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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Sexta-feira, 29.12.17

SUBIR O TEMPO À PROCURA DA INFÂNCIA

O meu conto Subir o tempo à procura da infância está na página 139 da Antologia, editada pelo Centro Mário Cláudio, A Criança Eterna

 

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       e começa assim...

     José Vicente, o filósofo, andava a sentir-se velho e, para se distrair dessa perturbante sensação, decidira seguir o conselho do Mendes, o seu melhor amigo. Em vez de ficar dias inteiros encafuado em casa a escrever, passara a caldear a sombria intensidade da escrita com frívolos passeios, mais ou menos diários, pelas sossegadas ruas das redondezas do bairro lisboeta onde morava. Não o fazia com grande convicção e os resultados eram efémeros. Acabava o passeio, terminava a distração, voltava a perturbação. Em todo o caso, o filósofo persistia e lá ia deixando que as pequenas curiosidades da vida das ruas lhe desviassem a atenção da irrefutável ameaça que obsessivamente o assaltava: no tempo futuro que viesse a ter, tudo em si se encaminharia, sem paragem nem regresso, para um progressivo fim. Em suma, o filósofo estava, já não à porta de uma idade onde tanto resistira a entrar, mas dentro dela, da velhice, e ninguém estaria em condições de retirar esse peso dos seus ombros já um pouco curvados. Só mesmo o Mendes, sempre lesto em não ficar calado, para, perante o suspiro envelhecido do amigo, não hesitar em passar-lhe a receita: menos sessões de escrita-pensamento-análise de ideias; mais andanças, passeios, distrações de exterior. Conhecia tão bem as ligeirezas do Mendes, o filósofo! Mas deixou-se embarcar no pródigo conselho do amigo que talvez até nem fosse assim tão irrazoável: remexer em problemas insolúveis só os agrava. Esquecer talvez não fosse a pior aspirina para a doença incurável da velhice. Se a vencer não podes, foge dela, da morte. E, de facto, olhar o imparável filme das ruas, sem propósito nem objetivo, embalava-o, adormecia-o. Precisava de berço, de inconsciência, de, pelo menos durante os seus passeios, ser a criança que olha o mundo e se espanta.

 

Pelo meio, é assim...

 

   Iam a pé a casa do Mendes que não morava muito longe. Iam andando e conversando. De momento, José Vicente não estava descontente com o teor da conversa. Falavam de livros. O Nuno, quando chegara, trazia um livro, um desses álbuns de divulgação histórica para crianças sobre a biblioteca de Alexandria.

— Aquele livro que tu trazias…

— O da biblioteca de Alexandria?

— Sim, tu…

— Outro dia, vi na Net coisas fantásticas sobre a biblioteca de Alexandria.

— Ah, na Net…

— Tu não gostas da Internet?

— Sim, gosto, mas… Então, tu não sabes o que é um filósofo?

— Pois não.

— Um filósofo é alguém que gosta muito de saber.

— Ó avô, há mais filósofos como tu?

— Há, claro que há, e já há muito, muito tempo. Olha, no tempo da biblioteca de Alexandria, já havia filósofos. E muito antes, até.

— Não sei o nome de nenhum filósofo, sem ser o teu.

— Sabes nomes de quê?

— De jogadores de futebol, de cientistas, de músicos… Vá lá, diz lá o nome de um filósofo.

 

E acaba assim...

 

... O filósofo meteu de novo a mão à primeira gaveta de onde tirou um saquitel de cetim grosso e coçado, de um cor-de-rosa carregado mas já descolorido nas velhas dobras. Desenlaçou a fita de seda que o fechava e virou-lhe o conteúdo sobre o tampo da cómoda: o grosso cordão de ouro escuro, as arrecadas e uma chave de feitio arcaico. Pegou na chave, meteu-a no bolso das calças e voltou a repor aqueles tesouros na gaveta. Depois, entrou no quarto, distraidamente encheu com alguma roupa o seu habitual saco de viagem, apanhou umas coisas na casa de banho e um ou dois livros pousados por ali, vestiu o casaco e, sem olhar para trás nem dar atenção ao telemóvel que estava a tocar, saiu acenando a uma ideia. Adeus, Nuno, podes ir, podes ser.

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por Maria Almira Soares às 17:15


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