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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Terça-feira, 28.01.14

LEITURA & DOÇURA

A comunidade de leitores LerDoceLer — recebeu este nome quando se reunia numa oficina de chocolates e, daí, a associação entre leitura e doçura — vai trocar leituras de PORTUGAL, HOJE — O Medo de Existir de José Gil nesta quinta-feira, 30 de janeiro, na mercearia cultural «A Mimosa da Lapa».

 Reli o livro.

 

Com a devida vénia, tomo o título de uma obra de Óscar Lopes como entrada para algumas reflexões, coisas pensadas depois desta releitura.

LER E DEPOIS

O fechamento, antídoto do crescimento — seis notas.

1. Os dados que a voragem estatística não para de captar são sinais importantes para a modelação do exercício de poderes vários. Em função de contagens de audiências, de consumos, de acessos, de escolhas, de gestos, de acontecimentos, as práticas maioritárias, assim determinadas, caucionam decisões, atrofiando a afirmação de liberdade e adensando a massificação, a normalização, das atitudes.

2. A histórica experiência do custo negativo da inserção no espaço público é, talvez, a causa do não-reconhecimento, da não-assimilação  desse mesmo espaço público e da sua concomitante menorização, em prol da dimensão pessoal:

— constantemente, a dimensão pública de uma crítica é escamoteada, sendo esta recolocada no âmbito do que é pessoal;

— numa discussão cujo objeto deva situar-se na esfera distanciada própria do espaço público e institucional, as referências depreciativas são rapidamente assumidas como ataques pessoais e desencadeiam reações condicentes.

Este apagamento do espaço público deve-se mais à sua rejeição atávica, a um certo sentido da conveniência, a modos assumidos como princípios, do que ao medo. Assim, porque não colocamos os problemas na esfera pública e não acionamos dispositivos públicos (ou nem sequer os temos), servimo-nos de cadeias emocionais, vividas voluntária e pessoalmente: a famosa solidariedade portuguesa e o nosso «humanismo», demonstrados em ações, as mais das vezes pouco construtivas, limitadas, circunscritas a efeitos imediatos, que se não concretizam em mudanças de fundo. Se, mesmo assim, chegamos a inscrever-nos de modo institucional, logo nos apressamos a saber como contorná-lo. A «democracia afetiva» prolifera em cantos de louvor a um certo entendimento de «humildade», produz o nivelamento por baixo e gera repugnância pela via institucional, pelo espaço institucional da vida, pela visão institucional dos factos.

3. Eça dizia de Júlio Dinis (escritor representativo de um certo modo de ser português que, sob outras formas, ainda perdura): «viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve». Começa a tornar-se insustentável a leveza (leia-se leviandade que é palavra cognata) com que se diz e contradiz, se faz e contrafaz, como se nada tivesse peso ou preço. Nem o significado das palavras inscrito no dicionário se inscreve. Está em voga a irresponsabilidade do significado das palavras usadas no espaço público: ao debate, não respondem. O espaço público como lugar de debate é um círculo vicioso imprestável e improdutivo, um mero preenchimento de entradas pré-definidas: João que chora/João que ri; palhaço pobre/palhaço rico; polícia bom/polícia mau: um/dois, esquerda/direita. O debate anula-se numa mecânica televisiva movida por parelhas de ‘bonecos’ sediços que limita o pensamento original.

4. A recusa defensiva do risco — rosto do conformismo — dificulta o diálogo, o encontro de um plano em que o acordo entre discordâncias seja possível. Só por engano arriscamos e ironicamente somos facilmente enganados, porque, afinal, é fácil enganar os espertalhões: quem não marca sofre. Entre «o mais vale um pássaro na mão...» e a fábula A Raposa e o Corvo, a arrogância vai rimando com ignorância.

5. Porque, historicamente, à burocracia concedemos um importante papel existencial, recalcitramos medrosos da sua abolição, por insegurança e medo do vazio de pensamento crítico, que a sua inexistência abriria.

6. Cada português, cada grupo, cada corporação, muitas vezes sem sequer se dar conta disso, imputa responsabilidades, excluindo-se: acusamos o sistema, a instituição, a sociedade, o bairro, a família, os outros, como se, num cume de irracionalidade, fôssemos intocáveis pelo meio que tocamos e nos toca.

 

 

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por Maria Almira Soares às 21:43


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