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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Quarta-feira, 15.01.14

TROCA DE PALAVRAS

 

QUE BELO SERÃO!

 

   Alfredo ia continuando a ler o jornal em voz alta para a sua mulher que, sentada no sofá habitual, fazia crochet. Tinham desligado a televisão, cansados das luzes e das cores e das vozes que começavam a aborrecê-los. Alfredo optara pelo preto e branco do jornal e Estela, a mulher, pedira-lhe que lesse em voz alta. Não era a primeira vez que tentavam esquecer a lenta batida do relógio, nas noites de inverno, procurando, no jornal, motivos para acaloradas trocas de palavras. A dada altura, interessando-se por uma notícia, a voz sonora do Alfredo anunciou:

— “Egito condena interferência iraniana após derrubada de Morsi”

Iria ler a notícia completa? Estaria, a sua mulher, interessada naquele assunto? Calou-se à espera de uma reação.  Ora, nesse preciso momento, Estela, absorta no desenho de napperon que lhe servia de modelo, procurava não se enganar em nenhum dos pontos necessários. Tão abstraída estava que, do que ouvira, apenas captou o sentido das últimas palavras e, sentindo-se  atingida no seu gosto pela correção linguística, imediatamente proclamou:

— Não é “derrubada de”, é derrubada por. Estes jornais!

Sempre se orgulhara do seu português impecável. Alfredo, que, em matéria linguística, nunca deixava de se submeter à opinião da mulher, num tom levemente interrogativo, releu em versão corrigida:

— Egito condena interferência iraniana após derrubada por Morsi?!

Mas Estela, arredado agora o crochet e considerando a frase completa, voltou à carga:

— Não, não está bem...

Alfredo, um tanto perplexo, ainda disse:

— Realmente! Derrubada por Morsi? Mas, então não foi o Morsi que foi derrubado?!

— Claro!

Na falta de outro entretenimento, começavam a animar-se com aquele princípio de discussão. Pareciam duas crianças competindo na busca da solução de um problema. Alfredo, mastigando a leitura a meia voz, repetia martelando as palavras:

Egito... condena... interferência... iraniana... após...

Subitamente, Estela, saindo do seu mutismo reflexivo, quase gritou:

Derrube!

— Derrubo o quê?! Enlouqueceste? E agora tratas-me por você?!

— Não, tu não derrubas nada. O problema é que já está resolvido.

— Está?! Qual é?

— Sabes o que é? É a ignorância e a mania de reproduzir literalmente os comunicados das agências. Se lá está “derrubada”, fica mesmo derrubada sem sequer pestanejarem. Passa cá o jornal.

E leu a última versão do título, finalmente corrigido graças ao seu sólido e resistente conhecimento da língua portuguesa:

Egito condena interferência iraniana após derrube de Morsi, assim é que é!

Ah! Esse derrube. Mas tens a certeza de que isso existe: o derrube?

— Oh, Alfredo, francamente! Tu não sabes? Nunca ouviste dizer o derrube do governo, por exemplo? Só no português do Brasil é que se diz derrubada. Provavelmente a notícia provinha de uma agência brasileira; assim vinha, assim ficou.

Sorriam. Pareciam agora ambos contentes por aquele serão, a princípio tão sonolento, finalmente ter ganho alguma animação.

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por Maria Almira Soares às 14:01

Terça-feira, 14.01.14

TROCA DE PALAVRAS

A SOLUÇÃO DE CONTINUIDADE

Tratava-se de um debate televisivo sobre uma grave questão política. À volta da mesa, cinco pessoas com pontos de vista diferentes iam manifestando as suas opiniões acerca dos últimos desenvolvimentos da situação. As interpretações das atitudes dos políticos envolvidos bem como do teor das suas declarações eram as mais diversas. Diversas eram, também, as avaliações das previsíveis consequências. A moderação não estava a ser fácil, embora tivesse sido confiada a uma jornalista muitíssimo experiente. O debate tinha atingido grande animação: o assunto estimulava a verve dos comentadores que produziam frases bombásticas e juízos implacáveis, logo reproduzidos em citações de rodapé. Como se tivessem perdido a noção de que o destinatário do programa era um vastíssimo número de portugueses ansiosos de compreenderem o que se passava, os intervenientes interrompiam-se mutuamente e chegavam até a interromper-se a si próprios, cavalgando uma nova visão que acabara de lhes surgir. As ideias esboroavam-se no gosto da interpelação e da provocação e raramente um raciocínio era conduzido a uma conclusão clara e prestável. Foi, então, que se ouviu uma tossidela e, com uma calma forçada na voz, alguém disse:

— Quanto a mim, no meio disto tudo, há que destacar um aspeto muito positivo: num momento em que é preciso salvaguardar o valor da estabilidade, é indubitável que a posição tomada pelo primeiro ministro trouxe uma solução de continuidade.

