— Ah! Ele disse isso? Esse gajo! Olhe, se tesse falado comigo, eu cá....

Tesse?!!!  Qual Tesse? Ó Gomes, não brinque com coisas sérias. Não invente.  

— Acalme-se, você tem razão, homem: o Tesse (ah, ah, ah) não existe. Mas, ouça lá, você não disse mantesse? Você não disse se a situação se mantesse?

— Disse. Acho que disse.  E qual é o problema?

— Então, se você inventou o mantesse, eu também posso inventar o tesse (ah, ah, ah). Está a ver?

— Não, não estou a ver mesmo nada... Nem a ver nem a achar graça.

— Ah, não está a ver. Bem, se não está a ver, pelo menos ouça: pois claro que eu não devia ter dito tesse falado, mas tivesse falado.

— E então? Porque é que você não disse tivesse? Para se fazer engraçado, foi? Olhe que não estou a ver qual é a piada.

— Não é piada, é calinada.

— Você hoje está mesmo chato. Vá lá, desembuche, que é que o seu tesse tem a ver com o meu mantesse?

— Olhe, tem a ver que nem tesse nem mantesse existem. É isso que tem a ver.

Mantesse não existe?! Essa é boa! Tenha mas é juízo. Então como é? Diga lá, ó sabe tudo!

— Digo, digo. Acaba-se já a discussão: mantesse está errado; o correto é dizer mantivesse. Inventei o tesse para você sentir os ouvidos arrepiados como  eu senti, quando você disse mantesse.

— Que trapalhada! E como é que você acha que é, como é? Repita, lá...

— Não acho, tenho a certeza: se a situação se mantivesse...

Mantivesse! Mas, por que raio, é que não pode ser mantesse? É muito mais fácil.

— Pense, Ferreira. Pense, que eu não duro sempre: se do verbo ter, você não diz tesse, mas tivesse; do verbo manter, não diz mantesse, mas mantivesse e ainda...

— Você e a sua mania da gramática! Deram-lha às colheres em pequenino, foi? Pare lá com essa lengalenga. Já percebi onde quer chegar.

— Pois claro que percebeu! É fácil. Todos os...

— Chega, pá! Olhe que você é mesmo chato! Mas, vá lá, aceito o seu mantivesse. Tem lógica. Ninguém gosta de dar pontapés na gramática. E eu muito menos.

— Bravo! Se eu não tivesse o que fazer ao dinheiro, até lhe pagava agora uma bica, ó Ferreira!

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por Maria Almira Soares às 14:20

Quinta-feira, 16.01.14

TROCA DE PALAVRAS

 

A OPORTUNIDADE PERDIDA

 

    Sentado ao computador, Silvestre Gusmão alimentava o seu blogue com mais uma recensão de um livro, na ânsia de ganhar visibilidade, como caminho para realizar a ambição de se tornar colaborador de um jornal cultural. A certa altura, um súbito movimento no lado direito do ecrã chamou-lhe a atenção: era o aviso da chegada de um email.

— Ena! Um email do Jornal das Artes.

Não conseguindo resistir à curiosidade, foi imediatamente ver de que se tratava. Abriu-o:

“Caro Silvestre, soube que você esteve presente na sessão de entrega do prémio ao Nuno Serrão, que nós deixámos escapar. Estaria você disponível para escrever um pequeno apontamento de cerca de 500 palavras, a sair na próxima edição do JA?

Peço-lhe urgência na resposta.

Saudações.

Martins Sequeira”

 

— Se estou disponível? Claro que estou disponível! Será desta que consigo abrir caminho para...?

E lançou-se logo ao teclado.

 

RESPONDER:

“Caro Sequeira, pode contar comigo. Terá o texto ainda hoje.

Abraço.

Silvestre Gusmão”

 

Preparava-se para clicar no ENVIAR, mas suspendeu o gesto e voltou atrás. Acrescentou: “PS: Por favor, não altere em nada o que eu lhe mandar.” Só então clicou fazendo a mensagem deslizar a caminho do ciberespaço.

— Assim é melhor. Tenho de garantir a minha imagem, não é?

Logo a seguir, com toda a gana de quem deseja intensamente ver o seu nome no reputado Jornal das Artes,  pôs-se a escrever o seu relato-testemunho do badalado evento de que o famoso escritor Nuno Serrão fora a estrela. Contente consigo próprio, leu e releu a sua produção, achando-a perfeita e capaz de espicaçar os leitores. Tinha apimentado a descrição do ambiente com algumas insinuações maliciosas. Se aquilo desse em polémica, é que era bom! Sorrindo de algumas passagens do texto e, no auge da autossatisfação, apressou-se a enviá-lo ao Sequeira. Poderia estar ali o ponto de partida para outros voos... — sonhava.

Lá mais para o fim do dia, resolveu espreitar o correio. Talvez o Sequeira lhe tivesse mandado algum aplauso pela qualidade do seu apontamento. Nem de propósito, lá estava um email do JA. Abriu:

“ Caro Silvestre, não posso atender completamente o seu pedido. Como compreenderá, este parágrafo tem de ser alterado: ‘Nem todas as figuras públicas presentes congratularam o premiado escritor.’

