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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Quinta-feira, 23.05.19

UMA COMUNIDADE DE LEITORES EM PLENA SELVA

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     «quando a escuridão se apossou da floresta», «O seu companheiro de vigia, perplexo, via-o percorrer com a lupa os sinais arrumados no livro». «ergueu os olhos» e «Estava rodeado de três homens»; «entregou-se então a uma explicação, à sua maneira, dos termos desconhecidos» e assim se passou «um par de horas de troca de opiniões», enquanto «A explicação do gordo complicava as coisas».

   Estava constituída uma comunidade de leitores. De modo natural. Em plena selva.

   Neste romance, Luís Sepúlveda não nos faz sentir apenas os princípios e comportamentos de uma honesta ecologia preservadora e respeitadora da floresta amazónica; abre-nos, também, os olhos para uma honesta ecologia da leitura. E, ao lê-lo, não sei se me apetece mais seguir os trilhos naturais, se os trilhos intelectuais que definem uma vida sustentável. O romance de Sepúlveda desafia-me a redescobrir e confirmar evidências desmistificadoras de tanto lugar-comum pouco pensado e amplamente propagado sobre LEITURA.

   Sigamos os trilhos da leitura:

   O primeiro trilho é o da solidão.

   Ler começa por ser um ato solitário. Exige o gosto da solidão preenchida de imaginário. Que tipo de solidão? Não, a da rejeição e do abandono, do desespero e da incapacidade. Não, uma solidão negativa, mas aquela que é consciente do seu valor como reserva de humanidade e liberdade. O Velho sabe preservar a sua solidão, necessita dela, sabe fruí-la. Nela, planta a leitura como passo para a generosidade de companhias tranquilas. A leitura distancia-o dos gestos imediatos e violentos, dos planos de posse e de conquista, do engano, da morte.

   O segundo trilho é o do puro deleite.

   A permanência num imaginário “bosco deleitoso” fora do tempo, como no ancestral texto medieval. O extraordinário sonho de navegar por Veneza e os seus canais e as suas gôndolas em plena selva amazónica e seus rios e suas canoas. O deleite da descoberta pela diferença e não pela identificação imediata.

   O terceiro trilho não é certamente o da facilidade.

   A leitura, por mais que andem por aí a facilitá-la, nunca será uma coisa imediatamente fácil. Os livros, é preciso ir à procura deles, é preciso ir buscá-los, pedi-los, encontrá-los, dar por eles alguma coisa em troca. E, para isso, é preciso vontade. Sem vontade, sem desejo, por mais que nos entupam o cenário com livros, não há leitor, não há leitura. A natureza é analfabeta. O ser humano nasce e algum tempo cresce analfabeto e não é enxertando artificialmente livros na selva primeva dos gestos humanos naturais que esses gestos se tornam os de querer ler. Na selva não nascem livros, mas pode nascer a vontade de os ir buscar. De os encontrar. Nos sítios mais improváveis. Os livros são objetos nómadas. Como canta Caetano Veloso, “os livros são objectos transcendentes/Mas podemos amá-los do amor táctil/Que votamos aos maços de cigarro”.

   O quarto trilho é o da procura.

   O gosto da procura é essencial para que haja leitor. É este trilho que leva à descoberta e ao encontro.

   O quinto trilho é o da escolha.

   Não, o do convencimento ou da persuasão, mas o da escolha.

   Neste trilho da escolha, o Velho do romance de Sepúlveda escolhe os romances de amor. E sabe porquê. Escolhe os romances que, percorrendo o sofrimento, acabam em felicidade. E sabe lê-los. Sabe qual é a sua promessa. Por isso, a sua escolha é sábia. O Velho sabe que a leitura de um romance não se abre instantaneamente, mas é uma promessa demorada. Lê-los é saber prosseguir o trilho da demora das revelações, da espera, das hipóteses, dos indícios. Um trilho de sabedoria que não desiste, que não julga nas primeiras linhas, que não desmultiplica os primeiros folheios em paisagem monotonamente igual, mas sabe emboscar o texto até que, nas suas curvas mais enigmáticas, a paisagem da história se desvende.

   O último trilho é o da cumplicidade.

   Espontânea ou cultivada. Essencial ou circunstancial. Empática ou oportunista.

A cumplicidade que faz nascer uma comunidade de leitores em plena selva.

     Que todo o movimento para a leitura parta do leitor “a haver”!

     E como se plantam leitores a haver?

     Seguindo a arte poética de Pessoa, respondamos:

     — Do mesmo modo que o velho rei D. Dinis foi o “plantador de naus” que ainda não havia. Respeitando a “noite” da ainda-não-leitura, estimulando a acuidade para ouvir o “silêncio múrmuro”, cuidando de uma ecologia intelectual e sensitiva que leve o “arroio”, o “cantar jovem e puro” a encontrar o “oceano sempre por achar”.

 

   Perante um punhado de ideias feitas sobre a leitura, este romance é uma interrogação ou uma graça ou um espinho. Abre-nos um ambiente totalmente desprovido de factores de identificação e motivação intelectual, um quadro de ações e reações imbuídas de imediatismo, violentas, bárbaras, sem mediação intelectual senão a mínima, residual, que acompanha a satisfação de gulas e medos vários, próprios do humano e do seu instinto de sobrevivência, em que o uso da palavra escrita é apenas ardilosa e abusiva burocracia e, no entanto...

   E, no entanto, aí, a leitura move-se.

   Talvez, como diz Steiner, a frequentação das Humanidades não nos salve da Barbárie, mas garante-nos uma suprema e necessária inteligência do mundo e dos homens.

   Eis a ecologia intelectual do romance de Sepúlveda: ali, na selva, o amor não estava senão pelo livro.

   Ecologicamente, Luís Sepúlveda instala o amor mediado pela leitura nos trilhos violentos e analfabetos da selva.

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por Maria Almira Soares às 14:33


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