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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Terça-feira, 08.03.16

Ai, páscoa florida, que dura ano inteiro!

carlton-alfred-smith-1853-1946-at-the-garden-gate_CARLTON ALFRED SMITH 

Os Treze Anos

 

Já tenho treze anos,

que os fiz por Janeiro:

Madrinha, casai-me

com Pedro Gaiteiro.

 

Já sou mulherzinha,

já trago sombreiro,

já bailo ao domingo

com as mais no terreiro.

 

Já não sou Anita,

como era primeiro;

sou a Senhora Ana,

que mora no outeiro.

 

Nos serões já canto,

nas feiras já feiro,

já não me dá beijos

qualquer passageiro.

 

Quando levo as patas,

e as deito ao ribeiro,

olho tudo à roda,

de cima do outeiro.

 

E só se não vejo

ninguém pelo arneiro,

me banho co'as patas

Ao pé do salgueiro.

 

Miro-me nas águas,

rostinho trigueiro,

que mata de amores

a muito vaqueiro.

 

Miro-me, olhos pretos

e um riso fagueiro,

que diz a cantiga

que são cativeiro.

 

Em tudo, madrinha,

já por derradeiro

me vejo mui outra

da que era primeiro.

 

O meu gibão largo,

de arminho e cordeiro,

já o dei à neta

do Brás cabaneiro,

 

dizendo-lhe: «Toma

gibão, domingueiro,

de ilhoses de prata,

de arminho e cordeiro.

 

A mim já me aperta,

e a ti te é lasseiro;

tu brincas co'as outras

e eu danço em terreiro».

 

Já sou mulherzinha,

já trago sombreiro,

já tenho treze anos,

que os fiz por Janeiro.

 

Já não sou Anita,

sou a Ana do outeiro;

Madrinha, casai-me

com Pedro Gaiteiro.

 

Não quero o sargento,

que é muito guerreiro,

de barbas mui feras

e olhar sobranceiro.

 

O mineiro é velho,

não quero o mineiro:

Mais valem treze anos

que todo o dinheiro.

 

Tão-pouco me agrado

do pobre moleiro,

que vive na azenha

como um prisioneiro.

 

Marido pretendo

de humor galhofeiro,

que viva por festas,

que brilhe em terreiro.

 

Que em ele assomando

co'o tamborileiro,

logo se alvorote

o lugar inteiro.

 

Que todos acorram

por vê-lo primeiro,

e todas perguntem

se ainda é solteiro.

 

E eu sempre com ele,

romeira e romeiro,

vivendo de bodas,

bailando ao pandeiro.

 

Ai, vida de gostos!

Ai, céu verdadeiro!

Ai, páscoa florida,

que dura ano inteiro!

 

Da parte, madrinha,

de Deus vos requeiro:

Casai-me hoje mesmo

com Pedro Gaiteiro.

 

António Feliciano de Castilho

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Maria Almira Soares às 15:32


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