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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Segunda-feira, 27.01.14

SINAIS DE FOGO DE JORGE DE SENA

Retrospetiva de leituras da comunidade de leitores LerDoceLer:   

 

 

Desde a delirante visão da «alma do gafanhoto», captada por Puigmal, o adolescente em estado puro, até ao «entusiasmo triste», compensador das coisas perdidas com a entrada na idade adulta, Jorge mergulha numa corrente de experiências fundadoras, sempre em estado de interpelação: — Tem algum sentido, a morte? — Que sentido faz sobreviver? — Os encontros e as descobertas fazem que sentido? Percurso este que o leva até à consciência da palavra poética, traduzida pela grande metáfora dos SINAIS DE FOGO, a grande e perene metáfora do fogo.

Enquanto isso, nós, os leitores, vamos vivendo a grande metáfora da LEITURA: conhecimento; confronto; reflexão; perturbação; nostalgia; enternecimento; consciência do tempo; consciência antagonista do roubo do tempo;  procura perplexa, imperfeita, irresolúvel, da difícil (impossível?) integridade, da verdade; dimensões adormecidas de que a pura atualidade lisa nos anda a espoliar. Este romance é uma viagem a três, triplamente diferenciada: a viagem da escrita literária do Jorge (autor); a viagem da busca existencial do Jorge (personagem); a viagem (que cada um saberá qual) do leitor de muitos nomes. Todos os temas essenciais estão neste romance. Não, dedilhados como quem quer seguir uma pauta prévia, mas amarrados no nó do problema que é estar vivo no mundo, sobretudo estar vivo adolescente/jovem-a-ser-adulto. Narrativa na primeira pessoa. A pessoa de Jorge. Dos Jorges: do que é de cena e do que é de Sena. Nem um nem outro deixam ficar, para a nossa leitura, um trabalho acabado, fechado, mas esta construção em aberto diz-nos que o tempo soberano nunca se fecha totalmente sobre a vida, ainda que se trate de um tempo fechado, morto. Da leitura deste romance, não trazemos apenas a lembrança de um cadáver que ficou na praia. Não. Muito além disso, estão os vivos sinais de um fogo mais vivo que o tempo: a dor e a alegria de ser-se humano sempre em construção. São, hoje, outros os ventos com que o ADN da História incendeia o fogo do nosso desenvolvimento existencial? Por certo. Mas sempre «lançando ao mar os barcos da vida». Da vida com os antes e os depois, as causas e as consequências, a instabilidade dos impulsos, o lícito e o extravagante, as tentativas e as tentações, sem mapa nem legendas. Jorge de Sena começou por chamar a este livro Aparição da Poesia. Depois, trocou o nome pela metáfora-substância poética: Sinais de Fogo. Trocou o nome pela rosa. Fez bem.

 

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por Maria Almira Soares às 18:35


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