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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Quarta-feira, 12.07.23

AS TRÊS MORTES DE JÚLIO DINIS

       Numa aceção do literário que abarque — forçosamente segundo o meu entendimento — a dimensão da leitura, tripla foi a morte literária de Júlio Dinis. 

     O homem que, ainda teenager, escreveu «A causa disto é sermos nós uma nação pequena e pouco à moda, acanhada e bisonha nesta grande e luzida sociedade europeia, onde por obséquio somos admitidos, dando-nos já por muito lisonjeados quando os estrangeiros se deixam, benevolamente, admirar por nós.» morreu em doze de setembro de 1871, com trinta e um anos de idade, e essa foi a primeira morte do seu projeto literário.

   Da eclosão do Modernismo e das suas réplicas e consequências, poderemos datar, com menos exatidão é certo, a segunda morte do projeto literário de Júlio Dinis, então já sob a forma de um sucedâneo a que chamaremos dinisianismo, uma permanência que não era já senão um requentado gosto.

  Hoje, no nosso hoje, um hoje do século XXI em que escrevo, na enxurrada do desinteresse pela cultura literária, morre todos os dias a inclusão de Júlio Dinis no debate intelectual e esta é a sua terceira morte.

       A PRIMEIRA MORTE

            A biografia de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, de quem nunca saberemos a razão exata de ter trocado a demora destas quatro palavras oficialmente denominativas pela agilidade de dois nomes muito mais vocálicos e desprovidos de indicações de pertença familiar, essa biografia, dizemos, ficará sempre desfocada se não for contada à luz da pesada sombra de chumbo que sobre ela impendeu: a morte. Desde muito cedo acompanhado pela sombra ameaçadora da morte frequentativa do círculo familiar estreito, mãe e irmãos, Joaquim Guilherme fez toda a curta caminhada da sua vida em duelo com a doença invencível. Para uma síntese irredutível da sua biografia, chamaríamos aqui uma palavra: tuberculose. Ou phtysica pulmonar como era designada no seu tempo e como foi por ele referida na sua «Dissertação Inaugural para Acto Grande, Apresentada a Eschola Medico-Cirurgica do Porto», em 1861, tinha o escritor vinte e dois anos.

      Tudo o que é sabido da sua vida — vínculos familiares, formações, cultura, estudos, convívios, amizades, amores, situações profissionais, realizações pessoais, viagens, intervenções, sorrisos e melancolias — teve sempre presente um visitante, impositivo e indesejável, a doença. A nenhuma mesa decisória dos caminhos que Joaquim Guilherme desejava futuros, deixou de comparecer esse conviva deletério que entreabria ou fechava portas à sua íntima vontade de viver, de realizar. Só por leviandade ou esquecimento, pode ser imputada a falta de ousadia, o excesso de moderação, a alguém que como ele — desprovido de vocação suicida e munido da ciência da doença — teve a morte a guardar-lhe a porta da casa. E não falo apenas da casa habitada a que, perto do fim, acabou por referir-se como um «buraco onde me meta a esperar»; falo da casa da ação literária; falo da casa da escrita. Joaquim Guilherme, o tuberculoso, foi um fator decisivo na construção e na atribuição de possibilidades a um animum demiurgum, cultural e literário, distanciado de si pelo nome que para ele criou, Júlio Dinis, mas vinculado ao destino da pessoa que o poderia concretizar. Não obstante este inelutável e decisivo vínculo, na certidão de óbito da primeira morte literária de Júlio Dinis não poderemos alegar tuberculose, mas trágica contradição, mas paradoxo, como causa direta; nesse transe mortal do sempre doente Joaquim Guilherme Gomes Coelho, a saúde literária da obra de Júlio Dinis estava, como sempre esteve, intacta. Um romance, um dos seus excelentes romances, Os Fidalgos da Casa Mourisca, estava em revisão final para sequente publicação. Foi o último. Qualquer expectativa de uma próxima obra, que a partir da leitura deste romance pudéssemos ter, ficou gorada.

      A primeira morte do projeto literário de Júlio Dinis foi um efeito secundário do fim da vida de Joaquim Guilherme.

   Não se tratou de uma causa súbita, momentânea, inesperada. Foi uma causa prolongada, contínua, que se alongou pela sua curta vida como quem brinca diabolicamente com a esperança e o desalento de um Sísifo.

Revejamos:

«Aqui já me valeu simpatias gerais o ter dito, logo que cheguei, que do pouco que tinha visto da vila fizera dela um excelente conceito. Ora, tendo chegado de noite, eu não tinha visto coisa alguma.» Em Ovar, 11 de maio de 1863    

«Felizmente que já não tenho tido daquelas insónias insuportáveis que, entre vários incómodos que me afligiam, não eram dos menores. Será radical esta cura? Veremos.»

Em Ovar, 11 de maio de 1863

«E mais não sou eu daqueles que descreem no futuro. Tenho direitos a esperar dele um quinhão de felicidade que o passado me negou. [...] eu sei que há entes tão malfadados que desta vida só chegam a conhecer as lágrimas [...] É por isso que não desanimo e diante do véu que me encobre o futuro, estou como o espectador aguardando [...] o meu passado foi pouco abundante em flores...» Em Ovar, 31 de maio de 1863

«... para completar a cura de uma doença, que hoje me vou quase convencendo ter sido mais de imaginação do que real [...] acham-me mais gordo e mais trigueiro...» Em Ovar, 3 de junho de 1863

«Como me acho restabelecido, demorar-me-ei aqui...» Em Ovar, 12 de junho de 1863

«... desde que principiei a sentir que robustecia em Ovar, fui adiando a minha partida, intimidado pelas descrições tétricas que os facultativos daqui me faziam de Aveiro [...] Por pouco me ia constipando, por ter caído na patetice de esperar pelo fogo preso...» Em Ovar, 3 de julho de 1863

