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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Quinta-feira, 09.10.14

VERGÍLIO FERREIRA

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«Não, não gosto mesmo de dar aulas.»

 

         A denegação do gosto de ser professor [«Não, não gosto mesmo de dar aulas.»[1]] constitui uma afirmação nuclear, chave para aceder à identidade docente construída e assumida por Vergílio Ferreira. Recusa-se insistentemente — e mesmo contra algumas tentativas de evidência testemunhal do contrário — a assumir o lugar daqueles, cuja posição crítica sobre condições materiais do exercício da profissão não destrói o gosto como único traço de união feliz com a docência, ainda que dificultado por ambiente adverso.

       Vergílio Ferreira não se identifica com os que, apesar de tudo, gostam de ser professores e, só por isso, o são. Para estes, é, esse gosto, a tábua de salvação do naufrágio profissional, a pedra filosofal sobre que se constroem. Pelo contrário, no caso de Vergílio Ferreira, é graças à necessidade de preencher o vazio do não-gosto, que reflexiva e conscientemente se constrói como professor. Vergílio Ferreira vê, na inexistência de uma conjugação natural com uma profissão não procurada a partir de si, mas induzida por circunstâncias de vária ordem, a oportunidade de construir a sua persona professoral, desligada de qualquer adesão afectiva e muito determinada pelas suas convicções ideológicas, existenciais, estéticas. Não gosta de ser professor; torna-se professor como parte de um processo de paulatina inculcação da tendência escolarizadora da sua vida. Ser professor apresenta-se-lhe como conveniente ocupação do lugar, em si disponível, para uma profissão. Não nasceu professor, aceitou-se e construiu-se professor. E talvez o tenha feito com tal perfeição que chegou até a fazer-se perceptível como um professor que gosta de ser professor. Daí a necessidade de constantemente lembrar que «não, não gosta mesmo». Esta denegação do gosto é fulcral, porque fundadora do vazio sobre o qual se constroem todas as opções identitárias do professor Vergílio Ferreira.

 

 

[1] In Conta-Corrente 1, 21 de Maio, 1969.

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por Maria Almira Soares às 18:36


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