Por respeito para com a instância autoral que você tanto parece prezar, peço-lhe que seja você a corrigir. Sequeira”

 

— Alterar? Eu a corrigir? Mas a corrigir o quê?

 

RESPONDER:

“Sequeira, por favor, explique-se. Não estou a ver o seu ponto. Silvestre”

 

CORREIO RECEBIDO:

“Não está a ver? ‘Congratularam o premiado’”!!!!!

 

RESPONDER:

“Ah, isso? Não se preocupe. Se houver reações, eu assumo a responsabilidade. “

 

CORREIO RECEBIDO:

“A questão não é essa, Silvestre! A questão é de português. Não está a ver?”

 

RESPONDER:

“Ouça, se você não gosta da palavra congratular, eu gosto. Fica assim. Não mudo.”

 

CORREIO RECEBIDO:

“Não muda?! Você quer que depois lhe mandem palmatoadas pelo correio? Olhe que quem assina o texto também assina os erros.”

 

RESPONDER:

“Erros? Mas quais erros?!”

 

CORREIO RECEBIDO:

“Olhe, Silvestre, eu quis dar-lhe a oportunidade de considerar isto um lapso. Mas já que você insiste, concluo que se trata de ignorância mesmo. Um erro de palmatória. Ouça: em bom português, ninguém congratula ninguém; as pessoas congratulam-se com os sucessos dos outros ou não. Ou seja, nem todas as figuras públicas se congratularam com o sucesso do Nuno Serrão. Ou seja, ‘manifestaram a sua adesão à alegria do festejado’. Mas cheira-me que o que você quereria dizer era que nem todas as figuras públicas felicitaram o premiado.

Percebeu, agora, qual é o ponto?”

 

RESPONDER:

“Já respondo.”

 

Telefonou a uma professora de português sua conhecida. A calinada era mesmo real. Precisava de se recompor desta embaçadela. Até corara! Ser apanhado assim pelo Sequeira! Que fazer?

 

RESPONDER:

“Sequeira, não gostei da sua atitude. Retiro o artigo. Silvestre”

 

E ficou a remoer:  a vaidade ferida afastara-o de uma bela oportunidade.

 

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por Maria Almira Soares às 13:22

Quarta-feira, 15.01.14

UMA VIAGEM À ÍNDIA DE GONÇALO M. TAVARES

 

Retrospetiva das leituras da comunidade de leitores LerDoceLer:

ESTE É UM LIVRO ABSOLUTAMENTE NOVO. 

 

Ir à Índia em busca da sabedoria e do esquecimento, num livro que vai por mares literários nunca de antes navegados, e acabar  não na precaução contra a inveja como fez Camões, mas no tédio de um velho rádio que permanece avariado. Lendo esta rocambolesca viagem à Índia de um homem chamado Bloom,  contada num discurso que só por si incorpora uma miríade de viagens que sempre estão a ocorrer no pensamento de quem a narra, podemos demorar a procurar-nos nos meandros discursivos ou ir aventurosamente atrás dos percalços do homem chamado Bloom. Ou as duas coisas. Ou, sobretudo, podemos inventar leituras novas, porque este é um livro absolutamente novo. Historicamente novo, planta-se no que aqui, Portugal, já se escreveu, como uma espécie transgénica, seiva literária onde correm átomos de Camões, sim, mas também de Pessoa, Fernão Lopes, Gil Vicente, Garrett,  António Vieira: Camões e a poética do desenrolar da narrativa longa; Pessoa e as palavras a pensarem os próprios pensamentos; Fernão Lopes e a arte contrapontística de ínfimo pormenor/plano aberto; Gil Vicente e a graça, o riso; Garrettt e o vício da anotação paralela, divergente; António Vieira e as metáforas poderosas. Toda uma história literária num livro absolutamente novo que não se envergonha de exibir a grade sobre que escolheu repousar: Os Lusíadas. Numa ponta da sua dialética, estão as camadas de Lusíadas que o uso foi decantando sobre o livro de Camões, mas a outra ponta fica aberta ao mundo de divisões móveis que é um homem chamado Bloom. Num itinerário de melancolia, porque “Já se ia o sol ardente recolhendo”, Gonçalo M. Tavares ousa usar o poema de Camões como coisa ordenada que desordena.

Chamam-lhe, às vezes, romance, mas... em verdade, como dizia Garrett das Viagens..., “neste inclassificável livro das minhas viagens”... Vivemos num mundo de híbridos. Definitivamente acabaram os puros. Mistura nova. Aroma novo. O clássico foi o livro mais jovem, porque se impôs, pela diferença, a tudo o que existia antes, diz Italo Calvino. Estamos a assistir ao nascimento de um clássico que nos conta não um tempo nem um espaço, mas o encaixe perfeito do espaço no tempo “como se a terra fosse uma extensão temporal”, porque o homem que nela vive, sim, é tempo: relógios falantes, nós todos. Para sintonizar este livro, precisamos de consertar o nosso velho rádio. Ou inventar outro. Um livro fundador.

 

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por Maria Almira Soares às 21:34



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