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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Segunda-feira, 07.07.14

O SÃO CARLOS NO TEMPO D'OS MAIAS

 

A condessa voltara-se para a plateia, coberta com o leque, com o ar constrangido, como se aquelas palavras pueris do marido a diminuíssem, a desfeassem... Carlos então falou da ópera. Que belo escudeiro huguenote fazia o Pandoli! A condessa não aturava o Corceli, o tenor, com as suas notas ásperas e aquela obesidade que o tornava bufo. Mas também (lembrava Carlos) onde havia hoje tenores? Passara essa grande raça dos Marios, homens de beleza, de inspiração, realizando os grandes tipos líricos. Nicolini era já uma degeneração... Isto fez lembrar a Pati. A condessa adorava-a, e a sua graça de fada, e a sua voz semelhante a uma chuva de ouro!... Os olhos brilhavam-lhe, diziam mil coisas; em certos movimentos, o cabelo crespamente ondeado, tomava tons de oiro vermelho: e em torno dela errava, no calor do gás e da enchente, um aroma exagerado de verbena. Estava de preto, com uma gargantilha de rendas negras, à Valois, afogando-lhe o pescoço onde pousavam duas rosas escarlates. E toda a sua pessoa tinha um arzinho de provocação e de ataque. De pé, calado, grave, o conde batia a coxa com a claque fechada.

O quarto acto começara, Carlos ergueu-se; e os seus olhos encontraram defronte, na frisa do Cohen, o Ega, de binóculo, observando-o, mirando a condessa e falando a Rachel, que sorria, movia o leque com um ar dolente e vago.

- Nós recebemos às terças-feiras, disse a condessa a Carlos - e o resto da frase perdeu-se num murmúrio e num sorriso. O conde acompanhou-o fora, ao corredor.

- É sempre uma honra para mim, dizia ele caminhando ao lado de Carlos, fazer o conhecimento das pessoas que valem alguma coisa neste país... V. Ex.ª é desse número, bem raro infelizmente. Carlos protestou, risonho. E o outro, na sua voz lenta e rotunda:

- Não o lisonjeio. Eu nunca lisonjeio... Mas a V. Ex.ª podem-se dizer estas coisas, porque pertence à elite: a desgraça de Portugal é a falta de gente. Isto é um país sem pessoal. Quer-se um bispo? Não há um bispo. Quer-se um economista? Não há um economista. Tudo assim! Veja V. Ex.ª mesmo nas profissões subalternas. Quer-se um bom estofador? Não há um bom estofador... Um cheio de instrumentos e vozes, dum tom sublime, passando pela porta da frisa entreaberta, cortou-lhe umas últimas palavras sobre a deficiência dos fotógrafos... Escutou, com a mão no ar:

- É o coro dos punhais, não? Ah vamos a ouvir... Ouve-se sempre isto com proveito. Há filosofia nesta música... É pena que lembre tão vivamente os tempos da intolerância religiosa, mas há ali incontestavelmente filosofia!

 

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por Maria Almira Soares às 21:12

Segunda-feira, 07.07.14

MUITO FALADOS, POUCO LIDOS

A LERDOCELER encerrou o seu ciclo de leituras deste ano, cujo tema era Portugal, com o debate de leituras de PORTUGAL AMORDAÇADO de Mário Soares. Foi um debate muito vivo: desde a passada mordaça salazarenta até à presente intoxicação verbal que não se aguenta, avivou-se a discussão sobre o sentido fundamental deste livro, sobre o valor e a importância da intervenção cidadã. 

Novo ciclo vai iniciar-se em Setembro sob o lema: MUITO FALADOS, POUCO LIDOS

Ler-se-ão livros a que muitas vezes nos referimos e até citamos, sem deles termos feito a leitura completa... Livros que muitas vezes conhecemos de ouvir falar ou até do cinema, mas ainda não lemos... Livros cuja leitura, por uma razão ou por outra, se ainda a não fizemos, gostaríamos de ter feito:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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por Maria Almira Soares às 17:32


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