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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Segunda-feira, 21.02.22

O PROBLEMA DA LEITURA

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     A biblioteca que o Livro veio habitar no outono de mil novecentos e cinquenta e oito ficava numa pequena vila provinciana não muito longe do mar. Arranjaram-lhe um lugar num único e atafulhado armário-estante e lá ficou a sua lombada a ver-se através de uma das vidraças por que se dividia a porta do grande móvel de onde saíam os livros que os leitores requisitavam. Era uma biblioteca benemérita de uma fundação que, naquela vila, encontrara abrigo numa das salas da Câmara Municipal. Em vez de bibliotecário, havia alguém que tinha a chave e acorria à vontade declarada de algum leitor de levar consigo algum dos livros que ali repousavam. Tinha a chave e fazia o registo das saídas e das entradas. Não obstante já ter tido e haver ainda de vir a ter outros formatos, outras letragens, outros espaços de respiração, outras capas, outras línguas, o Livro apresentava-se ali, naquela biblioteca, numa edição de formato vulgar, tamanho médio, sem nenhuma característica especial, legivelmente tipografado no espaço da página que largas margens enquadravam, escrito em língua portuguesa. Vestia-o uma capa de um aguado tom cinzento em que se desenhava um ralo perfil citadino por trás de uma figura esquálida e por baixo de autor e título, este bem mais saliente, em azul. À vista, a impressão que o Livro dava era, de qualquer modo, de um cinzento deslavado nada atrativo para o olhar. Tirando a promessa azul do título, claro!

    Aquela biblioteca parecia uma casa de repouso e, nela, de tão quietos, os livros chegavam a ganhar bolor. Certamente também devido à humidade provinda da proximidade do mar. Apesar da diminuta procura, mantinham-se, no entanto, ali, os livros, não fosse alguém, de repente, lembrar-se de sair de casa em busca de uma leitura que lhe trouxesse novidades aos dias silentes da vida na pachorrenta vila. E, um dia, assim aconteceu com aquele Livro.

     Já não era outono, o arco do tempo tinha já rodado quase um ano inteiro desde que o Livro ali chegara. O tempo rodara, mas o livro não. Permanecera no mesmo sítio em que o tinham depositado, mas, em breve, a sua espera por um ansiado leitor iria, enfim, terminar.

     E assim foi. Nesse verão, alguém, depois das alegrias da praia e do campo, e das conversas e dos passeios, e das festas e lembranças, lembrou-se do armário dos livros que sabia existir na sala da Câmara. Tratava-se de uma rapariga.

      A Rapariga olhou a correnteza das lombadas e escolheu aquele Livro. Era um primeiríssimo encontro cego. Nada sabia do título e do autor, nem da coleção, nem do editor. Escolheu-o porque sim. E trouxe-o para casa.

     A casa era antiga e estava fresca. Respirava-se bem na casa da avó em que o silêncio poderia escolher o quarto em que se instalar. Era uma casa grande onde harmoniosamente conviviam lugares de silêncio e lugares de algazarra sem se incomodarem mutuamente. A Rapariga escolheu um lugar de silêncio: o quarto onde, nessas férias, dormia. Escolheu uma cómoda posição sobre a cama e pôs-se a ler.

     Ao princípio, no decorrer das primeiras frases, um bem-estar profundo ia-lhe acompanhando a leitura dessa história escrita numa linguagem macia a que se ia aconchegando o ouvido interior da leitora.

     Animada pela felicidade do começo daquela leitura, a Rapariga continuou a avançar. À medida, porém, que ia conhecendo gente de dentro do Livro, começou progressivamente a levantar-se-lhe da leitura uma atmosfera perturbadora feita de suspeições de intrigas ameaçadoras, de temor quanto à sanidade mental da personagem pela voz da qual tudo era contado... A aguda sensibilidade da leitora estremecia já, como a de quem faz um caminho antecipando a desgraça a cada esquina. A Rapariga era estudante, dava os primeiros passos num curso de História e tinha como tema de sua preferência o da história das instituições. Era estudante e bastante idealista, crente na sua vontade de tornar melhor a vida futura. Quando a leitura a mergulhou na visão profundamente cínica e cética, por parte da personagem narradora, quanto à bondade e à seriedade dos mecanismos supostamente garantísticos da aplicação da justiça, a Rapariga suspendeu um pouco o seu ler, sentindo-se perturbada pela acutilância de uma tal desmistificação. Respirou fundo e continuou. Continuou, mas já sem a sensação de navegar num rio largo e manso que o contacto inicial com o livro lhe dera. Somavam-se, agora, incongruências continuadas que deveriam ocultar alguma causa misteriosa, mas que, a seu desprazer, a enervavam.

