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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Terça-feira, 07.01.20

PARVOÍCES

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 Há palavras que vivem descansadas nos vocabulários das línguas sem que quase se dê por elas, que são usadas sem causar qualquer alarme, são quase invisíveis e de repente… De repente surge uma conjuntura, um facto, uma circunstância de uso que lhes dá visibilidade e relevo, que as faz andar de boca em boca. Recentemente aconteceu com a palavra parvo, a propósito de Parva que sou, canção dos Deolinda. Curiosamente a circunstância fez com que fosse no feminino: parva. E o que também é curioso é que a palavra parvo até tem uma história semântica engraçada. Começou por significar, em latim, pequeno, isto é, de tamanho diminuto, insignificante, com pouco valor e importância. Daí que, como um tolo é uma pessoa com pouco bom senso, começou a chamar-se parvo, não a quem era pequeno em altura, mas pequeno de juízo, a quem tinha pouco juízo, o tolo. Parvo começou por se aplicar ao que era pequeno em geral, mas depois o seu sentido especializou-se para quem é pequeno de juízo, quem tem pouco juízo ou faz coisas pouco ajuizadas. Em latim, os baixos eram parvos; hoje em dia, pode-se ser parvo, mesmo sendo grande em altura. E com esta mudança, como é evidente, a palavra reforçou a sua hipotética conotação negativa. A palavra parvo tem uma grande fortuna em expressões idiomáticas. Há uma quantidade de ditos e expressões em torno dela: fazer figura de parvo; armar-se em parvo; fazer dos outros parvos; fazer cara de parvo;comer por parvo; chuva molha-parvos; chama-lhe parvo!; a minha alma está parva… Já para não falar na parvalheira, termo usado para uma terra com pouca gente e poucos motivos de atracção. Com Gil Vicente, o parvo ganhou estatuto de personagem. Os parvos vicentinos são figuras que nos fazem rir por serem tolos, desacertados do bom senso nos seus comportamentos, nos seus gestos, no seu uso da linguagem, mas, simultaneamente, vão dizendo verdades com um despudorado sentido crítico. Produzem sentenças inopinadas mas plenas de realismo. A sua loucura liberta-os das baias do que diríamos hoje politicamente correto.  O Parvo vicentino é um herdeiro do sot, das sotties medievais que, com as suas tolices e parvoíces faz rir. Mas é também, simultaneamente, devedor do Elogio da Loucura de Erasmo, quando representa aquela inocência, aquela inimputabilidade para dizer tudo que a loucura permite. Representa a ideia de que só sendo louco, sem-razão, sem-juízo, se pode ser inocente, puro, num mundo em que tudo está contaminado por segundas intenções. O teatro vicentino é talvez o lugar de referência mais conhecido para esta figura do Parvo, mas há outro lugar interessante: o dos contos tradicionais onde encontramos a conhecida história do João Parvo. «Era uma vez uma mulher que tinha um filho que se chamava João. Mas ele era, coitadito, meio parvo…» Curiosamente também o parvo vicentino se chamava Joane. João é um nome vocacionado para generalizações, tipificações. Este parvo do conto tradicional revela a sua parvoíce, enquanto incapacidade de reconhecer situações novas e de saber transferir conhecimento adquirido, adequando-o com eficácia a uma situação diferente. Não para de persistir no mesmo erro. É um infeliz sempre a ser ultrapassado por uma circunstância diferente que ele não tem capacidade de ler. Atravessa a vida sem malícia, mas aos ingénuos, aos parvos, ninguém dá presentes. Este João Parvo é, por assim dizer, ainda mais parvo do que os parvos vicentinos, porque não tira absolutamente nenhum trunfo da sua parvoíce nem surte nenhum efeito perante os outros senão o do riso. É a vítima total de si mesmo. Digamos que o vicentino é o parvo espertalhão que escapa do inferno driblando o diabo, enquanto este é o parvo patético que, de todos, apanha tareia. Como muitas vezes acontece com os contos tradicionais representa um tópico universal que tanto se encontra em Portugal como na longínqua Rússia, por exemplo, na figura de Babine do texto do escritor russo Leon Tolstoi,que se inspirou numa antiga história russa. Seja como for, há um traço semântico comum a todos estes parvos: ser parvo é estar ou pôr-se fora do jogo, não fazer parte. O parvo faz, da sua desqualificação atribuída a outrem, o argumento contra quem o injustiça, vitimizando-se. Ser parvo é o argumento do parvo.

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por Maria Almira Soares às 16:56


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