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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Sábado, 05.01.19

THE GREAT GATSBY

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      A consciência, a sensibilidade e a inocência de Nick Carraway atravessam a sociedade americana da Jazz Age, traçando um percurso trágico: desde o grande sonho de James Gatz do Dacota do Norte até ao abandono e solidão na morte de Jay Gatsby em West Egg, Long Island. Uma metamorfose reveladora da significação profunda deste romance.

   Nesta viagem pela sociedade americana dos Anos Vinte, Nick Carraway cruza-se com Tom e Daisy Buchanan e Jordan Baker (os do ‘old money’), com Myrtle e George Wilson (os do ‘no money’), com Meyer Wolfshiem (o do ‘ilegal money’), com Jay Gatsby (o do ‘new money’) e, a partir dessa reveladora experiência, conclui, dirigindo-se a Gatsby:

   «São uma escumalha. Você vale mais do que eles todos juntos.»

   Esta é a sentença final sobre a «grandeza» de Jay Gatsby. Desde o título, mais oblíqua ou mais retamente, ela é enunciada e, ao longo da história, vai sempre repercutindo, em eco, nesse «great» que lhe acompanha o nome.

   Sobre que intensidade semântica se equilibra o significado da grandeza do ‘great’ Gatsby?

   — A da ironia do esplendor de vida, que o carácter clandestino e sombrio da origem do seu poder económico desqualifica?

   — A do enraizamento na profunda obsessão passional, no sonho de que nunca desiste?

   — A da incomensurável generosidade destituída pela ingratidão de um amoral abandono?

   — A da terrível enormidade do desmoronamento no vazio da deceção, da dor da traição?

   A grandeza de Gatsby tem a complexidade do chiaroscuro própria da humanidade profunda de um grande retrato que, neste caso, não é apenas individual, mas capta uma fatia temporal da História americana, de um tempo que foi também o de Scott Fitzgerald.

     Durante os quarenta e quatros anos da sua vida, entre 1896 e 1940, a inscrição de Scott Fitzgerald na agitação da Jazz Age, dos Anos 20, da Geração Perdida, é perfeita e, neste seu romance, tal época está tão bem representada, que conhecê-la será uma chave essencial para aprofundar a leitura.

   Foi um tempo em que a luta pelo crescimento da prosperidade andou de mãos dadas com a corrupção. A Primeira Grande Guerra terminara. O desejo de refazer a vida como lugar de negócios lucrativos reativava-se aceleradamente, mas embatia em administrações corruptas, na porosidade viciosa entre sindicatos e crime organizado, na afetação por greves e disputas laborais, na miséria do trabalho infantil, em opções fiscais beneficiadoras dos mais ricos. Crises na agricultura e indústrias locais impulsionavam a fuga das populações para as grandes cidades em crescimento acelerado. As grandes cidades eram símbolo de um ideal de vida melhor, mas tornavam-se armadilha dos sonhos dos desprovidos que as procuravam. Elas eram, sim, o reino dos grandes ganhos financeiros das elites económicas. Os dividendos da Bolsa cresciam exponencialmente. O desenvolvimento tecnológico baixava os custos da produção e fazia crescer a produtividade. Os ricos enriqueciam, viviam em excesso e não sabiam conter os seus apetites. Num progressivo materialismo, cresciam os gastos em bens de consumo: automóveis, rádios, telefones, frigoríficos... em quantidades até aí nunca vistas. Tempo e dinheiro eram gastos em lazer e divertimentos. Crescia a popularidade dos desportos profissionais, do cinema, dos jornais tabloides. As elites económicas e financeiras desprezavam os outsiders, os imigrantes. A emigração para os Estados Unidos da América atingiu, entre junho de 1920 e junho de 1921, o número de 800.000. Começavam a surgir leis restritivas da imigração. Era o tempo da aprovação da 18ª Emenda, a do proibicionismo do fabrico, venda e transporte de bebidas alcoólicas. O negócio ilegal do álcool florescia e tornava-se enormemente lucrativo, ajudando a fazer as grandes fortunas dos novos ricos, o chamado ‘new money’. Os jovens mudavam os seus sonhos e o seu estilo de vida. Os homens regressavam da guerra mudados e encontravam uma América mudada. As mulheres que, durante a guerra, passaram a fazer parte da força de trabalho, queriam manter a liberdade pessoal e social que essa independência económica lhes conferira. A 19ª Emenda dava à mulher o direito de voto. Marca simbólica da emancipação feminina foi o corte do cabelo, esse que tradicionalmente fora indicador de feminilidade. As mulheres reinventavam o seu estilo de vestuário, fumavam e bebiam abertamente, relaxavam a formalidade das suas atitudes para com o sexo, quebravam os moldes em que tradicionalmente os códigos sociais as colocaram.

