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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)


Sexta-feira, 21.03.14

LEMBRANDO LEITURAS...

 

PORTUGAL
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!


Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós . . .

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por Maria Almira Soares às 13:00

Quinta-feira, 20.03.14

HOJE, NA MIMOSA DA LAPA, A LERDOCELER CONVIVEU EM TORNO DA LEITURA DO «ESPLENDOR DE PORTUGAL»

 

 

Todo o escritor que constrói uma obra cria uma marca. De um romance de António Lobo Antunes, d’O Esplendor de Portugal por exemplo, pode dizer-se é «um lobo antunes». Quase como se diz de um vinho.

Prova-se, saboreia-se: e lá está o acidulado das metáforas enlouquecidas; o travo de lugares e objetos que tomam conta dos humanos; a estrutura balanceada desde a raiz ampla de uma fazenda em África até desfazer-se nas terras estreitas, cubiculares, de um bairro lisboeta; a força e a vastidão quase selvagem de um aroma estrangulado em respiração apodrecida...  Não há dúvida! É um «lobo antunes». Um puro.

 

Em O Esplendor de Portugal, a técnica de deformação do real, de enlouquecimento do real, é a mesma de sempre: o andar em círculos até à tontura que se desprende da solidez dos mundos habitados; o tempo feito contratempo, num encolhimento esmagador da duração; o adoecer de tudo e de todos, exceto, talvez, da infância de uma mulher que ainda era Isilda e não «patroa», na boca de outra mulher que era e sempre foi Maria da Boa Morte.

 

Círculos e espirais imparavelmente dançados sobre um estrado de solidão compassiva, de humanidade fina decantada do sarro grosso, areoso, com que se fazem construções mutantes, afinal sempre a mesma, essa construção: frágil, trágica, mortal, iludida, derrotada, humana...

E a fechar o leque de notas inconfundíveis, uma forte neurose maníaco-associativa a puxar tudo para dentro de tudo, brinquedo de feira de horrores, girando e girando e girando... até à eternização dos gestos, à repetição imobilizadora.

 

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por Maria Almira Soares às 21:33

Quinta-feira, 20.03.14

LEMBRANDO LEITURAS...

 

 

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por Maria Almira Soares às 15:52

Domingo, 16.03.14

LEMBRANDO LEITURAS...

CONVERSA NA CATEDRAL

AMBROSIO e ZAVALITA! BIG BANG! Por um momento de quinhentas páginas, a partir deste encontro, tão denso e tão negro como o mais denso buraco negro,  expande-se o tempo em todas as direções. E, enquanto cresce, o tempo cria espaço, múltiplos espaços habitados. Assim se engana o efeito destruidor de Cronos, devorador de seus filhos, dando-lhe a comer a pedra amassada da ternura e da raiva, do amor e do medo, da violência e da tristeza, da mentira, da vergonha, da inocência e da maldade, da crueldade… enfim, o Homem. O Homem: luz, água, ave, árvore, pedra… Nascido água e andando até se adensar em pedra. Pedra que vamos lendo, enquanto se adensa e o tempo a não devora. Do encontro entre Ambrosio e Zavalita, expande-se a narrativa, explode a criação de um universo. Uma rede finíssima de pontos de vista, uma coreografia minimal e exata de vozes, lança sobre este universo uma gaze alucinante, pontilhada de omina, de sombras pairantes que encobre/descobre, elaborando com perícia a arte da surpresa, a arte clássica, grega, do reconhecimento: «O gorila é o guarda-costas dele. Chama-se Ambrosio.» O Humano esculpido nas palavras, nas pequenas falas como na larga maré dos pensamentos, golfadas, ondas, vómitos, jorros de luz, conversa. Puxa-se uma ponta e larga-se… e volta-se atrás a puxar outra ponta… um veio que ficou em espera, por explorar… Deixa-se de pousio uma cepa já bem pegada, a que mais adiante se há de regressar para puxar outro rebento… Sábias mudanças de tom, harmonias musicais. Este livro não descreve nem narra, faz música com a volubilidade dos tons certos para cada tema: o tema de Ambrosio, o tema de Amalia, o tema de D. Cayo, o tema de D. Fermin… Numa poética desmesurada, mas certa, certeira, cabe ainda a escala rítmica do thriller em busca da cara mais vil da política, em busca da exibição negra do poder, uma coisa escorregadia, movediça, vil, lacaiesca. Painel espectral, turvo — de figuras, de situações, disseminadas, cruzadas, sobrepostas  — que filtra, isola a luz sombria mas nítida da consciência de um homem: Santiago Zavala. Expiação e amor.