Solução de continuidade?! E isso contribui para a estabilidade?! Não, claro que não houve solução de continuidade, mas pelo contrário, a continuidade ficou assegurada.

Mais ninguém disse nada. Sentia-se no ar a presença de algo que ninguém sabia como verbalizar de modo a não pôr em xeque o engenheiro Marques Serafim que deixara escapar aquela fragilidade linguística. Os olhares mudos cruzavam-se: uns confusos, outros alarmados. Havia quem não conseguisse esquivar-se a um sorriso depreciativo. O silêncio extemporâneo estava a tornar-se insustentável. Iria o debate encaminhar-se para uma perturbadora solução de continuidade?

Afinal, não. A moderadora era realmente muito experiente. Manipulava na perfeição a arte de reforçar  ou dissolver o rumo que a dinâmica da discussão ia suscitando. Além disso e como convém a um bom jornalista, era também profunda conhecedora da língua portuguesa. Tendo compreendido o equívoco gerado pelo uso errado da expressão solução de continuidade, antes que o estrago fosse maior e o tema do debate degenerasse da política para a correção linguística, não hesitou em lançar um novo dado forte e provocatório. Como se viesse de uma distração momentânea provocada pela recolha de novas informações presentes no seu monitor, atirou:

— Meus senhores, acabamos de saber que, segundo fontes credíveis, o Presidente se prepara para dissolver a assembleia.

O efeito foi o esperado. Nunca mais ninguém se lembrou  da solução de continuidade e o debate foi retomado em intenso clima de exaltação. Ela sabia que, atirando uma acha destas para a fogueira das opiniões, até os espectadores mais atentos se esqueceriam da perplexidade do momento anterior. A fragilidade linguística demonstrada dissolver-se-ia no tumulto das vozes encapeladas. O programa estava salvo.

Contudo, desligados os microfones e as câmaras, reacendeu-se no estúdio uma outra discussão. A pedra tinha ficado no sapato de alguém que não se conteve...

— Então, ó Marques Serafim, você diz que com a nomeação da ministra, houve solução de continuidade?!

— Claro! Ela vai continuar exatamente a mesma política do anterior.

— Mas você sabe o que quer dizer solução de continuidade?

— Nem é preciso pensar muito. Está à vista. As palavras estão mesmo a dizê-lo..

— Ah! Você é dos que se fiam nas aparências... Olhe que não, olhe que não. Solução, na expressão solução de continuidade, quer dizer dissolução. De dissolver. Dissolver, ou seja, interromper a continuidade. Quando dizemos que houve solução de continuidade, queremos dizer que a continuidade foi interrompida. Aprenda, que eu não duro sempre!

— Glup! Ah, sim? Olhe, não sabia. Não fazia ideia...

E o engenheiro Marques Serafim engoliu em seco, pegou nos seus papéis e, apressado, saiu do estúdio.

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por Maria Almira Soares às 13:12

Segunda-feira, 13.01.14

AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO

 

Retrospetiva das leituras da comunidade de leitores LerDoceLer:

 

A MORTE E O VIOLONCELISTA

 

 

