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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Sexta-feira, 24.04.15

O TEMPO

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 O tempo existe porque há memória. O tempo existe porque há registo. A memória e o registo fabricam um rasto: o tempo. E, para o dizermos, inventamos uma imensa gramática. Sem memória, sem registo, em vez de vivermos no lume brando e sempre ateado do tempo, viveríamos em autocombustão permanente: em vez de passado, cinzas. O futuro é pura ideia, puro pensamento, vontade de reinventar a memória. O tempo não é sensorial como o espaço: não o ouço, não o vejo, não o cheiro, não o apalpo, não o saboreio. Lembro-o. Digo-o. É linguagem.

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por Maria Almira Soares às 12:34

Quinta-feira, 23.04.15

NO DIA DO LIVRO

Quando abro um livro, ele oferece aos meus olhos dois modos muito distintos de eu me interessar por ele. Propõe à função dos olhos dois usos alternativos. Pode sugerir que eles iniciem um movimento regular, que se comunica e prossegue de palavra em palavra ao longo de uma linha, renasce na linha seguinte depois de um salto que não conta, e provoca em seu desenrolar uma quantidade de reações mentais sucessivas, cujo efeito comum é destruir a cada instante a percepção visual dos signos, substituindo-a por lembranças e combinações de lembranças. Cada um desses efeitos é o primeiro termo de algum infinito desenvolvimento possível. Isso é a Leitura. Poderíamos dar-lhe por símbolo a ideia de uma chama se alastrando, de um fio queimando de ponta a ponta com, a cada certo tempo, pequenas explosões e cintilações. Esse modo sucessivo e linear requer uma visão nítida, e a conservação dessa visão nítida — condição essencial para a produção dos atos elementares do cérebro, que respondem às excitações da escrita com sons virtuais ou reais, com significações. A legibilidade de um texto é a qualidade que esse texto tem de se adequar à visão nítida. Em referência ao que precede, podemos dizer que legibilidade é a qualidade que um texto tem de prever e facilitar o próprio consumo, destruição pelo espírito, transubstanciação em acontecimentos do espírito. Mas em paralelo e à parte a leitura em si, existe e subsiste o aspecto de conjunto de toda coisa escrita. Uma página é uma imagem. Ela produz uma impressão global, apresenta um bloco ou um sistema de blocos e estratos, pretos e brancos, uma mancha com figura e intensidade mais ou menos bem resolvidas. Essa segunda maneira de ver, não mais sucessiva e linear e progressiva como a leitura, mas imediata e simultânea, permite aproximar a tipografia da arquitetura, assim como, há pouco, a leitura poderia ter lembrado a música melódica e todas as artes que esposam o tempo. Assim, o Livro, por um lado, comporta o necessário para excitar e conduzir o movimento do ponto da visão nítida — movimento que gera efeitos intelectuais e descontínuos, e paulatinamente se integra em ideias ao longo da linha; é, por outro lado, um objeto, um conjunto de impressões estacionárias, dotado de propriedades imediatas, não-convencionais, que pode agradar ou desagradar aos nossos sentidos. Esses dois modos de olhar são independentes um do outro. O texto visto e o texto lido são coisas muito distintas, pois a atenção dada a um exclui a atenção dada ao outro. Existem livros belos que não convidam à leitura, belas massas de puro preto sobre um campo muito puro, mas a plenitude e força de contraste, obtidas à custa das entrelinhas e que parecem muito rebuscadas na Inglaterra e Alemanha, onde procuram alcançar certos modelos do século XV e XVI, não deixam de pesar para o leitor e parecer um tanto arcaicos. A literatura moderna não se adapta a essas formas compactas, como que repletas de caracteres. Existem, em contrapartida, livros bem legíveis, bem arejados, mas feitos sem nenhuma graça, insípidos para a vista, ou até francamente feios. Essa independência nas qualidades que um livro é capaz de ter permite que a tipografia se torne uma arte. Quando ela quer apenas responder à necessidade simples de ler, dispensa os artistas, pois as exigências da legibilidade podem ser precisamente definidas, e satisfeitas por meios igualmente definidos e uniformes. A experiência e a análise serão suficientes para determinar o que é preciso ao gravador da letra, ao compositor e ao impressor para obter um texto claro e nítido. Basta, porém, o tipógrafo tomar consciência da complexidade de seu trabalho, para se sentir na obrigação de ser um artista, pois o próprio do artista é escolher, e o escolher é comandado pelo número de possíveis. Tudo aquilo que deixa espaço para o incerto clama pelo artista, embora nem sempre o obtenha. O tipógrafo artista encontra-se, diante de sua tarefa, na complexa situação do arquiteto preocupado em conciliar a conveniência e a aparência de sua construção. O próprio poeta tem por destino debater-se entre as formas e o conteúdo, entre suas intenções e a linguagem. Em todas as artes, e por isso mesmo são artes, a necessidade que uma obra bem realizada deve sugerir só pode ser gerada pelo arbitrário. O arranjo e a harmonia final das propriedades independentes que é preciso compor nunca se obtêm através de receita ou automatismo, mas de milagre, ou de esforço; através de milagres e esforços, conscientemente combinados. Um livro é materialmente perfeito quando é agradável de se ler, delicioso de se mirar; quando, enfim, a passagem da leitura à contemplação e, reciprocamente, da contemplação à leitura é muito fácil e corresponde a mudanças imperceptíveis da acomodação visual. Os pretos e brancos constituem então repouso um do outro, o olho circula sem esforço em seu domínio bem disposto, aprecia o conjunto e os detalhes, e sente-se em condições ideais de funcionamento. [...]

