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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Segunda-feira, 17.02.20

ALICE FAZ UM PAÍS

Alice Faz um País

         Maria Almira Soares  

       VI

[Continuação.]

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    A Alice, toda entretida com o seu país, não ligou. A mãe ou o pai ou o irmãozinho que fossem abrir. Eles que interrompessem os seus afazeres tão preciosos. E assim foi. O pai da Alice lá largou o jornal. Ouvindo ao longe os ruídos do pai a perguntar Quem é? , a abrir a porta e a falar com a Dona Adília, a porteira, que vinha avisar de que tinham cortado a água, a Alice, em vez de ceder à curiosidade, preferiu dar asas à sua imaginação e é ela, essa menina que continuou a ser sempre muito imaginativa, que nos vai contar o final desta história:

«— Quem é?

— Én o Fanzi.

— Quem?!

— O Fanzi, o amingo da Alince.

— O quê?!

O meu pai completamente assarapantado foi até à sala e disse:

— Diz que é o Fanzi. Vocês conhecem algum Fanzi?

   Nesta altura já os meus ouvidos, alertados pelas vozes que vinham da sala, se tinham posto à escuta e, mesmo através da porta, tinha-me parecido ouvir uma palavra familiar. Teria sido Fanzi? Saltei da cama, abri a porta do quarto e zarpei sala fora em direcção ao intercomunicador.

   — És tu, Fanzi?

   — Soun. Olán, Alince!

   Já eu estava a carregar no botão que fazia abrir a porta, enquanto todos — até o meu irmão conseguira descolar-se do computador — me olhavam atónitos, com os olhos arregalados. A minha mãe, a gaguejar de espanto, começou a dizer:

   — Don-donde é que tu conhe-nhe-ces esse Fanzi?

   Mas já eu abria a porta a um rapazinho risonho e desembaraçado que, depois de sacudir os sapatos no tapete, entrou e começou logo a tirar o casaco com capucho para a chuva que trazia vestido. Tinha uns caracóis escuros que não paravam de se mexer para um lado e para o outro.

   — Ah, apanhaste chuva. E em Fazendaran, estava a chover?

   — Um boncandinho, mans nanda quen se panrença com insto anqui...

   Ali, tirando eu e o Fanzi, ninguém estava a perceber nada daquele chinês, ou antes fazendarês. Nós os dois, porém, alheios à estupefacção dos outros, continuávamos muito sorridentes e contentes por nos termos encontrado.

   — Que bom que me vieste visitar! Estava mesmo a sentir-me sozinha.

   — Olhan, apetenceu-me danr uman voltan e cán estoun.

   Bem, aquilo era demais! Que espécie de trapalhada era aquela?! Onde tinha, eu, arranjado aquele amigo que falava de um modo tão esquisito? — pensava a minha mãe. E, puxando pela manga da minha camisola, abanou-me dizendo-me ao ouvido:

   — Diz-me já imediatamente o que é que se está aqui a passar.

   Então eu caí em mim e voltando-me para os outros disse:

   — Ah, desculpem. Quero vos apresentar o meu amigo de Fazendaran, o Fanzi. Fanzi, estes são o meu pai, a minha mãe e o Luís, o meu irmão.

   — Fazendaran!!! Que é isso? Onde ... fica Fazendaran?

     O Fanzi riu-se mas não se admirou:

   — Én um paíns muinto rencente, não men adminro que não o conhençam.

   — O que é que ele disse?

     — Ah, pois, vocês não sabem falar fazendarês. Não faz mal, eu traduzo. Ele disse que Fazendaran era um país muito recente e que, por isso, não se admirava que não o conhecessem.

     A minha mãe já não podia mais, já não aguentava mais aquela charada e:

     — Alice, Alice, se é para te vingares de não termos querido brincar contigo, já chega. Deixa-te lá de palhaçadas com esse teu amigo.

     — Não, mãe, mas é verdade, o Fanzi vem de um país que eu...

     — Ván lán, não se zanguem com a Alince. Senão eun voun-men ján embonra.

     — Ainda por cima constipado! — disse finalmente o Luís, o irmão da Alice.

     — Constipado!? Ah, ah, ah, o Fanzi não está constipado. No país dele, fala-se assim.

   Bem, a trapalhada tinha chegado a um ponto que os punha todos a olhar uns para os outros sem saberem o que fazer: eu, porque nunca esperara que a minha coisa que desse tão bons resultados; o meu irmão a pensar que um dia destes eu ainda dava em maluca; o meu pai quase a perder a paciência para tentar perceber o que ali se passava; a minha mãe quase, quase, a ter a ideia de fazer de conta, entrar no jogo, fingir que não percebia que aquilo era tudo engendrado por mim e por um colega de escola, para me vingar, e quase a convidar o pequeno para jantar... quando, realmente, se ouviu a voz da minha mãe:

     — Meninos, todos para a mesa!

   Às vezes, a minha mãe incluía-nos a todos, também ao meu pai, quando chamava «Meninos!».

   E repetiu:

   — Todos prà mesa! Hoje o jantar é petiscos.

     Ainda bem. Fazer um país era giro, mas dava muito trabalho. E a verdade é que eu já estava a ficar com fome. Ainda para mais o jantar era petiscos: quando a minha mãe passava a tarde a corrigir trabalhos, depois, cansada e sem tempo para cozinhar, era certo e sabido que «o jantar era petiscos». Era assim que a minha mãe dizia, quando enchia a mesa com coisas saborosas que sempre havia na cozinha. Parecia um piquenique!

   Levantei-me de um pulo e saí do quarto a correr. Mas, quando cheguei à casa de banho para lavar as mãos, vi que estavam todos a barafustar por não haver água. Que maçada! Que maçada! Estavam todos arreliados.

   Todos, não. Eu desatei a rir enquanto, toda arrepiada, me imaginava a meter os meus pés, felizes, nas ondas pequeninas e frescas do mar azul de Fazendaran!»

FIM

 

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por Maria Almira Soares às 16:25


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