 O que de melhor e mais original Saramago criou foi a sua voz narrativa. Saramago inventou uma cultura verbal para um olhar escrutinador, radical, judicioso. Uma fala, ao mesmo tempo popular e modernista, que desconstrói e revela. Parabólica como a voz dos deuses, é o ícone do seu deus interior, ou antes, da sua alma, esta fala reveladora do humano na sua miséria e no seu esplendor. Larga e densa, deixa que nela se enredem outras vozes como se a linearidade da frase fosse texto. Seguro da aliança inquebrável entre pensamento e palavras, o seu olhar ultrapassa a fronteira do verosímil e ousa derramar criações tão prodigiosas como terá sido o mundo ao primeiro olhar de deus e tão irónicas como só o poderá ter sido ao seu segundo olhar. Uma das suas criações verdadeiramente pasmosa e portentosamente irónica é a morte. Em cima de uma infinidade de versões sobre o mistério da morte, Saramago planta despudoradamente a sua personagem que é, afinal, talvez o que de nós não queiramos ver, queiramos esquecer ou o que de nós tememos ser: verdadeiramente humanos. Inventa a morte como um conhece-te a ti próprio, como uma viagem a Delfos para nos deixarmos tentar pelas verdades com que nos enganamos. Inventa-a e dá-lhe um papel, um guião minucioso que ela está disposta a cumprir violentamente. Todavia, depois de um longo arrasto e arresto das mil e uma escaramuças que a suspensão da morte desencadeia com toda a espécie de necessidades encobridoras das linhas puras e duras da vida, eis que as palavras se lembram de inventar um violoncelista. «Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas». E é então que a violência da morte se dissolve. Só no Violoncelista se dissolve a violência da morte. Saramago nunca nos revela a razão da incapacidade ontológica do Violoncelista para aceitar a carta violeta. Mas suponho que sabemos. Supõe que sabemos. A morte não tem antónimo, porque a vida é o seu caminho, mas tem contraponto. Um caminho é só um caminho e, sobre o que nele poderá ir, há uma infinidade de escolhas. Algumas sobrarão da morte. Como uma rasteira à violência da vida, um ponto de fuga, uma história paralela, a Música, a Arte, o amor da Arte, o amor do artista, obrigam a morte a enfrentar o desconhecido. Perante uma violência radicalmente diferente da sua, a morte suspende-se. O testemunho da Arte é uma violência para a cegueira do algoz.

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por Maria Almira Soares às 15:05

Sábado, 11.01.14

NÉMESIS DE PHIILIP ROTH

 

Início de uma retrospetiva das leituras da comunidade de leitores LerDoceLer:

 

 

 NÉMESIS

 

Némesis, filha da Noite, é a vingança divina, criada pelas Parcas, que castigou, em Creso, a riqueza, em Narciso, a beleza. Némesis, a inevitável, não responde, por mais que aflitivamente perguntemos: — Porquê? Para quê?

 A aposição da palavra NÉMESIS sobre a história narrada no livro de Philip Roth produz a enigmática fusão da representação de um quotidiano (individual, social, histórico) com a transcendência. Assim se submetem as rotinas lineares e geométricas de um pedaço de vida, de um pedaço de gente num pedaço de História, a um simbolismo mítico, existencial, que o real representado suscita.

Némesis de Philip Roth é uma interessantíssima obra literária.

