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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Sábado, 15.02.20

ALICE FAZ UM PAÍS

Alice Faz um País

         Maria Almira Soares  

       V

[Continuação.]

 

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     Pôs-se a pensar. Achar um nome era muito mais difícil do que todas as outras coisas que já tinha feito. Pensou, pensou, pensou e, às tantas, parou de pensar e, em vez disso, resolveu deixar correr livremente as palavras ou bocados de palavras ou sílabas ou sons que lhe vinham à cabeça.

     — Quando for a passar uma palavra gira, pimba, atiro-me a ela e agarro-a.

     E, lembrando-se do Rex, começou:

     … au…au…au…autoestrada…estrelada…ovo estrelado…

     — Ovo estrelado! E se o meu país se chamasse Ovo Estrelado?! Ah! Ah! Ah! Que piada! Punham-se logo todos a inventar anedotas e até podia aparecer um gigante esfomeado e comê-lo. Por engano. Não, não, é impossível um país chamar-se Ovo Estrelado. E os habitantes?! Coitados! Ovoestreladenses!!! Só se se dissesse muito devagarinho. Senão, era um desastre.

       Continuou a brincar com as palavras e, às tantas, lembrou-se de uma história de quando ela era muito pequenina que a mãe, às vezes, contava. Ela não se lembrava, mas a mãe contava que, quando a Alice começou a falar, se tornou uma tagarela e uma vez tinha passado uma tarde inteirinha a dizer e a gritar e a cantarolar pela casa toda uma palavra que tinha ouvido: — Fazenda! Fazenda! Fazenda! Fazenda! E que todos se riram, porque ela não fazia a mínima ideia do que andava a dizer, mas achou-lhe graça e, nesse dia, ninguém mais a calou. Ficou sempre a gostar daquela palavra, por causa desta história…

     — Fazenda…fazenda…fazenda… fazendarim... fazendarum... fazendaran! O meu país vai-se chamar Fazendaran. Também não é assim muito mais esquisito do que Suriname, por exemplo.

       A Alice gostava muito de dizer por exemplo. Ela sabia os nomes dos países, até os mais difíceis. Nos jogos com nomes de países ou de habitantes, ninguém a batia.

       — Ah! Assim, sim. Assim, com nome, é que isto já me parece mais um país. Até já posso dizer: — Quando eu for a Fazendaran… E os habitantes? Os habitantes têm de ser fazendaranenses. Ui! É quase pior do que ovoestreladenses. Coitados! Paciência. Não tivessem nascido em Fazendaran. E olha os suazilandenses e os azerbaijanenses! Também não são mais fáceis de dizer. Agora já posso falar do meu país e contar coisas que lá se passaram. Por exemplo: «Em Fazendaran, vai ser construída a biblioteca mais bonita do mundo.» Ou ouvir falar de Fazendaran na televisão: «Chega hoje a Fazendaran o famoso pintor Picasso. (A Alice gostava de saber nomes de pintores e músicos e escritores, etc. etc., mas nem sempre tinha a certeza de quando é que eles tinham vivido.)

   De repente, sobressaltou-se:

     — E se os outros países todos que já existem não se quiserem encolher um bocadinho para o meu país ainda caber no mundo? Também, se não quiserem, não faz mal. Se não quiserem, pronto, faço uma ilha. O mar é tão grande! Ainda tem espaço para tantas ilhas! Ah! É verdade, outra coisa: tenho de ter lá um amigo. Pelo menos um. Para trocarmos mensagens. E para eu ir lá visitá-lo.

   E foi quando já estava a fazer o seu amigo fazendaranense e a pensar nas mensagens que haveriam de trocar que a Alice voltou a sentir que ainda faltava uma outra coisa importantíssima. Bateu com a mão na cabeça e disse:

     — Ah, que parva, então não me ia esquecendo da língua?! Onde é que já se viu um país sem ter uma língua. A língua… a língua… a língua é o fazendarês. Em Fazendaran fala-se fazendarês que, aliás, (a Alice também gostava muito de dizer aliás) é uma língua muito parecida com o português. Que é para eu e o Fanzi podermos falar um com o outro. O português e o fazendarês são parecidos, mas não são iguais. Por exemplo, nós dizemos batatas fritas e eles dizem bantantas frintas. É assim uma língua fanhosa como se estivessem todos constipados, ah! ah! ah!

     E a marota da Alice, divertidíssima com a língua dos fazendarenses, dava grandes gargalhadas. Ainda se estava a rir quando se lembrou de que o seu país havia de ser famoso por ter alguma coisa que não houvesse em mais país nenhum. Pensou, pensou, pensou… mas tudo em que conseguia pensar eram coisas que já existiam. Como é que ela havia de descobrir uma coisa que fosse difícil mas não impossível? E que tornasse o seu país verdadeiramente importante? Pensava em monumentos muito grandiosos, em montanhas muito altas… Mas não, isso já havia. Tinha de ser outra coisa.

     — Ah, pois! Já sei.

     Uma vez, há uns tempos, a Alice tinha perguntado ao pai se era possível haver alguém com cento e cinquenta anos. E o pai respondera: — É difícil mas não é impossível.

     — Já está. Em Fazendaran há uma pessoa com cento e cinquenta anos. Boa! E depois… e depois, até os cientistas lá vão para descobrir porque é que essa pessoa dura tanto. E ninguém conseguirá descobrir porquê, mas toda a gente vai saber que Fazendaran é o único país no mundo onde há uma pessoa com cento e cinquenta anos. E eu, quando for grande, quero ser cientista, para lá ir estudar o senhor Fanzão. E eu é que vou descobrir. E depois vou fazer com que todos, o meu pai, a minha mãe, o meu irmão, os meus amigos, durem muitos, muitos, muitos anos…

   Ora foi precisamente no momento, em que a Alice estava toda contente a sonhar com que todos iriam durar muitos, muitos anos, que se ouviu nitidamente o toque da campainha da porta.

[Continua.]

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por Maria Almira Soares às 13:28


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