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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Sexta-feira, 27.07.18

LER É MAÇADA?

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada [...

...................................]

        Fernando Pessoa, «Liberdade», in Cancioneiro.

O que diz Pessoa...

       Fernando Pessoa, em um verso do poema LIBERDADE, diz que «ler é maçada».

     Leio estas suas palavras, eu para quem ler é paixão, e, ao contrário do que ligeiramente se poderia pensar, nenhuma perplexidade me toma, nenhum abalo sofre o meu amor ao Poeta. Tranquilizam-me e esclarecem-me não só o seu currículo de leitor, mas também a indubitável importância da leitura para que ele tenha sido quem foi. E sei, sabe quem o lê, que não foi por obrigação entediante que Fernando Pessoa foi quem foi.

     Numa lógica precisamente contrária — e que bem laborava Pessoa a exatidão de uma relação de contrários — penso que esta sua proclamação da maçada de ler, feita num poema tão exultante como um hino à liberdade, radica precisamente na sua genialidade de leitor e de escritor.

     A afirmação de Pessoa «ler é maçada», correndo o risco de confundir, ilumina. Conduz-me, certeira, ao cerne da questão que, aqui, analiso. As perguntas que me suscita são estas:

     — Como chegar a um patamar, a um estatuto de leitor, tão livre, tão seguro de si e tão natural, capaz de permitir — sem medo nem preconceito — fazer, da leitura, metáfora do que é maçador, num poema em que se canta o prazer de uma liberdade tão radical?

     — Como chegar aí, a esse estatuto de leitor, e evidenciá-lo ante aqueles para os quais ler poderá ser, e sem jogo poético, uma maçada?

     — Como dar, da leitura, a imagem de um bem tão seguro e tão natural, de um gosto tão necessário, de uma coisa tão impossível de não ser nossa, que até nos poderemos dar ao luxo de a associar à ideia de maçada?

     — E, sobretudo, como enraizar a leitura em camadas profundas da nossa maneira de ser e estar, como coisa tão necessária, segura e natural, que não se perca, apesar dos contextos que teimam em fazer com que a percebamos como uma maçada?

     Algumas respostas satisfatórias — ainda que incompletas — para estas perguntas, poderão, talvez, provir da observação, atenta, dos modos e processos, hoje em dia repetidamente praticados sobretudo com crianças, com vista à criação e ao desenvolvimento de leitores. Da sua observação atenta e consequente reflexão.

 Dentre as pessoas leitoras investidas na elaboração e na execução desses modos e processos de fazer crescer e amadurecer a leitura, os professores, os bibliotecários, os leitores públicos, os contadores públicos de índole vária, os detentores institucionais do poder distributivo do livro e da leitura têm um estatuto privilegiado, já que a sua condição implica e reforça a desejável experiência de ler. Ora, neste âmbito, uma das componentes que acho interessante observar é a das reflexivas consequências que essas pessoas — privilegiadamente leitoras — tiram da sua condição especialmente experiente da leitura, para, a partir delas, deliberarem sobre o tipo de interação a ter com as crianças e com os jovens.

   Por isso — e continuando em busca de respostas para as minhas perguntas iniciais — suponho que seja interessante observar como os professores, os bibliotecários, os chamados ‘animadores’ da leitura, proporcionam às crianças e aos jovens a experiência de ler ou de assistir a leituras, de modo a que estas se lhes não representem como maçada a rejeitar. Estou convicta de que, para o melhoramento dos caminhos conducentes à concretização plena deste desiderato, será importante e útil refletir sobre as linhas de pensamento subsumidas na elaboração e prática das múltiplas sessões produtoras de momentos de leitura com crianças e jovens. Momentos, sim, mas momentos que queremos tornar fonte de permanências.

       Reflitamos, então, sobre as possibilidades de esses momentos se expandirem, perdurarem, permanecerem, nas crianças e nos jovens, sob forma de uma vontade de ler que não se restrinja a um episódio bem sucedido e apagador momentâneo da tal maçada pessoana; reflitamos sobre as possibilidades de esses momentos não se ficarem apenas por ser lampejos eufóricos, exorcizadores da maçada de ler; reflitamos sobre as possibilidades de esses momentos não ficarem encerrados numa fase das suas vidas marcada pela infantilidade ou pela juvenilidade.

   De facto, há um mas, há alguns mas, que a minha observação e reflexão me pedem que interponha nesse panorama — intenso e pleno de vitalidade — de planos continuados e abrangentes de motivação para a leitura, envolvendo crianças e jovens.

No pressuposto de esconjurar a palavra que Pessoa tão livremente atira contra a leitura, maçada, numerosas atividades educativas, destinadas a fazer, das crianças, crianças leitoras, têm vindo a ser desenvolvidas com intensa vitalidade recíproca, sim, mas...