Não obstante a sua extrema contenção retórica, ou talvez por isso mesmo, ler este livro não é apenas ficar informado ou emocionado, mas implicado no seu sentido. O seu significado essencial conta com o olhar que pensa, hoje, aqueles acontecimentos dentro dos limites da História. A história narrada neste livro precisa, para se completar, da força enigmática do seu título e da inserção dos seus leitores que sabem que, no infindável duelo entre conhecimento e mistério, hoje Némesis seria derrotada e a salvação do medo, da perda e da morte seria possível. Ler este livro (sendo hoje, mas estando ontem) é também ir tendo nas nossas mãos, como se o tivéssemos podido mudar, o destino das crianças, dos adolescentes, das mães, dos pais, dos avós, da amada, dos amigos, dos chefes... os lugares do amor, da alegria, do medo, da angústia, da doença, da morte... o sentido dos gestos, dos pensamentos, das decisões, das hesitações, dos dilemas, das descobertas, das surpresas, das crueldades, das dores, dos prazeres. Como se simultaneamente tivéssemos e não tivéssemos podido preencher de outro modo as esquadrias do poder, da vontade, do desejo, do dever, da obrigação. Espectadores impotentes da crueldade de Némesis. Cercados pela barreira do tempo. Porque o tempo é implacável. E este livro diz-nos que  a nossa condição mortal de vítimas do tempo se irmana existencialmente a um caso localizado e delimitado pelo tempo que já foi: uma epidemia de poliomielite numa época em que a ciência não permitia ainda nem o combate nem a defesa do flagelo. Mas Némesis está sempre em aberto. Némesis é a vingança dos deuses sobre os humanos. Neste romance de Roth, admitir a vingança é sentir a culpa e associar a culpa ao desejo, à ambição, à aspiração, ao projeto, à escalada, ao encontro da felicidade, da perfeição. Porque cada passo é um abandono. Porque defraudam a obrigação de estar presente e partilhar os maus momentos, todos os gestos são vividos como culpa: o impulso de adesão a um novo patamar de progresso, de crescimento; a retirada, mesmo que inocente, da alçada do sofrimento; a entrega à alegria, ao entusiasmo, ao êxtase da comunhão com a natureza pura, vivificadora. Cada passo é um abandono. Némesis lança uma praga, uma peste sobre a defesa da felicidade própria. Os deuses não gostam, nunca gostaram, de que os homens se aproximem da perfeição. Ou, dito de uma maneira mais atualizada, embora não menos trágica: a perfeição não existe; se procurarmos bem, veremos sempre o fio imperfeito da trama, a mancha, nem que seja só em versão de ameaça, nem que seja só em versão neurótica. Projetamos desejo de perfeição para nos sentirmos imperfeitos e disso nos culparmos.  O nó angustiosamente apertado, o nó distribuidor da energia que circula pelas linhas do desenho das vidas narradas, é a morte. A morte, e uma das suas formas de ameaça, a doença. Como um monstro escondido, conhecido apenas nas suas manifestas consequências e nos conflitos que desencadeia, a morte é o motor, o nó fundamental dos sentimentos, pensamentos, vivências, experiências, circulante e alimentadora do sentido dos factos. A partir deste nó essencial, alastra uma rede invasora que se reparte por uma série de conflitos entre: a inutilização de capacidades físicas, suplicial, sisífica e o valor do equilíbrio, da força, da energia, do poder atlético, da beleza corporal; a inexistência de meios para evitar o contágio e a suspeição, a fantasia, a insegurança; as crianças e os jovens como alvo preferencial e a insegurança, a  incerteza, a incapacidade da ciência. Sobre a vida, na sua aparente simplicidade e enganadora segurança, abate-se uma cortina de luz negra, um negrume desconhecido e ameaçador. Um repentino clique, um alarme, e tudo muda: o professor, que deve ser tranquilo e confiante, está nervoso e amedrontado; a criança, que deve viver despreocupada, está condicionada ou morta; o amor-promessa de vida e felicidade dá lugar à rejeição, ao fechamento; os comportamentos humanos são reconfigurados ou em artificiosa tranquilidade profissional ou em impulsos surpreendentes de pânico, de descontrolo, de egoísmo, de autodefesa. Toda a seiva vital se vai escoando até à pedra densa e negra, ao buraco negro final, concentração de antienergia, de antimatéria, nada. Do quadro “risonho e lindo de uma aguarela do quotidiano” ao nada, em 206 páginas. Em Némesis o lirismo é trágico: só no contraluz do negrume da morte e da doença incapacitante, se ouve o canto do corpo, da saúde, do exercício físico, do ar livre e puro, da juventude. A condição humana, sujeita a determinações que a limitam e a dominam, transforma-se em mera consequência. Ler este livro é ter na mão, não uma construção simples de acontecimentos documentados, inseridos num dado momento histórico, mas a dimensão existencial, trágica, desses acontecimentos.

Némesis de Philip Roth é, afinal — coisa que durante largo tempo de leitura desconhecemos — a memória individual de um contador que parece não sentir necessidade de se identificar. A sua identificação é desnecessária e o seu anonimato é fraterno com o leitor. O peso, a gravidade, a tragicidade dos acontecimentos narrados cabem no relato quase-anónimo de alguém, que, tal como o autor do romance, os viveu.

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por Maria Almira Soares às 17:50

Quinta-feira, 09.01.14

COMUNIDADE DE LEITORES LerDoceLer

 

Os leitores da comunidade LerDoceLer reúnem-se mensalmente na mercearia cultural Mimosa da Lapa. O seu plano de leituras para debate no ano de 2014 integra-se no tema PORTUGAL e dele fazem parte: Portugal, Hoje — O Medo de Existir de José Gil; Viagem a Portugal de José Saramago; Portugal, Povo de Suicidas de Miguel de Unamuno; O Esplendor de Portugal de António Lobo Antunes; Portugal Amordaçado de Mário Soares; Portugal como Destino – seguido de Mitologia da Saudade de Eduardo Lourenço; Portugal na Balança da Europa de Almeida Garrett; Portugal Social de A a Z (autores vários).