«Um impertinente defluxo, acompanhado de um aparatoso cortejo de sintomas febris, quase me impossibilitou até hoje de escrever aos amigos...» Em Ovar, 4 de agosto de 1863

«Ontem no S. Lázaro estive para dar espetáculo caindo ao chão com um delíquio. Valeu-me entrar numa loja de carpinteiro e sentar-me.» Sem lugar, mas Porto, sem mês, 1864

«Abri de par em par as janelas a um sol. Desmaiado que me anuncia o inverno [...] horrível, vendo chover a cântaros na manhã de ontem, e imensas nuvens cor de chumbo a amontoarem-se sobre a minha cabeça [...] Cheguei a Aveiro um pouco dominado pela apreensão de que talvez viesse ser infecionado pelos eflúvios pantanosos da terra...» Aveiro, 28 de setembro de 1864

«De dia estou por casa e frequentes vezes divirto-me a recordar [...] outras recordações, embora mais recentes, que me ficaram de Aveiro, da sua ria, do seu mexilhão, dos seus ovos moles e sobretudo das suas belas trigueiras. [...] em Aveiro há trigueiras como em parte nenhuma.» No Porto, em 27 de outubro de 1864

«Ainda não venci esta irresolução que me é natural e em virtude da qual me conservo em casa apesar de me levantar às 7 horas.» Em Felgueiras, 9 de julho de 1865

«... foi um momento dos poucos felizes na minha vida aquele em que obtive a certeza de que estava despachado...» Em Felgueiras, 16 de agosto de 1865

«Intimidou-me o aspeto da noite. Resolvi evitar-lhe os afagos. [...] Não tive mais nenhum incómodo, além dos da imaginação, a qual, como eu conjeturava, lidou toda a noite.» No Porto, 10 de outubro de 1866

«Conquanto me não possa dizer pior, julgo prudente atendendo à persistência da febre e a certo mal-estar indefinível, principiar a usar o óleo de fígado de bacalhau...» Dias depois, em 1866

«Parece-me que não te disse que vou melhor. Não tenho tempo de verificar e por isso digo aqui.» No Funchal, 18 de abril de 1868

«Eram tenções minhas ir ver-te ontem, quer o tempo permitisse quer não, porque ia de cadeirinha, se não pudesse ir a pé. [...] Um ataque de hemoptise, maior do que os que tenho tido, obriga-me a estar em casa e na cama.» No Porto, 29 de novembro de 1868

«A minha tosse também continua.» No Porto, novembro de 1868

«Eu por aqui estou no estado habitual de espírito que podes imaginar, achando-me consideravelmente melhor na presença dos colegas e horas depois da visita deles, piorando, quando anoitece e pela madrugada, em que os diabos negros se apoderam de mim.» No Porto, 2 de dezembro de 1868

«Eu julgo que vou melhor, asseguram-me os colegas que se não fartam de clamar contra a minha imaginação como a moléstia principal de que padeço. Há verdade nisto, quero crê-lo, ainda que não no grau em que eles dizem.» No Porto, 16 de dezembro de 1868

«...por mais que me assegurem os colegas e amigos que vou melhor, ainda não pude acreditar firmemente que possa voltar para mim a vida de outros tempos [...] Tem-me causado impressão esse abandono de amigos em que me vejo. Sou visitado por muitos médicos, mas uma fatalidade fez com que não pudesse ver a meu lado os rapazes com quem convivia.» No Porto, 20 de dezembro de 1868

«A chuva e o frio de hoje não me deixaram sair. [...] Até quando durarão estas nossas provações?» Sem data

«O nevoeiro desta manhã obrigou-me a sair de casa só ao meio-dia, hora do conselho de Escola. Ainda assim era tal o frio que ia nas ruas, que eu, que passara um pouco melhor de noite, senti que se agravara algum tanto a tosse, concorrendo para o mesmo fim o Conselho.» Sem data

«Passo mais outro dia inteiro em casa e, não sei se por influência desta vida de reclusão, e de quase absoluta separação em que estou da humanidade, têm-se-me exacerbado os meus humores negros e estou, pelo menos moralmente, algum tanto pior. [...] Vou vivendo nisto, até que uma causa maior me obrigue a tomar partido.» Sem data

«Os colegas prometem-me o desaparecimento dos poucos sintomas que ainda me restam, se for passar os meses de inverno nas proximidades de Lisboa. [...] Por isso sorri-me a ideia de viver algum tempo fora deste berço de muralhas e, logo que possa, parto.» No Porto, 5 de janeiro de 1869

«Não sei se estou melhor; julgo que, por enquanto, pouca diferença faz o meu estado físico do que era aí. [...] Sinto menos apreensões ordinariamente [...] ainda não passeei, porque nestes dias de Carnaval era perigoso o passeio em Lisboa.» Em Lisboa, 10 de fevereiro de 1869

«[Camilo] sentiu do coração que a minha doença me não deixasse escrever. [...] As minhas melhoras não são grandes [...] não me satisfazem ainda os meus canais brônquicos. [...] Adeus, não prolongo mais esta carta porque não posso escrever muito ou porque receio fazê-lo.» Em Lisboa, 18 de fevereiro de 1869

«Isto não é motivado por agravação de incómodo; pelo contrário, acho-me melhor e o dr. May Figueira, que me examinou, foi em tudo de acordo com os colegas daí. [...] e eu entrava no Porto a tossir, coisa que me seria muito desagradável.» Em Lisboa, 29 de fevereiro de 1869

«Como, bebo e, se ainda não estou livre da tosse, sinto-me mais forte e bem-disposto. Nos dois meses que tenho ainda para me demorar aqui, espero restabelecer-me.» No Funchal, 19 de março de 1869

