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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)


Sábado, 11.01.14

NÉMESIS DE PHIILIP ROTH

 

Início de uma retrospetiva das leituras da comunidade de leitores LerDoceLer:

 

 

 NÉMESIS

 

Némesis, filha da Noite, é a vingança divina, criada pelas Parcas, que castigou, em Creso, a riqueza, em Narciso, a beleza. Némesis, a inevitável, não responde, por mais que aflitivamente perguntemos: — Porquê? Para quê?

 A aposição da palavra NÉMESIS sobre a história narrada no livro de Philip Roth produz a enigmática fusão da representação de um quotidiano (individual, social, histórico) com a transcendência. Assim se submetem as rotinas lineares e geométricas de um pedaço de vida, de um pedaço de gente num pedaço de História, a um simbolismo mítico, existencial, que o real representado suscita.

Némesis de Philip Roth é uma interessantíssima obra literária.

Não obstante a sua extrema contenção retórica, ou talvez por isso mesmo, ler este livro não é apenas ficar informado ou emocionado, mas implicado no seu sentido. O seu significado essencial conta com o olhar que pensa, hoje, aqueles acontecimentos dentro dos limites da História. A história narrada neste livro precisa, para se completar, da força enigmática do seu título e da inserção dos seus leitores que sabem que, no infindável duelo entre conhecimento e mistério, hoje Némesis seria derrotada e a salvação do medo, da perda e da morte seria possível. Ler este livro (sendo hoje, mas estando ontem) é também ir tendo nas nossas mãos, como se o tivéssemos podido mudar, o destino das crianças, dos adolescentes, das mães, dos pais, dos avós, da amada, dos amigos, dos chefes... os lugares do amor, da alegria, do medo, da angústia, da doença, da morte... o sentido dos gestos, dos pensamentos, das decisões, das hesitações, dos dilemas, das descobertas, das surpresas, das crueldades, das dores, dos prazeres. Como se simultaneamente tivéssemos e não tivéssemos podido preencher de outro modo as esquadrias do poder, da vontade, do desejo, do dever, da obrigação. Espectadores impotentes da crueldade de Némesis. Cercados pela barreira do tempo. Porque o tempo é implacável. E este livro diz-nos que  a nossa condição mortal de vítimas do tempo se irmana existencialmente a um caso localizado e delimitado pelo tempo que já foi: uma epidemia de poliomielite numa época em que a ciência não permitia ainda nem o combate nem a defesa do flagelo. Mas Némesis está sempre em aberto. Némesis é a vingança dos deuses sobre os humanos. Neste romance de Roth, admitir a vingança é sentir a culpa e associar a culpa ao desejo, à ambição, à aspiração, ao projeto, à escalada, ao encontro da felicidade, da perfeição. Porque cada passo é um abandono. Porque defraudam a obrigação de estar presente e partilhar os maus momentos, todos os gestos são vividos como culpa: o impulso de adesão a um novo patamar de progresso, de crescimento; a retirada, mesmo que inocente, da alçada do sofrimento; a entrega à alegria, ao entusiasmo, ao êxtase da comunhão com a natureza pura, vivificadora. Cada passo é um abandono. Némesis lança uma praga, uma peste sobre a defesa da felicidade própria. Os deuses não gostam, nunca gostaram, de que os homens se aproximem da perfeição. Ou, dito de uma maneira mais atualizada, embora não menos trágica: a perfeição não existe; se procurarmos bem, veremos sempre o fio imperfeito da trama, a mancha, nem que seja só em versão de ameaça, nem que seja só em versão neurótica. Projetamos desejo de perfeição para nos sentirmos imperfeitos e disso nos culparmos.  O nó angustiosamente apertado, o nó distribuidor da energia que circula pelas linhas do desenho das vidas narradas, é a morte. A morte, e uma das suas formas de ameaça, a doença. Como um monstro escondido, conhecido apenas nas suas manifestas consequências e nos conflitos que desencadeia, a morte é o motor, o nó fundamental dos sentimentos, pensamentos, vivências, experiências, circulante e alimentadora do sentido dos factos. A partir deste nó essencial, alastra uma rede invasora que se reparte por uma série de conflitos entre: a inutilização de capacidades físicas, suplicial, sisífica e o valor do equilíbrio, da força, da energia, do poder atlético, da beleza corporal; a inexistência de meios para evitar o contágio e a suspeição, a fantasia, a insegurança; as crianças e os jovens como alvo preferencial e a insegurança, a  incerteza, a incapacidade da ciência. Sobre a vida, na sua aparente simplicidade e enganadora segurança, abate-se uma cortina de luz negra, um negrume desconhecido e ameaçador. Um repentino clique, um alarme, e tudo muda: o professor, que deve ser tranquilo e confiante, está nervoso e amedrontado; a criança, que deve viver despreocupada, está condicionada ou morta; o amor-promessa de vida e felicidade dá lugar à rejeição, ao fechamento; os comportamentos humanos são reconfigurados ou em artificiosa tranquilidade profissional ou em impulsos surpreendentes de pânico, de descontrolo, de egoísmo, de autodefesa. Toda a seiva vital se vai escoando até à pedra densa e negra, ao buraco negro final, concentração de antienergia, de antimatéria, nada. Do quadro “risonho e lindo de uma aguarela do quotidiano” ao nada, em 206 páginas. Em Némesis o lirismo é trágico: só no contraluz do negrume da morte e da doença incapacitante, se ouve o canto do corpo, da saúde, do exercício físico, do ar livre e puro, da juventude. A condição humana, sujeita a determinações que a limitam e a dominam, transforma-se em mera consequência. Ler este livro é ter na mão, não uma construção simples de acontecimentos documentados, inseridos num dado momento histórico, mas a dimensão existencial, trágica, desses acontecimentos.

Némesis de Philip Roth é, afinal — coisa que durante largo tempo de leitura desconhecemos — a memória individual de um contador que parece não sentir necessidade de se identificar. A sua identificação é desnecessária e o seu anonimato é fraterno com o leitor. O peso, a gravidade, a tragicidade dos acontecimentos narrados cabem no relato quase-anónimo de alguém, que, tal como o autor do romance, os viveu.

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por Maria Almira Soares às 17:50


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