 

A próxima sessão é no dia 30 de janeiro, pelas 17h e o livro que vai estar no centro das atenções é Portugal, Hoje — O Medo de Existir de José Gil.

 

 A LerDoceLer existe desde 2006 e, desde aí, já teve três lugares de reunião: ESCOLA SECUNDÁRIA JOSÉ GOMES FERREIRA; OFICINA DE CHOCOLATE DENEGRO; MIMOSA DA LAPA. A vida desta comunidade começou com a leitura de Os Teclados de Teolinda Gersão. Desde então, os leitores da LerDoceLer leram e debateram:

 

 A Balada da Praia dos Cães de José Cardoso Pires

A Cidade de Ulisses de Teolinda Gersão

A Língua Posta a Salvo de Elias Canetti

As Intermitências da Morte de José Saramago

As Velas Ardem até ao Fim de Sandor Marai

As Vinhas da Ira de John Steinbeck

Conversa na Catedral de Mario Vargas Llosa

Danúbio de Claudio Magris

Deixem passar o homem invisível de Rui Cardoso Martins

Duelo de Luís Quintais

Errata de George Steiner

Levantado do Chão de José Saramago

Myra de Maria Velho da Costa

Natália de Helder Macedo

Némesis de Philip Roth

No Castelo do Barba Azul de George Steiner

Num País Livre de V. S. Naipaul

O Caçador de Tesouros de Le Clezio

O Cemitério de Pianos de José luís Peixoto

O Cemitério de Praga de Umberto Eco

O Coração das Trevas de Joseph Conrad

O Homem em Queda de Don DeLillo

O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad

O Retorno de Dulce Maria Cardoso

O Sentido do Fim de Julian Barnes

O Sonho do Celta de Mario Vargas Llosa

O Sonho Mais Doce de Doris Lessing

O Vendedor de Passados de José Eduardo Agualusa

Os Teclados de Teolinda Gersão

Outrora Agora de Augusto Abelaira

Partes de África de Helder Macedo

Por Ti de Ian McEwan

Se Isto é um Homem de Primo Levi

Se Numa Tarde de Inverno um Viajante de Italo Calvino

Sinais de Fogo de Jorge de Sena

Sôbolos rios que vão de António Lobo Antunes

Um traidor dos nossos de John Le Carré

Uma História de Amor e Trevas de Amos Oz 

Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares

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por Maria Almira Soares às 22:24

Quarta-feira, 08.01.14

TRÊS LETRAS DOS ALFABETOS-MAGRIS

 

«... nas geniais Memórias de um Antissemita [...] faz entender, a par de outros raros textos, como aquele horror possa ter acontecido sem encontrar verdadeira resistência em tantas pessoas de retos sentimentos.»

Claudio Magris in Alfabetos

 

 

«O universo de Jančar, afirma-se em Aurora Boreal, é “aquele vibrante silêncio suspenso sobre a Mitteleuropa que ecoava nos muros das ruas de Praga e, flutuando baixo, se insinuava indetetável a consumir a costa de Duino”; um mundo esfacelado, numa sórdida e profunda desintegração que, como uma proliferação tumoral, é uma irresistível vitalidade portadora de morte.»

Claudio Magris in Alfabetos

 

 

«Necrópole é uma obra magistral (se é lícito usar juízos estéticos para um testemunho do mal absoluto) também pela sua límpida sabedoria estrutural, pelo entrecruzar de tempos — verbais e existenciais — que tecem a narrativa.»

Claudio Magris in Alfabetos

 

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por Maria Almira Soares às 21:46

Terça-feira, 07.01.14

CECÍLIA MEIRELES: "Esta sou eu – a inúmera."

COMPROMISSO

Transportam meus ombros secular compromisso.
Vigílias do olhar não me pertencem:
trabalho dos meus braços
é sobrenatural obrigação.

Perguntam pelo mundo
olhos de antepassados;
querem, em mim, suas mãos
o inconseguido.
Ritmos de construção
enrijeceram minha juventude,
e atrasaram-me na morte.
Vive! – clamam os que se foram,
ou cedo ou irrealizados.
Vive por nós! – murmuram suplicantes.

