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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Domingo, 28.02.21

A NECESSIDADE DE LER

Da graduação do que nos é necessário.

 

A necessidade de ler.

 

    A genuína necessidade de ler não é da ordem da rotina. É de outra ordem. Mais profunda do que a do hábito. A necessidade de ler é da ordem do gosto. A produtividade de programas e de asserções atinentes à defesa do desenvolvimento da leitura, conceptualizados e verbalizados dentro da ordem dos bons hábitos, mesmo quando positiva, é sempre precária e sujeita a mutações regressivas. A sua solidez, pouca, é afetada pelo mover dos tempos e dos espaços, das influências. O desenvolvimento da genuína necessidade de ler faz parte de um outro jogo de ideias. O da educação do gosto. O gosto educa-se: cria-se, alimenta-se, abre-se, descobre-se... Da educação do gosto, onde nasce e se desenvolve a necessidade de ler, nasce e desenvolve-se também a necessidade de fruir outras artes para além da literária, criações várias do imaginário. A fruição das diferentes artes tem efeitos transversais e relacionais no gosto por todas elas, e sobremaneira na leitura, ou seja, no gosto pela arte literária pois que a linguagem em que esta se constrói é referencial último e primeiro de todas as artes. Pobres são os programas de desenvolvimento da necessidade de ler — pessoais, familiares, institucionais — que se apliquem tão-só na multiplicação de discursos, ações, objetos, tecnicamente limitados à leitura. A necessidade de ler germina e floresce, frutifica, fertilmente, na confluente educação do gosto pelas artes, ou seja, pela fruição das obras do imaginário. A educação pela arte. Da educação pela arte, pelo seu gosto e fruição, faz necessariamente parte a educação pela arte literária e pelo seu gosto e fruição que é a leitura. Educação pela leitura e não educação para a leitura. Educação da sensibilidade e do gosto que se autoalimentam necessariamente fruindo o seu objeto: as obras da criação literária. Encontrar, descobrir, desenvolver a necessidade de ler pode acontecer-nos sem mestre, sem orientação alheia, sem inculcação. Pode ser uma descoberta íntima, ingénua, que tem, no seu adn, energia suficiente para se desenvolver e acrescentar tornando-se gosto. A educação do gosto faz-se pela experiência, pelo conhecimento, pela partilha crítica. Faz-se na estranheza, na descoberta, na confrontação, na afinidade, na eleição/rejeição. Sejam eles autónomos ou tutelados, é nos processos de formação-construção-aprendizagem, que se educa o gosto motor da necessidade, desta necessidade de grau superior que é a necessidade de ler.

 

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por Maria Almira Soares às 17:13


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