   Mas, sendo intensos, esses encontros com a leitura, deixarão eles uma inscrição perdurável no gosto e no desejo de ler das crianças e dos jovens? E, se não, porquê? E se um quantum de submissão a essa antipática palavra pessoana se revelasse mais profícuo?

   Para tentar responder a esta questão de, na educação infantil, a crescente pujança da leitura como coisa agradável e lúdica ter ou não ter consequências perduráveis, acho útil fazer um recuo na minha reflexão.

   Assim, começo por elaborar, não ainda sobre a educação especificamente votada à leitura, mas sobre educação em geral, sobre alguns aspetos do processo educativo genericamente considerado.

   A educação, em todas as áreas (e daí que na área da leitura também), é um processo que se desenvolve por aprendizagens cujo mecanismo de sucessividade é o da imbricação. O seu impulso de avanço tem de simultaneamente recuar a uma incompletude anterior que, trazida do patamar precedente, é o lugar de encaixe do patamar seguinte que, por sua vez, contém, em aberto, novas necessidades-desejo propulsoras de nova aprendizagem que, por sua vez, hão de deixar em aberto... e, assim, sucessivamente.

   Estar a ser educado é, pois, um processo perifrástico contínuo e não uma soma de sincronias conclusas, cabalmente satisfeitas. O processo de educar (na área da leitura também) não é — acrescento ainda — uma fiada ou um amontoado de momentos de aprendizagem enfileirados apenas pelo tempo.

   Em suma: a satisfação de um desígnio educacional só se completa se cada aprendizagem orientada para tal desígnio cuidar de criar também o vazio a vir a ser habitado pelo desejo de outra aprendizagem ainda, e outra ainda, e outra ainda... Assim: cada uma dessas aprendizagens não deve limitar-se a ser sentida apenas como satisfação/realização, mas também como estímulo para o novo, para o ainda desconhecido: como estímulo para o novo e como capacidade para o enfrentar.

     Da perceção-sentimento de ter aprendido, deve fazer parte o desejo-necessidade do ainda não-conhecido, ou seja: porque já sei isto ou porque já sou capaz de fazer isto, é que ganho consciência de que ainda não sei fazer aquilo ou ainda não sou capaz de fazer aquilo, mas quero saber e fazer aquilo.

   Para que não seja efémera mas efetiva, a educação vai sendo sempre um processo de resultado em parte diferido, de resultado não cabalmente imediato, sustentador de novos e superiores horizontes. Em cada momento, deixa sempre em aberto algo de ainda não-aprendido que aponta para o futuro. É esta maçada da insatisfação que a torna perdurável através da metamorfose de um saber passado num saber futuro mais profundo e mais abrangente. Não será perdurável, se uma autossatisfação cabal — erradicadora de qualquer tom menos embalador e de qualquer textura menos macia — encerrar cada etapa da sua prossecução, como acabada em si mesma sem fermento de futuro. Para ser perdurável, há de deixar em aberto uma margem de insatisfação. Em educação, a sensação-experimentação-memória de que sobrou alguma coisa de que ainda não sou capaz é preciosa para o meu desenvolvimento futuro. É talvez uma maçada termos de o reconhecer, mas esta sensação de dificuldade, de desagrado no imediato, não significa rejeição, mas promessa e desafio. Assim também, estou convicta, no que diz respeito à educação do leitor.

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por Maria Almira Soares às 11:38


1 comentário

De Francisco a 30.07.2018 às 16:53

Na minha interpretação ao poema, e lendo o que ele abomina ou idolatra, vejo-o como uma necessidade de apresentar o homem como um ser consciente de si.
«Ler é maçada» pois ler é escrever o que já está escrito. É viver o que já foi vivido, é sentir o que já se sentiu. Há nesse processo um desconcerto na mente que a obriga a querer mais que isso, que nos obriga a viver o presente, sendo ele avaliado pelos nossos olhos e não pelas letras dos outros.
Pessoa com este poema apela à aprendizagem livre das pessoas para com as coisas, sem livros ou documentos dizendo o que estas supostamente deveriam sentir ou fazer com elas, partindo de livre arbítrio a escolha e não do predefinido.

Claro que não se deve erradicar a leitura, Pessoa vivia rodeado de livros, um poema é um sentimento, e naquela altura Pessoa teve este, das pessoas irem além da leitura, de irem além do que já está feito, pois o que se conhece é chato, daí o «Ler é maçada», um apelo para as pessoas fazerem os seus próprios feitos, escreverem os seus livros, e julgar o mundo com os seus olhos!

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