Vivo por homens e mulheres
de outras idades, de outros lugares,
com outras falas.
Por infantes e velhinhos trêmulos.
Gente do mar e da terra,
suada, salgada, hirsuta.
Gente da névoa, apenas murmurada.

É como se ali na parede
estivessem a rede e os remos,
o mapa,
e lá fora crescessem uva e trigo,
e à porta se chegasse uma ovelha,
que me estivesse mirando em luar,
e perguntando-se, também.

Esperai! Sossegai!

Esta sou eu – a inúmera.
Que tem de ser pagã como as árvores
e, como um druida, mística.
Com a vocação do mar, e com seus símbolos.
Com o entendimento tácito,
instintivo,
das raízes, das nuvens,
dos bichos e dos arroios caminheiros.

Andam arados, longe em minha alma.

Andam os grandes navios obstinados.
Sou minha assembléia,
noite e dia, lucidamente.

Conduzo meu povo
e a ele me entrego.
E assim nos correspondemos.

Faro do planeta e do firmamento,
bússola enamorada da eternidade,
um sentimento lancinante de horizontes,
um poder de abraçar, de envolver as coisas sofredoras,
e levá-las nos ombros, como os anhos e as cruzes.

E somos um bando de sonâmbulos
passeando com felicidade
por lugares sem sol nem lua.

Cecília Meireles

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por Maria Almira Soares às 13:28

Terça-feira, 07.01.14

PESSOA POR CONHECER: "o inconseguido do jogo"

Álvaro de Campos

 

OLIMPÍADAS

 O sport é a inteligência inútil manifestada nos movimentos do corpo. O que o paradoxo alegra no contágio das almas, o sport aligeira na demonstração dos bonecos delas. A beleza existe, verdadeiramente, só nos altos pensamentos, nas grandes emoções, nas vontades conseguidas. No sport - ludo, jogo, brincadeira - o que existe é supérfluo, como o que o gato faz antes de comer o rato que lhe há-de escapar. Ninguém pensa a sério no resultado, e, enquanto dura o que desaparece, existe o que não dura. Há uma certa beleza nisso, como no dominó, e, quando o acaso proporciona o jogo acertado, a maravilha entesoura o corpo encostado do vencedor. Fica, no fim, e sempre virado para o inútil, o inconseguido do jogo. Pueri ludunt, como no primário do latim...

Ao sol brilham, no seu breve movimento de glória espúria, os corpos juvenis que envelhecerão, os trajectos que, com o existirem, deixaram já de existir. Entardece no que vemos, como no que vimos. A Grécia antiga não nos afaga senão intelectualmente. Ditosos os que naufragam no sacrifício da posse. São comuns e verdadeiros. O sol das arenas faz suar os gestos dos outros. Os poetas cantam-nos antes que desça todo o sol. São todos peixes num aquário cuidado de além do vidro pela inteligência que lhes não toca. E a beleza deles, como a de tudo, é isto um movimento por detrás de um vidro, um brilho de corpo dogmatizado por uma clausura.

s.d.

Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990.

 

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por Maria Almira Soares às 13:14

Domingo, 05.01.14

OS ALFABETOS DE MAGRIS

 

1507-1.jpg

 

 

Foi quando o miúdo me chamou da porta.
— Que é que queres?
 Tinha um pau na mão. 
— Anda cá. 
—Que é que queres? 
Tinha um pau na mão, irritava-se de impaciência, eu fui. 
Desceu à minha frente os degraus da escada,
apoiado aos varões do corrimão. No jardim em baixo
havia terra mole.
— Que é que me queres? Então dobrou-se para o chão,
apontou o pau à terra. E disse:
— Anda cá que te quero ensinar a fazer o A. 
Com um pau na mão. Apontado à terra. 
Se eu aprendesse?
     Vergílio Ferreira, Nítido Nulo
 

 

           Ensinar a ler é uma coisa fabulosa. Ensinar a ler é partilhar o alfabeto, os alfabetos: o alfa e o beta... o á e o ... o âlif e o bâ’... o alêf e o bêt... e o... e o... Ensinar a ler é partilhar os mundos que as coreografadas combinações de todas as letras dos alfabetos dançam para os nossos olhos, para a nossa inteligência, para as nossas emoções: histórias, poesia, pensamentos, falas, olhares, rostos inventados, vidas sonhadas. Ensinar a ler é partilhar o desdobramento infinito da corrente da escrita que se encastela, alastra, inunda, acrescenta paisagens à nossa viagem. Do derramar de um alfabeto inteiro, que em cada livro se dispersa e se desordena, nascem novos alfabetos, incontáveis alfabetos do mundo, à espera de serem encontrados no labirinto de cada leitura.

