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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Terça-feira, 06.05.14

CARTA AOS MEUS ÚLTIMOS ALUNOS II

 

   

Nos últimos anos tornastes-vos mais cépticos, meus alunos! Noutros tempos, não o éreis tanto. Vínheis ainda bastante convencidos de que a Escola sabia algumas coisas importantes. De que a Escola era fiável. Agora nem tanto. Adoptastes a postura da desconfiança, da indiferença sobranceira. Coisa que, em verdade, nada me admira. A Escola esforça-se muito por evitar qualquer desnível entre o dentro e o fora dela; a Escola, pobre dela, atingida por um complexo gregário, força-se a tornar-se parecida com a vida, almejando ser reconhecida como sua igual, mas esse esforço inútil e impróprio, é evidente que está, por definição, votado ao fracasso. Malgrado esse tonto desiderato, restam sempre algumas coisas que a Escola tem de vos ensinar, coisas que desconheceis e que ela tem de vos ensinar. E vós, que, de certo modo, julgais já tudo saber, que julgais tratar-se da mania, que a Escola tem, de inventar qualquer coisa para marcar ainda algum terreno seu, encolheis os ombros e lá ides calculadamente disfarçando a vossa genuína indiferença.

    Quando me lembro de vós e vos vejo, parece-me que gostaríeis de que a Escola só vos dissesse que sim, servisse apenas para oficializar o que já sabeis, para vos ratificar a vós que vindes já todos feitinhos por um mundo superpovoado de tanta e tão truculenta informação. Gostaríeis que a escola só vos fizesse as perguntas para as quais já possuís as respostas. Ou, pelo menos, respostas aproximadas que estais convencidos de que servem perfeitamente e que a Escola, como um parceiro benévolo, deveria aceitar. Por isso, ficais de certo modo ofendidos e perplexos, como se não estivésseis a ouvir bem, como se se tratasse de um problema de tradução, quando vos recuso peremptoriamente respostas imprecisas, pouco rigorosas, ainda que sensivelmente parecidas com o que poderia e deveria ser. É como se, acerca de tudo e de cada coisa de que a Escola tem de tratar, já tivésseis ouvido falar neste mundo que de tudo fala.

 (Excerto de Carta aos meus últimos alunos - 2008)

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por Maria Almira Soares às 14:05


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