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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Domingo, 04.05.14

CARTA AOS MEUS ÚLTIMOS ALUNOS

 

 

[...] Estais adaptados. Ou, então, seriamente convencidos de que: — A Escola é isto. — aceitando-a como coisa de muito pouco valor. Para vós, a Escola é isto. Escola é este caravançarai de que, a outro propósito, falava Garrett num livro que a Escola já vos não dá a ler. Outros, tidos como ‘sábios’, tidos como pedagogicamente competentes, decretaram-vos incapazes de ler alguns livros importantes. Prescreveram-vos uma dieta de leitura miserável. Prepararam-vos ementas aguadas onde boiam dizeres massificados que não vos abrem nem vos refinam o apetite. Ah, meus alunos, quase vos peço desculpa (embora culpa não tenha) por ficardes sem provar iguarias literárias que outros meus alunos, em eras anteriores, saborearam, primeiro com estranheza e resistência e depois com gosto e alguns até com gula. Quando, às vezes, arrisco infringir a prescrição programática e vos leio ou refiro algum desses preciosos livros, pareceis ter pena da vossa ignorância e eu penso que mesmo só isso, só essa pena, talvez vos deixe uma lembrança para desejos futuros. Olho-vos e penso com amargura que, graças a esta evolução tão pouco natural da vossa espécie, essa bela espécie de ser-aluno, havereis de chegar à incapacidade de ir além da medida de um slogan. No estado de penúria literária a que vos fizeram chegar, certo que uma dose da grandeza de umas Viagens na Minha Terra vos seria mortal! Senão para vós, que pareceis arranjar sempre maneira de tudo contornar com vossos truques de plantas vivazes, pelo menos para o belíssimo livro de Garrett. Olho-vos e aperta-se-me o coração de pensar como vos foram retirando a capacidade de ler o difícil e o complexo.

 

(excerto de Carta aos meus últimos alunos, 2008)

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por Maria Almira Soares às 22:14

Sábado, 03.05.14

LEITURAS ESCOLARES D'OUTRORA

 

 

 

....

Mágicos transes,

Mais sérios, mais ligeiros,

Em que até os verdadeiros romances

Eram romances verdadeiros!

Feitos de Serras e Cidade,

De Morgadinhas e Ilustres Casas,

Voavam, davam asas

À felicidade

De os ler inteiros.

Ou, mesmo recortados,

Com princípios e fins emoldurados

Por títulos e ilustrações,

Espertos regatinhos,

Brincando folgazões,

Corriam nas aldeias sossegadas.

E, entre Enganim e Cesareia,

O Sol, o celestial girassol,

Logo pela manhã, ao arrebol,

Perseguia Donas Brancas raptadas

Ou acordava henriquinhos

De tia Doroteia.

E eu lá ia indo, indo,

Naquele mundo cada vez mais lindo

Em que o luar, p’la estrada plana,

Se evaporava numa lida insana

E, afinal, a água era só brilho

Jorrando de fontes de cristal,

Enquanto, sobre o verde do tomilho,

Só a lua começava a ser real.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Maria Almira Soares às 23:21

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