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por Maria Almira Soares às 21:10

Domingo, 09.03.14

QUE ME PERDOE O BOCAGE...

 

Já o livro não leio, adormecida,

No sono escuro, minha mente se dissolve.

Já nem a mão direita a folha volve,

Nem o olhar entende a frase lida.

 

Então, quando me rendo e adormeço

Vítima do cansaço, reconheço

Quão ousado e insano foi o intento

de ler, de sempre ler, p’la noite dentro.

 

Amanhã, ao raiar da luz do dia,

Quando for incapaz de me lembrar

Da passagem do livro, que então lia,

 

Na altura em que tinha adormecido,

Seja eu capaz, de a vir a retomar!

Saiba reler o que ficou mal lido!

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por Maria Almira Soares às 22:09

Domingo, 09.03.14

QUE ME PERDOU O ALEGRE...

 

 

Pergunto às capas expostas

Pelo livro desejado,

Mas elas voltam-me as costas,

Pois que esse já é passado.

 

Na livraria mais in,

Em tempos de propaganda,

Procuro alguém que me ensine

Por onde é que o livro anda.

 

Mas, a noite está escura

E os tempos comerciais.

Nada fica, nada dura,

Só se quer é vender mais.

 

Mesmo em eras de ganância,

Não cessemos de lutar

P’los livros cuja importância

Transcende o que é popular.

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por Maria Almira Soares às 21:55

Domingo, 09.03.14

QUE ME PERDOE O ANTERO...

 

 

Sonho que sou uma leitora andante

Por versos, por palavras, prosa dura.

Procuro os livros com' uma caminhante

Em busca do Palácio da Leitura.

 

Em alguns, o meu olhar descanso,

Subo-os, como quem sobe um rio manso.

Mas a outros, para os desbravar,

Preciso de insistir e de lutar.

 

Julgando ter meu sonho realizado,

De muito ter lido e em mim guardado

Da leitura a experiência comovida,

 

Refreio o ímpeto ansioso e apressado.

Mas, de repente, caio em mim e brado:

— Pra tanto livro, não chega toda a vida!

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por Maria Almira Soares às 21:41

Quinta-feira, 06.03.14

LER EM VOZ ALTA

 

Ernesto Blanco

 

A desistência de ler, numa época de poderosos recursos audiovisuais, dá-se, em muito boa parte, à conta de ser a leitura vivida como um processo abstrato, quase invisível, que para se tornar operativo exige um esforço sem exteriorização. Neste infeliz contexto em que todas as coisas tratam de garantir uma imagem, ler silenciosamente torna-se uma tarefa de Sísifo, um esforço sempre em risco de perder de vista a sequência verbal donde brotam as histórias. De histórias todos gostam, mas o facto é que, para muitos que desistem de ler, o poder das histórias que conhecem por perceção sensorial direta se sobrepõe ao das que nascem do processo da leitura, mais abstrato e mais difícil. A experiência pontual de ler e ouvir ler em voz alta pode fornecer novas energias a esse Sísifo desistente em que, muitas vezes, se torna o leitor. Depois de termos ouvido realmente o som dos textos, poderemos ouvir melhor, dentro de nós, em silêncio, os animados diálogos que as longas séries de palavras separadas por espaços em branco vão projetando a partir do movimento oculto da leitura silenciosa. Trata-se de uma experiência em que as palavras, por onde correm as figuras e as histórias, se concretizam na boca e nos ouvidos. Ouvir-se e ouvir a ler em voz alta acompanha a história que se vai desenhando na nossa mente de uma banda sonora que lhe reforça o poder comunicativo. A leitura em voz alta torna o leitor/auditor e o auditor/leitor mais sensíveis aos mecanismos que permitem o trânsito de histórias pelas palavras e mais conscientes de que aqueles entes que têm som e passam das bocas de uns para os ouvidos de outros vão permanecer como imagem e memória.

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por Maria Almira Soares às 21:45

Quarta-feira, 05.03.14

LEMBRANDO LEITURAS...

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por Maria Almira Soares às 16:55

Segunda-feira, 03.03.14

LEMBRANDO LEITURAS...

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por Maria Almira Soares às 13:52


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