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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Domingo, 09.02.20

ALICE FAZ UM PAÍS

Alice Faz um País

         Maria Almira Soares  

       II

[Continuação.]

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       Era domingo. Lá fora estava vento e frio. E o céu estava a começar a ficar tão escuro que, embora ainda fosse de tarde, já tinham acendido a luz dentro de casa. Dos amigos, nem rasto. Parecia que se tinham evaporado. Da janela, não se via ninguém a passar na rua. Só os passaritos fugiam espavoridos de árvore em árvore. A Alice afastou-se da janela com passinhos levezinhos, pôs-se a olhar à sua volta e resolveu atacar. Podia ser que conseguisse convencer algum dos três a ir brincar com ela. Na sala, toda a gente — a mãe, o pai, o irmão — estava ocupadíssima a fazer qualquer coisa muito importante. O pai a ler o jornal, o irmão colado ao computador e a mãe a corrigir trabalhos dos seus alunos. Parecia que nem a viam, nem a ouviam, cada um metido com os seus afazeres. O último a dizer-lhe que não, que estivesse calada e quieta, foi o irmão e, aí, a Alice, já muito arreliada, respondeu: — Vais ver! Vou fazer uma coisa que…! Esta era a maldição que a Alice costumava lançar quando ficava furiosa por não perceberem a importância do que ela queria fazer. Como se fosse uma vingança, uma ameaça. A Alice, para além de alegre e comunicativa, era também um bocadinho marota. Nessas alturas, os outros pensavam que ela ia ficar amuada, mas não. Ela ia mesmo fazer «coisas que…!» Por isso, correu para o quarto e atirou-se para cima da cama a remoer: — Ah, não querem brincar comigo, não? Vão ver! Vou fazer uma coisa que…! Só de pensar em fazer uma «coisa que», ficava logo com muito mais força para resistir àquele desinteresse geral. A Alice, quando se enervava por não lhe darem a atenção a que achava que tinha direito, era como se perdesse o juízo. Não que se pusesse a fazer asneiras, a partir coisas, a pular para cima das mesas ou assim, não… Ela ficava destravada mas era por dentro da sua cabeça. Batia o pé e, depois de vociferar sempre a mesma ameaça: — Vais ver!, desandava para um canto, onde, sozinha, se permitia imaginar tudo e mais alguma coisa. Até chegava a ficar corada com toda aquela energia que a fazia inventar coisas. Coisas só dela! Que ela, pois claro, também tinha coisas, também ela tinha o seu mundo. Que é que pensavam?! O irmãozinho que ficasse lá com o seu computadorzinho, que não a deixasse espreitar para o que estava a fazer, que não a deixasse mexer no rato, que era tão engraçado! Pois também ele não veria o que ela ia fazer!

   Mas que havia a Alice de fazer, ali, estendida na cama a olhar para o tecto?

[Continua.]

 

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por Maria Almira Soares às 14:35


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