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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Segunda-feira, 14.09.15

VERGÍLIO FERREIRA

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 [...]

      Neste processo conflitual detectável nos escritos dos cadernos do seminário, toma parte a eterização dos afectos, o angelismo despromotor de uma afectividade que a autoridade moral seminarística considera demasiado humanizada. Tal não se dá em linha recta; antes apresenta alguns sobressaltos. Por exemplo, sobre a fórmula de despedida de uma carta a «Meu caro irmão», cuja versão original é «deste que muito te ama», é exercida censura através da enérgica sobreposição, por mão alheia, de uma série de riscos a lápis. Noutra carta, porém, endereçada a «Meu caro amigo», sobrevive a memória de uma afectividade gerada a montante, num tempo em que a infância ainda não era cadáver: «Não me esquecerei jamais de quando nós éramos pequenos e muito amigos um do outro, e gostávamos de ir os dois para a escola.»

      É, porém, numa carta datada de 27/5/1927, endereçada ao irmão, que este processo de seminarização do eu, se apresenta como tendo atingido um ponto crítico favorável à criança seminarizada em detrimento da criança natural. Nessa carta, que a seguir leremos, há elementos bem reveladores de que assim é: a aceitação a priori da autoridade moral, o uso de uma retórica feita de imagética mística, a argumentação de índole religiosa, os tiques, formulários, fraseados discursivos. A carta é esta:

«Meu querido irmão:

   Com muita dor te escrevo esta cartinha, por saber que tu te portas mal no liceu. Esse desgosto foi como que uma lança que me atravessou o coração. Os nossos queridos pais são capazes de dar a vida por ti, e tu lhes pagas com tamanha ingratidão. Vai à Missa todos os domingos e dias santos, porque se lá não vais cometes um pecado mortal e lembra-te de que se não te confessares vais para o inferno e tu não queres para lá ir com certeza. Como deves saber a nossa família tem um nome ilustre por todas estas terras daqui perto; e tu agora vê lá se o queres deslustrar não estudando, não te portando bem, enfim não fazeres por cumprir os teus deveres. Eu até me envergonho de ter assim um irmão, e tu estás arriscado de nos dares no fim do ano o desgosto de ficares reprovado. E sem tempo para mais recebe um abraço dêste teu irmão que muito te ama, sendo bom.

         VERGÍLIO A. F. O., Fundão, 27/5/927»[1]

 

        A análise do conteúdo e da forma desta carta revela indicadores claros do profundo ascendente do senso e dos valores do seminário sobre o eu que a enuncia: a atitude mandamentícia, apologética e dogmática, de soldado de Deus e, enquanto tal, mensageiro de verdades válidas em si mesmas («vai à Missa»; «cometes um pecado mortal»; «vais para o inferno»); a defesa da moralidade pública, filha do medo do escândalo e do respeito humano, mandatada pelo bom nome da família [«vê lá se o queres deslustrar»]; a defesa da disciplina, enquanto aceitação de preceitos, cumprimento de obrigações, obediência, identificada e nomeada como bondade [«cumprir os teus deveres»; «sendo bom»]; o uso da estratégia moral do medo, da vergonha, da ameaça [«até me envergonho de ter assim um irmão»; «de nos dares no fim do ano o desgosto»].

        Por outro lado, é também muito significativo o uso de recursos verbais determinados pela adesão ao barroquismo como expressão do sublime, à palavra exagerada como expressão do sagrado: a imagética do espectáculo da dor, do sacrifício, do sofrimento [«com muita dor»]; a manifestação do gosto retórico pelo brilho, pelo dramatismo, pela teatralização dos sentimentos [«deslustrar», «como que uma lança que me atravessa o coração»]; a enfatização, a sobrecarga palavrosa, como tradução de valor [«por todas estas terras aqui perto»; «de dar a vida por ti»; «tamanha ingratidão»; «e tu agora vê lá»].

     Enfim, o vocabulário martirial e adocicado, cognato dos seminaristas «seráficos» e «melados»[2] e das «frases cheias de curvas»[3] dos modelos de autoridade em Manhã Submersa, os clichés da vitimização, ao serviço do comércio dos sentimentos [«cartinha»; «nome ilustre»; «desgosto»; «dor»; «dar a vida por»/«lhes pagas com»], coroam um conjunto de indicadores que dão a esta carta, escrita por uma criança de onze anos a um irmão, o artificialismo e a pungência do avesso do natural. Esta carta revela um eu em estado adiantado de modelação seminarística.

     Outros escritos, presentes neste conjunto documental constituído pelos cadernos do seminário, manifestam, de modo dominante, um código verbal de subserviência, de genuflexão, de vénia e benzedura, presente em fórmulas, diminutivos, adjectivação [«servo muito humilde de V. Rv.ª»; «portinha do sacrário»; «chorar a perda de um tão bom pai de almas»][4]. É possível, no entanto, neles detectar, em passagens como: «houve um lindo teatro»; «O Sr. José Caitano dos Reis perdeu uma burra.»; «A flor que eu mais prefiro é a rosa.»[5], a sobrevivência e permanência de alguma sentimentalidade e infantilidade naturais do mundo exterior e anterior ao seminário.

   Estes são documentos cuja análise responde à ideia de que a selecção de uma atitude comportamental conveniente a um modo escolar de estar na vida teve as suas profundas raízes nessas primevas condições de escolarização de um menino que assinava Vergílio António de Oliveira Ferreira.

 

 

[1] In Espólio de V. F. (Biblioteca Nacional).

[2] In Manhã Submersa, pág. 166.

[3] In Manhã Submersa, pág. 43.

[4] In Espólio de V. F. (Biblioteca Nacional).

[5] In Espólio de V. F. (Biblioteca Nacional).

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por Maria Almira Soares às 13:19


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