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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)


Domingo, 19.01.14

O SENTIDO DO FIM DE JULIAN BARNES

 

Retrospetiva das leituras da comunidade de leitores LerDoceLer:

 

DESDOBRAMENTOS INCOINCIDENTES QUE TENTAMOS AJUSTAR

 

Os grandes romances desvendam o sentido que circula por entre as várias camadas das vidas das suas personagens. Por isso, surpreendem. Neles, tudo está em tudo: o antes no depois, a essência no pormenor, as verdades nos enganos e desenganos. Assim é, quando se expressam “na terminologia narrativa tradicional”, como Os Maias:

“À irmã... A que irmã?

[...]

- A que irmã!? À irmã, à única que tem, à Maria!”

ou, quando se constroem de forma original, como em O sentido do fim de Julian Barnes:

“Não percebo?

“Mary não é mãe dele. Mary é irmã dele.”

 

“E é assim a vida, não é?”, perguntara, lá atrás, Anthony Webster a quem imagina que somos. Como se estivesse a dar-nos já uma solução. Mas solução é só interrupção, intervalo; ainda não é o sentido de um fim. Fim será quando uma resposta fizer assentar a inquietação e provocar a “improbabilidade da mudança”.  Fim é a paragem que identifica os acontecidos antecedentes com as suas insuspeitadas consequências. Contar o antecedente aparenta ser fácil, pacifico: já aconteceu. Porém, o que começa depois da chegada da carta desmente essa aparente facilidade. Tem a gravidade de um segundo ato. Exige a abertura de uma página branca dizendo 2. E é então que a necessidade de ajustar o porvir ao acontecido, ou seja, o por saber ao conhecido, desperta a responsabilidade e cria instabilidade, medo, porque o arquivamento, a memória, abre a sua fragilidade como um campo de imperfeições e insuficiências e as vidas, “as histórias que contamos a nós mesmos”, são tempo que vai encolhendo até se aproximar da inexistência. Descobre-se que vidas são interpretações, desdobramentos incoincidentes difíceis de ajustar e entra-se no movimento de sobreposição das várias lâminas da memória, do acertar do foco, da procura de coincidências entre várias formas de nitidez: a dos sentidos, a dos afetos, a dos pensamentos, a dos factos. Na ânsia de perceber qual é “o sentido de um fim”. Até que se obtém uma resposta:

“Nunca percebeste, pois não?”

“Não percebo?

“Mary não é mãe dele. Mary é irmã dele.”

E tudo se torna claro. Ou não.

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por Maria Almira Soares às 22:06


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