 

Paul Valéry, As Duas Virtudes de um Livro (Tradução de Dorothée de Bruchard)

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por Maria Almira Soares às 12:03

Quarta-feira, 22.04.15

AMANHÃ

O LIVRO

 

       Era uma destas brilhantes manhãs de Inverno, como as não há senão em Lisboa. Abri Os Lusíadas à ventura, deparei com o canto IV e pus-me a ler aquelas belíssimas estâncias: E já no porto da ínclita Ulisseia...

   Pouco a pouco, amotinou-se-me o sangue, senti baterem-me as artérias da fronte... As letras fugiam-me do livro, levantei os olhos, dei com eles na pobre nau Vasco da Gama, que aí está em monumento-caricatura da nossa glória naval... E eu não vi nada disso: vi o Tejo, vi a bandeira portuguesa flutuando com a brisa da manhã, a torre de Belém ao longe... e sonhei, sonhei que era português, que Portugal era outra vez Portugal. Tal força deu o prestígio da cena às imagens que aqueles versos evocavam!

     Senão quando, a nau que salva a uns escaleres que chegam... Era o ministro da marinha, que ia a bordo. Fechei o livro, acendi o meu charuto e fui tratar das minhas camélias. Andei três dias com ódio à letra redonda.

     Mas, de tudo isto, o que se tira, a que vem tudo isto para as minhas viagens, ou para o episódio do vale de Santarém, em que há tantos capítulos nos temos demorado? Vem e vem muito: vem para mostrar que a História, lida ou contada nos próprios sítios em que se passou, tem outra graça e outra força; vem para te eu dar o motivo por que nestas minhas viagens, leitor amigo, me fiquei parado naquele vale a ouvir do meu companheiro de jornada, e a escrever, para teu aproveitamento, a interessante história da menina dos rouxinóis, da menina dos olhos verdes, da nossa boa Joaninha.

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra

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por Maria Almira Soares às 23:31

Quarta-feira, 22.04.15

A REVOLTA DAS FRASES

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— É que nós, as palavras, as frases, que vocês escrevem, andamos cansadas de maus tratos físicos e morais. Vocês, que nos produzem e que deveriam ser os guardiães do nosso bom nome e integridade moral, apresentam um tal grau de desleixo, incúria e crueldade, que nos vimos forçadas a tomar uma atitude. Eu pertenço à secção das frases na escola, subclasse das frases escritas nas mesas, mas temos interligação com as frases de todo o país, na Confederação das Frases Portuguesas, e estamos até a trabalhar num plano de articulação com as frases do Brasil e dos Palop.

[...]

 

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E a picada foi só coincidência. Deve mesmo ter-se picado em qualquer aspereza da madeira. Esta é a verdade. O resto foi só imaginação. Há por aqui muita imaginação.

— Ah!

— Pois há.

— Quer então falar à escola sobre a importância das palavras, da escrita, das frases?

— É isso mesmo, Sr. Director.

— Não me parece uma má intenção. Também eu ando preocupado com a maneira como se maltratam as palavras.

— Está a ver como estamos de acordo?

— Mas uma frase a falar, Sra. Dona Frase?!

