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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Terça-feira, 04.07.23

A LEITURA

  

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      O ato de ler é um ato íntimo. A relação entre uma pessoa e uma história, um poema, um drama, escritos num livro é uma intromissão solitária, silenciosa. Pode, depois, ser transformada para outros usos, mas, no seu primeiro nível de experimentação, é coisa íntima, jubilosa ou destrutiva, e — durante o intervalo entre a conclusão da leitura e o surgimento da disposição e oportunidade para a abrir aos outros — secreta. Íntima e secreta, só como consequência deste intimismo e fechamento a leitura se pode tornar social, contextual.

    Expor, descrever, debater, organizar, edificar o tema da leitura, depreciando o facto de ela se cumprir a despeito da relação com o mundo, de ela criar os seus mundos, de ela suspender o exercício de interações circunstanciais, é pressupor a inversão do sentido do gesto de ler e redunda em vacuidade ou incompletude. Como bem sabia Vergílio Ferreira, que aqui recordo.

     Vergílio Ferreira, sendo reconhecido leitor de leituras complexas, declarava, nos seus diários, o gozo íntimo, o frémito amoroso que continuava a sentir na leitura de velhos e corriqueiros textos de seleta escolar, em polar ruptura com a declinação dos tempos que então passavam e desqualificavam tais textos. Vergílio Ferreira sabia do carácter íntimo e secreto do primeiro nível das nossas leituras que não se compadece com pressupostos meramente sociológicos ou histórico-culturais. Tratar a leitura como coisa tão-só de atualidade, emergente e precária, é um erro, porque o núcleo volitivo mais substancial de se ser leitor de um dado livro, o elo mais sólido que prende um leitor a um livro, não depende necessariamente de mudanças circunstanciais. O peso da circunscrição contextual, da prescrição epocal, na escolha efetiva de um livro por parte de um leitor, é sempre inferior ao peso da sua determinação pessoal. A leitura genuína é coisa livre senão do desejo e do instinto deliberados pelo leitor segundo categorias próprias. Pretender configurá-la sob sujeição completa à época e suas mudáveis características e finalidades é desfigurá-la, enredando os leitores em indecisões, enganos, falsas personae, passos perdidos, precariedade. Antes de ser um ente noticiável, sociológico, pseudocientífico até, coisas em que progressivamente a vão tornando, a leitura é coisa do foro íntimo, sem controlo, muitas vezes pouco explicável. O fazerem dela objeto de observação e de estudo, de conclusões, de orientações, só pode preterir o profundo subjetivismo, o carácter irredutível de cada relação entre um leitor e um livro, tomando os acidentes por essência, esquecendo a essência da leitura, a sua imprevisibilidade geradora de cadeias originais e inéditas de leitores sem portas nem comportas a deslocar comportamentos.

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por Maria Almira Soares às 18:13



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