Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Sábado, 01.03.14

CHOCOLATES LITERÁRIOS

 


 

[A propósito da Comunidade de Leitores LER DOCE LER quando habitava em Telheiras, na oficina de chocolate DENEGRO.]


O chocolate é um tema com alguma literatura. Não tão exígua que, dela, se não possa fazer selecção.O chocolate, cuja primeira leitura é a de coisa doce, não tem, como tudo na vida, apenas esse lado da doçura. E essa complexidade não a perde, antes a refina, quando ascende à categoria de literário. Também os chocolates literários têm o seu lado doce e o seu lado amargo. Todavia, penso seja aconselhável começar pela doçura, embora não esteja absolutamente certa de que a minha opção pelo doce não venha a redundar em amargor. Os bombons. Os bombons de Brel são o meu primeiro chocolate literário. Literário, sim. Brel canta poemas, os poemas que cria. Brel, o poeta belga, o da terra da arte do chocolate. «Je vous ai apporté des bonbons». «Les bonbons c’est tellement bon!» Neste poema, os bombons disputam com as flores, que são aqui mais efémeras, o lugar do argumento amoroso. «Parce que les fleurs c’est périssable.» É que a efemeridade dos bombons é uma absorção, uma assimilação, uma dulcificação. O chocolate como linguagem do amor, da conquista amorosa, mas também do drama: «Je viens rechercher mes bonbons.» Do ciúme, do despeito, do afastamento. São aqui o símbolo do doce/amargo do amor: os bombons. Na arte do chocolate, o bombom é já um ponto de chegada. Quando chegamos à delicadeza, ao melindre do bombom, estamos já no ponto de síntese de muito trabalho amargo. Jorge Amado, o das Terras do Sem Fim , escreve o lado amargo do chocolate. É neo-realista!? E depois? É bela esta sua escrita amarga de onde a doçura se decanta. O realismo poético da luta entre a mata natural e a plantação do cacaueiro movida pela ambição materialista, pelo vício da ganância: «contavam que o dinheiro era fácil, que era fácil também conseguir um pedaço grande de terra e plantá-la com uma árvore que se chamava cacaueiro e dava frutos cor de ouro que valiam mais que o próprio ouro». O florescer no verão e o amadurecer no inverno («E terminaram os dias cálidos do verão e voltaram as chuvas longas do inverno, amadurecendo os frutos dos cacaueiros, iluminando de ouro as roças fechadas de sombra.»), a reger um crescimento cheio de contradições até à contradição radical da morte: «Carne vai ser estrume de pé de cacau, cada muda vai ser regada com sangue deles». A literatura a fazer-nos disparar do artificialismo do bombom à consciência dos mundos submersos na sensitividade imediata em que vivemos: eis um chocolate literário da minha selecção, da minha predilecção.

Perante o chocolate todos somos crianças. Como perante uma boa história infantil. E uma boa história infantil é aquela que não é apenas apetecida pelas crianças, embora as crianças sejam loucas por ela. Como o chocolate. O Barco de Chocolate de Cristina Norton, ilustrado por Danuta Wojciechowska, é um desses casos. Pode aparentemente ser uma história estranha: «um barco de chocolate que atracava nos portos mais importantes para que as crianças gulosas de todo o mundo pudessem viajar nele». As histórias infantis, quando são boas, transcendem a dicotomia do doce-amargo. Que perguntas, que perplexidades terão as crianças ao lerem/ouvirem ler esta história? A apologia da gula?! A animalização de se sentirem como «formigas numa caixa de bombons»?! Mas afinal trata-se só de uma história. De uma história: o que é muito, o que é quase tudo. Porque o mundo maravilhoso da leitura e da leitura infantil também faz medo, faz dor, pode fazer até uma grande dor de barriga, mas é só a brincar. «Quando fossem crescidos, iam contar a história aos filhos e depois aos netos, para que se um dia aparecesse no horizonte o barco de chocolate eles soubessem reconhecê-lo». E o que é viajar no «barco de chocolate»? O que é reconhecer o «barco de chocolate»? Importante é saber reconhecer o «barco de chocolate» e não ter pejo de o comer. Em qualquer idade. Esta história tem a sua genealogia. Não há quem se não lembre da clássica casinha de chocolate que outros, noutras circunstâncias, também comeram. Curiosamente, porém, à casa que Hansel e Gretel comeram e que os aprisionou, os Grimm não a fizeram de chocolate. Bastou-lhes que fosse de pão doce («and when they approached the little house they saw that it was built of bread and covered with cakes, but that the windows were of clear sugar»), para que a fome dos meninos perdidos na floresta lhe não resistisse. Porque achocolatámos nós a casinha da velha história? Nós, os saciados, os fartos, os gulosos?! A querermos ser também avisados das tentações, dos perigos do chocolate. O chocolate como ameaça. O chocolate essa coisa frágil, dúctil, tão facilmente alterável, que até a água ameaça. Frágil como a escrita que se apropria do génio e do vulgar, da culinária da vida e da vida da culinária, forjando best sellers, imparáveis na gula ledora, que é para o livro como a água para o chocolate. A gula que lê como quem come chocolates. Como a pequena suja que comia chocolates no poema do génio. «Come chocolates, pequena…» Mandamento profético que não apazigua o que busca o impossível da verdade. Mas alguém lha devolve, a verdade, no aceno quotidiano, ao sair da porta da tabacaria fronteira: o real por fora, gente real que se cruza e se cumprimenta, fala de suas vidas, do que lê também. Gente que se junta para conversar sobre o que lê. Isto de gente que se junta nos tais «oásis de inutilidades ruidosas», noutro poema do génio, é coisa antiga e metamórfica que vai vogando ao sabor das novidades que, vindas de algum lado, sempre chegam. Do chocolate também, que já teve o seu momento de ser a novidade. A novidade polarizadora do convívio, nas seiscentistas chocolate houses londrinas. Tomava-se o chocolate e conversava-se: de política, da sociedade, do quotidiano… Foram-se as chocolate houses, mas o eterno aceno do humano, em suas efémeras tertúlias, ficou. Alguma coisa fica sempre do que se vai. As mais famosas tornaram-se gentlemen’s clubs. Uma das mais famosas, a White’s Chocolate House, é, ainda hoje, um prestigiado clube londrino em St.James. Às vezes a água do rio, aquela que não pára nunca de correr, divide-se. Mas, às vezes ainda, volta, já diferente, a reunir-se. Não é numa chocolate house seiscentista nem sequer num exclusive english club, aquilo em que estou a pensar. Penso numa oficina de chocolate ali para os lados de Telheiras onde há bombons reais por fora, chocolates literários por dentro. Lá, na oficina de chocolate, DeNegro chamada, come-se chocolate, sim, mas também se reúne uma Comunidade de Leitores. Reúnem-se leitores em tertúlia sobre as suas leituras doces e amargas, com a metafísica possível de quem gosta de chocolate. E de livros.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

por Maria Almira Soares às 21:54



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Março 2014

D S T Q Q S S
1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031