«Remeto-te a minha vera efígie, tisnada pelo sol de África. Por ela verás que a doença não me transfigurou demasiadamente o físico [...] Mas não é fácil a um doente passear no campo [...] Apesar de tudo, eu devo ser grato a este clima que se me não curou de todo, deu-me mais vigor e mais resolução.» No Funchal, 5 de maio de 1869

«Volto melhor...» Em Lisboa, 23 de maio de 1869

«Eu também ao acordar fui mimoseado com um leve incómodo, para me não esquecer de que sou doente [...] Já me vou costumando às peripécias da minha doença; aceito-as como factos habituais.» Em Fânzeres, 24 de agosto de 1869

«A minha jornada feita debaixo de um calor insuportável, ainda que principiada sob um nevoeiro de cortar à faca, acabou por afinar o meu defluxo, que tomou as sérias proporções de uma constipação.» Em Lisboa, 14 de outubro de 1869

 

«...nesses dias de luto por que tantas vezes temos passado.» No Funchal, 19 de novembro de 1869

«Não passo mal, porém nunca livre de achaques. [...] não escrevo mais, não só porque estou cansado...» No Funchal, 19 de dezembro de 1869

«A augusta missão [professorado] oferece-me poucos atrativos, desde que a minha saúde não me permite entregar-me a ela como deve ser [...] E eu que farei? Que farei no verão? Que farei no inverno seguinte? Não sei; não posso saber, porque não conto já comigo e, portanto, não formulo projetos. Veremos. A falar verdade eu sou tão inimigo do frio que me há de custar a prescindir na época dele do benefício desta ilha, onde, devo dizer, apesar do inverno relativamente desfavorável que tem feito este ano, ainda não senti coisa que em Portugal merecesse o nome de frio.» No Funchal, 19 de janeiro de 1870

«... ainda não perdi de vista esse período de provação que, mais tarde ou mais cedo, sei que há de voltar para mim [...] aquela grande suscetibilidade que lhe dá a doença. [...] o certo é que me tenho sentido pior.» No Funchal, 20 de fevereiro de 1870

«... apanhei um tremendo defluxo que há uma semana me apoquenta deveras. Escrevo-te hoje constipado, malacafento.» No Funchal, 20 de março de 1870

«... desta ilha, onde pela segunda vez abordei, à procura do ideal que se chama saúde. [...]

As viagens, esse sonho doirado que tanto seduz a imaginação da mocidade, ansiosa como a ave prisioneira, por alargar horizontes e bater asas em demanda de climas novos, transformam-se em amarga proscrição, sempre que os empreendemos forçados por uma triste necessidade e partimos levando o espírito assombrado por uma ideia, ou antes, por um pressentimento doloroso. [...] Com o olhar que a experiência tem amestrado, estudam-vos no semblante as probabilidades de bom ou mau êxito na luta pertinaz da natureza contra o influxo fatal que vos subjuga. E esse prognóstico é quase sempre infalível» No Funchal, março de 1870

«...como faço com os gozos da vida, dos quais uso somente em meia força para não prejudicar a minha saúde [...] O que é pena é que estes prazeres tão puros e consoladores sejam amargurados pela doença, essa terrível perseguidora de nossa família...» No Funchal, em 19 de abril de 1870 

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«Portanto, em todo este longo periodo, apenas de quando em quando uma ou outra voz, como a de Alexandre de Tralles no século IV, se elevava para recommendar aos medicos a observação paciente e minuciosa e o estudo das estações, dos climas, e das mudanças atmosphericas, em suas relações com a saúde e a moléstia. Mas geralmente estas vozes não eram escutadas.»

«O outomno traz de novo as affecções catarrhaes, favorece o desenvolvimento de intermittentes rebeldes, e accelera consideravelmente a marcha fatal de algumas moléstias chronicas, sobretudo d'aquellas que tem sua manifestação somática nas vias respiratórias, como a phtysica pulmonar.»

«Nos climas frios temos as affecções catarrhaes, bronchites, anginas, pneumonias, rheumatismos articulares, blepharites, rhagadas das mãos e pés, congelações, escorbutos, affecções verminosas, rachitismo, escrophu-las, phtysica pulmonar &c. &c.»

«Porém, mesmo que assim não fosse, a meteorologia não devia ser despresada; base principal da topographia e geographia medica, ella será sempre para o clinico de um alcance incontestável. São as palavras do Snr. Boudin que lhe vão fazer sentir o valor: “Para o medico em particular, as applicações da geographia a cada momento lhe são necessarias, quer transportado longe de seu paiz elle se encontre a braços com novas doenças, quer estas últimas sejam importadas do exterior. Além d'isto a cada passo o prático mais modesto pôde ser consultado para formular uma opinião sobre a melhor localidade que deve aconselhar-se a um phtysico, a um escrophuloso &c. &c. N'uma tal conjuncture o clinico, estranho aos estudos da geographia medica, expõe-se a dirigir o doente n'um sentido contrario aos interesses da sua saúde, ou a fazer a triste confidencia de que apenas conhece a pathologia de campanário”»

   Este foi o Júlio Dinis possível, o da escrita e publicação e leitura de quatro romances: um necessariamente de primeiros passos na publicação (As Pupilas do Senhor Reitor); outro necessariamente de primeiros passos na escrita (Uma Família Inglesa); outro deixado ainda em revisão (Os Fidalgos da Casa Mourisca); e um sólido romance de juventude, rondava os trinta anos, (A Morgadinha dos Canaviais). Por esta idade, publicava Camilo novelas à Ponson du Terrail (Os Mistérios de Lisboa) e Amor de Perdição aos quase quarenta; Eça publicaria Os Maias depois dos quarenta. Ambos, Camilo e Eça, tiveram tempo de experimentação e de afirmação. Júlio Dinis não teve. Camilo teve vida atormentada, mas por génio e procura própria. Já Júlio Dinis era de condição temperamental e psicológica favorável à aplicação meticulosa ao trabalho da escrita e ao labor mental conducente ao apuramento da mesma. Falhava-lhe a condição física com repercussão na força anímica, não deixando ele, contudo, de se revelar um resistente até à última hora, apurando ainda Os Fidalgos... A morte saiu-lhe ao caminho cedo e a pena ficou suspensa, escurecendo todas as hipóteses que possamos formular sobre o que seria se tivesse demorado a ser.

