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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Sábado, 06.02.21

QUEM DATA OS LIVROS SÃO OS LEITORES

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     Os escritores românticos atreviam-se a pressupor os seus leitores e, até, se dirigiam a eles; os realistas, a diagnosticarem as motivações, as perversidades, as consequências da leitura deste ou daquele tipo de livros. Mas isso era literatura, tão incerta e tão pessoal quanto a leitura. E, como esta, tão ambiguamente inútil. Duma inutilidade maravilhosa. Porque — lembremos — o senso comum que, agora, grita os mil e um benefícios da leitura ou disfarça a má consciência de não ler, o senso comum, dizia eu, já teve, sobre a leitura, opinião pouco abonatória. Quando uma coisa, a leitura, sobrevive aos juízos em sentido vário, oposto mesmo, que, no tempo, o senso comum sobre ela vai fazendo suceder, isso é certamente prova de que esses juízos a tomaram por aquilo que ela não é. Tomaram e continuam a tomar. A leitura não tem de ser útil ou inútil. Será? Não será? O que a leitura é, é necessária, que é uma função diferente da de ser útil.
   O leitor é, por essência, um desalinhado, mesmo depois dos esforços programados para o fazer perder-se dessa sua essência e tornar-se um discípulo a quem, objetiva ou subjetivamente, se prescrevem horizontes; mesmo depois de o terem tornado objeto de um discurso cultural que se serve de conceitos como, por exemplo, camada (como em camadas jovens), como datado (como em livros datados), como acessível (como em livros mais acessíveis), como procurado (como em livros mais procurados), e que andam por aí a compor frases como: «Os livros mais acessíveis são os mais procurados pelas camadas jovens.» Ou: «Os livros muito presos ao que foi a sua época, datados, são inacessíveis às camadas jovens e não são por elas procurados.» É, este, um discurso que distribui, que qualifica, a partir de razões quantitativas, a partir de uma visão externa. O que é uma leitura genericamente acessível, fora da relação de um dado leitor com um dado livro? O que é uma camada de gente leitora? Sobretudo de gente jovem? Trata-se de uma visão superficial. A relação leitor-livro faz-se em níveis profundos, diferenciada porque criada no ato da própria e singular experimentação de ler. Os livros não são datados pela sua criação. Os livros são datados pela leitura. Quem data os livros são os leitores. Um livro é atual no momento em que eu o leio. Esses livros que se dizem mais procurados em verdade não são procurados, são postos conspicuamente em busca de leitores, à revelia do seu íntimo desejo.

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por Maria Almira Soares às 15:40


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