— Sr. Director, nada neste mundo fala mais e melhor do que uma frase bem dita. Quando vocês falam, somos nós, as frases que vocês fazem, quem fala.

— É verdade.

— Está a ver?

 

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por Maria Almira Soares às 11:45

Quinta-feira, 16.04.15

ESTE LOGRO MAGNÍFICO

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«Esta trapaça salutar, esta esquivança, este logro magnífico que permite conhecer a língua no exterior do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, é aquilo a que eu chamo literatura»

Roland Barthes, Lição, Lisboa, Edições 70, 1988.

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por Maria Almira Soares às 18:04

Sexta-feira, 10.04.15

HOMENAGEM A SARAMAGO

Era uma vez um homem com muita dificuldade, impossibilidade mesmo, em pronunciar sons nasais.

Pois este homem, que nunca nasalava, tinha um cão chamado Caim. Como é que alguém que não pronuncia as nasais põe ao seu cão o nome de Caim?! Ora, toda a gente sabe que há momentos em que a cultura se sobrepõe à fonética. Fora o caso deste homem. E mesmo o do seu cão. Viviam os dois numa cidade grande, meio cega, em que raramente se conhece mesmo aquilo em que, de olhos abertos, se tropece. Fosse como fosse, todos os dias, pelo fim da tarde, o dono do Caim o levava à rua, a passear, e em geral tudo corria bem.

..................................

Naquele dia, porém, o homem tinha mesmo caído. Só o cão acorreu. Mas esse era incapaz de o levantar do chão.

Foi num dia em que a morte estava de serviço.

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por Maria Almira Soares às 11:08

Quinta-feira, 09.04.15

GÉNIO É GÉNIO; O RESTO É VONTADE

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«Há talento, há saber», diria cordatamente o queirosiano Cohen, se aqui pudesse estar, mas a verdade é que disto quem sabia era o genial Garrett:

«Sim, leitor benévolo, e por esta ocasião te vou explicar como nós hoje em dia fazemos a nossa literatura. Já não me importa guardar segredo; depois desta desgraça não me importa já nada. Saberás pois, ó leitor, como nós outros fazemos o que te fazemos ler.

Trata-se de um romance, de um drama — cuidas que vamos estudar a História, a Natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulcros, os edifícios, as memórias da época? Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós o somos. Desenhar caracteres e situações do vivo na Natureza, colori-los das cores verdadeiras da História... isso é trabalho difícil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e sobretudo um tacto!...

Não senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico.

Todo o drama e todo o romance precisa de:

Uma ou duas damas.

Um pai.

Dois ou três filhos, de dezanove a trinta anos.

Um criado velho.

Um monstro, encarregado de fazer as maldades.

Vários tratantes e algumas pessoas capazes para intermédios.

Ora bem, vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de Eug. Sue, de Vítor Hugo, e recorta a gente, de cada um deles, as figuras que precisa, gruda-as sobre uma folha de papel da cor da moda, verde, pardo, azul - como fazem as raparigas inglesas aos seus álbuns e scrapbooks, forma com elas os grupos e situações que lhe parece; não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se às crónicas, tira-se um pouco de nomes e de palavrões velhos; com os nomes crismam-se os figurões, com os palavrões iluminam-se... (estilo de pintor pintamonos). E aqui está como nós fazemos a nossa literatura original.»

 

[Viagens na Minha Terra]

 

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por Maria Almira Soares às 13:47

Quarta-feira, 08.04.15

GIL VICENTE, SEMPRE!

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Cada ovo dará hum pato

E cada pato hum tostão

Que passará de hum milhão

E meio a vender barato

Casarei rica e honrada

Per estes ovos de pata

E o dia que for casada

Sahirei ataviada

Com hum brial de escarlata

E diante o desposado

Que me estará namorando

Virei de dentro bailando

Assi destarte bailando

Esta cantiga cantando.

 

Estas cousas diz Mofina Mendes com o pote de azeite à cabeça e andando enlevada no bailo cai lhe e diz

 

Payo Vaz

 

Agora posso eu dizer

E jurar e apostar

Que és Mofina Mendes toda

Pois s’ella baila na voda

Que está ainda por sonhar

E os patos por nascer

E o azeite por vender

E o noivo por achar

E a Mofina a bailar

Que menos podia ser?

 

[Auto da Mofina Mendes]

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por Maria Almira Soares às 20:58


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