 

A SEGUNDA MORTE

            Nas dores de crescimento da literatura portuguesa, Júlio Dinis nunca ocupou lugar nas cenas fundamentais dos necessários conflitos, nunca esteve na barricada. Nem por vocação própria nem por necessidade alheia. Como se não tivesse peso nem ocupasse espaço, esteve sempre arredado de polémicas e foi, de uma maneira geral, tratado — quando foi tratado — com preguiçosa superficialidade. Ramalho Ortigão bem tentou o confronto, mas falhou o passo e estatelou-se no vazio da invisibilidade dinisiana por trás da máscara feminina de Diana de Aveleda, desencorajadora da representação que da mulher fazia o denso burguesismo oitocentista da «ramalhal figura». Camilo Castelo Branco, sim, Camilo foi o único contemporâneo que genuinamente tomou Júlio Dinis a sério e, talvez, o único que compreendeu em profundidade o dinisianismo ao ponto de se sentir ameaçado.  Quando Eça de Queirós — por assim dizer desmotivado — lhe atribuiu a tríplice leveza na vida, na escrita e na morte, cansativamente papagueada depois, estava, isso sim, a transferir para Júlio Dinis a leveza com que o estava a tratar, arredando-o, através da sua frase de efeito, da seriedade da crítica. Ainda se ele fosse um Bulhão Pato! Mas não era.  

     Depois... Depois, no puro e não-miscível espírito da arte segundo o Modernismo, por exemplo, não haveria sequer um lugar de existência, ainda que puramente referencial, para algo a que, à maneira modernista, chamaremos o dinisianismo. O caeirismo é a sua inexistência. O poema VIII de O Guardador de Rebanhos é a inexistência de As Pupilas do Senhor Reitor. O Modernismo atesta definitivamente a impossibilidade de existência do dinisianismo enquanto criação literária; marca um tempo em que a ‘verdade’ poética, no sentido etimológico desta última palavra que não considera distinções poesia/prosa, é necessariamente outra. Nasce o Modernismo e qualquer Júlio Dinis scripturus está morto. Sim, é uma verdade lapalissiana essa de que os mortos não escrevem.  A não ser..., a não ser através daquela coisa a que Harold Bloom chamou a «angústia da influência» que sub-repticiamente os incorpora no próprio ato da sua negação. Júlio Dinis, no entanto, não vai a caminho de tornar-se objeto de rejeição nem explícita nem implícita; Júlio Dinis vai a caminho de se tornar puro objeto da mais cândida ignorância (aquela que se proclama em público como saber), da indiferença, da rasura, do erro ou, quando muito, da fantasmática existência/inexistência pela saudade e pela homenagem. Quando Almada Negreiros se irritou com o academismo ao ponto da proclamação de um manifesto, Júlio Dinis não lhe era sequer um recurso vocabular. Ainda se ele fosse um Júlio Dantas! Mas não era.

     Depois dos Eças e dos Ramalhos que, com a leve pancadinha paternalista, amigavelmente o sepultaram, a erupção do Modernismo esmagou-o, enclausurou-o definitivamente no lugar de epifenómeno. O caminho do romantismo ao realismo fizera-se por antítese e Júlio Dinis não era essa antítese, era uma outra tese. A estrondosa revelação do Modernismo fez-se por escândalo e estrondo, mas escândalo e estrondo não eram certamente os nomes do meio do delicado Júlio Dinis.              

    Júlio Dinis não era nem Pato nem Castilho nem Chagas nem Dantas. Era um Júlio Dinis muito singular, dificilmente redutível a qualquer representatividade escolástica ou grupal; um Júlio Dinis cuja qualidade literária não cumpria os requisitos negativos adequados à sua aceitação como alvo de arremeços achincalhadores. O Júlio Dinis amado pelo povo leitor foi pretensiosamente mal-conhecido por parte do ‘povo’ escritor. O Júlio Dinis detentor de uma escrita literária enraizada no que da banalidade da vida portuguesa pôde observar e motivada por um regenerador projeto corretivo do seu devir, por assim dizer um projeto de felicidade pela leitura, não tinha lido The Patron and the Crocus de Virgínia Woolf, é certo, mas sabia, como ela, que «To know whom to write for is to know how to write». E, nele, o esforço do conhecimento bem ponderado de para quem escrevia e de quem tomava a matéria da sua escrita era obrigação e prazer, era coisa séria. Conversa que tinha consigo próprio e que deixou escrita.

     Curiosamente, o devir da literatura portuguesa faz-se, em momentos críticos, não como emanação de uma fome de futuro por parte do povo leitor, mas — quase-sempre insuflado por fermentos importados — contra o quietismo ou o saudosismo desse mesmo povo. Enfim, os costumes organizativos da corrente contínua da escrita literária portuguesa e seus sobressaltos atribuíram à escrita dinisiana o chamado lugar de «escritor de transição». Nesta ótica, Júlio Dinis tornou-se, por definição, transitório: um não-lugar, nem carne nem peixe nem nada, pois que o que quer que seja uma transição poderá ser encontrado em estado mais puro no seu antes e mais bem acabado no depois que promete, mormente hoje quando tudo é já ontem. Viram Júlio Dinis como um interlúdio, um intermezzo enquanto não vem a substância do próximo ato. Não o viram como um começo interrompido, um começo cuja inteligência inicial não pôde evoluir devido à sua primeira morte. Júlio Dinis foi um sólido e prometedor principiante de algo que, na literatura portuguesa, ainda hoje não tem continuação: uma escrita literária superior enraizada na banalidade da vida. Morreu pouco depois dos trinta anos e viveu a sua curta idade de escrita em ameaça constante de morte. Foi o autor de quatro romances iniciais, quatro romances sem futuro.

