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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Terça-feira, 24.07.18

A LEITURA NÃO É UM BRINQUEDO

  

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     Naturalmente, crescer foi deixar para trás as coisas da infância, entre as quais, esses livros, lindos, em que quase tudo era desenho e cor, objetos nostálgicos de que se lembram com um sorriso, como doutros brinquedos que tiveram, e que, para eles, nada têm a ver com a vontade, a curiosidade, que poderiam ter, de ler um livro como, por exemplo, Os Maias. O que foi ler o conto infantil e o que é ler um grande e denso romance desencontram-se, antagonizam-se mesmo, incapazes de se reconhecerem na mesma realidade semântica e pragmática da palavra leitura. E, neste desencontro, implanta-se uma terra de ninguém, em que já não é possível a leitura da infância e é impossível a leitura de adulto. Implanta-se a desorientação, a rejeição, o alheamento da leitura. E que leitores triunfantes não foram eles na infância!

   Os triunfos imediatos esgotam-se em si mesmos e tornam-se, talvez, mais coisa de registos estatísticos do que de ganhos humanísticos.

   Conheço, fui e vou conhecendo, muitos casos de pessoas que na infância leram os seus livrinhos, mas que, agora, não têm tempo, não têm dinheiro, não têm oportunidade. O que têm é muitas desculpas. Desculpas para não ler, para ler muito pouco, quase nada, para estarem desatentas dos livros, para só lerem livros breves, leves, muito iguais a si e à sua vida, muito escritos a correr e, o pior de tudo, para não terem vontade de ler, não sentirem necessidade de ler, não sentirem a falta da leitura quando não leem. Dentre aqueles que leram com gosto na infância e não assimilaram esse gosto como necessidade, muitos sentem-se, em adultos, como pessoas para quem a leitura ficou cristalizada na bela prateleira dos álbuns ilustrados. Ficou aí fechada. Como a arca nostálgica onde guardaram os brinquedos.

   Mas, de facto, a leitura, não sendo maçada, não é um brinquedo. Ser leitor em criança é muito bom, ter livros por perto em criança é muito bom, mas tem de ser uma coisa que se enraíze e produza sementes de futuro. Penso nestas realidades, procuro razões para elas e atrevo-me a perguntar:

   — Será que isto acontece porque, um dia, quando eram crianças, no intuito bem intencionado de corresponder à cabal satisfação do seu desejo infantil, a leitura lhes foi apresentada demasiado como um brinquedo, como um jogo? E, por isso, nunca chegaram a experimentar a razão daquela poética coerência de Pessoa, ao atirar a leitura como metáfora contra uma certa ideia radical, e até um pouco caótica, de liberdade?

   — Será que isto acontece porque nunca chegaram a experimentar suficientemente isso a que a metaforização pessoana chamou maçada?

   — Que maçada era, essa, que não experimentaram e que talvez fosse, afinal, essa, a posse do verdadeiro truque, a face sonegada da propagandeada magia de ler?

   Pergunto, e penso: não foi suficiente esse lugar de espectadores dos passes da magia da leitura que outros tão bem, para o seu ser infantil, prepararam; teria sido necessário que o seu ser infantil tivesse tido a repetida — e nem sempre bem sucedida — maçada de, uma e outra vez, tentar ele próprio fazer o truque, mesmo que — ainda atrapalhado, ainda pouco destro — a coisa não viesse a correr na perfeição...

   Penso que não devemos cair no estado oximórico de defendermos a leitura maximizando-a como um bem e simultaneamente a diminuirmos, a enfraquecermos com a declarada necessidade de auxiliares como o jogo, a brincadeira, os objetos de entretenimento puramente visuais. Senão, seremos levados a duvidar, a questionarmo-nos sobre que coisa tão defeituosa é afinal a leitura para que precise de tanto amparo, de tanto complemento, de tanto auxílio, que se arrisca a morrer de fartura de tanta presteza alheia?

   Penso que a montagem de cenários excessivamente lúdicos, intencionalmente facilitadores da adesão à leitura, pode correr o risco de encobrir a descoberta desse outro prazer nem sempre fácil, o do contacto pessoal com a autenticidade de um livro.

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por Maria Almira Soares às 11:22


2 comentários

De Anónimo a 25.07.2018 às 00:19

Sempre me interessou esta questão da leitura e vou rabiscando coisas como esta http://luisdesenha.blogspot.com/search?q=livros+e+mais+livros

De Anónimo a 25.07.2018 às 09:16

Em cheio! Tem-se criado nos jovens (alunos) a ideia de que a leitura não obriga a esforço, dedicação e tempo... e também que não se aprende e desenvolve com prática e orientação.

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