    Naquele verão sem escola, a tarde era longa, larga, luminosa, a preguiça consentida, e certamente haveria, dentro em pouco, o tempo certo para um qualquer volte-face na história que lhe devolveria a calma leitora: por isso, continuou. O dentro em pouco, porém, começava a demorar excessivamente para o desejo da leitora. Não surgia. Pelo contrário, a voracidade da espiral conducente, talvez, à loucura e ao crime, cada vez mais se lhe enroscava nos nervos. Mudou a sua posição sobre a cama, alteando as pernas até ao limite da cabeceira, o livro comodamente recostado na dobra natural do seu corpo. Continuou a leitura. Na sucessão das páginas pairava sempre a suspeita de fortes angústias futuras. Crimes? Infelicidade profunda? Mas, então, porque haveria nas palavras do título aquele tão notório índice de felicidade? Malhas tecidas pela perversa imaginação do autor? Ou, senão perversa, pelo menos, irónica? Com o dedo entalado a marcar o ponto em que deixara a leitura, pôs-se a olhar de novo a capa... Realmente, vendo mais atentamente, havia ali um contraste ameaçador entre o azul do título e o pó cinzento tintando escorrências pálidas que preenchia toda a capa. Realmente, a figura plantada sobre este fundo triste tinha uma expressão facial e um descair de ombros que nada de bom augurariam... reparou, agora, melhor. Sinais de quê? A vontade de, naquele risonho dia de verão, não se deixar imaginariamente entristecer começava a tolher-lhe a leitura. É que não lhe apetecia mesmo nada angustiar-se.

    Fosse como fosse, não obstante este nascente somar de resistências, o seu ouvido interior de leitora não conseguia ainda negar-se ao desafio de vir a deslindar as revelações que haveriam de fazer desabar aqueles muros de incongruências e ambiguidades que começavam a assombrá-la. Virtude do autor. Virtude da sua arte de contar. Leitora jovem, ainda não muito experiente nos caminhos da leitura, sentia-se numa encruzilhada: queria saber, mas não queria sofrer. Queria saber como é que tudo iria acabar, mas não queria sentir a dor fictícia quase tão concreta como uma dor real, aquela, a propósito da qual, o poeta que não nos larga dissera «Sentir, sinta quem lê!» A Rapariga não era, não era mesmo nada, especialista em distanciações reflexivas que a salvassem de ficar presa nas malhas emocionais.

      Prosseguiu, menos quieta, remexendo-se mais, mudando mais vezes de posição, sinais de nervosismo crescente. O seu corpo que lia parecia imitar os ziguezagues da história, as contradições indomáveis da personagem que a contava, a falta ainda de um caminho claro para um desenlace. Onde ia já ela, a distensão corporal, a respiração tranquila na clara luz e no silêncio macio daquele seu quarto de férias cheio de sorridentes memórias fotografadas sobre os móveis antigos, com que começara, pela leitura, uma desafiante investida no desconhecido? Desaparecera. A luz exterior estava cada vez mais doce e cada vez mais coalhava, de um morno afável, a atmosfera do quarto. Mas a luz trémula e sombria, que do livro cada vez mais irradiava, estava a vencer. Como era possível? Como era possível a luz negra de uma história dentro de um livro apagar a dourada luz do sol? A angústia crescente com que lia subia-lhe nos nervos, trepava-lhe até às mãos, punha-lhe insegurança no virar das páginas e, às tantas, num piparote desabrido, descolou-se do livro que, sacudido com força, cruzou o ar do quarto num voo rápido e foi aterrar sobre o antigo psiché. A Rapariga, com um «ufa!» libertador, distendeu o corpo, espreguiçou os braços e acendeu de novo a luz e o calor do sol apagando o negrume da leitura. O Livro não foi lido até ao fim. Dele, a Rapariga guardaria para sempre a lembrança de um insustentável peso opressivo sobre o seu inato e pouco maturado desejo de alegria, desembocando naquele caricato arremesso.