     Júlio Dinis, o scriptus, tornou-se uma espécie de azulejo destoante cuja diferença ficou submersa pela relevância do padrão. Uma visão muito aproximada e muito minuciosa poderia distinguir essa diferença, essa identidade, mas tal coisa como um olhar trabalhoso, profundo e sabiamente interessado, não existe lá onde, em termos de atenção, campeia o gregarismo e, em termos de memória, o psitacismo.

    Já Júlio Dinis, o lectus, demorou mais a morrer. Para uma quantidade significativa de leitores, estava ainda vivo em pleno Modernismo e depois.  Estava vivo, mas talvez não fosse desprovido de aviso quem previsse que iria ‘muribundar’ em velocidade crescente. Mesmo sem ter em conta a verdade geral de que, em Portugal, cada vez se leem menos escritores mortos (em boa verdade, quer mortos quer vivos), as proclamações modernistas indiciavam um tempo futuro em que a permanência da leitura de criações literárias à maneira dinisiana que, por aqui e por ali, se iriam ainda fazendo, suscitaria apenas afastamento e malquerença. Iriam chamar-lhe clássico com todas as vantagens e desvantagens, em termos de leitura, que tal classificação arrasta. Em Portugal, os clássicos não são para ler. Em Portugal, arquivar um autor na pasta dos clássicos é uma coisa muito aproximada da piada britânica sobre a inanidade de certas prometidas inquirições. A Escola, encarando a leitura não como um lugar constitutivo mas distributivo, sem pensar muito, mas por lhe parecer que sim, também o iria alijar.

      Seja como for, em comparação com o que se passou na dimensão da escrita, na dimensão da leitura, a morte literária de Júlio Dinis demorará mais algum tempo a efetivar-se. O gosto e a utopia na criação literária vão sempre à frente — e muitas vezes contra — do gosto e da utopia na leitura: começam e morrem mais cedo. Ou seja, e como é natural, a leitura chega sempre depois. O gosto e a utopia dos leitores dinisianos demorou, pois, mais tempo a morrer. Tomemos alguns marcos na decadência da leitura de Júlio Dinis.   

    Na aproximação do declinar do século XIX, anos 70/80 desse século, uma geração de escritores — autodeclarados detentores da mais pura ficção realista do universo citadino e burguês da sociedade portuguesa, mas dedilhando, ainda assim, por outras pautas —assomou, com ousadia, com ruído, com impiedosa ironia crítica, à varanda das proclamações proféticas do futuro da literatura portuguesa e decretou-se como gene da estirpe vencedora no processo da sua evolução. O seu campeão chamou-se Eça de Queirós. Não obstante, o dinisianismo, assim depreciado, permaneceu através da leitura de massas.

Revejamos:

No decorrer de um único ano (1875), três edições de As Pupilas do Senhor Reitor foram pedidas pelo apetite leitor dos portugueses. E, no entanto, nesta década de 70 do ano de 1800, mais de 80% da população portuguesa era analfabeta. Em 1910, As Pupilas do Senhor Reitor eram mais uma vez publicadas em folhetim, desta feita na Revista d’Ovar, e lidas avidamente.     

Entre 24 de março e 28 de junho de 1915, foi publicada a revista literária Orpheu. Em 1915, uma personagem de As Pupilas do Senhor Reitor tinha a honra de, no momento da ‘sua morte’, ser objeto de uma correspondência noticiosa publicada num jornal diário lisbonense. 

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Imagem2.pngIn O Nacional de 29-4-1915

Júlio Dinis morrera em 1871, mas, em 1915, a sua personagem estava viva. Tanto assim, que morreu. E teve a sua morte noticiada. Enquanto ente literário, a leitura identificava-a com um ser vivo e real que nela reconhecia.

Em 1915, saiu a 13ª edição de A Morgadinha dos Canaviais.

Em 1919, saiu a 20ª edição de As Pupilas do Senhor Reitor.

Em 1945, Maria Judite de Carvalho publica, no jornal O Comércio do Porto, um artigo intitulado «Júlio Dinis e as suas personagens», em que escreve: «Quanto à popularidade dos seus romances, disse-me um livreiro que, ainda hoje, são os livros que mais se vendem nessa especialidade literária e que cada nova edição das obras do dr. Gomes Coelho se esgota sempre. Em quási todas as casas em que haja alguns livros se encontram as obras do notável homem de letras portuense.»  

