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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Terça-feira, 03.03.20

OS LIVROS NÃO MORREM DE MORTE NATURAL

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     E é por ser a leitura coisa pessoal que o ser humano não-leitor é um ser intelectual e sensitivamente em perda significativa: perda, não só de conhecimento e de alargamento cultural, mas, sobretudo, perda de possibilidades de aproximação entre os riscos da vida e as estrias da sua própria natureza. Ou seja, perda de possibilidades de construção e realização pessoal. O não-leitor é, geralmente, assinalado por incumprimento comportamental ou ineficácia cultural e não pela perda de possibilidades de conhecimento de si, que a ausência da leitura implica. A leitura é um formidável catalisador de realização íntima e, daí, de descoberta auto e hetero, com comprazimento ou não.

   Afirmações genéricas a respeito da leitura, desatentas do seu carácter pessoal, produzem-me a sensação residual de alguma hipocrisia. Afirmações tais como: Tal ou tal livro já não é lido, porque nada tem a ver com os tempos em que vivemos...

ou

Deixaram de ler estes livros, porque não entendem os seus mundos de referência, porque essas histórias do passado nada lhes dizem...

ou

A proposta de livros a serem lidos não deve incluir senão os que tenham uma linguagem próxima da sua e situações semelhantes às do seu quotidiano...

obrigam, para contrariar a referida sensação de hipocrisia, a que lhe acoplemos adversativas tais como

...e, no entanto, os livros da Condessa de Ségur estão a ser reeditados e veem-se com frequência no top das livrarias.

ou

...e, no entanto, abundam declarações lamentando não encontrar acessíveis para compra os aquilinos, os ferreiras de castro, os nunos braganças, coisa que impede a satisfação do desejo e da curiosidade de os lerem.

ou

...e, no entanto, que saudades e que roubo às jovens gerações, o apagamento, por exemplo, de Júlio Dinis.

   E é assim que alguns livros e alguns autores arredados pelos ares dos tempos, surgem, no discurso comum sobre a leitura, apenas na qualidade de adversativas: não para serem lidos, mas como objetos de saudade e homenagem como a que se faz a mortos ilustres. São tratados como livros mortos que o apego ao tempo como critério de arrumação cultural silencia e sonega ao desejo íntimo de quem poderia amá-los. A coberto da ideia de mortos queridos, que alguns de nós conheceram, são induzidos como merecedores, tão-só, de uma reza de ressurreição pojetada para um inefável juízo final, a partir do seu acondicionamento na memória de quem os ama. Os livros não morrem de morte natural. Se os não enterrarem vivos, a sua vida está sempre em aberto, em desobediência às prescrições temporais e temporárias, em correspondência com o desejo íntimo de um leitor.

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por Maria Almira Soares às 17:45


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