    A vida do Livro, porém, nem sempre correra assim, tão acrobática. A história que, dentro de uma capa triste, depois de algum tempo jazer, repudiada, no quarto da Rapariga, foi devolvida à biblioteca, tivera já outras vidas. O Livro fora, vinte seis anos atrás, um jovem livrinho recém-editado num pequeno formato, apresentando-se, ao primeiro olhar, em tons fortes de negro e vermelho. Na sua capa, derramavam-se estas cores fortes vertidas sobre um grande rosto enigmático. Título e autor abaixo, no limite do corte, em negro maciço. Estava-se, então, no já longínquo ano de 1932, ano esse em que aquela história, excessiva para a Rapariga de 1958, conseguira, pela primeira vez e não sem alguma dificuldade, emergir para a luz da edição. Suscitara, desde logo, entusiasmo ledor de quase todos os recetores profissionais de literatura, críticos e afins, e até o bem abonado aplauso de alguém como Hernâni Cidade que, sobre ela assim escreveu: «Considero este livro a mais notável revelação de romancista da nova geração.» Tal não significou, porém, uma corrida à sua leitura por parte dos leitores anónimos. Um ou outro, sim. Ia aparecendo nas montras das livrarias consagradas que então havia e nas mãos de alguns leitores que a liam sentados nos bancos de jardim que, então, também havia ou nas suas cadeiras de descanso, em casa, depois do trabalho.

     Ora, numa manhã de chuva miudinha, passava, numa rua da Baixa lisboeta, um homem dos seus trinta anos, a caminho do emprego. Era num escritório de uma dessas antigas ruas retilíneas que o Homem se sentava todos os dias em frente à máquina de escrever. Datilografar era o seu principal ofício. Passava, na rua, o Homem e, na montra da livraria que então ali havia, lá estava o Livro que, mais de vinte anos depois, haveria de voar das mãos da Rapariga angustiada. O vermelho e o negro da capa fazia-se notar entre os outros livros predominantemente pardos ou de cores esbatidas. O Homem ia com tempo e resolveu entrar. Cumprimentou elevando e inclinando o chapéu, mudou a pasta de mão e, depois de olhar em volta, pediu com decisão o livro pequeno de capa vermelha e negra que vira na montra. O livreiro disse muito bem e ainda acrescentou é um bom livro, saiu há pouco tempo. Enquanto o livreiro rasgava um quarto da folha de papel pardo com que, a seguir, embrulhou o Livro, o Homem fazia saltar do porta-moedas para a palma da mão duas moedas, uma de cinco escudos e outra de um escudo com que o pagou. Ouviu-se ainda, quase simultâneos, o tilintar da máquina registadora e o estalar do fecho metálico da pasta em que o Homem guardou o Livro. De novo fez inclinar o chapéu em jeito de cumprimento e saiu agora apressado e como que sentindo-se acompanhado pelo mistério que guardara na pasta. Cada livro ainda não lido é um mistério! Pelas dezoito horas, escuras de inverno, o Homem, já em casa, sentou-se na sua cadeira de descanso perto da janela e junto à luz do candeeiro de pé. Tinha nas mãos o Livro. Era o caminho pelas suas 166 páginas que agora ia iniciar. Começou. À medida que o recorte da personagem narradora ia emergindo nas suas facetas de luz e sombra, suscitando-lhe tanto pensamentos conclusivos como dúvidas, tanto sensações de reconhecimento como de quase-absurdo, o Homem ia-se sentindo agarrado quase como se estivesse ao leme de uma viagem que queria por força terminar. Que fim? Que fim iria ter tudo aquilo? Era a pergunta que latejava nos seus dedos de cada vez que moviam mais uma página. Tratava-se de um leitor muito racional, sempre a pensar nas causas dos comportamentos e muito blindado para influências emocionais desprevenidas. E, depois, havia no ambiente de vida daquela personagem alguma semelhança com o da sua, mas, curiosamente, um antagonismo perfeito quanto ao modo como o viviam. Era como se ali, naquela história, estivesse pintado o outro lado da sua Lua. Que esperava nunca vir a pisar, mas gostava de ver ali narrado. Era um lado obscuro, tingido de sentimentos malévolos, em que, sabia-o firmemente, nunca iria entrar. Esta distância abismal entre si e o escriturário da história mantinha-o alerta. A sua atenção de leitor seguia os passos daquela personagem que, simultaneamente, era e não era um espécime vulgar. Interessava-se quase cientificamente pelo surgimento de cada perturbado assomo de vontade de crime por que a personagem frequentemente era tomada. E, simultaneamente, pensava na genialidade narrativa que colava na mesma figura a sanidade aparente e a profunda alienação, o cumprimento profissional e os gestos descontrolados conducentes à autodestruição. À hora de jantar, fechou o Livro e com gestos tranquilos, bem diferentes do arremesso brusco da Rapariga da vila sossegada vinte e seis anos mais tarde, pousou-o na mesinha ao lado da cadeira. Pousou-o e, com ele, deixou também de pose a vontade de continuar a lê-lo no dia seguinte. Tinha ficado na página 66. O Homem gostava daquele tipo de histórias que não se multiplicavam por muitos meandros e recantos, mas permaneciam coesamente unidas por um fio de sentido forte e intrigante. Aquele autor sabia fazê-lo, pensava. Gostava também de histórias que, como aquela, lhe contavam o fundo psicológico oculto por baixo da superfície dos gestos aparentemente normais. E de acompanhar a progressiva contaminação da nitidez dos gestos superficiais pela luz negra de neuróticos impulsos descontrolados, quem sabe se até ao crime... Iria haver crime? O Homem que levava uma vida completamente normal e era feliz assim, gostava, no entanto, de, pela leitura, mergulhar em situações e personagens feridas pela anormalidade que a leitura lhe tornava claras, expostas. Tinha acertado com aquele livro. O desacerto entre as festivas palavras do título e o vermelho e o negro derramados sobre aquela cara, ali na montra da livraria, não o enganara. A sua escolha, porém, não fora totalmente furtuita. Para além da intuição vinda dos sinais que o aspeto exterior de um livro sempre emite, a verdade é que o nome daquele autor associado àquele título não lhe era totalmente estranho. O Homem gostava de ler jornais que, por essa época, quase todos, traziam breves ou mais desenvolvidas resenhas e até anúncios de livros. Tinham-lhe ficado na memória as palavras que, há tempos, lhe tinham passado por baixo dos olhos, na rubrica dos livros e dos autores do Diário da Noite, subscritas pelo prestigiado jornalista Julião Quintinha e que, acerca do Livro, diziam: «... demonstra-nos que Portugal conta, hoje, com um Grande Novelista». O Homem concordava: a arte narrativa e o interesse temático daquele Livro só de um grande novelista poderiam ter saído! E foi assim que, em fins de tarde sucessivos, não muitos porque a leitura correra bem, o Homem acabou de ler o Livro. Logo a seguir à leitura das palavras finais [«O resto, já o doutor sabe. Não me pregunte (sic) mais nada, foi exactamente assim que tudo se passou — nem podia ser de outra maneira, embora eu próprio duvide algumas vezes e o senhor possa julgar que eu não passo dum pobre alucinado.»], o Homem suspirou de satisfação e deu uma palmada afetuosa no Livro já fechado, enquanto ia repetindo «Sim senhor, sim senhor!». Depois, foi guardá-lo na estante fronteira. Lá, ficou o Livro, quieto, à espera que outras mãos, que outro olhar, que outro pensamento, o viessem de novo desassossegar.