   Nestes Anos Vinte, a condição humana deixava-se infiltrar pela necessidade da corrida rumo ao prazer, à satisfação de sonhos e desejos. Corrida cega, fechada à consciência do outro, imersa na competição egoísta, menosprezadora de quem lhe não fosse afim pelo dinheiro e pela condição social.

     Nada difícil é reconhecer que é este o ovo — político, económico, social, existencial — em que se concebem as personagens e a história deste romance de Scott Fitzgerald. É este o ninho em que tudo germina: a brutalidade, a mentira e o egoísmo de Tom Buchanan; a fria desonestidade de Jordan Baker; a fraqueza materialista de Daisy; o viscoso empreendedorismo de Meyer Wolfshiem; a tosca ambição de Myrtle; a frouxa inocência de George Wilson; o sonho excessivo e trágico de Gatsby. Ovo em que, aliás, germinou também a vida do próprio autor.

     Scott Fitzgerald, com a sua mulher Zelda, viveu uma vida tão romanescamente excessiva como a das suas personagens. Zelda é uma típica flapper, independente, rebelde, esteta, boémia, glamorosa, assertiva, decadente: um emblema da mulher livre dos Anos Vinte. Ela e Scott Fitzgerald viveram um estilo de vida extravagante, estonteantemente acima das suas possibilidades financeiras, em viagens, festas, excessos. A vida de Zelda e Fitzgerald em França, no seio de uma comunidade de artistas expatriados (Hemingway, Picasso, Léger, Stravinsky, Cole Porter, etc.) inspira numerosas biografias, romances, filmes, séries de TV (cf. Meia Noite em Paris de Woody Allen).

   O Grande Gatsby capta o espírito desta época, especialmente a vacuidade moral da sociedade americana do pós-guerra, obcecada pelo dinheiro como via de ascensão social. As suas personagens têm uma verdade historicamente honesta, projetada pelo olhar de Nick Carraway, um jovem, em alguma medida pertencente ao ‘old money’, que procura sustentação financeira como vendedor de obrigações em Manhatan e fixa a sua curiosidade nas manifestações de incomensurável e misteriosa riqueza de um selfmade man e na chusma de convivas que loucamente invadem a desproporção das suas festas, sem qualquer vínculo pessoal com o anfitrião.

   Numa prosa imagética e poética, traça-se o espelho de uma sociedade, estilhaçado por linhas de fractura sentimental que nunca deixam de ter uma clara significação social e moral: entre Daisy/Tom/Gatsby; Tom/Myrtle/George Wilson; Nick/Jordan; Nick/Gatsby.

   Temas como a justiça, o poder, a ganância, a traição, o sonho americano, a estratificação social, são polarizados pelo ponto de vista crítico do narrador, enformado por um vincado sentido de honra, denunciador da superficialidade, do materialismo, da ausência de compaixão.

   Para os ingénuos, os sentimentais, os ambiciosos de inexperiente e baixo quilate, enredados numa teia social desprovida de sentimentos altruístas, sobra apenas a morte: a de Myrtle, a de George... a de Gatsby, o tal que era ‘Great’ no título, e termina GREAT apenas na consciência de Nick e no amor do pai.

E na consciência dos leitores?

    

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Maria Almira Soares às 18:06


3 comentários

De Anónimo a 07.01.2019 às 15:05

Subscrevo esta opinião anónima, que é também a minha.

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