     Na dimensão da leitura, Júlio Dinis manteve-se vivo século XX acima, mas gerando uma apropriação que deixava, na sombra e no esquecimento, aspetos, talvez os mais valiosos, da sua obra. Essa era uma leitura continuada dos seus romances que seguia um guião estandardizado pela fama difundida e herdada dos leitores burgueses oitocentistas. Fama essa que, como guião de leitura e de referência, se mantém incorporada, desde aí e até agora, numa propalada identidade dinisiana sem prova nem argumento. A fama popular foi a sua melhor amiga. A saudade e a fixação desleixada incorporadas nessa fama são os seus piores inimigos. Em muitos aspetos, a leitura transmitida é a leitura herdada de leitores configurados por contextos históricos e pessoais que já não existem. Júlio Dinis tornou-se uma ideia feita, um mito até. Escondido pela luz mítica assim refletida, foi desaparecendo o que dele poderia ter feito um escritor ainda hoje em cima da mesa, mesmo se não lido. Poderia não falhar todas as oportunidades de óbvia referência como falha. À medida que a sua permanência se foi tornando sinónimo de envelhecimento, deixou de ser incensado, no meio literário, como, por alguns, importantes, fora no tempo de estar vivo e ativo. Mais gravosamente do que este abandono pelo meio literário, também o perímetro das suas rodas de leitores, que fora largo, se estreitou até uma receção carinhosa, mas menor, de leitura escolar, de leitura juvenil, a tender para o nada. Desde o espanto em ser lido por uma criança e da reserva de um pai ao encontrá-lo nas mãos da criança, seu filho, testemunhado em jornal da sua época, até ao espanto por merecer, ainda hoje, leituras adultas, Júlio Dinis foi morrendo. Pela segunda vez. A brevidade da sua vida impediu-o de continuar a ser contemporâneo daquilo que se iria — e se foi — tornando o presente que, para ele, não foi senão um futuro inexistente. Júlio Dinis tornou-se um arquipélago de quatro romances de juventude (morreu com trinta e um anos), perdido dos roteiros ativos, submerso numa onda de nostalgia dessorada do nervo que o poderia arvorar em parceiro dos debates e embates em que se vai desfrondando a literatura portuguesa ao longo do século XX e XXI. Nesses debates e embates, não vem, nunca vem à colação. Júlio Dinis foi um escritor seriamente preocupado com a leitura e os leitores como princípio ativo da criação literária.  Enquanto os obreiros do realismo, do modernismo e de outros -ismos, ativos enquanto a obra dinisiana foi escrita, publicada, ou lida, eram puros e acirrados defensores de uma estética boa em si mesma contra tudo e contra todos, iluminada por ideologias de vanguarda ao tempo, autocontemplativa, Júlio Dinis demorava-se a compreender a relação entre as suas convicções estéticas, a matéria da sua escrita e a identidade dos seus leitores. Segundo a sua experiência de vida, segundo a terra que os seus pés pisavam e o seu olhar observava.

     Eça de Queirós confessava, com falsa modéstia e cínico lamento, a Teófilo Braga, em 1878, que trabalhava para três ou quatro pessoas e, a Oliveira Martins, escrevia, num laivo pejorativo, sobre os leitores de folhetins que eram, afinal, a massa leitora para além desses três ou quatro eleitos para quem escrevia: «esses baixos do jornal destinados à imaginação e à novela [...] a que chamamos folhetim». E, apesar de si, de certo modo rendido a um público leitor que não entenderia todas as dimensões da sua escrita, como que lamentava «Dantes, o escritor dirigia-se ao leitor que tinha ócios luxuosos [...]; hoje, dirige-se esparsamente a uma multidão azafamada e tosca que se chama público.» E não esqueçamos que Alexandre Herculano, numa espécie de esfíngico e romântico elitismo, se revoltou contra os proventos que lhe adviriam de serem adquiridos/lidos os seus livros, os direitos de autor, utilizando expressões como «literatura mercadoria» e «literatura agiotagem», último grau de afastamento do destino último de quem escreve: ser lido. A verdade é que acabou por receber os direitos de autor das obras que a Bertrand lhe publicou. Júlio Dinis não era assim. Júlio Dinis inaugurou a importância do leitor, não como recurso retórico já tão querido do Romantismo, mas como elemento material da criação literária. Explicitamente. Inaugurou a importância da leitura, da popularidade na construção da obra, sem pejo nem pena nem renúncia. Não escrevia para os pares, para o meio, para a crítica. Projetou a obra na leitura, sem prejuízo de qualidade e de genuinidade criativa.  Belo triunfo! Difícil. O da consideração da massa de gente de que se fazia a vulgaridade da vida e se poderia fazer a amplificação da leitura. Júlio Dinis vinha assistindo ao triunfo do gosto dessa massa leitora por romances à Ponson du Térrail, mas ia ponderando que, nessa equação, haveria uma outra incógnita para além desse homem tremendo chamado Camilo Castelo Branco. Ponderava, pensava, calculava, recolhia dados de observação e concluía que, no panorama da literatura-leitura portuguesa, faltava qualquer coisa: ele. Para além do prometido Eça que governava uma prosa irresistível, para além do confirmado Camilo e seu nervoso domínio de fiadas de mistérios e exaltações, faltava qualquer coisa: ele. E tinha razão. Que o diga o próprio Camilo que, em carta safadamente amedrontada a Castilho, revela que se sente ameaçado pelo «autor das Pupilas do Abade».

Camilo sobre Júlio Dinis 2.png

Que o diga Eça apressado a dar uma no cravo e outra na ferradura como era e é apanágio dos grandes ironistas. Júlio Dinis, entre um Eça que se avizinhava, um Ramalho que levou à certa por dentro do nome e do discurso de uma mulher, Diana de Aveleda, e um Camilo que multiplicava o tremendismo de peripécias de abades e enjeitados, começou a ser, só começou a ser, um terceiro caminho, o caminho de um sólido romance português, feito de matéria e vida portuguesa enraizada no Portugal profundo e povoado de ideias e emoções de grande rigor psicológico e sociológico, prometedoras de um olhar denunciador e modificador da decadência nacional. Toda a diferença que vai de O Livro Negro do Padre Dinis de Camilo Castelo Branco, publicado em 1855 a As Pupilas do Senhor Reitor de Júlio Dinis, publicadas (em folhetim) em 1866 e (como livro) em 1867. Ambos os romances pertencem ao que poderíamos chamar primeiras obras de um e de outro escritor e ambas congregam personagens clericais que mereceram dos seus autores lugar de destaque nos respetivos títulos: «Padre Dinis» e «Senhor Reitor». A distância temporal entre os momentos da sua publicação (cerca de dez anos) não é significativa em termos de história literária; digamos que os dois romances são contemporâneos.