   Um ano passou, outros anos passaram, e este Livro, na sua capa vermelha e negra, foi sendo empurrado para trás pelo tempo que acelerava. De quando em quando, porém, a intervalos lentos de anos volvidos, faziam-no vestir de novas formas gráficas e lá surgia ele de novo à tona da leitura. A sua vida de livro ia-se desenhando num horizonte pontuado por picos e depressões. Tudo, embora, suavemente modelado, sem grandes sobressaltos. Revelava ser um Livro de procura um tanto sonolenta, mas ainda assim persistente, estremecida, de vez em quando, por uma ou outra voz que asseverava a grandeza da arte com que fora escrito. Longas temporadas, parecia adormecido no silêncio à sua volta ou no íntimo dos seus leitores obscuros. Ia envelhecendo, o Livro, ilustre quase-desconhecido, como um segredo bem guardado? Os livros de boa casta, como este, parece que envelhecem, mas não. A espaços irregulares mas marcantes, o tumulto psicológico que a sua leitura, talvez inesperadamente, desocultava, expandia-lhe as oportunidades de redescoberta, tornando felizes, os seus leitores. A cada uma das décadas que sobre ele iam passando, o Livro, que na década de trinta do século vinte nascera, reemergia envergando nova capa, assomando de novo nas montras, caindo nas mãos dos leitores que com ele se encontravam.

      Anos cinquenta, aqueles em que vimos a Rapariga, esmagada de angústia, a atirá-lo pelos ares até cair no psiché, na casa grande e fresca da avó, num quieto verão provinciano...

      Anos sessenta, aqueles em que um Jovem Leitor, fascinado pela temática da loucura e da marginalidade, repetia à saciedade, pelas clandestinas tribunas estudantis o seu espanto e revolta frente ao esquecimento a que o Livro, genial, dizia ele, parecia votado...

     Anos setenta, em que, numa concorrida reunião política, um jovem militante, com o Livro em punho, o agitava contra a burguesia, gritando leiam isto, leiam isto...

     Anos oitenta, em que uma professora apaixonada por Literatura, o colocou na vitrina expositiva da Biblioteca da sua escola...

