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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Domingo, 22.10.17

A PRIMEIRA METADE DO MUNDO

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     Quando a Hilda desceu do comboio, na estação da sua terra, sentiu uma redonda carícia a explodir mansamente contra a pele. Tratava-se de uma espécie de interjeição natural que, embora gramaticalmente indescritível, se projetou no pedaço de frase exclamativa «Ora, cá estou eu na minha terra!» que ela então disse, enquanto sentia uma vibração feita de cheiros, vapores, sons, fumos, suspiros, gritos, cores, luzes, ventanias e chuvadas, sóis, vozearias e segredos, noites, rezas, gargalhadas, silêncios, olhares. Nenhum corpo esquece jamais o sopro em que embate ao soltar-se da escuridão de um outro corpo. Aí, nesse momento, começa a memória. Por isso, a Hilda dizia a minha terra, quando falava daquela cidadezinha meio-adormecida perto do mar.

     Saída do comboio e dados os primeiros passos, a Hilda sabia que não iria reencontrar a casa e que todos estavam mortos. Todos estavam já mortos e a casa não aguentara a viuvez e morrera também. Ninguém. Nenhum lugar. E, no entanto, ela voltara como quem se presta a levar um encontrão que a detivesse a pensar histórias, a sair do tempo, atada pela mudez. Nenhum interlocutor. Todos os que alguma coisa souberam da primeira metade do seu mundo estavam mortos. Muito antes de sequer sonhar em vir a ser instruída nas coisas da literatura, de sequer saber as letras com que a literatura se escreve, a Hilda já sabia que, à maneira homérica, nascera in medias res. O que era novo ali não era o ela assim ter nascido, como toda a gente aliás. O que era novo era ela tê-lo sabido logo. A Hilda, pequenina, soubera e sentira que, quando nasceu, metade do mundo, metade do seu mundo, já estava pronta e tinha-se desempenhado bem sem ela. A cada canto e esquina dos caminhos da sua pequena vida, ela ia confirmando que viera para um pequeno mundo já razoavelmente solucionado, onde as pessoas à sua volta sabiam onde ir e o que fazer e dar as respostas certas.

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por Maria Almira Soares às 11:07


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