   A releitura dos primeiros parágrafos de cada um destes romances é uma experiência interessante e reveladora.

LIVRO NEGRO DE PADRE DINIS

    «Em 1780, no palácio do enviado extraordinário a Roma, por alta noite, entrava uma mulher com uma criancinha ao colo. Aproximou-se, com ela, do leito dum agonizante, e a criancinha, de dois anos, estendeu os braços a receber a mão, quase cadáver do enfermo, que já mal a via. O agonizante era o representante de Portugal na cúria romana. A criancinha era o filho da condessa do Viso e de D. Álvaro de Albuquerque. A mulher, que tremia com ela nos braços, na presença do pavoroso quadro da última agonia, era a veneziana que acompanhara Albuquerque a Roma.Nesta câmara, lugubremente alumiada, estava um moço de trinta anos, quando muito, braços cruzados, olhos ardentes, faces pálidas, vestido à corte de D. João V, como quem saíra do sarau dum banqueiro opulento da Itália, para entrar no quarto sombrio dum moribundo. Era o marquês de Luso, meses antes chegado a Roma, com poderes novos de D. Maria I para negociações secretas com S. Santidade. E o certo é que, meia hora antes, o cortesão de casaca recamada de oiro e o enfermo, que se estorcia no lençol ensopado de suor, um e outro, folgados e alegres, tinham chegado dum opulento festim, galhofando, como rapazes que não cediam a nenhuns em gentileza, acerca de conquistas principiadas para o que viera de Portugal depois e conquistas desprezadas para o que viera antes. E bem podiam, porque mais duma sobrinha de cardeal, muito parecida com o tio, se lhes afiguravam legítimas representantes das Délias, das Lésbias e das Messalinas. Boas e conscienciosas eram as suas risadas, quando Paulo d'Albuquerque sentiu uma revolução repentina, dentro em si. Levou a mão ao peito, e disse: «Tenho aqui uma lavareda.» Comprimiu com ambas as mãos a cintura e estorceu-se como mordido nos intestinos por uma víbora. Rasgou desesperadamente os doirados alamares da casaca, arrancou as fivelas dos calções e lançou-se de bruços sobre o leito, pedindo a altos gritos um qualquer remédio que o salvasse das mortais aflições que sentia dilacerarem-no por dentro. O marquês de Luso saíra aterrado. Voltou com um médico, homem de poucas palavras e de inteligência penetrante para conhecer, ao menos, que não podia dar vida àqueles que a morte lhe tomava sem consultá-lo.

«Morre indispensavelmente.» Foram as suas únicas palavras.

«Que morte é esta? — perguntou o marquês.

«É a morte do envenenado.» — respondeu tranquilamente o doutor.

«Retire-se.» — disse o agonizante.

O médico teve a prudência de não disputar a presa às garras do túmulo e saiu, lamentando a mesquinhez da ciência ou a omnipotência da morte. Paulo d’Albuquerque apertou a mão do marquês e disse com a voz cortada por atormentados ímpetos de dor:

«Quatro portas adiante da minha, mora uma mulher, que se chama Luiza. Vai lá e já. Diz-lhe que venha aqui... e traga consigo a criança... »

«A criança!» — murmurou o marquês e saiu.

Voltando, encontrou o envenenado num espasmo, que se lhe afigurou uma crise salvadora. A um aceno, aproximou-se ao leito.

«Morro envenenado pelo cardeal Pozzebonelli...»

«Quando foste envenenado?»

«Faz hoje vinte dias... num jantar... Era um rival perigoso... »

«Tens a certeza?»

«Tenho...»

«Eu te vingarei!»

«Não quero... A vingança antecipei-a eu. Esse homem deve morrer amanhã, porque foi envenenado hoje... por mim.»

«Por ti!»

«Sim... por mim... O demónio ludibriou-nos a ambos... não falemos mais nisto, que me foge a luz... Vem aí essa mulher com um menino...»

«É teu filho?»

«Não...»

«Pois de quem?»

«É segredo que vai comigo... Não te importe saber de quem... Entrego-to e com ele um cofre, guardado ali naquele caixão, e dentro cem mil cruzados em oiro, com algumas joias.»

AS PUPILAS DO SENHOR REITOR

      «José das Dornas era um lavrador abastado, sadio, e de uma tão feliz disposição de génio, que tudo levava a rir; mas desse rir natural, sincero e despreocupado, que lhe fazia bem, e não do rir dos Demócritos de todos os tempos — rir cético, forçado, desconsolador, que é mil vezes pior do que o chorar. Em negócios de lavoura, dava, como se costuma dizer, sota e ás ao mais pintado. Até o Sr. Morais Soares teria que aprender com ele. Apesar dos seus sessenta anos, desafiava em robustez e atividade qualquer rapaz de vinte. Era-lhe familiar o canto matinal do galo, e o amanhecer já não tinha para ele segredos não revelados. O sol encontrava-o sempre de pé, e em pé o deixava ao esconder-se.  Estas qualidades, juntas a uma longa experiência adquirida à custa de muito sol e muita chuva em campo descoberto, faziam dele um lavrador consumado, o que, diga-se a verdade, era confessado por todos, sem estorvo de malquerenças e murmurações. Diz-se que — quem mais faz menos merece, e que mais vale quem Deus ajuda do que quem muito madruga, e não sei o que mais —; será assim; mas desta vez parecia que se desmentira o ditado ou pelo menos que o facto das madrugadas não excluíra o auxílio providencial, porque José das Dornas prosperava a olhos vistos. Ali por fins de agosto era um tal de entrar de carros de milho pelas portas do quinteiro dentro! S. Miguel mais farto poucos se gabavam de ter. Que abundância por aquela casa! Ninguém era pobre com ele; louvado Deus! Como homem de família, não havia também que pôr a boca em José das Dornas. Em perfeita e exemplar harmonia vivera vinte anos com sua mulher, e então, como depois que viuvara, manifestou sempre pelos filhos uma solicitude, não revelada por meiguices — que lhe não estavam no génio — mas que, nas ocasiões, se denunciava por sacrifícios de fazerem hesitar os mais extremosos. Eram dois estes filhos — Pedro e Daniel. — Pedro, que era o mais velho, não podia negar a paternidade. Ver o pai era vê-lo a ele; — a mesma expressão de franqueza no rosto, a mesma robustez de compleição, a mesma excelência de musculatura, o mesmo tipo, apenas um pouco mais elegante, porque a idade não viera ainda exagerar a curvatura de certos contornos e ampliar-lhe as dimensões transversais, como já no pai acontecia. Conservava-se ainda correto aquele vivo exemplar do Hércules escultural. Pedro era, de facto, o tipo de beleza masculina, como a compreendiam os antigos. O gosto moderno tem-se modificado, ao que parece, exigindo nos seus tipos de adoção o que quer que seja franzino e delicado, que não foi por certo o característico dos mais perfeitos homens de outras eras. A organização talhara Pedro para a vida de lavrador e parecia apontá-lo para suceder ao pai no amanho das terras e na direção dos trabalhos agrícolas. Assim o entendera José das Dornas, que foi amestrando o seu primogénito e preparando-o para um dia abdicar nele a enxada, a fouce, a vara, a rabiça e confiar-lhe a chave do cabanal, tão repleto em ocasiões de colheita.»