     O Livro ia vivendo entusiasmos e deceções, paixões e indiferenças...

     Ora, um dia, mudado já o século, dobrara já o livro o ano de se tornar septuagenário, lembraram-se de lhe darem um formato pequeno, daqueles que, pelo menos teoricamente, cabem num bolso. A intenção era a de o tornarem mais próximo, de facilitarem o seu contacto com os leitores, talvez obedecendo à falsa ideia de que o valor está na aparência. E lá encolheu, materialmente, o Livro, apertando a mesma história perturbadora de sempre em páginas de pouca margem, em letra de pequeno tamanho. Tinha, agora, 145 páginas, o Livro que começara com 166. O esboço de perfil citadino desenhado sob a aguada cinzenta da sua velha e mais repetida capa, aquela da década de cinquenta que voara das mãos da Rapariga, era agora substituído por uma fotografia de época, a preto e branco, em que a cidade surgia habitada por homens de chapéu, iguais ao seu leitor dos anos trinta. Homens movendo-se desencontrados, dentre a cinzentez dos quais, olhava, num círculo de menor penumbra, talvez aquele cuja voz diz, ao terminar do Livro, que sobre si se possa pensar que não passa de um pobre alucinado. Bem perdidos trabalhos devam ter sido, os envolvidos no reforçar do Livro como alvo de atenção e de compra! Perdidos, porque o lustro de atualidade que lhe quiseram dar foi na realidade um fogo fátuo. Fátuo, porque muito pouco o deixaram durar, ao Livro, nos escaparates, logo empurrado para ignotos armazéns por novas fornadas, sempre a sair, sempre a sair. Era esta uma época em que não havia, para o Livro, o tempo de ser avistado, de ser referido aqui e ali, de ser motivo de opiniões saboreadas por uns e por outros, de ficar demoradamente a amadurecer no desejo de alguém, de ser adiado para daqui a uns tempos, quem sabe... porque de momento haveria outras prioridades de leitura... Quando a decisão final de o ler estivesse madura, chegar-se-ia lá, à livraria, das poucas que ainda ia havendo, e o Livro... Que é do Livro?! Fora empurrado pela imparável enxurrada para catacumbas donde, apenas por processos mais ou menos complicados e, muitas vezes, desistidos, poderia ser resgatado para a luz da leitura. Porque — desengane-se quem julgue que não é assim demorado o caminho dos leitores, múltiplos e diversos, para um livro — a compra de um livro não é a compra de um legume para pôr na sopa, que se apresenta, um dia, viçoso, e logo, perdido o viço, é remetido para o amontoado do que já não serve, do que já não vende. E foi assim que, nesta altura, o Livro, pese embora o renovado esforço para o pôr presente, muito pouco luziu nas montras.  

       Ora foi precisamente quando estes transes se atravessavam na vida do Livro que a professora apaixonada por Literatura que, na década de oitenta, o tinha exposto na vitrina da Biblioteca da sua escola resolveu propô-lo para leitura e conversa, na comunidade de leitores que coordenava. O Livro era, para aqueles leitores que o iriam ler em comum, um desconhecido. Mas não era com o fito de virem a conhecer o que, até aí, desconheciam, que se reuniam?! Era, pois! Vamos a isso! E foram à procura do Livro, crentes um tanto ingénuos, que, sendo livro e livraria palavras da mesma família, seria lá, nesse lugar familiar dos livros, a livraria, que o iriam encontrar. E é, então, que conseguimos ver uma Leitora rondando os escaparates mais salientes, tomando a sua vontade pela vontade do vendedor e pensando, por isso, que seria por ali que o Livro certamente estaria. Mas não estava. A Leitora passou então às estantes, pondo o seu olhar atento a descodificar o critério de arrumação, a triar autores, títulos, nacionalidades, editoras... e nada! Do Livro, nem sombra. Onde estaria o Livro? Então, a Leitora dirigiu-se ao vendedor e perguntou:

   — Boa tarde? Por acaso não tem o Livro?

   — O Livro?! Só um momento, que eu vou verificar no sistema...

   — Olhe, não, de facto, o Livro não temos.

   — Não têm?!

   — Sabe, já saiu há uns dois meses... agora, só encomendando. Se quiser, podemos encomendar e, daqui a quinze dias, no máximo três semanas... Deixa-nos o seu contacto e, nós, se a editora o tiver em armazém... enviar-lhe-emos um SMS.

— Que maçada! Que maçada! -  Ia consigo remoendo a Leitora, desandando rua acima sob o sol escaldante de Lisboa - O Pessoa é que sabia... Ai, que maçada...

 

 

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por Maria Almira Soares às 16:08


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