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scriptorium

"Tal como surgiu diante dos meus olhos, a esta hora meridiana, fez-me a impressão de uma alegre oficina da sabedoria." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)



Domingo, 11.05.14

VIAGEM A PORTUGAL

A COMUNIDADE DE LEITORES LERDOCELER, REÚNE-SE NO DIA 15 PARA FALAR DE

 

 

Se fosse um poema, era o contrário d’Os Lusíadas: um poema da descoberta da terra. Lê-lo — nesta era de fuga do interior do país, nesta era da presumida superioridade do litoral, nesta era de mapas feitos de mar — é um caminho para a consciência da terra que somos. Somos terra. Num ciclo de leituras sobre Portugal, que é atualmente o da LERDOCELER, este é o livro que nos lembra de que, para lá de todo o resto ou com todo o resto, somos a terra sobre a qual pomos os pés e da qual andamos sempre a querer fugir.

A Portugal — não em, não por — é a viagem cuja preposição marca, desde o título, o sentido do movimento: a partir de afastamento, à procura de um encontro. E muito encontramos. Dentre esse muito, talvez o motivo mais constante seja o da chave, o da questão importante de encontrarmos ou não encontrarmos a chave. Sem chave não se entra. Sem saber onde está a chave, sem ir à procura da chave, sem que o guardador ou a guardadora da chave a faculte, sem que a chave encontre a porta e a abra, não entraremos e não conheceremos, coisa que acontece muitíssimas vezes. Este motivo da chave — só pela sua frequência e sem qualquer esforço explícito do autor nesse sentido — torna-se alegórico de um país fechado, escondido, subtraído, secreto, de um país por abrir. É a metáfora da ignorância de que o valor só se revela partilhando. A terra também é isto: o olhar que a gente tem sobre ela, o lugar de nós em que a guardamos, o como, aos outros, a abrimos.

O Viajante, uma espécie de Vasco da Gama ao contrário que anda a descobrir a terra numa caravela disfarçada de automóvel, é o seu mapa mental, cultural, sensitivo. A viagem é o viajante: desenhado a traços de bonomia e exigência, de olhar agudo, opinioso e contemplativo, cumpridor registo de pormenores, inventivo e recriador, humano, às vezes poeta.

O Viajante foi a Portugal, trouxe de lá a terra e soube escrevê-la. A escrita rola, desdobra-se leitura abaixo com a presteza do Viajante a ir de serra em vale, de rio em charneca.  É uma escrita sem acidentes, sem solavancos, de palavras bem rodadas por experiente conhecedor do seu poder e da sua resistência. Linguagem plástica, rica, rigorosa, inventiva.

A viagem por esta Viagem a Portugal é um regresso: ao país anterior às autoestradas, riscado pelos ziguezagues caprichosos de um herdeiro de Cesário «que andava na cidade como quem anda no campo» ou de um Caeiro que tinha «o costume de andar pelas estradas», um viajante que vai apascentando o rebanho dos seus pensamentos. Sem pressa.

Dizem-nos que somos férteis em transformar viagens em literatura e falam-nos da Peregrinação, da História Trágico-Marítima, de Wenceslau de Moraes, de Camilo Pessanha, de Camões... Mas ter a ousadia de quase quatrocentas páginas de viagem sem sair do berço, nem Garrett, o claro patrono, que só foi até Santarém e, breve, se perdeu noutra ordem de caminhos, os da novela romântica! A viagem é sempre um risco e esta também os tem: os da repetição, da monotonia, do adormecimento... Aqui, os mostrengos não são dos que fazem tremer. Mas que quereis? É este o país: um país incubado no desleixo, na inércia, na indiferença, velado por belezas irreveladas cuja História e Geografia – e há aqui muita História e Geografia – progressivamente se apagam da mesa do que interessa...

De vez em quando, é bom que nos vejamos ao espelho, e talvez que um bom espelho de um país seja a sua terra, as suas terras, os seus topónimos, os seus monumentos, as pedras arruinadas de antigos domínios nobiliárquicos e eclesiásticos, o seu calor e o seu frio, a sua chuva, os caminhos, maus e bons, por onde andou e anda.

Como diz o Viajante, a viagem não acaba nunca e, por este livro acima, por este país que ele nos conta abaixo, vemos raízes, vemos sementes, vemos origens, modos, atitudes, diferenças, constantes, tonalidades, vemos a pedra e a água, os muros e as árvores, vemos causas e consequências: paisagem que também somos.

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por Maria Almira Soares às 22:12


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