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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Domingo, 07.10.18

O DELFIM

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   E chega-nos à memória uma frase batida: «O Delfim, machismo, pax ruris, Cartilha do Marialva»[1]. Mas esta é apenas a primeira frase do resto da vida do romance. A frase que diz o mais notório, mas deixa de lado outras visões mais insatisfeitas.

   Tomás Manuel da Palma Bravo (e a lagoa consubstanciada na sua linhagem) tem muito de segredo, de enigma em decifração, encoberto pelos fumos de pistas fátuas como a do marialvismo, da posse, da exclusividade. Um segredo em que, nos desvãos de uma cartografia mais imediata, se insinuam luzes cegas: a da dúvida da infecundidade; a do fantasma da homossexualidade; a da caricatura do incesto; a da deserção do corpo da mulher; a da pulsão para oferecer a sua violência a uma ternura infantil; a da disponibilidade para se tornar presa do escritor-furão — o intelectual de que se ri e de que não prescinde — numa ambiguidade que é quase uma fraternidade; a da capacidade de ludibriar interpretações e, num gesto de lide sombria, sem triunfo, permanecer enigma, mistério. O seu comportamento/pensamento marialva, machista, de senhor rural e feudal, de herdeiro dos «oito fidalgos de bom coração», de delfim para cujo uso está feito o mundo, é apenas a casca bulbosa da «informulável terra queimada»[2], ou antes, do cemitério de peixes-santos que lhe habita o imaginário-fundo da mente-lagoa. Terra queimada, fundo lodoso, que não se visita, não se ilumina, não se povoa a não ser pela morte, esse segredo inviolável.

   Homem plantado num contexto, num ponto de um decurso histórico, Tomás Manuel da Palma Bravo é feito de gestos de poder e de intocabilidade que alastram na goyesca de um tempo e de um modo de Portugal feito de excesso, de vinho, de insana violência, de insana e animal inocência, de impotência. Este desenho, que dimana do Infante e reflui na sua insensível crueldade é composto dos fumos, dos cheiros, dos sons, das luzes, das vozes, das tristezas, dos prazeres, das feridas, dos enganos, dos disfarces, de que é feita a miséria de uma terra com nome de doença, impossibilitada de respirar fundo, de gritar alto, de ser livre, de agarrar a sua construção, de tomar como seus os objetos do seu desejo.

   A Gafeira como o seu Delfim estão maduros — ele de crueldade e excesso, ela de humilhação e miséria — para rebentarem, abrirem como a romã da romãzeira coberta de formigas do pátio da pensão de caçadores. Ela, a Gafeira, madura para se assumir na pluralidade do múltiplo brilho de rubros bagos irmãos, que não é rebanho, mas «cooperativa dos 98»; ele, o dono da Lagoa, para ser despossuído dos objetos do seu domínio: a mulher, o criado, a água produtiva, as figuras do medo e da subserviência plantadas nas mentes dos seus ‘súbditos’. O fruto racha-se. Apenas. Abre-se. Apenas. E neste ponto ficamos. Com dois segredos incólumes: o do que se tornou passado, o do Infante feito de seiva velha que julgou ser sangue e da qual anda em fuga, ilegível, sempre ilegível; o do que será o futuro, o do que virão a ser, daí em diante, depois do tempo das perguntas e das insinuações, o Velho de um só dente, o Regedor, a Dona da Pensão, as Viúvas de vivos, o Dono do café, o Batedor, os comedores de enguias, os lançadores de foguetes, os tocadores de campainha de bicicleta, os padres, as aninhas com seus maridos paralíticos...

   Uma coisa é certa: a caça continua. Democratizada, mas continua. Pulsão para além de todas as clivagens? Símile de um mundo desigual, da prepotência sobre o outro (ainda que animal)? Por muito que nela se insinuem visões de honra, de ética, de cavalheirismo, de luta leal, de morte em glória, numa inversão do sentido da força e do mérito? Espelho do que sempre permanece e se reabilita na mudança, em qualquer mudança?

   O autor desiste da caça. O autor-furão está cansado. Andou todo o dia e toda a noite noutras caçadas. Foi à caça e acabou caçado. Caçado por uma história predadora que o tomou no seu ventre, que o engoliu, porque, se o não tivesse como habitante, não seria essa história.

 

 

[1] José Cardoso Pires, «Memória Descritiva» in E agora, José?

[2] Eduardo Prado Coelho, «Cardoso Pires: o círculo dos círculos» in A Noite do Mundo.

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por Maria Almira Soares às 18:22


3 comentários

De Anónimo a 07.10.2018 às 20:02

“O Delfim”, pedrada no charco de um país salazarento e estratificado até à medula, onde o lugar da mulher e do homem se desenhavam na naturalidade cinzenta de um país colonial e fora do seu tempo! Muito sofrida está releitura!

De Maria Almira Soares a 07.10.2018 às 21:17

Por favor, assine o seu comentário. Obrigada.

De Anónimo a 13.11.2018 às 18:52

A Hemeroteca de Lisboa apresentou no dia 10 deste mês o Dossier Digital de José Cardoso Pires. É incontornável para quem queira saber o que publicou, o que disse aos jornalistas e o que sobre a sua obra se escreveu. Já vai em quase 2000 textos, que estão à distância de um clique e podem ser copiados. Está em http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/EFEMERIDES/josecardosopires/josecardosopires.htm
A Câmara de Lisboa prossegue com a homenagem que está a fazer e, neste fim-de-semana, vão contar-se histórias de quem o conheceu. O programa está em http://blx.cm-lisboa.pt/noticias/detalhes.php?id=1368

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