  No rolar das idades da literatura portuguesa, o enfraquecimento da relação com os leitores — progressivo e inelutável — do que não era nem Camilo nem Eça, nem nenhuma outra coisa senão ele, Júlio Dinis, foi a sua segunda morte.

A TERCEIRA MORTE

  Júlio Dinis deixou, pois, quatro romances que poderiam ter perdurado como referencial insubstituível na leitura tempo adiante, atuais pela leitura como são os clássicos, vivos, lembrados a cada oportunidade, selecionáveis à ocorrência de cada programa, exemplares em cada discurso, emparelháveis com Eça e Camilo. Não digo lidos, porque os portugueses não o leem, ou melhor — ressalvado em ou pior    os portugueses não leem. Não leem, mas conhecem nomes de escritores do passado, nomes que lhes ocorrem quando se fala de escritores. No cardápio de nomes, Eça e Camilo são campeões. Júlio Dinis, não. Os portugueses são muito comparativos. Quase não sabem referir sem comparar. Adoram pares. Garrett e Herculano, Camilo e Eça, Saramago e Lobo Antunes... Se lhes surge um terceiro ao despique, por exemplo Júlio Dinis, ficam confusos, perturbados, descartam-no. E, no entanto, sem Júlio Dinis em pé de igualdade com um Eça e um Camilo, a visão-debate, de hoje, sobre a literatura portuguesa que nasce no decorrer da segunda metade do século XIX e seus derivados, fica seriamente amputada. Júlio Dinis não era aquela coisa leve com que Eça nos acenou. Júlio Dinis pensava a literatura, refletia sobre a criação literária, sobre a arte do romance, com sentido crítico, com competência analítica, fazia escolhas. Se lermos o seu ensaio Ideias que me ocorrem, que escreveu durante uma das suas fugas para a Madeira em busca de vida, veremos quão atento e quão seguro das suas posições frente à produção romanesca do seu tempo ele era.  Algumas linhas: «Porque é que está em deplorável e espantosa decadência o romance de imaginação? Porque se tem derrancado o género até às indigestas e escandalosas produções de Ponson du Terrail? Exatamente por não pretenderem prender o leitor senão pela sucessão rápida das peripécias e dos lances imprevistos. Nem uma análise de caracteres, nem um curto olhar lançado ao íntimo do coração humano a devassar o que lá é de costume encontrar-se e não nenhuma dessas monstruosidades, que poderiam ter existido num ou noutro coração, mas por exceção, e que o leitor não tem decerto no seu. Não caluniem o público dizendo que é só desse alimento que ele digere. Não é assim. Vós sois que o alimentais há muito nesse vicioso regime, que, sem dar sólida nutrição, estraga o paladar, cuja sensibilidade embotada exige estímulos cada vez mais acres e irritantes. Há uma lei do gosto literário em que eu acredito firmemente. O excecional, o extravagante, o desregrado não é o que desperta nos leitores ou nos espectadores o mais verdadeiro, o mais duradoiro interesse; pelo contrário, é o comum, o vulgar na justa aceção do termo. Quando encontramos em um livro pensamentos que já tivemos um dia, sentimos agradável surpresa, como ao darmos em um lugar, inesperadamente, com uma pessoa conhecida; quando no carácter, no coração de uma personagem literária há alguma coisa que é nossa, quando nos reconhecemos em parte personificados numa criação, redobra o interesse com que o acompanhamos nas peripécias do drama. É por isso que eu gosto dos romances lentos, em que o autor nos identifica bem com as personagens entre quem se passa a ação antes de a travar.»

   Perceberemos que os seus romances, enquanto construção literária, são fruto de um pensamento, por um lado, teórico, por outro, pragmático. E constituem uma escolha de mudança em relação ao panorama vigente. Uma mudança que se revelou acertada e fez, senão tremer, pelo menos contra-atacar os que aí ocupavam lugar reconhecido. Arriscada, mas acertada como se viu pela receção obtida.

  A retirada de Júlio Dinis, já não do palco da popularidade que tanto tempo e tão intensamente ocupou, mas do debate literário atual, foi a sua terceira morte.

  Foram precisos três golpes para o fazerem desaparecer: o da doença, o da quebra na leitura, o da inexistência no debate. Júlio Dinis não era leve, era forte.

   

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por Maria Almira Soares às 14:19



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