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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Segunda-feira, 13.01.14

AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO

 

Retrospetiva das leituras da comunidade de leitores LerDoceLer:

 

A MORTE E O VIOLONCELISTA

 

 

 O que de melhor e mais original Saramago criou foi a sua voz narrativa. Saramago inventou uma cultura verbal para um olhar escrutinador, radical, judicioso. Uma fala, ao mesmo tempo popular e modernista, que desconstrói e revela. Parabólica como a voz dos deuses, é o ícone do seu deus interior, ou antes, da sua alma, esta fala reveladora do humano na sua miséria e no seu esplendor. Larga e densa, deixa que nela se enredem outras vozes como se a linearidade da frase fosse texto. Seguro da aliança inquebrável entre pensamento e palavras, o seu olhar ultrapassa a fronteira do verosímil e ousa derramar criações tão prodigiosas como terá sido o mundo ao primeiro olhar de deus e tão irónicas como só o poderá ter sido ao seu segundo olhar. Uma das suas criações verdadeiramente pasmosa e portentosamente irónica é a morte. Em cima de uma infinidade de versões sobre o mistério da morte, Saramago planta despudoradamente a sua personagem que é, afinal, talvez o que de nós não queiramos ver, queiramos esquecer ou o que de nós tememos ser: verdadeiramente humanos. Inventa a morte como um conhece-te a ti próprio, como uma viagem a Delfos para nos deixarmos tentar pelas verdades com que nos enganamos. Inventa-a e dá-lhe um papel, um guião minucioso que ela está disposta a cumprir violentamente. Todavia, depois de um longo arrasto e arresto das mil e uma escaramuças que a suspensão da morte desencadeia com toda a espécie de necessidades encobridoras das linhas puras e duras da vida, eis que as palavras se lembram de inventar um violoncelista. «Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas». E é então que a violência da morte se dissolve. Só no Violoncelista se dissolve a violência da morte. Saramago nunca nos revela a razão da incapacidade ontológica do Violoncelista para aceitar a carta violeta. Mas suponho que sabemos. Supõe que sabemos. A morte não tem antónimo, porque a vida é o seu caminho, mas tem contraponto. Um caminho é só um caminho e, sobre o que nele poderá ir, há uma infinidade de escolhas. Algumas sobrarão da morte. Como uma rasteira à violência da vida, um ponto de fuga, uma história paralela, a Música, a Arte, o amor da Arte, o amor do artista, obrigam a morte a enfrentar o desconhecido. Perante uma violência radicalmente diferente da sua, a morte suspende-se. O testemunho da Arte é uma violência para a cegueira do algoz.

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por Maria Almira Soares às 15:05


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