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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Terça-feira, 03.10.17

NUNO E OS SEUS IRMÃOS

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 A comunidade de leitores LERDOCELER vai conversar sobre GENTE FELIZ COM LÁGRIMAS de João de Melo no próximo dia dez de outubro.

 

A PEGADA POLÍTICA no romance GENTE FELIZ com LÁGRIMAS

     Se «a política numa obra literária é», como escreveu Stendhal, «um tiro de pistola num concerto», o estampido mais atroador em Gente Feliz com Lágrimas é a pisadela funda do vil monstro salazarista sobre uma família/sociedade ferozmente patriarcal e miseravelmente autoritária. No tabuleiro familiar e social do salazarismo, o medo e a pobreza são as principais fontes da energia que move as pedras do jogo permitido. O jogo da vida joga-se sob o medo cuja figura fundamental é, neste romance, o pai, incansável gerador de violência, de subserviência, de mentira, de conformismo, de ignorância, de sofrimento.

     A figura do pai violentamente autoritário — cujo comportamento é bruto, alucinado, eticamente cego — embora seja tão absurda como um ser humano sem consciência, naquele tempo-lugar é aceite como uma criptoméria na paisagem. Ergue-se e enraíza-se como se fosse parte da flora local e é moralmente muda como os animais que engordam nas pastagens. No quadro familiar patriarcal, é-lhe permitida uma força, sobre a vida e sobre a morte, próxima da selvajaria natural. O salazarismo também é isto. Ali, na Achadinha crismada Rosário, pelas primeiras décadas da segunda metade do século XX, estamos num dos territórios mais densamente cegos da cegueira do negrume salazarista. Ali, o desequilíbrio entre autoritarismo e resistência pende, de modo quase-absoluto, para o lado da submissão ao dictat sem escapatória da pobreza, da ignorância, da violência, do silêncio, da servidão, da quase-animalidade.

   Sobra o sonho, os sonhos.

   O sonho próprio da condição humana e a condição humana sempre cercada pela conjuntura política. A Achadinha/Rosário, Nordeste, São Miguel, Açores, sofre um duplo cerco: o dos longos tentáculos da ideologia e do regime político e o do mar. O sonho tem barcos, vê barcos, fantasia barcos, mas as miseráveis ideias que estruturam o poder, os vários patamares, círculos, espirais, do poder, não lhos permitem. Em vez de barcos, de viagem, de liberdade, de afirmação, de realização, a vida, os dias e as noites, os anos, as horas, o quotidiano, estão cheios de terra, de floresta, de animais, campo, trabalho, gente, lágrimas, gritos, sustos, mortes, nascimentos, doenças, imundície.

   Só através da perversão que embrulha a ânsia do saber livre na capa do seminário e do convento e a necessidade de afirmação própria na violência da guerra, serão possíveis os sonhos, será possível chegar aos barcos, entrar nos barcos, fugir do medo e da violenta miséria. Só dentro da nuvem das trágicas e insolúveis contradições da emigração, a ânsia de acumulação de bens materiais, o desejo de aceder ao progresso material se concretiza em vida.

   Nunca a felicidade sem lágrimas.

   A perversão e a tragédia matriciais nunca mais se afastam das trajetórias das personagens. Da infância, elas são projetadas para os quatro cantos da narrativa: o da problemática literária, o da guerra colonial, o da vida emigrada, o das relações amorosas e familiares. Em nenhum desses cantos tristes, existe a alegria de uma tranquilidade feliz. O escritor amargo, o jovem soldado desenganado, os irmãos pesados do luto da terra-longe e os pais vencidos pela doença-morte, o par destruído pelos duelos do amor, são uma espécie de feixe de destinos gizados lá na Achadinha do Rosário, onde a criança se levantava de noite para mergulhar no estrume das vacas, onde a jovem se deixava empurrar, brutamente tocada como um bicho, de tarefa em tarefa doméstica, onde a mãe era um sítio donde iam nascendo os irmãos. Radical ausência da ternura. Radical presença do sofrimento que, mesmo depois da tormentosa e duvidosa realização dos sonhos, faz da felicidade um remorso. Muito mais difícil que depor as figuras e as estruturas do poder autoritário nos confins perdidos de um país martirizado, é reerguer a liberdade, matar o medo e a cegueira, soltar a felicidade sem lágrimas, lá no íntimo fundo de gente cuja infância se encolheu sob a batida da dor.

De um país triste, avassalado de impotências e sofrimentos vários, Nuno e os seus irmãos guardam para sempre o conhecimento profundo das lágrimas.

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por Maria Almira Soares às 11:21


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