       No seu fantástico labirinto de leitor extraordinário, Claudio Magris é um genial criador de inúmeros alfabetos do mundo. Salgari, Borges, Homero, Kafka, Canetti, Kipling, Benjamin, Defoe, Schiller, Novalis, Goethe, Turgueniev, Schlegel, Brod, Musil, Brecht, Havel, Fontane, Mann, Lie, Ibsen, Conrad, Ovadia, Rezzori, Manea, Kapuściński, Sábato, Erasmo, Gogol, Hemingway, Faulkner, Yourcenar, Camus, Dickens, Tolstoi, Dostoievski, Gide, Platão... poderiam ser os nomes das letras dos alfabetos-Magris. Na verdade, são temas dos inesquecíveis ensaios que não me canso de ler nos Alfabetos de Claudio Magris.

 

          Ler é conquistar novos alfabetos. Ler é uma alfabetização imparável. Que coisa fabulosa é ensinar a ler, partilhar alfabetos! Neste livro, Claudio Magris partilha os seus. Alfabetiza-nos. Ler este livro foi para mim uma lição como aquela do espanto antigo de um s e um ó serem . Ou como a da viva alegria do António do Vagão J quando “aprendeu o feitio do A”.

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por Maria Almira Soares às 16:23

Sábado, 04.01.14

UMA ALEGRE OFICINA DA SABEDORIA

 

 

Levada pela mão sábia de Umberto Eco,

abro este scriptorium: lugar votado a trabalhos de leitura e de escrita.

 

Primeiro Dia

DEPOIS DA HORA NONA

Visita ao scriptorium...

 

   

[ ... ]

    Chegados ao cimo da escada, entrámos, pela torre oriental, no scriptorium  e não pude deixar de soltar um grito de admiração. O segundo andar não estava dividido em dois, como o andar inferior, e, por isso, oferecia-se ao meu olhar como um espaço imenso. As abóbadas, de curvatura não muito alta ( menor que a das igrejas, mas maior do que as de qualquer sala capitular), sustentadas por fortes colunas, envolviam um espaço inundado por uma luz belíssima, já que três enormes vitrais se abriam em cada um dos lados mais compridos, enquanto que cinco vitrais mais pequenos fendiam cada um dos cinco lados exteriores de cada torre; finalmente, oito vitrais, altos e estreitos, deixavam também entrar a luz pelo poço octogonal interior.

    A abundância de janelas fazia  com que a grande sala fosse alegrada por uma luz contínua e difusa, mesmo nesta tarde de  Inverno.

   O vitral não era colorido como o das igrejas e a rede de caixilhos de chumbo enquadrava pedaços de vidro incolor, para que a luz entrasse o mais pura possível, não modulada pela arte humana e desempenhasse a sua função, ou seja, iluminar o trabalho de leitura e de escrita. Muitas outras vezes vi, em outros lugares, numerosos scriptorium, mas nenhum em que resplandecesse tão luminosamente, nas correntes de luz física que irradiavam no ar, o princípio espiritual, que a própria luz encarna, a claritas, fonte de toda a beleza e sabedoria, atributo inseparável do ideal de proporção presente na sala. É que três coisas concorrem para a criação da beleza: primeiro, a inteireza ou perfeição e, por isso, consideramos feias as coisas incompletas; em seguida, a devida proporção, outrora chamada harmonia; finalmente, a clareza e a luz e, com efeito, chamamos belas às coisas límpidas. E, como a visão do belo implica a paz e é em nós o desejo da serenidade através da paz, do bem ou do belo, senti-me invadido  por uma imensa consolação e pensei em como deveria ser agradável trabalhar neste lugar.

    Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria.

 

 Umberto Eco, O Nome da Rosa

 

 

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por Maria Almira Soares às 21:12

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