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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Sexta-feira, 04.04.14

JORGE FALLORCA

 

 

"Contaram-me que as letras descansam de lado, nas páginas macias dos livros antigos. 

Outros afirmam-me que os textos mudam ao sabor das edições, e que nenhuma se compara

à que se leu primeiro.

 

Há ainda quem me confidencie que recebe os livros de braços abertos, às vezes até com as pernas,

e dou por mim a olhar para as lombadas que me rodeiam, a senti-las latejar como um animal magnífico,

alheio a interpretações domésticas.

 

Sei que se estender a mão o irei acordar; prefiro entreter-me a escrever este texto,

onde as letras são ainda verticais e se estampam no papel, como uma mancha de tinta,

uma ave suicida, um eco sem som.

 

                                                                 *

 

Também conheço um poeta exilado num condomínio de metáforas. Rodeou-se de palavras

que cultica em cadernos e guardanapos de papel, com a dedicação e a paciência de um

jardineiro cego.

 

Ninguém se atreve a dizer-lhe que nem as piteiras sobrevivem na aridez desse jardim meticulosamente

escrito, onde passa horas infindáveis a podar o vazio e a regar o silêncio que brota

das suas páginas inéditas.

 

E, no dia em que morrer, uma duna será tudo o que restará da sua obra, que o vento

e o tempo se encarregarão de aliviar do jugo das metáforas.

 

                                                             *

 

E conheço uma música frágil como a chuva ou as lágrimas evitadas. É uma música 

que ouço muitas vezes enquanto escrevo ou leio, ou que ecoa dentro de mim enquanto 

leio o que escrevi.

 

Cada vez que a ouço, que percorro o teclado infindável do piano onde me refugio,

esqueço-me do que escrevi e leio as lágrimas que não chorei sulcadas no meu rosto,

à espera que chovesse.

 

Que me lembre, é uma música onde tu não estás. Uma música que se calhar até nem existe, ou

não existe assim, e não passa de uma desajeitada desculpa para finalmente poder chorar."

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por Maria Almira Soares às 14:03

Quinta-feira, 03.04.14

A ARROGÂNCIA E A HUMILDADE

 

A Arrogância e a Humildade eram vizinhas desavindas. Viviam numa mesma casa com muitas moradas. Nesse comum viver, as conversas, muitas, enchiam os corredores e o que delas se dizia, num acumular de intriga sobre intriga, levara-as a concluir que não poderiam ter, nunca, nenhuma afinidade. Quando, no vaivém imparável de palavras, a Arrogância e a Humildade se cruzavam, olhavam-se de cara fechada.

Um dia, só estavam as duas em casa, bateram à porta, gritando de fora:

—  Arrogância! Humildade! Estais aí? Abri, abri! Eu sou a Mesquinhez. Ambas sois as minhas filhas perdidas e reencontradas! Abri, que preciso de vos explicar...

Gritou e gritou, bateu e bateu, mas ninguém lhe abriu a porta: a Arrogância, porque não se queria baixar; e a Humildade, porque não se queria levantar.

A fábula mostra que, como diria Hermes Trismegisto, o que está em cima é igual ao que está em baixo.

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por Maria Almira Soares às 13:47

Terça-feira, 01.04.14

DIA DAS MENTIRAS

 

 

 

Talvez seja triste,

Mas, afinal,

Portugal

Não existe.

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por Maria Almira Soares às 12:56

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